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7 de ago. de 2015

Mãe da Lua

Conto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Daniel Gonçalves


Somos os únicos habitantes desta casa decrépita. Eu e meus filhos. Eles bicam meus seios, e sorvem os filetes de sangue, apenas o suficiente para lhes dar força para voar. Abro a janela por força do hábito, pois o telhado destruído inunda o sótão com a luz da lua cheia. Deixo que voem na noite, que visitem os dormentes em seus leitos, devorem seus sonhos, e me tragam despedaçados anseios, cacos de segredos, medos esmagados, para que eu também sacie minha fome...

11 de jun. de 2015

Casa Velha

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: Raro de Oliveira


O acesso ao sótão ficava no quarto, onde eu dormia, quando passava o fim de semana na casa dos meus avós.
Eu deitava, cobria minha cabeça com o cobertor e tentava dormir antes de ouvir os passos descendo a escada. Raramente eu conseguia. A luz do abajur projetava na cama a sombra de alguém caminhando. Nunca tive coragem de espiar quem era aquele que vinha do sótão e saía pela janela.
Na última vez que dormi na casa velha, eu havia acabado de deitar quando minha avó entreabriu a porta do quarto, chamou-me e fez uma pergunta qualquer. Ao respondê-la, percebi que havia alguém atrás da porta, que se fechou antes que eu pudesse me esconder sob as cobertas. Fiquei sentado na cama, olhando fixamente para o vulto:
– Vóóóó! – gritei no auge da agonia.
O vulto aproximou-se:
– O que foi meu querido? Deite-se, você precisa dormir – parecia ela, porém sem os olhos. 




3 de jun. de 2015

Cecília

Conto: Rafael Pesce
Ilustração: Daniel Gonçalves




Pela pequena janela circular o sol adentrava naquele sótão. Minúsculas partículas de poeira trafegavam pela luz, como se estivessem sendo abduzidas para o mundo exterior. Uma cama, desnuda de lençóis e sem o ranger das precárias estruturas de ferro, estava localizada logo na entrada. Um pônei de madeira jazia, imóvel, no outro lado, sem ter mais com quem brincar. A caixa de música, que costumeiramente enchia o ambiente de alegria, trancava-se em solidão. As roupas, antes banhadas pela claridade e pelo vento, estavam esquecidas em um velho armário. Os brinquedos, jogados de forma aleatória, tornavam o chão irregular. Mas no centro de tudo estava ela, Cecília, abandonada pela vida e pela sanidade do pai, que a deixou na escuridão daquele baú.


 


26 de jun. de 2014

Meio-sangue

Conto: Ivan Anzuategui
Ilustração: Daniel Gonçalves


As primeiras pedradas vieram numa noite de lua cheia.
Na janela da cozinha. O vidro estilhaçou e algo rolou lá dentro pelo chão de tábuas. Depois, o silêncio.
“– Papai? Papai, você chegou?" Despertei muito zonzo com o barulho. Imaginei que sonhava.
“– Vem pra minha cama”, disse mamãe, quase sussurrando. Havia tremor e receio na voz dela. Cobriu-me até a cabeça e me envolveu nos seus braços. A segunda pedrada, essa ouvi com clareza. Estourou na porta da frente, e algo rolou pela varanda. Mamãe tremia febril.
De manhãzinha havia uma corriola de vizinhos no portão de ripas, quando papai chegou do turno da fábrica. “– Essas pedras não existem por aqui. Negras. Parece que vêm do Inferno.” Atrás de respostas, as pessoas arrodearam por ali, na capoeira, no matinho em volta, no charco do ribeirão.
Papai tinha folga da fábrica, na outra noite, e se armou. A mesma espingarda velha que usava para matar gatos. Uma pedrada caiu sobre o telhado e a pedra rolou até despencar na calçadinha dos fundos. Papai abriu uma fresta, mas nada viu. Foi quando ouviu o baque na tela do viveiro. O bater de asas da passarinhada apavorada foi o que bastou. Escancarou a veneziana e disparou duas vezes na direção do mato.
A resposta foi um... “veeeenha, veeeenha!" Rouco, surdo, fantasmagórico.
O viveiro caído, com a tela arrebentada. Curiós, patativas e coleirinhas se perdendo pelo quintal enluarado.
Mais pedras negras, com cheiro de enxofre. Reunião de vizinhos, rezas e os comentários, na venda, sobre a casa assombrada. Nas noites seguintes, nada mais.
Foi passando o ano, veio a quaresma seguinte e o assunto morreu.

Nos turnos de papai, na fábrica, era eu o escalado, como de costume, para levar a marmita.
“– Pai, achei bosta de cabrito na varanda. O bicho mijou, também. Tá um fedor de enxofre de não aguentar.” O velho virou a cabeça e torceu a boca. Depois de um longo silêncio“– Deixe. Vá pra casa”.
Saiu do trabalho mais cedo e viu mamãe lavando a cozinha. “- Entrou bode, meu bem. Cagou por toda parte e deixou essa fedentina.” Ele silenciou. Foi até a despensa, tirou do armário a arma e uma caixa de balas. “– Que venha!”
Não veio, naquela noite, e na seguinte era escala na fábrica. Meu pai pegou o farnel e se foi.
Mamãe me chamou pra ficar na cama, fazer-lhe companhia. Deu corda no despertador, que brilhava os números no escuro. Agarrou-se em mim e envolveu minha cabeça com os braços.
Meia-noite, começa espatifar a louça da cristaleira.
E o tropel. Alguma criatura muito forte e louca galopava pelas paredes e pelo teto da cozinha. Dava chifradas no armário e destruía as porcelanas, quebrava os vidros de compota, rasgava as toalhas. O cheiro de enxofre entrava pela fresta debaixo da porta.
“– Venha nua e descalça” estava escrito com tinta de sangue no chão da varanda.
Naquela noite, mamãe sumiu, enquanto papai e a vila inteira rezavam na capela. Ainda febril, na cama, tinha visto mamãe se despir, soltar os cabelos e me sorrir docemente. Pôs um beijo nos dedos e tocou meu rosto. Uma sombra, na varanda esperava por ela.

