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26 de out. de 2012

Tentáculos

Conto: Otavio Linhares
Ilustração: Sueli Mendes


logo ao acordar notei tentáculos em meus braços. tatuagens, pensei. fui tatuado enquanto dormia. empurrei-a com o cotovelo. viu isso amor? são lindos, disse e voltou a dormir. levantei e fui tomar um banho. estavam por toda parte. nasciam das costas, do lado esquerdo. de uma bola de fogo. e eram roxos. sem ventosas. nas pernas eles eram mais finos e balançavam. dentro do olho cortavam a pupila ao meio e eram pretos. bem finos. as pálpebras abriam e fechavam. ora pra cima e pra baixo, ora pros lados. e os cabelos haviam sumido. interessante, minhas gengivas estão negras e os dentes amarelados. toquei as cavidades ao lado da cabeça. e elas tem a profundidade de um dedo. há mais duas dessas na região da pélvis. alguns tentáculos maiores nas costas. de vez em quando se descolam e tentam agarrar os objetos que estão por perto, principalmente os amarelos e vermelhos. eles os quebram e os largam no chão e logo procuram por algo novo em que tocar. porque estão me arrastando pra fora do banheiro? dois deles se lançam contra o corpo da minha namorada e a penetram na vagina e na boca com velocidade. me desequilibro e caio de costas sobre ela. todos atacam ao mesmo tempo. eles a absorvem em poucos segundos. sinto a energia dela atravessando para o meu corpo. fluindo em minhas veias. aos poucos os tentáculos vão sumindo de mim. um vazio toma conta do quarto. olho meu corpo e ele está limpo dos desenhos. agora tenho grandes seios e um quadril largo. lábios grossos e cabeleira ruiva. toco meus buracos. 

Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

Sueli Mendes
Seus trabalhos podem ser visualizados no blog: 
bigandlittledreams.blogspot.com

3 de ago. de 2012

Passaúna

Ilustração: Foca Cruz
Conto: Otavio Linhares



Três batidas no vidro da porta. Nenhuma resposta. As pessoas dentro da casa saíram correndo se esconder. Ninguém queria vê-la. Ninguém queria saber da existência daquela velha sozinha que morava na casa ao lado.
De fato, pelo que era sabido no bairro, se tratava de uma senhora de uns noventa anos que mancava pra cima e pra baixo apoiada numa bengala velha de madeira, e que chorava quando não era atendida. Todo mundo sabia que ela chorava quando não era atendida e por isso todos a tratavam mal.

não consigo respirar

É sempre assim com os velhos. Principalmente com os velhos chatos que já não prestam mais e que ficam incomodando os mais novos com seus problemas gástricos, seus ossos quebradiços, enxaquecas, dores e mais dores que deviam ser anuladas por algum tipo de morfina.

- Porque não inventaram um remédio que nocauteie a dor? Talvez a morte seja esse remédio.
- Talvez a morte seja um bom remédio pra esses velhos! Eles estão infestando a cidade igualzinho fizeram com a Europa. Pode crê!

Sussurrou Baltazar que estava dentro do armário, enquanto João tentava se enfiar debaixo da cama.

- Um subproduto velho da cultura! Nada mais!

Bradava com a voz espremida a namorada do Santana, Anita, detrás de um sofá que ficava bem no meio da sala. Esse foi o lugar que restou quando todos se mandaram pros seus esconderijos já manjados. Ela que era nova acabou saindo por último e ficou por ali mesmo, com o baseado na mão, deitada atrás do sofá tentando se comunicar com o namorado que tinha entrado na cozinha, e vez ou outra jogava alguma fruta só pra provocar.

o peito apertado

- Vocês deviam ter um pouco de pena da velhinha. O que que custa dar uma mão?
- Vai lá então, Robin Hood!

Noé estendeu bem o braço pra fora do banheiro e fez aquele sinal com o dedo do meio. Detestava quando José o chamava de Robin Hood. Ele estava mesmo incomodado com a situação. Vendo seus amigos fugindo do que ele imaginava ser apenas um ser humano precisando de ajuda. Mas também não tinha a capacidade de se mover. Estava, como o Zé Galinha diz, “meio ressabiado”. Então, ficou por lá mesmo. Sentou na privada e começou a pensar em coisas boas, sua mãe sempre lhe dizia que pensar em coisas boas atraía coisas boas.

Besteira.

Feito apocalipse corpo desabou quebrando o vidro da porta. Caiu aos pés das bicicletas na entrada da sala. Câmera lenta. O corpo era magro demais. Foi como se um travesseiro de penas de ganso tivesse sido estourado na nossa frente. O vento que entrou pela porta levantando os cabelinhos, a bengala caindo dois metros à frente, o vestido preto com rendas, a cabeça branca quicando três vezes no assoalho de madeira, e no final o sangue escorrendo bem devagar.

- Ela tá morta?

