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8 de jun. de 2015

Caetanos no sótão

Conto: Fabiano Vianna
Ilustração: Igor Oliver



No começo, quando os primeiros apareceram eu me assustei um pouco. Não é das coisas mais confortáveis do mundo topar com um Caetano passando pela sala em direção à escada do sótão. Alguns, de vez em quando, esboçam um bom dia, boa tarde, ou não. Mas nem todos. Os mais rabugentos até reclamam da altura da televisão. Munidos de violões, tranquilos e infalíveis – como Bruce Lee. Não sei como cabem tantos Caetanos lá em cima. A laje deve ser grossa. Ensaiam canções. E eu, que sempre gostei do silêncio. Pintar aquarela também não dá... Agora eles estão por todos os lugares. Não só no sótão. Na cozinha, no estúdio, sobre o criado-mudo do meu quarto, na geladeira. Devoram as bolachas, fazem café, comem as provisões. Estão pela casa toda. Aqui mesmo, ao meu lado. Acotovelam-se, apertados. Disputam os espaços restantes entre um e outro Caetano. São tantos que eu preciso pedir licença para ver a tela.

19 de mai. de 2015

Medo de Sótãos

Conto: Fabiano Vianna
Ilustração: Simon Taylor



Eu sofro de um mal: medo de sótãos. O maldito espaço desocupado em cima de casa não me deixa trabalhar. Todos conhecem a fama dos sótãos né? Habitat de vampiros, fantasmas, surfistas e outras coisas pavorosas.
Me mudei faz pouco tempo. O corretor imobiliário não me falou deste aterrorizante vazio entre as treliças quando me mostrou a casa. Porra. Há meses que não consigo trabalhar. O som do nada domina meus pensamentos.
Não existe coisa pior do que isso. Nem mesmo as músicas da Paula Fernandes.
De vez em quando ligo para o técnico da GVT e invento um problema no sinal da internet só para que ele suba e conte o que (não) viu. É um alívio quando o técnico me diz que não há nada além de pó e fios. De vez em quando uma pequenina aranha-marrom.
Mas não resolve, porque basta o técnico colocar o pé lá fora para que o incômodo volte.  O sinistro som do vazio que não me deixa pintar.
Minhas aquarelas estão ficando horríveis por causa do sótão. Centenas de papéis (caros) desperdiçados.
Terei que fazer alguma coisa urgente. Transformar o sótão numa sala, talvez. Levar um sofá para lá. Será que um cômodo vazio com um sofá torna-se uma sala? Mesmo estando perto das treliças? Ou continuará sendo um sótão? Não sei, mas será ao menos uma boa vingança. Por todas as aquarelas que ele estragou.
E depois que resolver isto, ainda terei outro desafio ainda maior a enfrentar: a sacada!

21 de ago. de 2014

A Faca de Bu

Conto: Fabiano Vianna
Artes: José Marconi

“A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.”
Italo Calvino



Estávamos eu e minha amiga Renata Beltrão justamente em frente ao túmulo da beatificada Maria Bueno, no Cemitério Municipal, quando ela relatou-me ter matado um cara com a mesma faca que a santinha foi degolada.
Na hora achei totalmente inverossímil e estranho, porém depois ela me contou em detalhes como adquiriu o artefato de um vendedor de bugigangas na Avenida Victor Ferreira do Amaral, em frente ao Circo Vostok, em noite de espetáculo. O sujeito jurou de pés juntos que se tratava da mesma arma, segundo ela.
“Vi diversos objetos excêntricos para vender sobre sua canga. Entre eles havia até uma réplica do Santo Graal, a tesoura de Valêncio, uma imensa colher de um Potypo e um pente – que segundo ele, pertenceu a Sherazade.”
E eu lembro muito bem deste sujeito, na vez que desenhei o circo. Um tipo de cigano comerciante exótico. Engraçado foi que, enquanto eu admirava seu rol de amuletos extravagantes, ele jogava Angry Birds no smartphone.

*  *  *


Fiquei muito assustado com o relato da Rê, lógico. Era primeira vez que eu passeava com uma assassina. Olhando para Renata, não imaginaria isso. Nunca suspeitaria de uma moça usando colete de lã, camisa social e óculos de aro redondo. Atravessando a rua calmamente, olhando para os dois lados. Com uma serenidade típica curitibana. E se me ponho a relembrar como nos conhecemos – fazendo curso de história em quadrinhos no Solar do Barão, fica ainda mais estranho. Aquela menina de cabelo azul, quieta e tímida. Sempre sentada na mesa do canto, rente à janela. Recebendo dicas do nosso espetacular professor Cláudio Seto em como desenhar figura humana. Ela era fascinada pelas obras do Will Eisner e eu preferia os europeus, tipo Miguelanxo Prado.
Do cemitério fomos para o Bar do Pudim. E fui me tornando uma criatura mais receosa a cada passo. Tratei de averiguar se a moça não carregava algo, mas ela sustentava uma imensa e misteriosa bolsa de couro pendurada no ombro. Podia ter o diabo ali dentro.
Ela não era mais a mesma quadrinista que eu conheci há vinte anos.
Sentamos numa das mesas do fundo e pedimos bolinhos de camarão – a melhor iguaria do Pudim, na minha opinião.
Ao invés de pendurar a bolsa ou deixar na cadeira vaga ao lado, Renata manteve-a no colo, como se protegesse algo valioso.
E eu perguntei:
“A faca está aí ?”
E ela me respondeu (até hoje não acredito) dizendo que nunca mais a viu. Largou-a ao lado do morto, apavorada.
“Era como se tivesse vida própria. Ela me mandou fazer aquilo. Foi na Vicente Machado, em frente ao extinto bar Dolores Nervosa. Ele conversava com uma piranha platinada. Traíra desgraçado. E ela falava comigo. Direcionou minha mão em direção ao seu pescoço e o degolei. A cabeça rolou pela calçada. Não imaginei que tivesse força para aquilo. Jorrou muito sangue. Apesar de toda filhadaputagem, ele não merecia morrer. Não devia tê-lo matado. Passei treze anos na cadeia por causa disso. E só não estou presa até hoje, porque meu pai pagou uma parte da fiança”. – me contou.

