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28 de ago. de 2014

Zumbi colega é uó

Conto: Paco Steinberg
Ilustração: Gihad Hak



“Quieta! Fica quieta! Olha que eu te mato! Vou te foder, sua piranha, e é melhor você ficar bem quieti... mas que porra é essa?”

-Você tá brin-can-do que ele foi grosso desse jeito?
-Pois é. 
-Amiga, como assim? O cara não viu que você tava se transformando? Ui, homem é muito devagar, né. Lua cheia, a louca entupida de pelo uivando pra lua, ele acha que é o quê? Tpm?
-Ai, zumbizete, fica quieta, deixa ela terminar de contar.
-Então. Eu dei uma torturadinha antes de matar, né? Quebrei uns dedos, furei os dois olhos, arranquei um braço, básico. Ele sangrou um monte, ui que nojo. Ainda levantou e saiu correndo! Acredita?
-Gente. Tô passada.
-Tá nada, esse seu lençol tá um horror! Fantasma neoclássica é uó.
-Ei, não fala assim da Mary Antonieta! Olha o bullying! Deixa eu falar?

CON-TA! CON-TA!

-Então... aquele tarado fajuto começou a correr que nem um desesperado, gritando muito! Medo! Acho que ele era de Sagitário, ui, odeio gente exagerada. Corri demais atrás dele.
-Ai, que fim de carreira. Eu nem me dava o trabalho.
-Pra você é fácil, né, querida, pega a vassoura, dá uma voadinha e pronto! Além disso, eu tinha acabado de fazer as unhas da pata! Ui, que ódio.
-Ai você fez francesinha dourada! Que tudo!
-Pois é, vim retocar. Gentem, deixa eu falar! Então, quase desisti de correr atrás daquele infeliz, mas com o tanto de carne que ele tinha, não podia deixar passar.
-Amiga, sério, eu jamais comeria um cara que quisesse me estuprar.
-Lógico né, zumbizete. Você come cérebro, eu como carne! A carne não tem pensamentos.
O salão de beleza de criaturas rompeu em gargalhadas.
-Ui, que cadela burra. Para de pintar esse pelo de loiro, hein?
-Você que fez minhas mechas, fica na sua. Mas hein, deixa eu contar... fiquei com tanta raiva por ter estragado a minha unha que antes de matar, arranquei o pau dele e deixei correr mais uns 400 metros.
A zumbi colega se rachou de rir.
-Tá certa, amiga, tortura boa é quando a pessoa acha que vai sobreviver.
-Ah, eu ia torturar mais, sabe, gosto de começar a comer a pessoa ainda viva.... mas o retardado começou a chorar, daí a carne fica dura, né!
-O sofrimento me excita.
-Credo, você tem que se reinventar, amiga! Vampiro tá off.
-Se liga, zumbizete! Vampiro é que nem estampa de oncinha, tem desde a antiguidade e sempre volta pras prateleiras!
-Sabe tudo, a bafo de urubu! E você, hein... loba má! Nem lembra das amigas! 
-Como não, flor? Olha aqui, trouxe a cabeça dele pra você!  
-Humm, delícia! Ih, meninas, olha lá na porta, tem um mané de sobretudo preto nesse calor dos infernos! Deve ser parente da bafo de urubu...
-Não fala assim do meu irmão! E para de me chamar assim!
-O salão é meu e eu falo como quiser!
-Ah, é?

SEPARAAAAAAAA

Paco Steinberg
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.

18 de out. de 2012

Salgado

Conto: Paco Steinberg
Ilustração: Zansky



-Nome?
-Plínio Salgado.
-Idade?
-47.
-Não sei se deu pra entender, mas o senhor está sendo processado por falsidade ideológica. É bom começar a falar a verdade, senão as coisas vão piorar pro seu lado!
- Mas será o benedito! Vá lá, como queira.
- Escrivão! Apaga tudo. Do início: Nome?
- Plínio Salgado.
- Idade?
- 586 anos.

Antes de eu responder essa última pergunta, você leitor deve imaginar a preguiça que eu tive de matar aquele guarda, e deve imaginar também que não era a primeira vez que eu ia preso pela Polícia Federal por causa daquela maldita carteira de identidade falsa.