Ela estava morta. E não sabíamos o que fazer.

- Pelo menos ninguém viu, né?!

Anita sugeriu. Tinha medo que sua mãe descobrisse e a mandasse de volta para o interior, cancelando seu curso de jornalismo na universidade católica.

- Cê tá com medo!
- Cala a boca e me ajuda, o corpo dela é pesado.
- Bóra enterra essa véia lá no Passaúna.

Eu estava bem puto porque o corpo ia viajar dali a até a Represa do Passaúna no porta malas do meu carro.

- Porra, Dedé, não fala assim com ela.
- Agora o namoradão vai defender a namoradona?!
- Logo você que sempre foi do tipo “primeiro eu, depois os amigos, depois as namoradas”!

Todos riram menos o Santana e a Anita que se olharam e se abraçaram. Ele gostava era dos peitinhos dela, que cabiam feito uma laranja madura em uma das mãos, enquanto a outra prestidigitava seu clitóris. O bobão confessou isso pra gente dois dias depois de ficar com ela na festa de dez anos do Wonka Bar. Feito um babaca.

- Bem teu tipinho, né Santana?
- Agora vai bancar o namoradão!
- Hahahaha!!!
- Pega as pernas da velha e...

TRIIIMMM

Todos se arregalaram quando o interfone da casa tocou. O corpo da velha caiu pela segunda vez.

- Merda!
- Vai alguém lá na frente ver o que é!
- Porra, vai você, Edu!
- É, pô, cê não tá fazendo nada aí!
- Daê galera!

A porta abriu.

- Uauuuu! Que é isso? Vocês pegaram um peixão e não me chamaram?! Safadinhos?!

O Gigante pulou o muro da casa e foi entrando. Era muito comum isso entre nós, um ia entrando na casa do outro sem pedir licença, e fuçando na geladeira, e mexendo nas coisas, enfim, crescemos assim.

- Essa velha caiu morta pela porta faz meia hora.
- E porque vocês tão com ela aqui no porta malas?
- A gente vai levar ela no Passaúna.
- Pra que? Aquela porra já é um cemitério. Porque a gente não queima dessa vez?
- Porque não fomos nós que a matamos.
- E qual a diferença? Se a polícia chegar agora aqui, vocês vão levar duas semanas pra provar que não foram vocês e não vão conseguir.
- Então?
- Então  o que? Vâmo cavá um buracão, enchê daquelas coisa de pinheiro, e tacá gasolina! Jogâmo uns toco véio por cima e assamo uma picanhota e pronto!
- Será?
- Pra que complicá, Zezé?
- Meu nome é Dedé.
- Foda-se você e esse teu nome de merda. Pega lá aqueles negócio do pinheiro e você aí vai cavando e não olha pra trás.

Gigante filho da puta, foi o que o Dedé pensou. O Gigante foi pra cima da Anita, dando uns amasso nela. O Santana não gostou muito e foi pra cima dele com a pá. Deve ter passado pela cabeça dele dar uma pazada certeira no meio do crânio do Gigante, mas o grandão olhou pra ele e ele ficou paralisado. Não se moveu por uns minutos. Enquanto isso eu e o Edu e o Carlinhos fomos pegar madeira e aqueles negócios de pinheiro pra fazer o fogo. Quando voltamos, a Anita estava dentro do buraco com a velha. O corpo dela parecia que tinha sido dilacerado por um lobo-mamute. Ela estava toda arreganhada e sangrando muito, mas estava morta. O Gigante tinha sumido. O Santana estava com a pá apontada pro céu e completamente congelado. Zumbizaço. Tentamos reanimá-lo, mas nada. O negócio foi encher o buraco com aquelas madeiras e tocar fogo nos dois corpos. Ainda jogamos bastante gasolina pra queimar rápido. Não queria que a mãe do Bruninho chegasse e pegasse a gente queimando a velha da casa ao lado e a gostosa da Anita.