*  *  *

Os bolinhos chegaram para romper o clima que se tornara demasiadamente tenso e nós os atacamos com muita ferocidade.  Entre garfadas, camarões e molho de pimenta, continuou a história. (E eu louco de vontade de escrever tudo).
“Acredito que a faca passou por diversas mãos até chegar a mim. E em todos os casos, sujou-as de sangue. De certa forma, ela interferiu na minha vontade. É um objeto diabólico. Talvez seja a responsável também pela morte dela. Se não fosse isso, talvez a história tivesse sido diferente. Você acredita nisso?”
“Acho uma teoria bem plausível.” – disse.
Respondi isso apesar do panorama macabro transpor-se com os relatos de minha falecida avó Wanly, que recebia o espírito iluminado de Bu em sessões espíritas no centro da Dona Rosinha na Rua Emiliano Perneta.  Influenciam-me também as histórias contadas pela minha amiga Lívia Lakomy, sobre o médium que incorporou Maria Bueno no dia da construção do túmulo no Cemitério Municipal (em 1961 se não me engano) e deu várias dicas de cores e ornamentos aos pedreiros. Inclusive ajudou-o a empilhar tijolos e escolheu o tom de dourado nos detalhes.
O que pode acontecer é a faca ter impulso próprio. Como no conto O encontro, de Jorge Luis Borges, presente no livro O Informe de Brodie. Em que duas facas estão predestinadas a se enfrentarem. E fazem isso no decorrer dos anos. Empunhadas por homens aleatórios – títeres.
Veio-me também em mente o desenho de um diagrama, traçando locais e nomes. Uma espécie de infográfico maléfico. Desde 1893 – ano do assassinato de Maria Bueno, até hoje. Segundo dizem, ela foi morta no mesmo lugar que Renata matou o sujeito – na Rua Vicente Machado.
Talvez todo causo e conto possua um desenho. E a narrativa brote da sobreposição destes eixos, círculos, números, cálculos e diagonais. A saga de Bu pode ser contada através deste traçado.
Mariana Alípia Bueno teria nascido na Lapa. Não se sabe ao certo por que razão e como ela chegou a Curitiba. O certo é que vivia na casa de uma ex-escrava chamada Mariana da Silva Pinto, para a qual lavava roupa.
Ela foi degolada pelo namorado, o soldado Inácio José Diniz.
Era época da Revolução Federalista.
Diniz foi preso por causa do assassinato, mas Curitiba acabou ficando sem o governador e sem o comandante do batalhão, porque os dois fugiram e entregaram a cidade aos maragatos. Daí todos os presos (entre eles Diniz), escaparam da cadeia.
Voltou ao trabalho no quartel do 13.º regimento, que estava sob o comando de Gumercindo Saraiva. Em uma das rondas que fazia com outro soldado, Diniz roubou a mula de um cidadão na rua e o degolou – da mesma forma e com a mesma faca que matou Maria. O sogro do morto viu Diniz com a mula e perseguiu- o até o quartel. O homem fez a acusação de roubo e contou a história para Gumercindo, que mandou fuzilá-lo.
Então para muitos devotos, esta vingança foi um ato milagroso orquestrado por Bueno.
E toda vingança sugere um desenho circular que se fecha nele próprio.

*  *  *


Depois disso, nunca mais soube-se da arma.
Perguntei a Renata sobre o paradeiro e ela disse não saber. Largou-a lá mesmo, no local.
(E imagine – isto conjecturo só agora – se a faca tivesse caído na exata posição das outras vezes? Talvez o diagrama do tempo precise o exato local e direção. Até mesmo a inclinação dos borrifos na parede.) E um médium possa incorporar Bueno novamente e saber o lugar exato onde ela se encontra. E depois e depois...
A faca pode estar em posse de alguém ou escondida sob a lama.