Meus 17 anos vieram com a surpresa do Exército. Convocado que fui, meu pai caprichou na arrumação da mala e me deu um forte abraço, na estação. “– Vai ser homem na vida, piá. Quartel é pra homem. Senta praça. Faz um curso. Vira cabo. Só volte pra cá quando tiver nos braços a divisa de sargento. Isso, aqui, é um atraso. Pura superstição, um povo de merda.”
O trem apitou e Ponta Grossa apareceu na curva.
De malinha em punho, cruzei a plataforma, passei o salão e me dei de cara com a praça, em frente.
Lá estava ele. O circo. A lona amarela, vermelha e azul. A mala me caiu da mão e esqueci dela. Vou caminhando como máquina e passo o portão do circo. Cruzo por debaixo da lona. Começo a andar por entre os trailers, as jaulas, os artistas exercitando a sua arte.
Mamãe costurava uma peça de roupa, sentada junto a um caminhão.
Seus olhos umedeceram quando me viu. “– Como?”.
“– Sempre soube. As pedradas começaram quando o circo chegou. O bode apareceu na segunda vinda do circo.” Abracei minha mãe e caí em prantos."
A menininha foi se aproximando devagar. “- Tua irmãzinha. Nasceu nesta van.”
Olhei para aquela criatura estranha, que cheirava a cabrita. “- Como é o teu nome?"
Ela deu dois saltos, pra lá e pra cá:
“– Bééééééééé!"

Ivan Anzuategui
facebook.com/zuateg

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA,  escreve e desenvolve ilustrações para esses periódicos, além de ter participado de outros projetos, como as revistas Fascículo, Arte & Letra e Jandique.  Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design.

facebook.com/danielgoncalvesarte

11 de jun. de 2014

O filho do caseiro

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: André Ducci



Petrônio era o filho do caseiro da chácara dos Aguilar, um casal de idosos que praticamente ignorava a existência do menino. A verdade é que poucas pessoas se relacionavam com o garoto recluso e ensimesmado que, apesar de toda aparência, não era nenhum anjo. Petrônio tinha suas bizarrices, por exemplo, o seu mais obsessivo hobby, o cemitério em miniatura que estava construindo. Em um canto pouco explorado da propriedade dos Aguilar, para cada pequena lápide que ele entalhava em madeira, havia um animal sepultado.

Começou enterrando insetos, tais como: baratas, besouros e grilos, até o dia em que achou um rato morto e providenciou seu funeral. Durante algum tempo se satisfez com a simples coleta de cadáveres, todavia, impaciente para expandir sua necrópole, passou a cometer pequenas atrocidades. A primeira vítima foi o canário dos Aguilar, vulnerável em sua gaiola.  Depois alguns gatos que visitavam inadvertidamente a chácara. Também armou arapucas com as quais capturava ratos, sapos, lagartos e qualquer pequeno animal que por desventura cruzasse seu caminho. O cemitério de Petrônio era o seu orgulho e agora havia se expandido por um bom trecho, até as proximidades do pomar.

Certo dia, voltando da escola, Petrônio avistou uma ambulância em frente à chácara. Aproximou-se cauteloso e, antes de passar pelo portão, observou que era a sua mãe quem recebia o atendimento. O garoto correu casa adentro e trancou-se no quarto, de onde pode ouvir as sirenes dos carros de polícia se aproximando.

Minutos antes, a mãe de Petrônio estava coletando laranjas no pomar, quando percebeu um odor forte de putrefação. Ela, uma senhora religiosa e cheia de superstições, ficou transtornada ao deparar-se com centenas de pequenas cruzes e lápides de madeira. Impulsivamente, ela pegou o rastelo e começou a revirar todo o terreno na intenção de desmanchar aquele cenário grotesco. Revolver a terra daquela maneira fez com que o cheiro nauseabundo se alastrasse absurdamente potencializado, mas isso não foi o pior. O rastelo enroscou em algo e, quando a mãe de Petrônio fez força para livrar a ferramenta, acabou fisgando um sapato. Era o sapato que o senhor Aguilar calçava na noite em que desapareceu misteriosamente.

A visão do pé necrosado emergindo da terra, somada à náusea causada pelo cheiro forte, fizeram com que a mulher desmaiasse. Ela foi encontrada pela senhora Aguilar e o restante dos acontecimentos pode ser deduzido. Agora, Petrônio apenas desenha suas lápides, pois é tudo que lhe permitem no sanatório.



André Ducci
andreducci.art.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA,  escreve e desenvolve ilustrações para esses periódicos, além de ter participado de outros projetos, como as revistas Fascículo, Arte & Letra e Jandique.  Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design.

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22 de out. de 2012

Eu, o filho

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: Dea Lellis

Meu mundo era um salão sem janelas onde ficavam as camas, os armários, a TV e a cozinha. O sanitário, contíguo a esse ambiente, era ventilado por um exaustor embutido no forro. Eu nunca havia visto o céu, nem uma árvore, nem pisado na grama; nada disso. Distraía-me com os livros e DVDs trazidos esporadicamente por meu pai. Eu costumava questioná-lo insistentemente sobre o mundo exterior, contudo, sua resposta limitava-se a encerrar o assunto. Invariavelmente afirmava algo do gênero:

- Não se deixe levar pelo que você lê e assiste, são visões idealizadas, românticas.  Não há lugar para a inocência nesse mundo, não há lugar para fragilidades.