Foca Cruz
Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

14 de abr. de 2012

El baile de los locos

Texto: Otavio Linhares
Ilustração: Daniel Gonçalves




- Nenhum lugar pra ir. Ninguém pra matá.
- Dia chato, né, man.
- E se a gente saísse por aí atrás de um pózinho mágico e de um pouco de diversão?
- Faz tempo que a gente não se diverte, hein?!
- Vâmo dá uma voltinha, então.
Afirmativo como um macho no cio catei um punhado de balas de prata que estavam na primeira gaveta da mesa do escritório e meti no bolso do casaco. O Florestano sempre me disse pra nunca sair de casa sem elas, ainda mais em tempos de fim do mundo. Criaturas estranhas costumam sair às ruas nesses dias de apocalipse. Carreguei a Jéssica com as pontas ocas que tinham ali por cima. Meti a cobertura na cabeça. Fui dar uma mijada rápida e por acaso dei uma olhada no espelho do banheiro. Parecia que a velha cara não tinha mudado nada. Um pouco mais soturno e sábio, diria alguém que já morreu. Os olhos mais fundos e enfiados pra dentro do crânio, os lábios mais secos e duros, lembrando de longe o Clint Eastwood, mas com uma leve e destoante diferença: o sorriso tinha voltado aos dentes. Os velhos erros tinham ficado pra trás.
Lufus
Por um momento a imagem daquele velho safado passou pela mente. Alguns meses sem vê-lo e eu nunca tinha pensado na sua ausência. Talvez ele devesse voltar, talvez não deixe ele lá, man. Cocei o nariz. Chupei os dentes fazendo aquele barulhinho agudo e estridente. O ar passou fácil pelos buracos. Passei o pentinho vermelho na barba.
- Vâmo, man. Cê parece que vai visitá a vovozinha.
Por que a Jéssy está sempre certa?
- Olha aqui, beibes. Um pouquinho de vaidade não vai matá ninguém, ok? Tô velho e isso parece bom.
- Humpf... Pra mim você continua o mesmo idiota engraçadinho de sempre!
- Hehe. Gosto quando você fala assim.
Ela sabe como me agradar. Sempre na medida certa. Um pouco mais de cinismo e ironia e ela seria um daqueles canas da ditadura que gostavam de bolinar criancinhas e correr atrás de meninos jovenzinhos vestidos com camisetas do partidão e fazer perguntas imbecis.
HAHAHAHA
Esse pensamento me fez soltar uma gargalhada animalesca. Gosto de imaginar aqueles cretinos torturando as pessoas, sendo machões em porões de prédios abandonados, no escurinho, longe das esposas e das crianças, e da família que vai perguntar no almoço de domingo como anda o trabalho, e o imbecil vai ter a cara de pau de dizer que anda tudo bem hahahahaha, que estão capturando inimigos da nação pelas ruas papai é um herói! Eu, o Flores e o Lopes poderíamos assá-los num sete de setembro enrolados em papel alumínio hahahahaha feito peixes com os olhos esbugalhados e a língua de fora pedindo perdão que do caralho, com a bandeira nacional sobre a mesa onde pingaríamos nossas babas e chuparíamos os ossinhos dos cretinos, e lógico, aos uivos, brindaríamos com sangue.
HAHAHAHA
- Seria bem divertido, né amores?!
- Claro, man. Claro que seria.
Ela diz isso rindo com o canto da boca como faz o Florestano. Mas com ela não me irrito. Nem com o Flores. É que com ele é diferente. A risada dele é sempre sinistra. Parece que esconde o real motivo de estar rindo você é sinistro, sabia disso, Boaventura? Pergunto pro espelho que me olha sem entender nada.
- Será que dá preu tomá uma cerveja que tá na geladeira antes de sairmos?
- Por que não?
- Sei lá... bateu uma vontade de dá uma olhada pela janela e fumá um cigarro... fica olhando a Boca Maldita.
Acendo um cigarro e vou em direção à janela. Abro. Venta muito. Olho pra baixo e dá vontade de sair voando.
- Você ainda tem esperança.
- Não.
Não há nada pra se contemplar dali de cima. Só o barulho da noite. Aperto com força o gargalo da garrafa e viro de um só gole a long neck. Descemos as escadarias do Edifício Asa e muitos barulhos preenchem o silêncio. Estupros. Violências veladas. Pequenos furtos de sensações que vazam por debaixo das portas. Dez andares de sinistros sentidos. No oito paro pra ouvir um velho gemendo de dor. Como se rastejasse do quarto ao banheiro em busca do remédio que vai fazer seu coração voltar a bater. Quinze segundos e o velho uiva baixinho como se lhe tivessem tirado algo. Encosto a mão na porta. Eu poderia entrar e acabar com isso de uma vez. O sofrimento do homem não me interessa, apenas o quadro que foi pintado quando ele quase chegava ao banheiro. A mão estática sobre a tampa da privada. Os olhos de desterro. No fundo alguém uiva. Desço. Gritos nos corredores. Muitas pessoas matam sem que saibamos. Tenho certeza que nos tapetes das portas de entrada o pó poderia nos contar o que houve. Mas já sabemos, não é mesmo? Não há o que contar. No 202 uma mulher grita com uma criança. Sabe aqueles gritos? Aqueles gritos que nos forçam a desabar e com força descomunal resistimos até os joelhos estilhaçarem em pedaços? A Jéssica se contorce. Por que ela sabe. Não há lugar pra ir. Algo explode dentro daquele apartamento. Consigo sentir. Corro em direção à porta e com um chute a arrombo. O apartamento pega fogo. Pela porta uma enxurrada de gatos foge para as escadas de emergência. A criança acuada por labaredas se esconde atrás do sofá, perto de uma mesa alta com um telefone. Estico o braço e a encosto. Ela me arranha. Os ferimentos vazam pus. Sorrimos um para o outro. Saio do apartamento e continuo descendo as escadas até chegar na portaria do prédio onde o piá da portaria abre as correspondências dos condôminos. Ele se masturba lendo uma carta escrita à mão. Não me nota. Não está nem aí. Vejo a rua por detrás da porta de vidro que nos separa da praça onde meninos jogam bola e saio correndo pra ver se ainda dá tempo de fugir. Seguro a porta que desaba sobre mim. Jogo-a de lado e piso o petit-pavé. Estou a salvo. Mais uma vez. De volta à selva.