*  *  *

Fui ao banheiro.
Lá de dentro, ouvi uma gritaria bestial. Uma voz feminina disparava impropérios contra outra pessoa. Reconheci os gritos, mesmo abafados pelas paredes, de Renata.
Quando voltei, ela discutia com um rapaz barbudo usando camiseta vermelha que bebia na mesa ao lado da nossa. Ele dizia apenas que ela era louca e afirmava não conhecê-la.
Aquela não era mais a Renata que eu conversava antes de entrar no banheiro. Ela havia se transformado numa maluca histérica violenta. Até a feição e a fisionomia pareciam ter se modificado. Uma expressão de ódio tomou conta de seu rosto.
Renata estava totalmente transtornada e enquanto batia boca, mantinha uma das mãos dentro da bolsa.
Isto é o que mais me assustava. Temi pelo que podia acontecer.
Definitivamente ela não era mais a mesma quadrinista que eu conheci há vinte anos.
Não estava a fim de presenciar um homicídio.
Isso tudo aconteceu em alguns segundos.
Tentei acalmá-la dizendo para irmos embora, segurei seus braços enquanto xingava o cara de mentiroso, filho da puta, cretino...
Paguei a conta e puxei-a para fora.
Gritava e chorava ao mesmo tempo. Então caiu sentada rente ao muro do bar, lá fora.
Chorou por um tempo. Depois fomos embora.
Descemos a Rua Senador Xavier da Silva em direção à Mateus Leme e ela, graças a Deus, se acalmou. Acendeu um cigarro. Compramos cervejas e chocolates num posto de gasolina.
Ainda meio nervosa, mantinha uma das mãos dentro da bolsa. A outra, tremia ao levar o cigarro à boca.
Quando perguntei quem era o cara, ela desconversou e disse apenas tratar-se de um canalha.
Depois de uma boa andada, e quando tive certeza que ela estava melhor, inventei uma desculpa para ir embora. Disse que precisava passar na loja Grafitti para comprar papel de aquarela e por sorte Renata não quis ir junto.
Despedimo-nos em frente ao Passeio Público e caminhamos para lados opostos. E até hoje não sei se a Faca de Bu não estava dentro da bolsa dela.


Fabiano Vianna
Nasceu em Curitiba, em Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela PUCPR. Trabalha como designer, ilustrador, roteirista e escritor. Desde Abril de 2013 participa dos coletivos “Croquis Urbanos Curitiba” & “Criaturas Crônicas” – grupos que saem para desenhar e descrever a cidade in loco.
http://polpacomleite.blogspot.com
http://be.net/fabianovianna

José Marconi
be.net/jose-de-souza

10 de jun. de 2014

Viúva Negra

Conto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Fabiano Vianna


No começo do trabalho, quando tinha as barbas ainda escuras, gostava de admirar as viúvas à distância. Os traços vagos por trás dos véus, a roupa preta justa marcando as ancas, as lágrimas borrando a maquiagem e vertendo como pingos negros sobre os colos brancos, para serem chupados pelos ágeis lencinhos, os chorinhos escapando pelos lábios entreabertos, grossos de batom...
Quando deixou de ser um ajudante, que só cuidava das ferramentas e alças para içar caixões ou de concretar os caixões sob as tampas de cimento, passou a participar das inumações. Sozinho, adiantava-se à chegada dos enlutados e quebrava o rejunte das lajes, abria os caixões, ensacava os ossos (embolsando qualquer joia ou roupa que algum colega ainda não tivesse surrupiado), limpava a cova da terra e da sujeira e a deixava pronta para o novo defunto.
Escolhia então um ponto estratégico, que lhe desse plena visão dos familiares. Geralmente sabia de antemão se havia uma viúva, pelos agendamentos das capelas ou espionando os velórios. Aguardava até a chegada do caixão, pelos braços da família, e então o colhia com seus colegas e o colocavam cova adentro. Sem uma viúva, deixava os trabalhos naquela hora, para os colegas terminarem.
Mas se houvesse uma viúva... As mãos enluvadas de Erasto apertavam o cabo da pá, os olhos fundos nas órbitas apertados sob o sol, escuros pela aba do boné, enquanto o suor escorria pelas suas têmporas, e ele molhava os lábios sob os bigodes grisalhos. Alcançava a cova passando o mais próximo possível da enlutada, para sentir seu cheiro. Então entrava na cova, apesar da barriga, e a cada abaixada para encaixar o caixão, para pegar uma pazada de terra, para pôr uma tampa no lugar, para aplicar cimento entre as tampas, dava uma olhadela nas pernas da viúva, e acima o quanto a saia permitisse.
À noite, pagava homenagens ardorosas, ainda que não muito respeitosas, à viúva.
Então morreu um certo doutor respeitável da cidade. Erasto foi chamado do plantão e ao chegar ao cemitério, os colegas já haviam aberto a cova e deixado tudo pronto. Resolveu dar uma espiadela no velório e estremeceu ao ver quem era a viúva. A mulher era uma visão gravada a fogo na memória de Erasto. Estivera ali, naquele mesmo cemitério, também enterrando um marido, anos antes. Na primeira vez que a vira, ela estava na meia-idade, e durante o enterro percebeu os olhos de Erasto a desnudando. Pensou vê-la sorrir, por trás do véu, e aquilo o deixou maluco.
E agora ela voltava, mais um marido morto. Agora mais velha. Erasto adorava as velhotas.
Mal podia esperar a hora do enterro. O caixão chegou, mas faltava a viúva. O confuso coveiro deu andamento ao trabalho, entreouvindo que a viúva havia passado mal, mas viria depois. Erasto quebrou o silêncio a que estava acostumado e perguntou se deveriam esperar. A família disse que não, que a viúva havia pedido apenas que não fechassem o túmulo completamente até ela chegar. Erasto colocou o caixão e lançou a terra, mas nada da viúva.
Escureceu, a família deixou o local, pedindo que esperasse pela viúva. Ele esperou, esperou, dispensou os colegas, falando que esperaria sozinho.
Minutos depois, viu a viúva se aproximando. Andava um tanto apressada, olhava por sobre o ombro. Erasto sentiu calafrios, sensação da qual nem mais lembrava o nome.
A mulher deteve-se diante do caixão no fundo da cova aberta. Com dois dedos, ergueu a saia pelos lados e desceu a calcinha até o chão. Arremessou a calcinha no rosto de Erasto, e quando ele a tirou do rosto, a viúva já deitava de costas sobre o caixão, desabotoando a camisa, abrindo as pernas, chamando-o com o dedo.




