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3 de out. de 2012

Zero!

Conto: Paulo Biscaia Filho
Ilustração: Daniel Gonçalves




1963. Em um certo país na América do Sul, um presidente com afinidades com o socialismo e pressionado entre forças soviéticas e estadunidenses vacilava em que rumo tomar. Seus assessores sugeriram uma aliança com o país do mesmo continente. Ele negou. Ao perceber que forças militares poderiam interromper seu governo, o Presidente decidiu se aproximar dos soviéticos em troca de instalações de maior poderio bélico. Os militares salivaram com o poder que eles receberiam de presente.

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Ela estava com o telefone na mão. Silêncio do outro lado. Sentiu seu coração parar de bater enquanto esperava por uma voz. Sua respiração também falhava. Morrer era inevitável. Se não fosse agora, certamente depois. Minutos depois. Ela sabia disso, mas tinha que falar ao telefone. Uma voz responde do outro lado: ‘Sim, Sra. Presidente?’

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1964. O presidente permaneceu no poder com o apoio dos militares que não compreendiam possíveis diferenças entre extrema esquerda e extrema direita. Vermelho, verde ou azul. O que importava é que eles tivessem poder. Com a instalação estratégica de 265 ogivas nucleares eles possuíam muito mais do que poderiam imaginar.

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‘Almirante, entramos em alerta nível 4’, ela disse depois de engasgar com uma súbita apnéia. ‘Positivo. Aguardo sua ordem de ataque, Sra. Presidente.’. Ela olhou para frente. Debaixo de um quepe, o Ministro das Forças Armadas vacila olhar, mas respira fundo e com um aceno de cabeça confirma. Do outro lado do telefone, a voz do Almirante suspira: ‘Posso ter sua confirmação, Sra. Presidente?’

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1965. O teste da bomba nuclear soviética Chagan é transferido do Campo de Explosões para A Economia Nacional na Sibéria para uma região desértica na América do Sul. Rebatizada de Diamantina, a ogiva é detonada abaixo da superfície, no dia 15 de Janeiro daquele ano. Seu resultado criou uma cratera de 960 metros de diâmetro e 465 de profundidade. A colaboração entre cientistas dos dois países para o teste fortaleceu a capacidade de tecnologia nuclear naquele país sul-americano.

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Ela não estava no cargo por mais de quinze dias e não pode deixar de achar irônico que sua primeira decisão presidencial seria também sua última. O submarino Guararapes estava a milhares de quilômetros dali, mas a voz do Almirante estava clara como se estivesse ao seu lado. Na verdade, ela nunca se sentiu tão perto de alguém falando ao telefone. ‘Almirante, pode receber os códigos de lançamento….’

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1970. O presidente daquele país estranho morre em decorrência de um ataque cardíaco enquanto assistia a final da Copa do Mundo do México. A KGB e o centro de inteligência local suspeitaram de ação da CIA naquele morte. Se foi ou não uma ação de espionagem, a CIA não contava com a vitória daquele país na Copa de futebol. O Tricampeonato ajudou a fortalecer a ideologia comunista do governo. Um novo presidente foi eleito indiretamente, nos mesmos moldes da União Soviética.

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‘Delta - Zulu - Tango - Romeu…’

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1972. Grupos de guerrilha opostos ao regime comunista são capturados e torturados na Base de Investigações do governo, estabelecida em uma grande cidade à beira-mar, cujas praias paradisíacas haviam servido de capital do Império 160 anos antes. Alguns membros das guerrilhas conseguiram escapar e pediram asilo político nos Estados Unidos, onde foram novamente torturados quando a CIA supôs que se tratavam de agentes-duplos.

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‘Golf - Victor - Alfa - India. Confirma, Almirante?’

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1975. É construído o primeiro submarino nuclear da América do Sul. Nos dez anos seguintes, a frota aumenta e ultrapassa duas centenas de embarcações. Cada uma carregava ogivas suficientes para dizimar um continente.