Percorro a rua XV em direção á Monsenhor Celso. São duas da matina. Só zumbis saem a essa hora. Identifico uns quatro, cinco. Velhos conhecidos. Vendedores de almas. Me oferecem algumas, mas digo que não.
- Hoje, não, amigo.
- Hoje vamos nos divertir.
- Mas eu tenho o que vocês querem, senhores.
- Então me dê três de uma vez.
Pego o que ele me dá. Vem num saco de pão escrito PRODUTO META-INDUSTRIALIZADO.
- Meta a putaquepariu!
Ela não se agüenta e faz um comentário ardido.
- Isso é sacanagem. Ninguém fica na XV até duas da matina pra vendê esse tipo de porcaria.
- Relaxa, amorzão.
- Relaxa o caralho! Quero vê a hora que você abrí esse pacotinho e vê que se fudeu.
Coloco a mão dentro do pacote e um escorpião pica a ponta do meu dedo. Meu dedo apodrece e cai no chão. Me abaixo e o guardo dentro do saco. Enrolo o pacote e continuo subindo a rua. Pessoas sintomáticas caminham de mãos dadas. Procuram pedras pelo vão das pedras. Lá na frente um brilho. A Catedral de Curitiba. Centenas de pessoas à sua frente rezando alto. Gritam. Berram. Esperneiam.
- Que que tá rolando?
E um mendigo ri.
Pego o homem pelo pescoço e suas veias saltam pra fora feito tentáculos. Seus olhos enchem de piche e ele começa a vomitar sanglava. Deixo-o ali caído e afundo o pé na terra para entender.
Nada.
Então, vejo um velho conhecido descendo a rua com as mãos no bolso. Ele me reconhece e conversamos um pouco sobre o de sempre. Ele me conta que ainda há esperança e que posso ficar tranqüilo com relação aos acontecimentos presentes que, segundo o rádio, nada de mal vai nos acontecer se permanecemos unidos.
- Amém.
- Oxalá.
Nessa hora tenho vontade de aspirar todo o ar a minha volta e o faço. Os que rezam tombam. O brilho cessa. É a dor de ter contraído uma doença incurável.
- Largue isso!
É uma velha mania que eu tenho, a de obedecê-la.

Por cinco minutos ficamos em silêncio profundo. Então abrimos os olhos e nos beijamos. O gosto metálico e frio da sua boca me congela e me penetra. Não vejo mais o futuro. Só a música que paira sobre nós. Uma música feita por artesãos hábeis que se movem na velocidade da luz e nos invadem pelas unhas, por isso perdemos os controles das mãos e agimos feito bestas indomáveis por anos a fio.
- Man! Atrás de nós! Corre! Rápido!
Dobramos sete esquinas seguidas feito nós cegos, sem parar de correr, até que uma moça nos pede informação. Isso nos acorda por um instante. Estamos na esquina da Cruz Machado com a Ermelino de Leão. Sentimos a Encruzilhada como parte do nosso projeto genético. A música nos percorre e nos deixa mudos. Um desejo insaciável aflora. Saco a Jéssica. Movimento de luz. Indescritível prazer. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes aperto o gatilho e deixo transpirar a vontade. O suor inunda o asfalto. Oito faces partidas com os machados das pontas ocas dos projéteis de prata.
HAHAHAHAHA
- Quer saber que música toca entre um pensamento e outro?
HAHAHAHAHA
Deixemos o riso tomar conta desses últimos milésimos antes que partamos.

Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  


28 de mar. de 2012

Rodada 3


A 3ª rodada começa dia 2 de Abril. Novos ilustradores se juntaram ao grupo este mês: Dea Lellis, de São Paulo e Pedro Giongo de Curitiba. Também o escritor Diego Gianni de Curitiba. Outra novidade é que nos últimos dias da rodada, que durará 45 dias ao todo, publicaremos contos mais longos, divididos em capítulos. O primeiro será de FMAN, dos dias 23/04 a 28/04, ilustrado por Isabele Linhares. Seguido de um meu, do dia 30/04 a 05/05 em 6 capítulos com fotografias de Marco Novack. O próximo de Eduardo Capistrano, do dia 07/5 a 12/05 ilustrado pelo Foca e o de Otavio Linhares dias 14/05 a 17/05 ilustrado por Daniel Gonçalves. O cronograma completo está aí do lado. A ilustração do cartaz é de Isabele Linhares.