Nos lábios de meu pai a palavra fragilidade tinha a conotação da maior das virtudes. Todavia, eu já estava livre dos pontos e ataduras, não dependia mais de soro e minha coordenação motora evoluíra satisfatoriamente. Os argumentos de meu pai sucumbiam à minha inquietação e, por mais que eu sinalizasse aceitar suas idéias, secretamente ansiava por escapar daquele recinto.  Os obstáculos consistiam em duas portas, separadas por um corredor escuro.  Ambas permaneciam trancadas o tempo todo, mesmo com meu pai em casa. Finalmente, em um filme de aventura, descobri um modo simples e efetivo de fugir: remover o pino das dobradiças. Aguardei que meu pai saísse para trabalhar. O primeiro contato com a luz foi doloroso, protegi meu rosto com as mãos até as pupilas se adaptarem.  Observei minha casa pelo lado de fora e percebi que outrora ela possuía janelas, haviam sido vedadas apenas por dentro. Um longo caminho de pedriscos conduzia até um portão de madeira, mas antes de alcançá-lo, fui atraído pelo gramado em frente a casa. Enquanto meus pés descalços acariciavam o verde, dezenas de ninfas saltitavam; uma onda de minúsculos insetos. Essa distração que me fez ignorar a aproximação sorrateira de um cão. Esquivei-me por sorte da primeira investida do animal e tentei escapar correndo para a grade coberta de hera. Escalei uma mureta próxima ao portão, mas o cachorro alcançou-me e mordeu meu calcanhar com toda sua voracidade.  Desesperado, arremessei-me por cima da cerca e caí na calçada de pedra. Meu corpo foi perfurado pelas lanças do gradil, meu pijama estava em trapos, meu corpo coberto de sangue.

A rua estava deserta, dei alguns passos e recostei-me em uma árvore em busca de alento. Ali, no gramado entre o gradil de minha casa e o meio-fio da rua, eu adormeci.  Despertei com uma dor aguda em minha fronte e as gargalhadas sádicas das crianças que atiravam pedras em mim, meia dúzia de meninos. Aparentavam pouca idade, dez anos no máximo. Tentei erguer-me do solo, mas recebi uma violenta saraivada de pedras que minou minhas forças. Encolhido e com as mãos sobre a cabeça, recebi chutes, pauladas, pisões em minhas costas.  Um garoto aproximou-se erguendo um paralelepípedo o mais alto que podia – minha última lembrança daquela tarde.

Meu pai diz que foi sorte ele ter chegado enquanto eu ainda respirava. Os agressores não estavam mais ali, apenas meu corpo destruído. Ele disse que me fará dormir profundamente. Pode demorar a conseguir novas partes, por isso precisarei dos aparelhos para sobreviver. Ele lamenta que eu não o tenha escutado, muito provavelmente herdarei sequelas de minha transgressão.  Minha aparência deve piorar e pode ser necessário que eu mude de sexo. Não o questiono, nem me revolto. Ele é um bom pai e um bom médico. Ele me ama, ele me fez, ele sabe o que é melhor.

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

Dea Lellis
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/metalpreto 

3 de out. de 2012

Zero!

Conto: Paulo Biscaia Filho
Ilustração: Daniel Gonçalves




1963. Em um certo país na América do Sul, um presidente com afinidades com o socialismo e pressionado entre forças soviéticas e estadunidenses vacilava em que rumo tomar. Seus assessores sugeriram uma aliança com o país do mesmo continente. Ele negou. Ao perceber que forças militares poderiam interromper seu governo, o Presidente decidiu se aproximar dos soviéticos em troca de instalações de maior poderio bélico. Os militares salivaram com o poder que eles receberiam de presente.

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Ela estava com o telefone na mão. Silêncio do outro lado. Sentiu seu coração parar de bater enquanto esperava por uma voz. Sua respiração também falhava. Morrer era inevitável. Se não fosse agora, certamente depois. Minutos depois. Ela sabia disso, mas tinha que falar ao telefone. Uma voz responde do outro lado: ‘Sim, Sra. Presidente?’

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1964. O presidente permaneceu no poder com o apoio dos militares que não compreendiam possíveis diferenças entre extrema esquerda e extrema direita. Vermelho, verde ou azul. O que importava é que eles tivessem poder. Com a instalação estratégica de 265 ogivas nucleares eles possuíam muito mais do que poderiam imaginar.

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‘Almirante, entramos em alerta nível 4’, ela disse depois de engasgar com uma súbita apnéia. ‘Positivo. Aguardo sua ordem de ataque, Sra. Presidente.’. Ela olhou para frente. Debaixo de um quepe, o Ministro das Forças Armadas vacila olhar, mas respira fundo e com um aceno de cabeça confirma. Do outro lado do telefone, a voz do Almirante suspira: ‘Posso ter sua confirmação, Sra. Presidente?’

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1965. O teste da bomba nuclear soviética Chagan é transferido do Campo de Explosões para A Economia Nacional na Sibéria para uma região desértica na América do Sul. Rebatizada de Diamantina, a ogiva é detonada abaixo da superfície, no dia 15 de Janeiro daquele ano. Seu resultado criou uma cratera de 960 metros de diâmetro e 465 de profundidade. A colaboração entre cientistas dos dois países para o teste fortaleceu a capacidade de tecnologia nuclear naquele país sul-americano.

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Ela não estava no cargo por mais de quinze dias e não pode deixar de achar irônico que sua primeira decisão presidencial seria também sua última. O submarino Guararapes estava a milhares de quilômetros dali, mas a voz do Almirante estava clara como se estivesse ao seu lado. Na verdade, ela nunca se sentiu tão perto de alguém falando ao telefone. ‘Almirante, pode receber os códigos de lançamento….’

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1970. O presidente daquele país estranho morre em decorrência de um ataque cardíaco enquanto assistia a final da Copa do Mundo do México. A KGB e o centro de inteligência local suspeitaram de ação da CIA naquele morte. Se foi ou não uma ação de espionagem, a CIA não contava com a vitória daquele país na Copa de futebol. O Tricampeonato ajudou a fortalecer a ideologia comunista do governo. Um novo presidente foi eleito indiretamente, nos mesmos moldes da União Soviética.