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‘Código de ataque confirmado, Sra. Presidente. Ordem de ataque autorizada para o submarino Guararapes e repassada às demais embarcações posicionadas. Que viva a ordem e progresso de nossa grande pátria, Sra. Presidente!’
‘Viva’, ela respondeu do outro lado segurando seu suspiro e encontrando energias para dar firmeza em sua voz.

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1990. A União Soviética é desfeita e ruma em direção contrária aos ideais Comunistas. A China e aquele país da América do Sul são os únicos a permanecem com o mesmo regime. Apesar de manifestações da população pela criação de eleições diretas, aquele país abafou opiniões contrárias ao regime através do fortalecimento de suas reservas, fruto de uma surpreendente administração rigorosa na agricultura e economia interna. Naturalmente, eram dados maquiados. Havia uma crise econômica crescendo e o país certamente estava caminhando em direção a uma falência completa.

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Ela lembrou de seus primeiros dias na política, décadas antes. Tudo parecia ser mais poético, mais ideológico. Ela era incapaz de encontrar um adjetivo em qualquer língua humana capaz de descrever o que significava aquele momento.
- ‘30 segundos para o lançamento. Vinte e nove… vinte e oito…’

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2002. Na esperança de recuperar as perdas econômicas de duas décadas, o Partido apontou um radical de esquerda como Presidente. As relações comerciais com dos demais países das Américas e Europa foram cortadas em um embargo sem precedentes. A China negou qualquer apoio às decisões daquele Presidente sul-americano e se apresenta neutra. O Presidente segue com determinações que tornam as relações diplomáticas cada vez mais insustentáveis. Diversos focos de corrupção de políticos relacionados com as poucas empresas privadas remanescentes forçaram o Presidente a estatizar de vez toda a indústria e comércio do país. Revoltas da população são oprimidas com ataques do exército. O poderio bélico construído no país ao longo de quatro décadas assegura uma posição de soberba dos militares e de segurança ao Presidente.

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- ‘Oito… sete… seis… cinco… quatro… três… dois… um…’

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2012. O Presidente é assassinado em sua casa por agentes da CIA. Para entrar em seu lugar, foi apontada a primeira mulher como Presidente daquele país. Sua carreira política havia iniciado como torturadora de guerrilhas na Base de Investigações. Desde então foi ganhando respeito dos militares que permaneciam secretamente como fonte de todas as decisões políticas. Assim que assume o poder, dá a ordem imediata de encaminhamento de centenas de submarinos nucleares para a América do Norte.


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Em meio a redemoinhos retorcidos de pensamentos, ela imagina se suas decisões seriam diferentes se a história fosse diferente. Se houvesse eleições diretas, se não houvesse crescimento no poderio bélico, se houvesse ideologia…
Ela percebe naquele momento que a única ideologia que comandava aquele país há cinco décadas era… PODER. E haveria demonstração de poder, mas não sem represálias que certamente dizimariam milhões. ‘Milhões de quem? Quem são esses milhões? Qual a diferença? Eles não tem nenhuma voz mesmo.’, concluiu corretamente.
Alguém na América do Sul disse, há milhares de anos, que 2012 seria o fim. O fim dos tempos, ou o fim de paradigmas, ou o fim de ideologias. O que quer que fosse, o que via depois iria mudar a história de vez. Suas inócuas divagações foram interrompidas pela voz do Almirante gritando:
- ‘Zero!’


Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

15 de ago. de 2012

Vitorino

Fotografias: Marco Novack
Conto: Paulo Biscaia Filho
Estrelando: Luiz Bertazzo
Maquiagem: Andréa Tristão
  • Figurino: Day Bernardini
  • Apoio: Trio Iluminação & Cia Senhas




… o pequeno se esforçando para chegar ao oito. Vitorino está só. Olha para o teto buscando ver horizonte, mas não existem curvas no mundo quando você…

Vitorino busca a lembrança de Anastácia. A bela Anastácia - a verdadeira - cuja pele de porcelana... 