17 de fev. de 2012

Porque você não existe

Ilustração: Carol Winter
Texto: Otavio Linhares



durmo e acordo pensando em você. nos teus contornos, nos teus buracos, na tua chama que voraz, respinga em meus olhos e me atordoa. são desejos que não transbordam, recalcam, se retraem. por isso, nessas horas, não falo nada, apenas lembro de você como num futuro, uma estória a ser escrita, algo que as mãos ainda não tocaram, mas que sabem reconhecer a temperatura, distinguir o cheiro, passear a textura, sabem exatamente como você é. por isso não abro a boca quando pronuncio seu nome e mantenho sempre os olhos fechados, porque sei que serei guiado sem pedir licença.

os contornos do teu corpo são o meu mais íntimo nada necessário
um falo, uma vagina
todos os buracos
uma língua
sim e não
quando juntos, um só
nunca separados
potência máxima
ilimitado

você não sente?

por isso não importa, não é?

é como se não valesse nada

só há nada entre nós, a ponta do iceberg, e o grande X marcado com sangue na terra. aos outros só poderíamos pronunciar palavras indizíveis, espalhar sombras, velar os corpos, rir pelas almas e satisfazer nossos egos tatuados em todas as nossas línguas. dentre todos eles não há um que reste para servir de mártir da coisa nenhuma, de engodo, de enfadonho desejo. dentre todos os restantes haverá um que não tenha sentido do próprio gozo congelado na garganta e engolido seco seu próprio genocídio?

quando aponto o olho esquerdo até você e deixo o frio sair, não quero dizer nada. digo nada. um grande tubo vendado com uma boca cheia de dentes, donde bolhas vazias de metal cinza saem feito metralhadora giratória.

invólucro pertinente
algoz furioso
mentecapto restante
limite velado
falha abissal
loquaz ferido.

bem lá no fundo, no começo do fim de todas as coisas, quando abro os olhos, não vejo você. porque você não existe.


Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

Carol Winter
Os videos de sua produtora, WTF?! Filmes podem ser vistos em:  wtffilmes.wordpress.com

15 de dez. de 2011

Rato de Praia

Texto: Otavio Linhares
Ilustração: Foca*
*Inspirada na capa do disco "In the court of Crimson King", do King Crimson, 1969. Para ler o conto ouvindo a trilha sonora, clique aqui.