Eduardo Capistrano
Nasceu no ano de 1980 em Curitiba, Paraná. Bacharel pela Faculdade de Direito de Curitiba. Contista desde 2002, publicou “Histórias Estranhas” (contos, 2007), “A Quarta Dimensão” (contos, 2011) e “Adolpho Werneck: Vida e Obra” (bibliografia, 2012).  

http://edcapistrano.blogspot.com.com
  
Fabiano Vianna
Nasceu em Curitiba, em Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela PUCPR. Trabalha como designer, ilustrador, roteirista e escritor. Desde Abril de 2013 participa dos coletivos “Croquis Urbanos Curitiba” & “Criaturas Crônicas” – grupos que saem para desenhar e descrever a cidade in loco.
http://polpacomleite.blogspot.com
http://be.net/fabianovianna


8 de nov. de 2012

O Pente da Guerra

Conto: Fabiano Vianna
Ilustração: André Ducci





“Não vos esqueçais de que a Terra ama sentir os vossos pés descalços. Não vos esqueçais de que ao vento agrada jogar com os vossos cabelos”¹
Khalil Gibran

Estávamos eu e meu amigo Murillo Da Rós num destes cafés que oferecem de cortesia chocolates, na Rua XV, quando ele me perguntou:
“O que você acha sobre um pente que oferece a imortalidade a quem o usa?”
Na hora achei a pergunta um pouco esquisita e enigmática, porém depois ele esclareceu-me que se referia ao artefato que teria causado a discórdia que culminou na “Guerra do Pente” em Curitiba, no dia 8 de Dezembro de 1959.
Segundo um jornal local, o estopim da batalha se deu porque o Subtenente Antônio Tavares, da Polícia Militar do Estado do Paraná, comprou um pente pelo valor de quinze cruzeiros e exigiu uma nota do comerciante libanês Ahmed Najar. Houve uma discussão entre eles e o vendedor fraturou a perna do Subtenente, arremessando-o sobre a calçada. Depois disso, cento e vinte lojas de árabes, judeus e italianos foram depredadas por outras pessoas que se envolveram na confusão. Alguns estabelecimentos foram totalmente destruídos. Cidadãos de bem e Potypos² se meteram no tumulto, tentando separar os briguentos. Parece que até o exército fora convocado. Até um tanque enguiçou vindo do quartel do Boqueirão.
 O conflito durou três dias e só cessou por causa de um temporal na tarde do dia 10. O jornalista, ironicamente, termina dizendo que nenhum conflito, por mais grave que seja, não resiste a uma forte chuva, em Curitiba.
No outro dia, centenas de pentes e outros produtos das lojas – destroçados e pisoteados – formavam um tapete de bugigangas entre as praças Tiradentes e Osório.
Eu sempre achei inverossímil esta peleja ter sido causada por um mero pente de plástico. Nenhuma guerra começa assim. Parece coisa de filme. Aliás, li em algum lugar que o caso pode ter sido fruto da imaginação de um cineasta.
Contudo, meu camarada Murillo, dedicado estudioso da história dos artefatos mágicos perdidos, mantém a teoria do amuleto incitador. Relata inclusive que a peça foi batizada de “O Pente da Guerra”, mas há quem acredite – entre eles meu ex-professor de teoria literária Maurício Pereira, que pertenceu a Sherazade, em “As Mil e Uma Noites”. Inclusive, segundo conta, foi o pente que a permitiu viver tantos anos, sem demonstrar nenhum sinal do tempo. Achei o causo maravilhoso. Sempre fui fascinado por este livro e por seu caráter fantástico. Lembro-me da primeira edição que peguei para ler. Encontrei numa bibliotecazinha de bairro, perto da minha casa. Foi nesta biblioteca que li meus primeiros Charles Dickens, Júlio Verne e descobri a Coleção Vagalume. O livro “As Mil e Uma Noites” era bem velho, com as costuras a mostra e páginas amareladas. Se não me engano, faltavam algumas páginas também. Mas como não era ainda um leitor tão voraz, pulei algumas histórias e li as que me chamaram mais atenção, tipo “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa” e “Simbad”.
Para Jorge Luis Borges, o título do livro se deve a duas razões. A primeira, supersticiosa, segundo a qual os números pares seriam de mau agouro. Assim, procurou-se um número ímpar, acrescentando-se o “e uma”. Caso fosse novecentos e noventa e nove noites, sentiríamos que falta uma noite. Assim, ao contrário, sentimos que não só nos é oferecido algo infinito, como de quebra, acrescenta-se uma noite ao infinito.
Incrível que o pente tenha pertencido a uma personagem que povoou meus sonhos e desenhos desde a infância. Quando eu tinha mais ou menos uns 12 anos, e estudava no Colégio Jean Piaget, fiz uma ilustração de Sherazade e o Rei Shariar para a matéria de Educação Artística. A professora – lembro até seu nome, Alba – gostou tanto que escolheu o desenho para a exposição e fui muito elogiado.
Utilizei uma técnica mista na composição. Colei lantejoulas e areia colorida para formar o vestido, e o lençol da cama fiz com papel de seda tipo mosaico. Coincidentemente, neste meu desenho, Sherazade penteava os cabelos com um pente dourado.