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‘Delta - Zulu - Tango - Romeu…’

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1972. Grupos de guerrilha opostos ao regime comunista são capturados e torturados na Base de Investigações do governo, estabelecida em uma grande cidade à beira-mar, cujas praias paradisíacas haviam servido de capital do Império 160 anos antes. Alguns membros das guerrilhas conseguiram escapar e pediram asilo político nos Estados Unidos, onde foram novamente torturados quando a CIA supôs que se tratavam de agentes-duplos.

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‘Golf - Victor - Alfa - India. Confirma, Almirante?’

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1975. É construído o primeiro submarino nuclear da América do Sul. Nos dez anos seguintes, a frota aumenta e ultrapassa duas centenas de embarcações. Cada uma carregava ogivas suficientes para dizimar um continente.

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‘Código de ataque confirmado, Sra. Presidente. Ordem de ataque autorizada para o submarino Guararapes e repassada às demais embarcações posicionadas. Que viva a ordem e progresso de nossa grande pátria, Sra. Presidente!’
‘Viva’, ela respondeu do outro lado segurando seu suspiro e encontrando energias para dar firmeza em sua voz.

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1990. A União Soviética é desfeita e ruma em direção contrária aos ideais Comunistas. A China e aquele país da América do Sul são os únicos a permanecem com o mesmo regime. Apesar de manifestações da população pela criação de eleições diretas, aquele país abafou opiniões contrárias ao regime através do fortalecimento de suas reservas, fruto de uma surpreendente administração rigorosa na agricultura e economia interna. Naturalmente, eram dados maquiados. Havia uma crise econômica crescendo e o país certamente estava caminhando em direção a uma falência completa.

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Ela lembrou de seus primeiros dias na política, décadas antes. Tudo parecia ser mais poético, mais ideológico. Ela era incapaz de encontrar um adjetivo em qualquer língua humana capaz de descrever o que significava aquele momento.
- ‘30 segundos para o lançamento. Vinte e nove… vinte e oito…’

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2002. Na esperança de recuperar as perdas econômicas de duas décadas, o Partido apontou um radical de esquerda como Presidente. As relações comerciais com dos demais países das Américas e Europa foram cortadas em um embargo sem precedentes. A China negou qualquer apoio às decisões daquele Presidente sul-americano e se apresenta neutra. O Presidente segue com determinações que tornam as relações diplomáticas cada vez mais insustentáveis. Diversos focos de corrupção de políticos relacionados com as poucas empresas privadas remanescentes forçaram o Presidente a estatizar de vez toda a indústria e comércio do país. Revoltas da população são oprimidas com ataques do exército. O poderio bélico construído no país ao longo de quatro décadas assegura uma posição de soberba dos militares e de segurança ao Presidente.

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- ‘Oito… sete… seis… cinco… quatro… três… dois… um…’

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2012. O Presidente é assassinado em sua casa por agentes da CIA. Para entrar em seu lugar, foi apontada a primeira mulher como Presidente daquele país. Sua carreira política havia iniciado como torturadora de guerrilhas na Base de Investigações. Desde então foi ganhando respeito dos militares que permaneciam secretamente como fonte de todas as decisões políticas. Assim que assume o poder, dá a ordem imediata de encaminhamento de centenas de submarinos nucleares para a América do Norte.


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Em meio a redemoinhos retorcidos de pensamentos, ela imagina se suas decisões seriam diferentes se a história fosse diferente. Se houvesse eleições diretas, se não houvesse crescimento no poderio bélico, se houvesse ideologia…
Ela percebe naquele momento que a única ideologia que comandava aquele país há cinco décadas era… PODER. E haveria demonstração de poder, mas não sem represálias que certamente dizimariam milhões. ‘Milhões de quem? Quem são esses milhões? Qual a diferença? Eles não tem nenhuma voz mesmo.’, concluiu corretamente.
Alguém na América do Sul disse, há milhares de anos, que 2012 seria o fim. O fim dos tempos, ou o fim de paradigmas, ou o fim de ideologias. O que quer que fosse, o que via depois iria mudar a história de vez. Suas inócuas divagações foram interrompidas pela voz do Almirante gritando:
- ‘Zero!’


Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

3 de jul. de 2012

A Strige de Nitra

Ilustração: Theo Szczepanski
Texto: Daniel Gonçalves








Ahkvra, a deusa flagelo, devastou sistematicamente todos os povoados da região, exceto Nitra que permanecia incólume.  Irna habitava uma choupana nos arredores dessa vila, onde atendia seus clientes, ora como prostituta, ora como feiticeira. A mulher procedia de uma antiga linhagem de cultuadoras dos deuses Ctônicos, sendo detentora de amplo conhecimento sobre as ervas, os elementos e encantamentos de toda sorte. Ninguém sabia, mas era Irna quem mantinha Nitra fora do alcance de Ahkvra.

Quando Ahkvra percebeu que havia sido enganada, lançou-se sobre a feiticeira responsável pela ousadia.
– Irna, bastarda de Pretéia, restituirá pessoalmente os sacrifícios humanos usurpados de mim. Dito isso, transmutou a feiticeira em uma strige, metade mulher, metade ave de rapina.
– Vai agora mesmo e me traga carne tenra e sangue abundante, para saciar minha fúria.

Irna, dominada pelo poder da deusa, passou a raptar seus conterrâneos e entregá-los à morte nas mãos de Ahkvra. Apenas restos de carcaça eram destinados à strige.

Por muito tempo foi assim, até que uma milícia organizada no povoado conseguiu capturar Irna. A strige foi submetida a terríveis torturas e jogada em uma jaula fétida.  Aquelas pessoas desconheciam a verdadeira natureza do monstro; desconheciam a presença de Ahkvra em sua terra. Portanto, desavisados, festejavam a vitória sobre o mal que os assolava.

Ahkvra dilacerou rapidamente a todos que encontrou na comemoração. Os demais habitantes de Nitra foram capturados por demônios que a serviam. Ao final do genocídio, Irna foi libertada do cativeiro e restituída de sua capacidade mental. Ahkvra ainda desejava subtrair da strige, os segredos de sua feitiçaria.