Todo mundo acha bonito quando aparece no cinema essa coisa do vampiro ser eterno e que a gente vive em danação e isso e aquilo. Danação é ter que ir até a Vicente Machado pedir pra um vampirinho mequetrefe fazer meu RG no computador toda vez que alguém me pega. Pra plastificar vamos eu mais ele até o Terminal do Guadalupe, lá ninguém acha nada errado.

Já esse guardinha, vejam só. A lei, estamos cumprindo a lei, ele ficava repetindo enquanto eu entrava no camburão; eu avisei que não ia prestar. Paspalho. Imagine, eu, que jogava bocha com o Vladinho usando cabeça de otomano, agora enfiado naquela carroça malfeita, fingindo ter medo da arminha dele. Esse negócio da arma, depois me lembre de te contar, é triste ver um homem se achar macho atirando à distância.

Voltando à delegacia, onde eu estava? Ah, sim, o guardinha. Virei-lhe um safanão na orelha que o infeliz vai levar pra outra vida. Já o escrivão me deu um trabalho danado de matar, eu odeio gente que se esconde embaixo da mesa. Sorte que eu não tenho artrite. Fugir da delegacia também foi chato. Virar pombo é complicado, a gente sempre entala nas janelas, mas nada que uma boa cuspidela pelo rabo não me esvazie a barriga e me faça passar pelas grades. Ah, claro. Por que eu não virei morcego? Mas que pergunta. Morcego na capital? A gente perde a originalidade por conta da civilização. Uma vez o IBAMA me pegou e eu fiquei uns 06 meses dividindo quarto com papagaios e tucanos no CRAS, lá no Mato Grosso do Sul, e os matutos tentando me devolver pra mata num programa de readaptação. Caralho.

Lógico que eu podia ter voltado antes, só não o fiz por conta de umas meninas que moravam por lá. Essas sim, minha danação. Com um pequeno detalhe que - não me julgue escatológico, caro leitor - faz meus companheiros vampiros mais afrescalhados, digo, de gosto mais refinado, torcerem a cara numa reprovação nauseante.

Lembro como se fosse agora, a primeira de todas. Chamá-la de moça é uma extrema bondade da minha parte, mas convenhamos que idade não é meu forte também. Vestia uma roupinha duvidosa, como toda boa puta sabe vestir, toda apertada, vazando as feminilidades pelos decotes. Pedi a ela que fosse sozinha para o quarto, ela estranhou. É que entrar pela janela na cidade não dá mais. É câmera, é alarme, cidade é um saco. E aqui no mato dá pra gente se soltar, fazer as coisas do jeito original. Mas enfim. Ela lá, deitada de bruços, toda serelepe, com as pernocas abertas pensando que eu vinha pela porta. Fiquei ali olhando a dona da janela, achando graça de sua sem-vergonhice um pouco ultrapassada, até que a safada virou o rostinho na minha direção e me chamou numa rebolada, que com o movimento das ancas escancaradas fez cair um pingo descuidado de seu primeiro licor mensal. Pensa que ela avermelhou, leitor? Qual nada! Aí é que se assanhou de vez...Que marota.

Foi aí que começou esse meu fetiche. De gostar de menstruação. Eu sou tarado por menstruação. Aquela dos primeiros dias então, em que os coágulos se amontoam e fazem uma dança na calcinha das meninas mais apressadas fazendo manchar a roupa, é uma perdição. O meu negócio é esse. Só chupar, ao invés de morder. O sangue é bem menos que uma jugular, é verdade, mas não há prazer que pague. Pra morder você assusta a pessoa, é aquela gritaria, luta, e o IML fica lá com aquela cara de paisagem pra diagnosticar a causa mortis. Chupando eu me sinto mais novo, conquisto as moçoilas, dou prazer e ainda mato a fome. Cada refeição, uma diversão. Às vezes a festa é tanta que deixo-as gozadas na cama, finjo ir ao banheiro e sumo pelas janelinhas, com a boca ainda suja de sangue. Não são todas que deixam, mulher é complicada, faz aquela cara de “não acredito” quando eu peço, mas prazer todo mundo quer e no fim das contas ninguém recusa quando a pedida é bem feita.