 *   *   *

Escreveu meu ex-professor Maurício Pereira, numa Revista Joaquim que não chegou a ser publicada:
“O pente foi citado num livro de cartas entre ela e sua irmã, Duniazade. Dizem, inclusive, que foi presente da mana, desde que se penteasse com ele todas as noites, para manter-se jovialmente bela para sempre.”
A matéria trazia também a capa do livro, chamado “Das Cartas com minha irmã Duniazade”.
Dizia ainda, Pereira, sobre Sherazade:
“Noite após noite, Sherazade tece, com a ajuda da memória, o fio de suas histórias. Não é um traço linear, mas uma teia infinita. Uma história dá margem à outra, que, engastada dentro dela, desemboca numa terceira e assim por diante...”
Na definição de um tradutor ocidental chamado Rene R. Khawam, Shera­zade é "La Tisserande des Nuits" – a tecelã das noites.
Como o pente veio parar em Curitiba, eu não sei. Nem Murilo.
Nenhum objeto místico é, segundo dizem, imaculado. Para Murilo, o pente não deseja ser encontrado. Entre uma bebericada e outra no café, diz que na verdade, todos os objetos míticos são apenas um.
“Existem mil e um nomes para simbolizar apenas duas coisas – o cavaleiro e a espada.
O pente já foi o retrato de Dorian Gray e a espada de Artur – Caledfwlch. Antes teria sido Harpe – a espada usada por Perseu para decapitar a Medusa. Foi também o Sabre de San Martín e a lança de Dom Quixote.
Estes objetos habitaram por muito tempo as prateleiras dos chamados Gabinetes de Curiosidades, no tempo antigo. Estes espaços foram os antecessores dos museus. Porém, em fases distintas. Caledfwlch e Harpe nunca foram vistas uma ao lado da outra, por exemplo. Nestes gabinetes, as coleções eram organizadas em quatro categorias, nomeadas em latim: Artificialia, Naturalia, Exótica e Scientifica.”
Sempre fui fascinado por depósitos e coleções. Os desenhos dos Gabinetes feitos por Van  Haecht e o Frontispício do Museu Wormiani mostrando o quarto das maravilhas de Worm, são maravilhosos.
  