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
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Theo Szczepanski
Suas ideias e referências podem ser visualizadas no tumblr: http://opustheo.com e seu portfolio online em: http://cargocollective.com/opustheo

14 de jun. de 2012

Lorena (o filme)

Baseado no conto de Daniel Gonçalves, inspirado na ilustração de Arthur d´Araujo
Direção e Adaptação: Carol Winter
Direção de Fotografia: Eli Firmeza
Direção de Arte e Maquiagem: Ana Bellenzier
Edição: Carol Winter
Pós: Lilian Döring
Produção: WTF?!filmes
Trilha: Troy Rossilho
Assistência de Produção: Bruna Barboza

Atriz: JANAINA MATTER

Figuração: Felipe Araújo / André "Pé" Dedecek / André Quadros / Felipe Pinheiro / Isabella Bicalho / Danilo Custódio / Vinícius Sgarbe / Victor Hugo


Lorena*
Conto de Daniel Gonçalves inspirado na ilustração de Arthur d'Araújo

Absorta em seu cigarro, Lucia desce a ladeira sem elegância alguma, equilibrando-se sobre as sandálias plataforma. Próximo dali, ecoa a algazarra dos foliões de carnaval. Um carro encosta; carro imponente; e ela vai se debruçando junto à janela da porta traseira. O homem mascarado deposita trezentos Reais no decote da moça e abre-lhe a porta sem delongas. A quantia supera o lucro de uma noite inteira de programas, Lucia embarca.
– Prazer, Lorena! – ela se apresenta, estendo a mão para ser beijada.
– Prazer, Lorena! – ele retruca, beijando-lhe as costas da mão estendida.
– Misterioso... hummm...
– Que bom que isso lhe agrada...
Ele ordena ao motorista que siga; ela observa que esse também está mascarado.
– Coloque essa máscara, por favor, Lorena.
– Tudo bem! Fetiche de carnaval... espera! Essa máscara não tem olhos!
– É uma precaução, por minha privacidade; mas se preferir, eu paro o carro e você desce aqui...
– Não, tudo bem!
Alguns minutos rodando na escuridão pareceram uma eternidade. Ainda de olhos vendados, Lucia foi conduzida gentilmente casa adentro e acomodada em um sofá por seu anfitrião.
– Não tire a máscara, vamos brincar assim por enquanto.
Pela cabeça de Lucia, passam várias hipóteses: de deformidades faciais a complexos fálicos. Ela ouviu uma garrafa sendo aberta e o tilintar de taças.
– Beba esse vinho, é excelente!
– Nesse calor, eu cobiçava uma cerveja bem geladinha...
– Ah! Mas o vinho é uma bebida tão mais sensual, não me faça essa desfeita, sim?
Foram alguns goles da bebida adulterada; a partir daquele momento, ela estaria totalmente vulnerável. Outros mascarados adentraram a sala e ajudaram a carregar Lucia, ou Lorena, até o porão - uma antiga adega erigida em pedra. Despida, deitaram-na sobre um altar, ornamentado com bizarros simbolismos. A moça contorcia-se em delírio. O rito começou com a entoação de um mantra – YOG-SOTHOTH AI’F ZHRO OGTHROD – repetido continuamente. Uma urna foi aberta e um odor nauseabundo alastrou-se pelo recinto. Da caixa, ergueram um saco de tecido roto que continha uma cabeça, aparentemente taxidermizada, de um animal de pelagem grossa, bocarra feroz e olhos vidrados. Com uma adaga, cortaram sete vezes a moça. Cortes superficiais. Para cada incisão, uma única gota de sangue, a ser precipitada na boca da cabeça grotesca – sete gotas. Depois, posicionaram a cabeça entre as pernas de Lucia. A respiração da meretriz gradualmente ritmava-se ao mantra. Quanto maior a força na evocação das palavras, mais profunda tornava-se sua respiração; seu ventre contraia-se violentamente. Ouviu-se um bufar poderoso; o monstro piscou os olhos e começou a respirar; o corpo de Lucia agora lhe pertencia. Um segundo recipiente foi aberto, tratava-se de uma caixa térmica com gelo, que guardava um coração humano. O mestre da cerimônia depositou o órgão na boca da criatura, que mastigou e engoliu a oferenda.
Lucia acordou com o ruído do ventilador de teto, em um quarto de hotel barato. Ao lado da cama, encontrou uma bolsa com tanto dinheiro que desistiu de contar. Aturdida, desceu as escadas; na recepção, descobriu que sua diária estava paga. Perguntou sobre seu acompanhante, mas uma vaga descrição foi tudo que obteve.
Alguns meses depois, Lucia morreu. Complicações no parto.

* conto publicado na rodada 2 do blog, dia 9/2/2012. Clique aqui para ver a ilustração do Arthur

21 de mai. de 2012

Espalha Esperma – Parte 4 (Final)