Há muito tempo montei um açougue ali no Juvevê pra ninguém ficar mais perguntando das marcas de sangue na roupa e até na minha cara. Se bem que o sangue desse povo da capital é muito fino e aguado. Essa gente mais loirinha então cruz credo, é morder num dia, no outro eu suo fedido como um bêbado do Passeio Público.

E assim vai indo, né. Eu e os outros vampiros (estava achando que só tinha o da Ubaldino, é?) ficamos ali na Boca Maldita, engraxando o sapato e contando mentiras um pro outro. É, leitor, durante o dia mesmo. Esse negócio de que a gente só sai à noite é coisa da cabeça do Stoker! Eu, por exemplo, nunca tive castelo nem durmo em caixão, já pensou, e a minha claustrofobia como é que fica? Que mania de misturar ficção com realidade que esse povo tem... Falando nisso, dia desses fomos comer um pão de alho ali no Lucca Café só pra tirar um sarro, e na mesa ao lado uma mocinha folheava um livro sobre vampiros, as outras coleguinhas de colégio todas interessadas, só porque fizeram um filminho mequetrefe do assunto. Uma delas, toda séria, chamou a atenção da que lia, perguntando por que ela perdia tanto tempo acreditando numa besteira dessas de vampiro. A garota ficou ofendida, enfiou o livro na bolsa e foi embora. No seu movimento juvenil atordoado, deixou cair um absorvente no chão.

Eu, que não sou bobo, paguei o meu café e fui atrás dela.

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

Zansky
Outros trabalhos: www.zansky.com.br

14 de ago. de 2012

♥ Dead Teen ♥

Ilustração: Lena Muniz
Conto: Paco Steinberg



COMO MATAR E NÃO IR PRA CADEIA!
Meninaxx! A história de hoje é da leitora I.M.L., e a gente aqui da produção quis super dividir com vcs, pra todo mundo ficar ligada no que fazer naquela hora que vc tá mega nervosa com uma faca por perto.
I.M.L. levou um fora no mês passado, e ficou arrasadésima. Ela mandou uma carta suuuper cuti-cuti pra gente, e resolvemos compartilhar a história.
Depois do fora, I.M.L. chorou deveras, e o garoto simplesmente humilhou a nossa amiga na frente das colegas da facul. CRUEELLL. Ela mandou um recadinho no inbox do face dele, no dia seguinte, convidando pra um ménage no banheiro da universidade, pra ver se eles se entendiam. Rolou ménage sim, mas com a faca da I.M.L. Ela meteu tanto a faca nele que até machucou o pulso. BAFO!
**Gentem, FAIL. Matar em lugar público não é legal. Só mate em lugar público se for na rua, à noite, disfarçada. Ok? E o mais importante! Mate pessoas desconhecidas! A polícia nunca vai desconfiar de vc! =D
Chegando em casa, nossa miga se matou e ressuscitou com nosso Kit Zumbi Fashion. Depois, arrancou o coração com a faca, abriu pra tirar as lembranças de dentro e costurou o próprio peito com o cadarço do All Star!
Aiiinn, ela não é uma fofa?? Gentem, virar zumbi é tudo, tá na moda e atrai muitos gatinhos mais velhos...
A nossa amiga I.M.L se deu bem, sai na Zumbyboy desse mês e tá bombando!
Se liga agora nas nossas dicas pra vc ser uma zumbi e/ou assassina de sucesso como nossa miga poderosa:

♥ Pra virar zumbi, vc tem que ressuscitar! Então clica no link ao lado e adquira agora o seu Kit Zumbi Fashion da revista DEAD TEEN!  

♥ Vc não quer virar zumbi porque acha que a moda vai passar, mas tá afim de continuar metendo a faca? Arranca o coração do chato do seu irmão, que usa o seu note quando vc quer. Lembrem-se do nosso último bate-papo: Assassina EVER, suicida NEVER. Só lembra de fugir depois, tá?