*   *   *

Passei grande parte de minha infância na casa de minha tia Neide. Como eu estudava de manhã e minha mãe trabalhava o dia todo, a tia cuidava de mim durante as tardes. Minha mãe era professora, mas quando venceu a candidatura e assumiu a direção da escola, aumentou sua carga horária de trabalho.
O que eu não achava ruim. Porque era um lugar cheio de coisas para fazer. A casa ficava na Nunes Machado, perto da Praça Ouvidor Pardinho.
A tia Neide era uma pessoa exotérica, com inclinação para todo tipo de fantasia. Muitos dos filmes de ficção científica que gosto até hoje, assisti com ela. Fora os livros fantásticos que li na sua biblioteca. E o legal é que não era um cômodo arrumado, assim como toda a casa também não o era. Sentia-me muito mais a vontade no meio de tanta bagunça. Os livros, empilhados de qualquer forma, lateralmente ou em diagonais. Uma biblioteca desordenada é muito mais atraente e instigante a se perder em seus conteúdos.
Você poderia pegar qualquer tomo empilhado sobre a mesa e lê-lo. Depois também não precisava guarda-lo no mesmo local. A regra era, que inclusive, o depositasse sobre qualquer outra prateleira ou gaveta.
Outra coisa que me empolgava era o fato da casa ser habitada por gatos, e eu sempre gostei de felinos. Na escada externa, que acessa a varanda, havia um leão de pedra no qual eu costumava galopar. Uma vez meu pé prendeu entre a estátua e parede lateral e tiveram que chamar o tio Aníbal para empurrar. Por sorte, sobrevivi.
Eu curtia caminhar sorrateiramente pelo jardim, em busca dos gatos. Tinha que ser tão silencioso quanto eles, se quisesse observá-los. Ou senão sumiam, pulavam para os terrenos vizinhos, escondiam-se nos buracos.
Minha tia era tão fascinada pelos bichanos, que as balas que ela oferecia para os sobrinhos era da marca “Xaxa”, com a cara de um gato na embalagem.
Um dos lugares que eu mais gostava de ir – e na maioria das vezes, sem minha tia saber, era o quarto de tralhas, atrás da lavanderia.
O cômodo era tomado de prateleiras e armários com rádios antigos, vitrolas, luminárias abandonadas. Eu gostava de abrir os pequenos baús, fuçar os álbuns de fotografias, abrir as latas repletas de fichas de plástico – de jogar baralho. Lembro também de uma caixa de madeira lotada de figurinhas do Zequinha. Se bobear até o Zahir³ estava lá. Lembro de muitas moedas e até uma esfera parecida com o Palantír4.
 Se fechar os olhos, consigo sentir o cheiro de mofo que enfestava o quarto. E a cara dos bichos empalhados, ameaçadores.
Depois descobri que a profissão de meu tio era taxidermista, mas na época nem sabia o que era isso.
Um bicho que me dava muito medo era um macaco babuíno com nariz vermelho e pelagem branca.
Alguns gatos que desapareceram da casa, depois tornaram a aparecer dentro do Quarto das Maravilhas, porém, empalhados.
Esta era a mágica do lugar. Minha tia dizia que todo o objeto perdido, ia para lá. Porém, em compartimentos aleatórios. Por isso era comum encontrar um broche na caixa de canetas, ou um cachimbo com as bonecas de porcelana.
Certa vez aconteceu algo fantástico. Uma carta de meu baralho Super trunfo se perdeu na minha casa e depois a reencontrei lá dentro, no pote dos alfinetes.
Se fechar os olhos, consigo sentir o cheiro de mofo que enfestava o quarto.

*   *   *

Depois da conversa com Murillo, que aconteceu, se não me engano, numa terça-feira de Agosto, passei a perambular pelo centro de Curitiba em busca do pente. Não conseguia pensar em outra coisa. Verifiquei as ofertas das casas chinesas, farmácias e lojas de 1,99 da XV. Deparei-me com todos os tipos possíveis de formas. Fucei nos bazares e armazéns da parte velha. Adentrei até mesmo os shoppings populares que já foram cinemas. Vi pentes transparentes, lisos, de madeira. Redondos, quadrados e até circulares.
Num camelô da Praça Santos de Andrade, encontrei uma peça com arabescos árabes pintados de dourado.  Pensei muito no Santo Graal e em quanto sua aparência simples e miserável significa.
Diversas noites sonhei com Sherazade nua, penteando sua vasta e negra cabeleira rente à minha cama. A pele âmbar refletida pela luz da lua, o vestido de lantejoulas e areia colorida. Mesmo acordado, me pegava pensando. Seus cabelos são como a guerra – alastram-se pelas ruelas do centro velho.
Amaldiçoadas imagens que se formam na borra do café. É preciso virar a xícara de ponta cabeça e esperar o líquido secar para daí sim observar os desenhos. Ursos, serpentes, índios, gigantes de pedra, palácios em ruínas. Eu olhei e vi o universo. Porque creio que tudo, inclusive o universo, pode estar contido dentro de uma xícara de café.
Na Galeria Minerva achei que estava sendo seguido. Andei mais rápido, mas o sujeito continuava em meu encalço. Tentei despistá-lo, atravessando por dentro da C&A, entretanto senti que continuava perto quando peguei a escada rolante. Empurrei pessoas, corri dentro da loja derrubando funcionários e araras. Vi a morte estampada nas roupas. Naquele dia nem voltei ao escritório. Peguei o primeiro táxi disponível. O símbolo da lua crescente com a estrela do Islamismo estava gravado no pente que eu comprei.
            Meus dias nunca mais foram os mesmos. Permaneci recluso durante uma semana. Dei uma desculpa qualquer aos clientes e atrasei alguns trabalhos.
            Montei um armário, na dispensa, para guardar os pentes. No mesmo cômodo onde eu arquivo minhas outras coleções de objetos míticos – revistas, figurinhas, cachimbos, miniaturas, armas, moedas...
Separarei os pentes por cores e formatos. Dispu-los lado a lado, em ordem decrescente. Os menorzinhos, em caixas. Também construí um quadro de madeira e fixei-o na parede para pendurar os modelos mais bonitos. Entre eles o pente com arabescos dourados que comprei no camelô.