Texto: Detetive Linhares
Ilustração: Daniel Gonçalves




Pedro Ivo quase esquina com a Barão do Rio Branco. Hotel Naipi. Um moquifo que fica no meio da quadra e aonde as putas e os traficantes vêm brincar. A rua já estava do jeito que o Diabo gosta. Aquele monte de gente espalhada fumando pedra, tomando pinga direto no bico, e uma novidade: um cara vendendo salgados dentro de um isopor.
- Ô, Linhares, cê se importa de pagá um saldoga pra mim? É que tô numa larica desgraçada e...
- O que você pediu?
- Um saldoga. Na boa...
- Saldoga?
- É...
- E que porra é essa?
- Um salgado, detetive. Salgado, saldoga...
Às vezes, eu tenho certeza que o Fórtiunaine quer levar umas bicudas e não sabe pedir. Eu e a Jéssica ficamos olhando bem sério pra ele. Na verdade, eu caguei pra fome dele.
- Você entra e vai direto no segundo andar, enquanto eu revisto o primeiro.
- Tá, mas e o rango...
Entrei. A espelunca fedia ao mesmo tempo duzentos tipos de perfumes baratos diferentes. Eu gostei de uns quatro. A Jéssica reclamou do fedor. Coisas de mulher. A entrada da bodega é um corredorzinho minúsculo com um balcãozinho e um idiota atrás. Cheguei no balcão e fui...
- Daê. Casal é trintão. Quarto 212, segundo andar.
- Dêxa eu entendê. Você tá insinuando que...
- Olha aqui meu rapaz, tuas opções são problema seu. O quarto é o 212, é trintão adiantado, e você tem quatro horas pra brincá com o magrelinho.
Eu escutei o cara até ele terminar a última sílaba. Ficamos em silêncio por alguns milésimos de segundo. Não fiquei puto. Muito pelo contrário. O cara tinha acabado de me dar uma idéia. Dei os trinta reais pro dono do hotel.
- Ok. E tem uma cervejinha no quarto?
- Posso levá. Quantas?
- Tsca... sei lá... umas... quantas você qué, nenê?
O 429 ficou com cara de paisagem.
- Desculpa, moço, mas acho que ele emocionou. Leva uma caixinha.
- Tá bom. Mas, daí, é mais vintão.
- Ok. Tá aqui.
Entreguei o dinheiro, peguei a chave, e subimos. O Fórtiunaine levou mais uns minutos pra entender a parada. Entramos no quarto. Cheirinho agradável de lavanda mofada, mas nada de baratas nem de caras desenhados no chão. Quartinho...
- Bacana! Gostei. Deve ter umas pedrinhas perdidas pelo chão.
- Porra, 429. Tira a fuça do chão e presta a atenção.
- E que porra foi aquela, hein, Linhares?
- Escuta!
- Cê nunca vem aqui, mas eu sou conhecido na região, e depois os cara vão pensá que eu tô escapando a quarta e...
- ESCUTA CARALHO!
TOC TOC TOC!
- Tudo bem, aí dentro? Vô dexá as béra aqui na porta. Só não quebrem a porra do quarto!
Pelo menos o 429 ficou quieto.
- Vâmo fazê o seguinte. Desce no primeiro andar e dá uma vasculhada nos quartos. Eu faço isso aqui em cima.
- Tá, mas...
- Pega meia caixa de cerveja e diz que veio entregá o tróço... sei lá... inventa... improvisa, porra!
Ele ficou me olhando meio desconfiado.
- Mas eu não tenho uma arma, nem nada, e se o cara me atacá?
- Aí você grita e eu vou te salvá, baby.
Hahahaha!!!
Rimos um pouco, mandamos um negocinho pra melhorar a visão sobre as coisas e saímos do quarto. O Fórtiunaine desceu as escadas e eu fui em direção ao primeiro quarto. Vazio. O segundo, também. No terceiro, gemidos. Abri a porta como quem não quer nada.
- Boa noite. Serviço de quarto.
Tinha um cara amarrado na cama com uma meia na boca e um travecão de um metro e noventa brincando de playground com o corpo dele. Muito legal a cena. O cara veio até a porta. Agradeceu. Pegou as cervejas e voltou pra cama. Nem fez questão de fechar a porta. Abriu uma latinha. Tomou um gole e o resto derramou no corpo do cara que tava deita...
- Delegado Alvarenga! Quanto tempo? Que situação, hein!
O travesti deu um sorriso e fez um sinal com a mão pra que eu saísse. Respeitei o casal e fui saindo de fininho do quarto. Então, no andar de baixo um grito estridente. Parecia que alguém estava enforcando um rato. O 429. A Jéssica pulou pra minha mão e em meio segundo eu estava no andar de baixo encostado numa das paredes ao lado da porta escancarada de onde tinha vindo o grito.
- Não, não, por favor!!!!
A voz do Fórtiunaine meio amassada, como se a cara dele estivesse sendo esfregada no travesseiro. Botei a cara na porta e tinha um cara arrancando a roupa dele, mas não era o Espalha Esperma.
CLÉC!