 ♥ Gente, abrir o peito, só pra colocar silicone! A I.M.L exagerou. Se vc realmente estiver muito louca e quiser fazer o mesmo que a nossa miga, beba um litro de vodka antes que dói menos. Não peça pro seu pai, roube do barzinho da sua casa. 

Lição da semana finalizada, #fica a dica: Zumbi não vai pra cadeia! Então mata quem vc odeia sem culpa migaxxx! Beijos no coração. Se ainda tiver o seu =D

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
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Lena Muniz
Publica suas criações e desenhos no blog: www.omodernario.blogspot.com.br

6 de jul. de 2012

O Ladrão de ideias

Ilustração: Yan Copelli
Texto: Paco Steinberg



A história é curta, então presta atenção.
É de um cara que rouba ideias.
Não, não é clichê nem tão legal quanto você está pensando.
O nosso personagem é o seguinte. Faltava nele a capacidade de desenvolver a coisa, então não posso dizer que aproveitou 100% do dom que sei lá quem lhe deu.
Descobriu que sabia fazer o que fazia depois que seu cachorro, o Cachorro, morreu.
-Sempre quis saber o que ele pensava. Acho que vou abrir sua cabeça e mastigar um pedacinho do cérebro, mas só mastigar, porque comer deve ser pecado.
Aí foi lá e abriu e deu umas mordidas, e olha só, descobriu que o Cachorro não gostava dele. Que mijava escondido em suas roupas penduradas no sol. Não era problema do desodorante, então.
Aí pensou que tivesse mais criaturas sacaneando com ele. Ficou puto e resolveu abrir a cabeça do bairro inteiro.
O primeiro foi o dono do bar, o português, com aquela camisa xadrez duvidosa do caralho. Ele tinha uma barba brilhante lambida igual ao cabelo, parecia um pirata porco. Sempre com os olhinhos virados, como se estivesse tirando sarro de algo, pensando besteira ou quem sabe até gozando, tem que gente faz isso tão fácil.
Tá, o ladrão foi pro bar e papo vai papo vem levou o portuga pra casa com uma desculpa esfarrapada. Jogou droga no copinho de licor e o portuga ficou todo molinho na cadeira. O personagem pegou uma faquinha de manteiga e começou o trampo. Pegou um pedacinho da frente do cérebro, bem perto do olho, pra ver se de repente vinha alguma coisa que ele tinha visto também. Descobriu que não tinha nada a ver, mas também descobriu que o português era afinzão dele faz tempo e uma receita de bolinho nova que ele tinha achado no livro da avó. Porra. Aquele bolinho. Vou vender pra caralho.
Trabalho terminado, pensou em costurar a cabeça do cara de volta e fingir que nada tinha acontecido, mas porra, o cara morreu, e agora. Como não sabia onde jogar o corpo, fez bolinho com o cara mesmo. 
O resto é de se imaginar. O dono da loteria, a servente da  escola, o gari, a atendente da padoca e até o Carlão chupa-chupa, um loirão que fazia ponto do lado da casa do personagem. Carlão se fodeu, virou bolinho e perdeu todas as aulas de pole dance pro vizinho esquisito, que apesar de meio gordinho mandava ver no cano.
O personagem, apesar de seus sequestros voluntários e discretos, caiu na boca do povo porque sempre tem um filho da puta que vê alguma coisa e quer contar pros outros e blábláblá. Filho da puta virou bolinho também. Mas o filho de uma puta (agora sim, adjetivo) tinha uma ideia genial, alguma coisa relacionada com estratégia comercial e internet e rede social. Porra! Precisava de dinheiro pra montar o negócio. Resolveu mastigar o dono do banco. O velho insistiu pra conversa no bar terminar na casa dele, morava sozinho, ah um bolinho a menos não dá nada, vou ficar rico mesmo.
Entrou no carro do cara e de repente putz, que sono. PUTZ.