*   *   *

Dias depois me encontrei novamente com Murillo, no centro, ao acaso. O mago caminhava com o seu pequeno cachorrinho Yorkshire – o Puppy, na XV, quando me viu sentado no café. Disse-me que a pouco tinha cruzado por uma moça com um cão da mesma raça e tamanho que o seu, e que pegara o telefone dela. Isso porque o Puppy precisa urgentemente de uma namorada.
Convidei-o para dividir a mesa e logo que se sentou, desvirou a minha xícara vazia que estava ao contrário.
“Permite-me?”
“Claro.”
Enquanto lia a borra, contei-lhe de minha coleção de pentes, o sujeito que me perseguiu na galeria e dos sonhos com Sherazade.
“Cara, você não vai conseguir encontrá-lo. Desista. Lembre-se daquilo que te disse. De tempos em tempos o pente muda de forma para se perder entre tantos outros objetos. Pode ser um espelho ou de um pincel. Pode ser uma colher, um lápis ou até mesmo esta xícara em que você bebe o café.”
            Se isto fosse verdade, eu nunca saberia em qual das xícaras entre tantas, bebi o elixir da juventude. Qual destas revelou-me o segredo da guerra.
Posso voltar aqui, neste mesmo café, diversas vezes e, vez ou outra beberei na xícara certa. Noutros dias, ela será sorteada por outro.
“Tudo está gravado na borra”, me diz Murillo. E acrescenta:
“Vejo Sherazade, Rei Artur, San Martin, Perseu, Dorian Gray e Dom Quixote. Vejo um gabinete lotado de objetos, armas e animais empalhados. Vejo um velho mendigo penteando a barba. Te vejo atravessando galerias e lojas de 1,99, depois correndo para pegar um taxi. E vejo por fim nós dois, sentados, olhando para esta xícara. Num destes cafés que oferecem de cortesia chocolates, na Rua XV.”

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1 Trecho da principal obra de Kalil Gibran, gravado nos painéis de ladrilhos numa das paredes do Memorial Árabe, em Curitiba, no Centro Cívico.
2 Gigantes que habitaram Curitiba durante um curto intervalo de tempo, de 1955 a 1960. Não se sabe se formavam uma família de estrangeiros ou se eram nômades como os ciganos.  
3 Objeto de um conto de Jorge Luis Borges. Borges personifica o Zahir em uma moedinha comum, de vinte centavos de peso, que amaldiçoa aqueles que porventura venham a pousar os olhos sobre ela.
4 Os Palantír são artefatos mágicos do universo ficcional criado por  J.R.R. Tolkien.

Fabiano Vianna
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 


André Ducci
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://abducci.blogspot.com


13 de ago. de 2012

Algo a ser esquecido no cerne de uma caverna na Patagônia

Ilustrações: André Ducci
Conto: Fabiano Vianna

O meu amigo Ramon Garcia sempre foi metido a fazer esportes de aventura. O cara vivia me convidando, na época que estudávamos arquitetura, a acompanhá-lo em subidas aos picos do Anhangava, Marumbi, Salto dos Macacos... Mas eu nunca fui destes passeios. Sempre preferi o clausuro das bibliotecas e a segurança de uma vida pacata, caseira. Ele entendia isso e com o tempo desistiu de me chamar.
Ontem nos encontramos no Café Metrópolis, no centro. Ramon, como está numa onda de bicicletas, prendeu sua “fixa” no poste em frente. E eu já estava lá em minha mesa habitual, quase encostado no balcão do caixa – onde é possível assistir de um bom ângulo todo o movimento da cafeteria e da rua.
Contou-me da sua última viagem à Patagônia. Disse que o grupo era formado por cientistas e arqueólogos que estavam à procura de um antigo artefato místico, e aparentemente apócrifo, no alto das montanhas geladas.
Surpreendi-me em saber que além das aventuras habituais, Ramon estava escalando na neve também. E é claro, fiquei curioso para saber que objeto era esse.
Antes me falou das intempéries. Disse que o branco era tão branco que enegrecia a vista. E nenhuma roupa, por mais grossa que fosse, protegia do frio.
“Tinhámos que nos equilibrar em grandes blocos de gelo, escorregadios, e ainda por cima desviar da neve que desabava. Quando encostei o rosto rente à montanha, ouvi os estalos do gelo se despedaçando. Assustador, cara!”
Nesta hora eu pensei que a única montanha que eu enfrento é o Edifício Tijucas. Diariamente subo até o décimo andar para encarar minha gélida caverna escura. A escalada também é difícil, sobretudo nas segundas-feiras.
Quando perguntei a Ramon que objeto os arqueólogos procuravam, ele desconversou. Falou que só encontraram morte nas cavernas, um grupo de dez alpinistas sem vida, em um acampamento nas alturas.
“Os corpos estavam conservados, provavelmente por causa do frio. Deviam estar lá há mais ou menos cinco meses. Revistamos suas coisas e encontramos diários e anotações, escritos em uma língua que eu não consegui decifrar, mas um amigo me disse que era sérvio. Alguns papéis se encontravam rasurados, como se rasgados por unhas de bicho. Algumas páginas fugidias, manchadas, estavam grudadas no gelo. Trouxemos o que restou dos diários e hoje ele me mandou por e-mail uma parte muito assustadora, traduzida por um professor da Federal, que quero ler para você. Posso?”
“Claro.”
Por isso Ramon quis me encontrar. Ele sabe de meu interesse por histórias sombrias deste naipe, por causa da revista pulp que eu publico.
Mas apesar de já ter se aventurado a escrever alguns causos, ele não possui o foco necessário para a literatura. E entendo isso. Porque escrever é mesmo um calvário.
Pedi logo que ele lesse o trecho do e-mail.
“...os barulhos ameaçadores voltaram ontem à noite. Acho que uma criatura ou máquina caminha por dentro do gelo. Como isso é possível? Jovanov iluminou algo nos seguindo na neve. Estes estrondos são muito diferentes do trepidar das estalactites. Ivanovic está muito doente, acho que contraiu algum vírus. Eu sinto a presença de algo entre nós. De vez em quando tenho a sensação que alguém me sufoca, como se me impedisse de respirar...”