                – Eu tenho de  chegar lá!
     – Aonde, man?
     PAM!
     PAM!
     PAM!
     Três tiros vieram na minha direção e acertaram as paredes do beco.
     CRASH!
     Pedacinhos de tijolo voaram por cima do meu chapéu. A Jéssica estava vazia e eu começando a sentir saudades do Fúlvio. Parei atrás de um Transresíduos no canto da rua. Sentei no chão e tentei bolar uma estratégia com ela.
     – É o seguinte. Esses miseráveis não têm a manha de como acertar um cara, pelo jeito são meio ceguetas, então a gente vai sair correndo até aquela porta, entrar com o pezão nela, e fugir por cima desse prédio. Lá em cima eu sei que tem uma saída conectada com o prédio do lado.
     – Ótima ideia, Linhaça! Mas você já combinou com os safados pra eles não acertarem nenhum tiro na gente?
     – Hahaha! Você é demais, amorzão. Se liga, vai ser no três. 1, 2,... foi!
     A porta estava aberta e não precisamos quebrá-la, mas a saraivada de tiros foi infernal. Os caras devem ter dado pelo menos uns quinze tiros em direção à porta e por sorte nenhum deles nos acertou. Caí com a Jéssica enrolada no casacão. Rolei feito um cão que perde a rinha e continuei correndo pelo corredor escuro. Naquele momento eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo, nem aonde ia dar aquele final de noite, mas uma coisa era certa: aquele era o prédio da Ana Escovinha e ela ia me receber nem que fosse “por amor”.
     Fomos eu e Jéssica pelo subterrâneo do prédio da Ana e ouvindo o barulho dos safados diminuindo atrás de nós até que pararam, ou pelo menos eu acho que pararam, o que dá na mesma. É que sem munição e com a patinha esquerda fodida eu não estava dando nem pro gasto, e a visão ainda estava embaçada por causa do socão que eu levei na saída do baile.
     – Porra, Linhares, você tá só a capa da gaita!
     – Relaxa, amorzão. Amanhã vai tá tudo bem. A gente acha a saída e cai fora. Vai ser fácil.
     – É sempre fácil...
     Os infidáveis corredores davam numa porta de ferro. Abri sem muito melindre. Dava pra garagem do prédio. “Maravilha”, pensei.
     – Maravilha!
     – Ei, man, podíamos simplesmente pegar um desses carros e...
     – Nem fudendo! Sem o Inércia eu não volto pro escritório!
     – Ok. Mas o Inércia tá lá na Cruz Machado com o pneu furado, o vidro da frente quebrado, e os caras ainda ficaram com a Derruba Delinqüente.
     – Ficaram nada. Eu escondi a fitinha aqui ó, um pouquinho antes de começar a putaria toda.
     – Menos mal.
     – E também, tem outra, o Inércia é a única viatura que ainda roda com toca-fitas, portanto, quem vai querer aquilo?
     – Nesse ponto você tem razão. Ninguém ia querer arrancar o som do carro, a não ser que fosse por vingancinha. Hehe
     – Mas daí eu vou até o inferno pra achar o cretino que fez isso.
     – Se já não fizeram, né?
     – Ô, amorzão, cê tá do meu lado ou do deles?! Pô!
     – Foi mal. Tava pensando nas possibilidades.
     – Relaxa, depois a gente pega o Inércia. Duvido que alguém vai querer fazer alguma coisa com ele.
     Paramos na frente do elevador.
     – Qual andar?
     – Sei lá, beibes. Acho que o 15.
     – Da última vez era o 14.
     Entramos no elevador.
     – Vamos parar no doze e subir de escada, tô achando que vai dar merda.
     O elevador parou no andar térreo e entraram quatro caras não muito felizes. Não deram o tal “oi” de elevador, que é muito comum por essas bandas, e ficaram de costas. Foi fácil perceber que estavam armados, e que os trabucos não eram pouca bosta, e o cheiro de cachorro que saía dos meninos não era brincadeira, parecia que eles tavam brincando no esgoto. A Jéssica também sacou na hora o que estava acontecendo.
     “Aê, mores, acho que são os caras do Fala-Fina”
     “Comé que cê sabe?”
     “Olha a marca no pescoço, é igual a dos caras de Guaíra”
     “Merda! São eles!”
     “Devem tá indo no mesmo lugar que a gente”
     “Isso é bom, assim a Ana não tem como não atender a gente”
     “Hehe, é vero”
     Descemos no 12, enquanto os caras desceram no 15. Eu estava certo quanto ao andar, mas isso pouco importava naquela hora. Subimos correndo de escadas porque a confusão ia começar de novo. Já estávamos quase chegando no na porta de acesso ao corredor quando escutei um dos caras com voz de cachorro...
     – É o siguinte, dona Excova! Tâmo sabenu que a sinhora tá abriganu uns elemento extranho aí no seu domicílio!
     ... o jeito de falar me lembra aqueles policiais marrentos com sotaque carioca, tipo rato de praia, mas que não nasceram no Rio, mas de alguma forma acham que sim.
     – Me desculpe, Seu Policial, mas aqui não tem ninguém.
     – Então a sinhora num vai simportá de que a gente teja danu uma olhadinha pelo seu dumicíliu, num é verdade?
     Os outros dois riram.
     – Dois, amorzão? Mas cadê o terceiro elemento?
     – Puta merda! Não olhe pra trás, mas acho que ele está... respira... relaxa.
     Devagar
     Bem devagar fui virando
     Virando
     Olhando com o canto do olho
     Devagar
     Então fui virando a cabeça mais um pouco
     Olhei pra trás.
     PAM!
     Não tinha ninguém.
     – Ufa!
     – Mas ele deve tá dando a volta pelas esca...
     – Não! Melhor! Ele já entrou no apartamento por outro lugar e a gente não viu! Caralho! Vamos ter de dar um jeito nesses caras nem que seja na cara de pau. Eles não reconheceram a gente no elevador, mesmo.
     – Devem ser recrutas novos.
     – Provavelmente.
     Saímos bem na boa de dentro da porta de ferro que dava pras escadas do prédio. Não sabia muito o que dizer, mas na hora sempre acaba vindo umas merdas. Os caras continuavam lá na porta, parados feito dois de paus. Parecia que estavam me esperando pra continuar com a estória. Chegamos meio falando e já meio entrando ao mesmo tempo.
     – Ana, minha querida Ana, desculpe-me o atraso, mas por motivos insuspeitados que eu não poderia lhes narrar neste instante, eu e Jéssica, que está vazia e magrinha a tadinha, tu me entendes não é, acabamos nos atrasando. Na verdade, ela nem pode vir porque não fica de pé a coitada, está toda esmilingüida, caidinha, e como diriam nossos pais, ‘tá dodói a mocinha’, tu sabes né?
     “Porra! Manéra no exagero, né beibes”
     – e por isso não pôde me acompanhar nesta ilustre visita que vos faço de coração, mas também, vejo que estás acompanhada. Quem são vossos amigos?
     – Aê, dona, quem é o cabeça de alfinete, aê, hein?
     – Desculpem-me, mas esse é o meu...
     – Irmão, de Lisboa, Portugal. Muito prazer, eu me chamo Carlos. Carlos Aphonso Silllva. E os senhores?