Yan copelli
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: yancopelli.com

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

5 de abr. de 2012

O prédio fantasma do Juvevê, o psicopata com síndrome de Darwin e o demônio canibal de oito patas que não gostava de gente babaca

Texto: Paco Steinberg
Arte: Arthur d'Araujo


 Abro os olhos, minhas mãos e meus pés estão amarrados. Crânios e carne podre dormem ao meu lado no andar em construção. Um homem aparece na porta. Tento gritar, ele cortou minha língua. Ele me olha encostado na porta de tijolos, mastigando o último pedaço da minha língua.
 -Oi. Eu achei que você era tenra, mas depois abri sua bolsa e vi que você toma remédio. Ruim, muito ruim.
 Me debato no chão. 
-Não, não vou te estuprar, eu gosto de meninos. Daquele colégio aqui perto. Não do colégio público, aquele bilíngue, sabe? Mas não mude de assunto! Então, você toma remédio controlado?
 Choro desesperada ao ver a faca embainhada pingando sangue na cintura do maldito.
 -Responde! Quer dizer, pisca! Uma vez sim, duas vezes não.
 Pisquei uma vez. 
-Antidepressivo?
 Mais uma vez.
 -Puta merda! Tudo aquilo de remédio na bolsa era seu? Até o antipsicótico?
 Mais uma vez.
 -Porra!!! Eu não tenho como fazer um bom jantar com um cérebro doente. Você não serve pra mim. Ai que nojo, a sua língua deve estar cheia de Rivotril. Vou vomitar.
 Ele vomita minha própria língua em cima de mim.
 -E agora? O que que eu faço? Eu não vou te matar aqui, vai sujar o chão! Você não serve! Não serve! Darwin se chacoalha no caixão por causa de gente que nem você! Aposto que faz terapia! Você devia estar morta! Morta! Você não é apta! Sua imprestável! Ai tô cansado....Tudo por causa daquele capeta... Posso te contar minha história?
 Pisco duas vezes.
 -Que se dane, preciso desabafar. Você estragou meu dia.
 Ele senta em cima de um corpo de mulher grávida metade aberto com o crânio esmagado, o feto ainda se debatendo. Ele come os dedinhos da criança enquanto conversa comigo.
 -Cortei sua língua por causa dela. É sempre assim né, um se fode porque outro foi idiota antes. Falava demais. Chata. Mas então. Eu era dono de uma construtora, tava fazendo esse prédio. Prédio de luxo, no coração do Juvevê, na Campos Sales, do ladinho do mercado, porra, ia dar muito dinheiro. Eu não contratei segurança pro prédio porque não queria gastar mais, aí de vez em vez eu vinha dar uma olhada na obra de noite pra ver se os pedreiros não estavam fazendo cagada. Um dia, no 6º andar, eu encontrei um mendigo. Mandei ele pra fora, disse pra sair dali. Ele pediu um prato de comida, mandei ele tomar no cu e chutei ele até a gente chegar no primeiro andar. Quando a gente chegou lá embaixo, ele se transformou num demônio. Daqui a pouco ele chega, você vai conhecê-lo pessoalmente. Eu tentei sair correndo, mas ele me prendeu pra sempre aqui dentro desse prédio abandonado. Ele disse bem assim:

-Homem desgraçado, a sua cegueira pela luxúria vitimou seu destino. A partir de hoje, estarás preso dentro de sua própria obra, sua família inteira morrerá e sua empresa irá à falência, fazendo com que tu fiques aqui, servindo-me. Já que teu coração podre recusou-me comida, tu me alimentarás todos os dias com carne humana limpa e saudável. E tu, ó miserável, sobreviverás somente do sangue e do cérebro de tuas vítimas.
 -Por que caralho vocês seres do universo falam tudo em vocabulário arcaico? Fala que nem homem porra!
 -Insolente! Toda noite serás atormentado pelas almas do Juvevê que me servirão de alimento, para que não te esqueças de tua ignorância e soberba!
 - E aí é assim. Daqui a pouco ele chega. Nossa, ele vai ficar puto quando ficar sabendo de você.
 Três horas se passaram, o sol se pôs e uma turba de fantasmas começa a gemer pelos corredores. O psicopata anda em círculos, as almas o atormentam com gritos, puxões de cabelo, olhos esbugalhados, eu ri. De repente uma alma grita mais alto no andar de baixo e todas fogem apavoradas. O psicopata corre e para em pé ao lado da porta, em posição militar de sentido.
 Um demônio negro, com chifres brilhantes, quelíceras vermelhas e oito patas peludas imensas surge no vão de uma parede derrubada. Com o tamanho de um cavalo de raça, ele passa por cima de mim sorrindo, vai até à grávida no chão e começa a comer o bebê.
 -E essa aí? Sobremesa?
-Na verdade, senhor, não sei o que faremos com ela.
-Como assim?
-Ela é doente, senhor.
-Doença no sangue?
-Não, senhor, pior, na cabeça.
-A carne deve estar toda dura. Joga fora.
-Mas, onde? Na rua?
-Olha, eu vou quebrar teu galho só porque você me arranjou a barriguda. Sai daqui.
 O demônio aproxima sua bocarra imunda de sangue e tripas e cochicha no meu ouvido em uma língua desconhecida.
 Acordo na cama com um pulo, passo a mão no rosto e me levanto para ir trabalhar.
Ponho a mão na boca, sinto algo estranho, corro até o espelho.
 Uma cicatriz de corte cruza todo o fundo da minha boca e sinto uma vontade desmedida de comer carne crua.

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
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Arthur d'Araujo
Outros trabalhos em arthurdaraujo.com/

22 de fev. de 2012

Entre Família

Ilustrações: Elis Marina B
Texto: Paco Steinberg

Nota: Caro leitor, o conto abaixo é um pouco extenso em relação aos demais que produzo. Fato é que se trata de um conto de família, e histórias de família sempre têm muito a contar. É bem aqui onde você continua ou desiste.




Para para essa porra caralho é aqui Meu tem certeza É sim porra tá me tirano Uma casa desse tamanho sem alarme Fica de boa a mina é firmeza trabalha aqui faz uma cara e outra ela sabe que se atrasar a função tá fudida Quanto cê combinou com ela Ela só quer um colar da velha que tá no quarto Já é Os quatro bandidos respiram no vidro quente do Monza 87 Verão é de foder calor do caralho Coé maluco se liga na situação Cadê a família Foram num baile de Carnaval lá no Curitibano Bando de prebói do carai O muro da casa escolhida com tanta pertinácia rasgava o coração do Jardim Los Angeles com pedras cinzas imensas e sujas Sobre o muro antigo não havia cerca elétrica nem placa de aviso nem mato com espinho nada nada nada Partiu pra correria É nóis Representa Os quatro saltam do carro mas uma das portas emperra Peraí a minha correntinha da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro ficou ali cara abre a porta pra mim tirar Vacilão do caralho se liga na responsa É vamo tá atrasando a porra toda deixa essa merda aí Não posso Ói mano o processo é ligeiro e o baguio é loco tá ligado fica aqui fora então e se aparecer um cana cê dá um toque na gente valeu Não vai dormir caralho Se liga véi parceria Então partiu Os três homens dão a volta na quadra em busca de câmeras de segurança todavia não encontraram nada que parecesse perigoso A casa ocupava metade de uma quadra inteira e mergulhava na penumbra do bairro pois todos os postes ao redor da mansão estavam sem luz Porra véi cê é ligeiro hein deixou da hora pra gente entrar Como assim Os postes véi tu quebrou a porra toda Não fui eu cara Carai só os da casa que sinistro Ô seus merda vão ficar brincando de prefeitura aí que se foda o poste melhor pra nóis Olha ali daquele lado as pedra tão moleza de subir Já foi Os bandidos admirados pela facilidade em transpor a muralha estranharam a ergonomia com que seus chinelos encaixavam-se nos buracos como se cada cavidade tivesse sido construída com o intuito de uma escalada incólume ou de uma fuga rápida ou sabe-se lá o quê Já do outro lado os três homens encontram um jardim repleto de árvores floridas e frutíferas onde alguns morcegos alimentavam-se de frutas doces Ao fundo do jardim a mansão estava de portas e janelas abertas com algumas luzes acesas De dentro da casa soava uma marchinha de carnaval em volume alto “Se você fosse sincera ôôô Aurora...” Dois cachorros completamente negros de grande porte dormiam tranquilos em frente à porta de entrada Carai véi fudeu ói o naipe dos dog mano vai dar treta Vai amarelar cuzão ói lá os dog tão véi pra carai dá pra ver os pelo branco daqui Puta cara sei não hein Vai ficar nesse caô seu otário coé Vamo de uma vez porra Os três bandidos aproximam-se da porta vagarosamente Nossa véi nem meu vô deixa a casa com luz acesa e som ligado só otário acha que truta ainda cai nessa Ei a empregada não tá aqui Não ela disse que ia vazar antes da gente chegar Tá faz assim ó dois lá em cima e tu aqui embaixo valeu é papo reto deu treta rala peito e some cada um por si e que se foda O bandido que permaneceu na sala iniciou o roubo com obviedades tais como pratarias cristais e objetos de ouro Como não era sabido e nem ladrão há muito tempo um Stradivarius pendurado acima da lareira passou-lhe despercebido entre outras obras de arte que o rapaz julgou serem velhas ou feias demais O bandido virou-se para a porta com o intuito de levar o tapete Neste momento os dois cachorros em posição de guarda na porta observavam seus movimentos com semblantes serenos porém preocupantes