A cena congelou. Entrei no quarto. Tirei o cara de cima do 429. Joguei o rato pra fora do quarto. Levei o grandalhão-espertão-metido-a-besta até o banheiro e enfiei a cara dele na privada, dei a descarga e larguei o corpo lá. Tinha uma moça caída no chão. Recoloquei-a na cama e saí do quarto. Tudo voltou ao normal. O Fórtiunaine ainda estava bastante assustado, mas ficou tranqüilo quando viu que estava fora do quarto. Eu pedi pra que ele esperasse por ali mesmo, num banco que tinha no corredor enquanto eu procurava pelo estuprador de verdade.
Mandei um pó mágico pra entender melhor a situação. Tirei o chapéu. Segurei a Jéssica contra o peito. Respirei fundo. Fechei os olhos...
Quarto 109
- Quarto 109.
- Quarto 109?
- Sim, quarto 109.
- O que tem no quarto 109?
Nessa hora eu contei pro 429 o que tinha acontecido. Ele não acreditou. Mas foi bem assim que eu prendi o Espalha Esperma.
Engatilhei a Jéssica e meti o pé na porta. O cara estava sentado vendo Atlético e Paranavaí na televisão, tomando uma cerveja, enquanto uma moça que batia com a descrição que eu imaginava, chupava seu pau. Eu não sabia se era a moça ou não, mas sabia que era o Espalha. Quando ele me viu deu um pulão pro lado da cama, perto da janela, e sacou um .38. Eu me joguei no chão, do outro lado da cama, perto da porta. A menina se jogou na frente da cama, perto da TV. Ele deu o primeiro tiro. Acertou a porta atrás de mim. A menina deu o primeiro berro e correu pra dentro do banheiro. Ele deu o segundo tiro. Pegou na parede em cima da escada, do lado de fora do quarto. A Jéssica começou a me cobrar alguma atitude. A menina deu o segundo berro. Então, pensei bem rápido.
“A cama é fechada na parte debaixo, então, se eu der um tiro por aqui, o tiro vai entrar na madeira, vai viajar os dois metros por debaixo da cama, e se tiver um pequeno desvio e uma pequena perda de velocidade, o impacto não vai matar, só aleijar. Pode ser que eu acerte o joelho. E vai doer.”
PAM!
O cara deu um grito do outro lado da cama. Levantei do meu esconderijo. Ele também. Botei um pé em cima da cama pra voar no pescoço do cretino e ele se apoiou na janela. O tiro pegou na coxa esquerda. Fiz mira com a Jéssica. Ele se jogou pela janela. Atirei e pegou bem no parapeito, perto da perna direita do Esperma que voava Pedro Ivo abaixo. A moça gritou pela terceira vez. Corri até a janela e ele estava terminando de estatelar no chão. Mandei o 429 correr pela escada e me atirei em cima do cara. Pulei como quem se joga de um bungee jump sem corda. Enquanto eu caía em cima dele, só deu pra ver no fundo dos seus olhos um profundo desprezo pelo que estava pra acontecer. Mirei bem no joelho.
CRASH!
Do primeiro andar a queda não foi muito alta, mas foi o suficiente pro joelho dele virar sagu. O berro foi ensurdecedor, mas já estou acostumado com isso. A Jéssica riu. O 429 chegou lá embaixo.
- Ôrra, Linhares, por um momento eu não acreditei na história que você me contou.
- E a menina?
- Tá trancada no banheiro ainda. Qué que eu veja lá?
- Claro, né, Fórtiunaine!
O Inércia por sorte estava estacionado bem na frente do Hotel. Joguei o Espalha Esperma no banco de trás. O 429 apareceu com a menina.
- Eu cuido dela, Detetive.
O safado desmaiou. Acho que foi de dor ou por ter perdido sangue demais. Não me importa. Levei-o até o Parque Barigüí, lá naqueles cantos onde há algumas churrasqueiras. O céu tinha limpado. Estava frio naquela noite, um frio cinza e mórbido. As estrelas relampejavam nos meus olhos feito pó de pirlimpimpim. Lua cheia. Entrei no meio do mato com o corpo do Espalha Esperma. Alguns caras já esperavam por mim. Pareszinhos de olhos em cima das árvores, atrás de arbustos, como se fossem vaga-lumes acendendo aqui e acolá. Alguns amigos que fiz durante as minhas caçadas por Curitiba. Animais sedentos por carne. Lobos. Do nada, veio uma voz.
- E aê, man, quanto tempo?
- Tá aí, Flores. Como prometido.
- Você não vai ficar pro jantar?
- Hoje, não. Preciso dormir.
- Hehe. É isso aí, man. Você está parecendo um zumbi.
- Mande notícias.
- Mando sim.
Eu já tinha me virado pra ir embora. O Florestano me chamou.
- Man! Quase me esqueci. Olha só o que eu trouxe pra você!
“Revista Lodo nº2”
- Acho que você vai gostar.
Meu sorriso amarelo reluziu com a luz da lua. Os lobos começaram a descer das árvores. Juntei a Lodo debaixo do braço e fui indo embora devagar, contemplando o barulho dos dentes daquelas criaturas rasgando a carne daquele idiota, e os berros de agonia que ecoaram naquela noite no Barigüí.
Na manhã seguinte, as capas dos jornais estampavam em letras garrafais: “Berros no Barigüí”, “Assassinato?”, “Medo e dor na noite curitibana”.
- Mais um café, Detetive?
- Não, Tony, obrigado. Vou dormir um pouco.