     Fiquei com a mão estendida e a cara de trouxa olhando pra ele, que não moveu um cílios sequer. Apenas se voltou pra Ana com ar de reprovação. Eles deviam estar num esquema que eu estava atrapalhando. Como eu já estava pra dentro do apartamento e eram eles que deveriam entrar, fui rápido passar um café.
     Eles entraram. Ficaram todos de pé no meio da sala. Os três, o que era pior, porque ainda faltava um safado. A Ana veio até mim, não falou nada, apenas me entregou uma caixinha de remédios e voltou pra sala. Passei o café. Na sala eles discutiam algo sobre hoje à noite, armas, drogas, aquele papinho de sempre, mas falaram também no nome do Fala-Fina, e isso me interessava e muito. Depois da Chacina em Guaíra, o único sobrevivente foi ele, e andei sabendo que ele estava montando um negócio de carros pelo interior do Paraná. Umas concessionárias de carros montados no fundo de quintal com peças que vinham do mundo inteiro. Parecia um negócio bacana. Me chamou a atenção porque o Inércia ia mesmo precisar de uma recauchutagem completa quando voltássemos pra casa...
     – O que cê tá fazenu aí?
     Um dos Capangas veio espionar o meu café.
     – Café. Sabes, café? Uma frutinha vermelha que cresce num pé e que usamos a semente, e que depois de torrá-la faz-se uma infusão com água quente para se obter um liquido maravilhoso, e que se chama café?
     – Chama o que? Que cê tá falanu, cara?
     Num movimento rápido meti uma gase embebida numa substância (que nem o Florestano deve sabe o que é) no nariz do cara. Tava na caixa de remédios. Achei que poderia ser útil. O cara deu uma baforada no paninho e caiu. Tive de segurá-lo pra ele não derrubar a cozinha inteira. Levei-o até a lavanderia. A Jéssica urrava de alegria no coldre do casaco. Com um pouco de esforço fiz uma alavanca na janela, subindo num banquinho que tinha na frente do tanque e taquei o corpo lá pra baixo. Ainda deu tempo de ver o pacote estatelar no chão. Tenho certeza que em quinze minutos a policia vai aparecer por lá causando uma confusão animal.
     Continuei servindo os cafés. O ratão gritou lá da sala.
     – O Zé, cadê você? Qui ceis tão fazenu aí, caralhu?
     Peguei a garrafa térmica e umas xícaras e fui até a sala.
     – Olha o cafezinho! Posso servir vossos convidados, Ana?
     – Claro, Linha... Afonso... Claro, Afonso!
     “É com PH sua semi-analfabeta”
     “Quieta, amorzão. Esses caras não vão nem se ligar”
     Às vezes, a Jéssi encuca com cada coisa...
     – Toma aqui o vosso, o vosso... Onde está vosso amigo?
     Um dos caras foi até a cozinha chamando pelo amigo. O chefe já estava puto. Estávamos adiando a merda, mas felizmente eu já tinha carregado a Jéssica com o que a Ana tinha me dado. Então mandei todo mundo pro chão.
     – Todo mundo pro chão!
     A Jéssi veio pra mão tão feliz que eu até me emocionei.
     – Desculpa te deixar lá dentro tanto tempo, beibes.
     – Não dá nada! Agora manda chumbo nesses idiotas!
     – Calma, mores. Precisamos saber onde está o quarto cara.
     É lógico que nenhum deles se atirou no chão, senão eles não seriam capangas ou coisa que o valha. Cada um sacou seu próprio revólvinho e começou um tiroteio monumental no meio da sala da Ana. Eu me joguei pra trás de um sofá. O chefe dos ratos de praia deu um mortal de costas.
     – Coisa de ninja, hein, Jéssi!?
     – Pois é, pelo jeito as coisas estão melhorando pro Fala-Fina com esse negócio de venda de carros.
     El Ratón caiu perto do corredor e ficou por ali atirando. A Ana se arrastou pra baixo da mesinha do telefone. O cara que restou levou um tiro logo de cara e ficou todo cagado no meio da sala.
     Por um instante pairou silêncio, como se as ondas estivessem ido se refugiar no mar. Olhei pela janela e o mar estava indo embora, levando todas as pessoas da cidade com ele. E elas caem pelas janelas de braços erguidos, com os olhos fechados, gritando alguma coisa que não dá pra entender. Então olho pro outro lado da rua e um menino de uns quinze anos com uma placa pendurada no pescoço escrito Marcelo me chama e pede que espere por sua mãe que está no banheiro, pois ela parece querer conversar comigo. Enquanto espero entro através da porta ao lado e mijo no próprio pé.
PAM!
PAM!
PAM!
     – Acorda, Linhaça! Onde você tava?
     – Lugar nenhum. Tava calculando o tiro.
     – Olha só, o ratão acertou um tiro na boca da Ana.
     – Putz... que merda! Vamos ter de pegar o cara, então, nem que seja pra pagar a porra do café.
PAM!
     – RATÃO, CÊ TÁ FURANDO A PAREDE TODA MAS NUNCA VAI ME ACERTAR! VOCÊ É MUITO RUIM! Hahaha ele vai ficar puto, né amorzão?
     – Eu sei como é, você também odeia quando eles falam assim com você.
     De repente, o cara não tava mais lá atrás da parede do corredor. Não vinha mais barulho algum de lá. Ficou silenciosa a sala. Corri de trás do sofá pra onde o safado estava e de fato ele não estava mais lá.
     “Amores, escuta isso... a respiração ofegante”
     Tinha alguma coisa respirando rápido, muito rápido e muito perto de nós, mas eu não conseguia ver.
VLÓSH!
     Isso sempre acontece quando me descuido. O monstrengo estava agarrado ao teto com suas patinhas de ratazana. Ele esperou eu me descuidar, trepou na parede e ficou esperando até eu parar ali embaixo pra me dar um golpe certeiro na nuca. Ainda bem que ele é sozinho e eu tenho a Jéssica, porque bem no momento que a bocarra do cretino estava engolindo a minha cabeça,
PAM!
     porque sim, ele cresceu dois metros depois da transformação. A Jéssi acertou seu OneShot bem no meio da fuça do safadão, um projétil .44 de prata bem no meio daqueles olhinhos pequeninos e entupidos de ramela. O que havia dentro da cabeça acabou redecorando a sala com um vermelho tão intenso e cheio de pingos e fios, que nem mesmo o Pollock sacaria qual é a da nova pintura da sala. A bocona do rato ficou arreganhada com a linguona pendurada pra fora, com uns pedaços de dentes semi-pontiguados e podres espalhados pela sala.
     – Aspecto interessante o desse sujeito. Vou pegar uma amostra pra levar pro Florestano. O Fala-Fina anda fazendo modificações na estrutura e é bom a gente se dar conta do que está acontecendo por aí.
     – E o quarto cara, Linhaça?
     – Sei lá, deve ter fugido de medo. E ainda tem os caras que tão caçando a gente também. Acho que o melhor agora é tomar esse cafezote e esperar a polícia. A gente sai disfarçado de PM e depois pedimos pra rebocar o Inércia até o DP.