Véi os dog acordaro Cala a boca truta os vizinho vão escutar seu burro Tá com medim dos dog que mané Ah num enche o saco cês dois são foda O bandido continua seu trabalho mas por intuição ou cautela vira-se novamente para a porta e os cachorros vagarosamente entreolham-se como se combinassem algo ou trocassem informações e voltam a olhar o bandido Véi vou dar pipoco nesses dog sinistro do caralho Já falei pra calar a boca truta porra O bandido prepara-se para puxar a arma mas enche seus olhos com a luz de um porta-retratos dourado imenso onde uma foto comportada de família adornava a tampa de um piano negro alemão O bandido vai até o objeto mas percebendo sua intenção o cachorro macho emitiu um som maligno e gutural Grrrrrrrrrrrrrr O bandido vira-se e solta o objeto paralisado de medo do cachorro negro de raça indefinida e tamanho admirável O bandido encarando o cachorro resolve pegar um vaso que julga pelo seu medíocre conhecimento ser chinês porque rico sempre tem vaso chinês porém aquele era egípcio Ao encostar no vaso a cadela emitiu o mesmo som de seu companheiro Grrrrrrrrrrrr O bandido enfurecido virou-se gritando Seus féladaputa do carai O homem saca a arma e descarrega todas as balas nos dois cachorros que sem o menor sinal de ferimento permanecem na mesma posição de guarda Véi Véi desce aqui carai esses dog são filho do capeta to vazano sério Já falei pra calar a boca seu bebum filho de uma puta nunca mais te trago pra correria Os dois bandidos que ocupavam o andar superior descem as escadas com duas sacolas cheias ao encontro do terceiro amigo que apavorado escondia-se sob o sofá antigo no centro da sala Sai daí porra puta que o pariu você tá foda hoje Véi te juro desci bala nos dog e nada Ele chorava Um dois três tapas na cara Para meu para caralho você tem mira ruim tá bêbado e tá enchendo o saco nunca mais te trago simbora daqui porra E você se ligou na função Aham peguei um monte de baguio massa Tá Os três bandidos saem pela porta Os dois cachorros viram-se apenas para observá-los     
Quando os três bandidos alcançaram o fim do jardim um deles olhou para trás com escárnio e zombou do colega Viu otário ói lá os dog de boa deitado na porta Os três viram-se para olhar os cachorros e riem todos juntos inclusive o terceiro porém sua risada era nervosa e aflita Quando viraram para escalar o muro os dois cachorros fantasmagoricamente apareceram na frente deles Com apenas uma patada o cachorro macho arrancou o coração do primeiro bandido ainda pulsante com veias descontroladas espirrando sangue em seu outro colega que também com apenas uma patada da cadela teve toda sua coluna arrancada desde o pescoço até o cóccix O terceiro bandido já galgava a metade do muro quando os dois cachorros entreolharam-se com cumplicidade tal como se decidissem com quem ficaria a prenda de carnaval Pularam os dois e agarraram-no cada um em uma perna Chegando ao chão rasgaram-no ao meio pelas pernas e arrancaram-lhe os olhos com as unhas enquanto ele ainda admiravelmente emitia seus últimos gemidos O quarto bandido que estava no carro escutou os gritos medonhos e fugiu dado o tamanho do berro do terceiro larápio enquanto era esquartejado talvez da pior maneira possível Os cachorros esperaram que o bandido agonizasse lentamente até a morte e arrastaram os três corpos até um buraco no fundo do jardim onde já se encontrava o corpo de uma mulher moça vestindo um uniforme Enterraram os quatro com rapidez e facilidade lavaram as patas e os pelos no chafariz do jardim e voltaram à frente da casa onde dormiram até a chegada da família