Esta região da Patagônia sempre me interessou. Sobretudo as lendas de artefatos escondidos nas catacumbas gélidas, como o Santo Graal e a Arca da Aliança de Salomão. Reza a lenda que Hitler em pessoa vagou por estas terras em busca dos poderes mágicos destas peças.
Pergunto a Ramon se o referido objeto que estavam procurando tinha algo a ver com isso. Mas ele me diz que ouviu apenas eles comentarem alguma coisa sobre um livro, mas que o título lhe é impronunciável.
Relata-me que a missão era encontrá-lo, mas depois pescou um comentário – saído da boca de um dos intérpretes brasileiros. O cara disse que o tomo estava de posse deles e deveria ser escondido dentro de uma câmara ou gruta no alto de uma das montanhas para ser esquecido.
“Possuía um título comprido, com quatro ou mais palavras, e uma ilustração de um demônio de braços abertos numa das páginas do meio. Faz ideia o que seja?”
“O único livro que me vêm em mente é o Codex Gigas.”- digo a ele.
Este livro, que em latim significa Livro Gigante, é considerado o maior manuscrito medieval existente no mundo. Foi criado no início do século XIII, provavelmente no mosteiro beneditino de Podlažice, na Boémia, e agora está preservado na Biblioteca Nacional da Suécia, em Estocolmo. É também conhecido como a Bíblia do Diabo, devido a uma grande figura do Satanás no seu interior e da lenda em torno da sua criação.
Segundo a história, o escriba foi um monge que quebrou os votos monásticos e foi condenado a ser murado vivo. Para evitar esta rígida pena, prometeu a criação, em uma única noite, de um livro que glorificaria o mosteiro para sempre e que incluiria todo o conhecimento humano em suas páginas.
Perto da meia-noite, quando teve a certeza que não conseguiria concluir o livro sozinho, fez uma oração. Não dirigida a Deus, mas à Lúcifer, pedindo-lhe que o ajudasse a terminar as últimas páginas em troca da sua alma.
Não seria impossível que os sérvios estivessem em posse do livro. Soube que os nazistas roubaram-no da Rússia durante a Segunda Guerra. Aí muitos alemães vieram para a América depois da derrota, e a maior concentração de nazistas foi parar justamente na Argentina. O tomo misteriosamente sumiu do lar dos Mengele logo após a morte prematura e inexplicável do último deles.
Lembrei também de outros livros macabros, como Livro de Urântia – que dizem ter sido escrito por seres supra-humanos das mais diversas ordens e Manuscrito Voynich, composto de caracteres indecifráveis.
Mas, talvez não seja nada disso afinal.  Porque o título que Ramon imagina ter ouvido era mais longo que Codex Gigas, Urântia ou Voynich. Os cientistas disseram que o volume era composto apenas de imagens e nenhuma palavra.
“O título começava com Tempat alguma coisa.
Cara, tem sido um tormento sonhar com esta expedição todas as noites. Os devaneios misturam-se com a realidade. Já não sei o que realmente ouvi ou inventei.
Escutei barulhos horríveis à noite, na caverna. Foi péssimo permanecer tão perto de tanta gente morta. Na escuridão da gruta, senti-me acompanhado, mesmo tendo a certeza que estava sozinho.
Outra coisa que me deixou desesperado é que os rostos dos mortos eram iguais, como se fossem gêmeos. E todos muito parecidos comigo.”
Ramon bebeu o café num gole só e se mandou. Eu ainda fiquei um tempo na mesa, terminando de comer uma empada do Caruso que chegara há pouco.
Ele se despediu rente à floreira, já montado na bike, e me disse que se tivesse mais notícias dos relatos me enviava por e-mail.
“Falou man!”
“Até!”
Fiquei cabreiríssimo com a história, e conjecturando, claro, escrevê-la. Mas talvez se trate de um relato a ser esquecido. Penso se todo livro não é feito para nos esquecermos dele, afinal.
No elevador tentei abstrair, imaginando outras coisas. Clientes, ilustrações, camisetas. E juro: senti que não estava sozinho na cabine. Tive falta de ar. Era como se algo tentasse me sufocar.  E então o elevador deu uma travada entre o sétimo e oitavo andar, mas graças a Deus voltou a funcionar. 

André Ducci
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://abducci.blogspot.com

 Fabiano Vianna
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também o blog www.contosdapolpa.blogspot.com.