            Detetive Linhares



Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site  otaviolinhares.wordpress.com

Foca Cruz
Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

5 de dez. de 2011

Por que Lama?


Edição rara, Lodo nº 29, de 1950.

Por que o nome é Lama? Primeiramente queríamos homenagear a Lodo, de Florestano.  A Lodo é uma revista criada na década de cinqüenta, e que nos inspirou a criar a Lama. Publicada pelo Florestano Boaventura, escritor que mora atualmente no bairro do Uberaba, em Curitiba. Ele publicava estas revistinhas, formato cordel, desde 1948, com histórias pulp, de horror e fantásticas. Mas por algum motivo parou de fazê-las na década de setenta. Muita gente nunca ouviu falar. Resolvemos então prestar uma homenagem criando a Lama. Inclusive o nome, tem a ver e até o número de letras. 
Daí quando ficou sabendo da Lama, Florestano entrou em contato conosco e disse que se quiséssemos poderíamos republicar algum material das Lodos antigas e nos cedeu contos e revistinhas. Propusemos a ele então de fazermos um novo design e novas ilustrações e lançar a partir do número que ele havia parado, número 127, junto com a Lama 2. E ele topou. Daí o Daniel Gonçalves ilustrou e diagramou as histórias que reeditamos nesta Lodo nº 127. O nosso parceiro lamacento Otávio Linhares também teve um papel importante no processo, porque foi ele que primeiramente teve contato com o Florestano e passou também a escrever novas histórias para publicarmos na edição.


Lodo nº 127 editada por nós: Fabiano Vianna, Daniel Gonçalves, L.F. Leprevost, Milena Buzzetti e Otávio Linhares, Junho de 2011.Contos de Florestano Boaventura, Dragomir Kephas, Fúlvio Lopes e Detetive Linhares.

Depois tínhamos a vontade que fosse também um nome em português e curto. Lama além de satisfazer estas questões, é uma metáfora também de uma cidade construída sobre o pântano, que é Curitiba. Também existe o provérbio “Sujeito está na lama”, utilizado quando o cara está na pior. E, de certa maneira, nas histórias pulp sempre tem alguém em apuros. Cadáveres enterrados na lama.
Depois, por pura coincidência, descobri que o nome do edifício Tijucas, sede da revista, significa em tupi-guarani: lodo, pântano ou lama. Viemos para o lugar certo sem saber. Ou será que foi o pântano que nos atraiu, através de seus tentáculos até aqui? Heheh
Agora, o que levou Florestano Boaventura a batizar a Lodo, não sei. Preciso perguntar a ele. 

 
Edição rara, Lodo nº 29, de 1950.