Quando a família atravessou o portão com o carro o pai que estava de janela aberta parou O homem saiu de dentro do carro farejou o ar e arqueou as sobrancelhas Tem sangue aqui fiquem no jardim tem algo errado O homem anda até à porta da casa põe a mão sobre o dorso do cachorro macho e pergunta ao animal Pai está tudo bem por aqui É filho a gente teve uns contratempos A cadela resmunga Filho foram uns garotos sabe ladrãozinho só mas querido olha acabei engolindo um pedacinho de um deles você tem um antiácido lá dentro estou com uma azia Querida venha cá cuidar da mamãe entrem em casa e vão dormir Vocês dois se machucaram está tudo bem Sim sim tudo tranquilo Tranquilo papai é Lua Nova o que deu em vocês Ah esses remédios pra pressão são fortes né me deixa todo embananado quando vi já tava virado lobisomem Mas cadê o Luís Henrique



Papai papai O filho menor surge correndo de quatro pelo jardim com um fêmur na boca Olha o que eu achei Tira isso da boca moleque bandido tem doença mas que merda a gente sai pra uma festinha no Curitibano e dá nisso deixa isso aí na grama e sobe lavar essa boca menino Calma filho eu e sua mãe já resolvemos tudo Ah papai sério olha quanto sangue no jardim no muro caramba o que a gente vai falar pra Donizete quando ela aparecer de manhã pra limpar a casa É na verdade filho acho que a gente vai ter que contratar outra empregada Ah não acredito mas não é possível não dá pra confiar em mais ninguém

O avô e o pai permanecem silenciosos observando o jardim e os vestígios do recente e insuspeitável crime Papai será que os vizinhos ouviram alguma coisa Filho a gente está no Jardim Los Angeles aqui ninguém tá interessado a não ser no próprio umbigo É tem razão Filho deixa eu te falar O que pai Você acredita que um deles teve a audácia de me encher de bala no peito sem eu ter feito nada Sério papai Pois é pra você ver  Sabe pai...odeio gente que maltrata animal.

Agradecimentos: para Daniel Sérgio e Elis Buquera pela pesquisa e ideias mirabolantes respectivamente.  


Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com


18 de dez. de 2011

Entre meninas

Texto: Paco Steinberg
Ilustração: Bruno Oliveira





Limpei as mãos na toalha branquinha do banheiro, ficou parecendo a bandeira do Japão.

Engraçado, o meu sangue não é clarinho assim.
Será que ela era doente?
Bom, se era, não precisa mais se preocupar com isso.

Antes de sair do apartamento, dei uma olhada para trás.
Por causa da luta, o apartamento ficou uma bagunça.
Arrumei as almofadas, varri os copos quebrados, limpei a parede.
Ajeitei o corpo dela no chão com as mãos para trás da cabeça, as pernas fazendo um L, não é que ficou bonito?

O rosto inclinado para cima, que nem a Ingrid Bergman em "Casablanca".
Pensando bem, ela está mais parecida com "Assassinato no Expresso do Oriente". É. Com certeza.

Saí e fui pegar os filmes na locadora. Acelerei as cenas até chegar no ponto exato. Levei a televisão até perto dela. Eu tinha razão.
Está mais para Assassinato no Expresso do Oriente mesmo.



Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

Bruno Oliveira
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/oitoart