Detetive Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site: detetivelinhares.blogspot.com.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

19 de mai. de 2012

Espalha Esperma – Parte 3

Texto: Detetive Linhares
Ilustração: Daniel Gonçalves



Dez minutos depois eu já estava na esquina do Blues.
- É o seguinte, Jéssica, não vâmo esperá uma hora. A gente vai entrá por conta própria e vê o que acontece.
- Como sempre, não é, Detetive?
- Exato. Como sempre.
Havia muita gente na frente do bar. Latões de lixo com óleo diesel pra esquentar os mendigos que se juntam por ali em busca de algumas migalhas; cuidadores de carros enrolados em mantas cinzas, semi corcundas por causa do frio; uns tantos quantos, homens, mulheres, seres que não se pode mais distinguir nem sexo, nem cor, e todos encostados nas paredes esperando por zumbis em busca de prazer, de satisfação plena. Bêbados, viciados, vampiros, putas se equilibrando em saltos altos minúsculos, e eu parado na esquina com a Jéssica, decidindo o melhor momento de entrar nessa zona de guerra.
- É isso aí, Jéssi. Eu já tava com saudades.
- Hihi, eu também, Linhaça. Tá esperando o quê? Vâmo lá.
- Beleza.
Dei o primeiro passo e um calafrio subiu do tendão de Aquiles até a jugular. Senti as veias inchando. Pressão total. Eu gosto disso. A euforia queimando a pele feito combustível. A pupila retraindo, a tensão tomando conta do corpo. Fico melhor assim é o butcher, man. É um estado que pra muitas pessoas é prejudicial por causa do coração e todas aquelas balelas médicas, mas aqui a barra é pesada, a coisa é mais profunda. É como aqueles carros de filme estilo Mad Max, sabe? larga ela, linhaça Motorzão barulhento, uma dúzia de pistões batendo no cabeçote rebaixado, fogo saindo pelo escape, a câmera pegando o olhar do mocinho em contraplano ao do vilão, e não sei porque, só lembrava da primeira estocada mas nessa hora sempre toca um rock.
- Você é muito romântico, Linhaça. Acaba de uma vez com isso. Já tô me coçando toda aqui dentro.
- Ok.
Pó mágico pra mim e pra Jéssica pra entrar no canal...
- Dá um teco, aê, irmão!
- Hã...oi...desculpa...
Dois caras chegaram do nosso lado pedindo pó. ela foi parar na UTI Eu me fiz de morto pra comer o cu do coveiro.
- É isso, aê, racha com nóis a parada aê cara.
- Vocês vão me desculpar, mas é da minha mulher e ela não gosta muito que eu fique dividindo o pó dela com pessoas estranhas e...
- Olha aqui, bróder...
Hahahaha!!! Vocês não vão acreditar! Um deles puxou uma faca! Hahaha!!! Eu acho muito engraçado quando eles fazem isso!! Parece comédia stand-up, sabe? Hahaha!!! O cara para na tua frente, puxa uma faca e conta uma piada!! é o butcher, man Hahaha!!! Muito bom isso...ai ai... A Jéssica já estava se contorcendo toda dentro do casaco.
- ...é melhor cê entregá o baguio pra nóis, tá entendendo?
- Senão a treta vai caí pro teu lado, magrão... ééé...
Parei de rir. A Jéssica parou de se mexer. Tudo ficou mudo de repente. Aqueles dois idiotas se movendo. Pictocoreografia. Num movimento a Jéssica pulou pra fora do coldre e se enfiou na boca do safado da esquerda. Eu grudei o outro cara pela garganta.
- Vô arrancá teus olhos.
O cara começou a berrar. você é um cara procurado Enquanto isso a Jéssi quebrava uns dentes do outro magrão.
- Ei, ei, Detetive! Mas o que é isso? Dêxa os cara na paz!
O Fórtiunaine arrancou meus dedos de dentro do globo ocular daquele imbecil. A Jéssica ainda insistia que devia fazer umas obturações no outro idiota, mas o 429 pediu com carinho e ela saiu lá dentro com um apenas um dente no cano. a tua consciência Os caras saíram correndo.
- Ô, Linhares, qualé meu velho? Vai chegando assim, metendo bala nos cara aê... Pega leve, irmão. Faz uma cara que você não chega aqui presses lado. Vai de leve, bróder.
A minha mandíbula estava tão travada que eu não conseguia pronunciar sequer uma palavra.
- Vâmbora daqui. O cara que você tá procurando não tá aí. Pega o carro e eu te levo até ele.
Fomos até o Inércia e saímos em direção ao Largo da Ordem. como cantar na chuva O Fórtiunaine veio comigo. Ele fala pra caralho, mas eu não conseguia entender o que ele estava falando. Agora, eu só queria saber do estuprador.
Paramos na esquina do Fire Fox, um bar de motoqueiros nas Ruínas São Francisco. É um boteco bacana com mesinhas espalhadas pela calçada. Sempre está tocando um rock’n roll no último volume. Me lembro que a gente sempre vinha aqui quando eu era piá. A piazada sempre vinha fumar maconha presses lados com os hippies que vendiam bugigangas. Ficávamos sentados até altas horas fazendo nada e falando bosta nenhuma. você é trazido pra esse mundo Só no rock.
- Come here, detective.
Segui o 429 até uma das mesas externas onde dois caras estavam nos esperando. Ele cochichou no meu ouvido.
- Eles disseram que viram o cara aqui no bar com a menina faz uma meia hora.
Bem mal encarados os rapazes. Esses caras que tentam botar medo fazendo cara feia e se vestindo feito mestre-sala e porta-bandeira. Os dois estavam com os narizes bem empinadinhos. Respirei fundo. A Jéssica estava bem louca dentro da jaqueta.
- Cadê o cara?
- Cadê a grana?
- Ééé...o teu amiguinho falou num tal de duzentão, aê.
- Ok...
Suspirei de saco cheio. te ofereço minha alma Meti a mão no coldre. A cena ficou tensa. O 429 sacou que eu ia puxar a Jéssica e interveio.
- Então, galera, eu não falei bem isso... é que uma ajudinha... sabe comé que é nééé, detetive...
E deu aquela piscadela com o olho direito.
- Cê sabe que eu odeio quando você faz isso!
- Isso o que?
- Caralho, man! Porque você sempre tem de piscá essa porra de olho quando tá falando merda, hein?!
- Péraê, man. Eu só tava falando que...
- Cê qué que eu te meta uma porra de uma bala no cu, é, 429?
- Não, não...
- Então porque você não vai tomá no teu cu gordo, hein, caralho?!
O caldo estava engrossando pro lado do Fórtiunaine. O mais gordão levantou e foi tentar falar alguma coisa. A Jéssica riu.
- Senta!
Ela voou na cara dele. As mesas do lado fizeram silêncio por alguns segundos. O clima esquentou por um instante. A Jéssica depois me contou que a minha voz já tinha ficado com aquele tom engraçado, de quem parece que está falando com bolinhas de gude na bochecha.
- Cadê o cara?
- Ei! Péraê, cara...
CLÉC!
Adoro esse barulhinho. levanto de manhã A Jéssi pulava de alegria.
- Um...
- Calminha, aê, detetive...
- Dois...
- Ô, meu irmão...
Sim, os caras já tinham se cagado nas calças.
- Três!
O gordão abaixou a cabeça e cobriu os olhos com as mãos, depois soltou um gritinho agudo que junto com o som alto mais me pareceu uma microfonia. O magrinho já tinha virado paçoca debaixo da mesa. a cabeça cansada O 429 ria. A Jéssica urrava pra que eu apertasse o gatilho. Mas não foi o que aconteceu.
- Escreve aí no guardanapo onde tá o cara.
- Tá bom, tá bom...
- Mas por favor não mata a gente.
O Fórtiunaine foi filar um cigarro na mesa do lado com umas gatinhas. O cara gordão escreveu no guardanapo.
- Ô, Detetive, foi mal, mas é que eu tava pegando um cigarrinho com as meninas ali... inclusive uma delas gostou de você e depois a gente podia dá uma relaxada... que cê acha?
Tinha um endereço de um mocó escrito no papel. Um motelzinho na Pedro Ivo, pertinho da Rui Barbosa. Eu conheço o lugar. Uma vez eu e o Lufus fizemos um filme lá.
- Bóra, man.
- Pô, mas e as minas...

Detetive Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site: detetivelinhares.blogspot.com.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.