Os laços de cetim no cabelo cacheado não eram tão perfeitos como as rosadas bochechas de seu rosto. Quantas vezes Vitorino olhou por baixo daquele vestido de renda e procurou alguma coisa ali? Sua cabeça afundava em meio a suas pernas e ele a provocava, mas ela mantinha sua expressão congelada. 

Nenhuma careta? Mesmo? 

Apenas um sorriso protocolar de quem deseja ser simpática. Mais nada. Não ofegava. Não deixava nenhum lábio mordiscado. Nem mesmo seus olhos fechava. Não gritava. Anastácia certamente não o amava. Vitorino se deita novamente e com a ponta de seus dedos...



... que foi o momento onde as lembranças de Vitorino deixaram de circular pelos olhos que ele não sentia mais ter. Percebeu suas roupas amassadas e tentou ajeitá-las, mas, no meio de um movimento para tentar alisar um engruvinhado, interrompe. Ele apreciava as rugas de sua roupa. Em seu rosto não havia nenhuma, mas havia na roupa. O peso de tudo o que fez não estavam em sua face, apenas nas rugas da roupa. Dedicou-se a contemplar toda sua história em cada dobra jamais removida. Lembrou de suas aventuras em minha infância. Quando ele não pensava em Anastácia, mas apenas em escalar um Everest imaginário feito de pilhas de livros que minha mãe deixou espalhados anos antes de sua temporada no hospital onde...

A outra Anastácia trazia o jantar sem tempero e insatisfatório que é típico desses lugares. Ela sempre vinha as sete e meia. Eu sabia disso pois via os ponteiros no relógio ao lado da porta. Me presenteava com uma xícara de chá por que era "bonito um filho que não sai de perto da mãe". A outra Anastácia era uma mera empregadinha que merece... Não, não, ela era... 

... pelos corredores tentando não pensar. Como ele conseguia pensar? Ele era apenas...
... um tapa bem dado em seu rosto. "Meu deus, ela está morta e você quer brincar de que?" 
... não era para...
... "embora daqui e enterre sua mãe como ela merece". Perguntei murmurando pra mim mesmo se ela realmente merecia algo. "O que? Fale direito!!". Ela sabia como gritar. Eu gosto de uma mulher que sabe exatamente como ... 

Vitorino continuava olhando para o teto. A campainha bate. Me arrependi depois de ter caminhado lentamente até a porta. Se soubesse antes que era ela, teria voado. Certamente veio pedir desculpas. Santa campainha! Ela estava aqui em casa! A outra. A de carne. Que ideia! Poderíamos subir o Everest juntos! Ela certamente adoraria iss... 

Boneco? Que Boneco? 
"Esse que está aí na sua mão." 
Nada ele só é uma coisa que eu tenho e ... Entre. 
..."É que você tá?" ... Bem ... "... não deveria ter dado um tapa na..." ... Tudo bem, eu acho que eu merec... "então eu vou ind..." quando ela se levanta, curva seu corpo para frente e eu consigo ver seus seios por baixo da blusa de alças e deixo escapar um gemi... Não!!! Fica mais um pouco. a gente pode tomar chá! ... Segurando pelo braço... ela grita, mas não com raiva. Pelo menos eu acho que não era com raiva. É bom o som. Sinto crescer meu ... No chão! ... "Pára!" ... Eu não... Mão esquerda na garganta e a direita... Entra... Grita mais ... Se debate... Ofega... Seu rosto é um moto-contínuo de caretas de horror e dor e pânico e ... Acho engraçado e continuo... ela sente algo .... Isso é bom, não é? Ter alguém que faça te sentir alguma coisa? .... e eu também sinto ... Quando o meu corpo treme e minha mão esquerda sente um estalo... Ela não faz mais caretas. Só uma. É sem graça. Não tem nada. Nada. Nem mesmo o sorriso protocolar.

 




ESTÁ NA HORA DO CHÁ, VITORINOOO!!!!

Vitorino e Anastácia - a verdadeira - estão à mesa. Comportadinhos e bem arrumados como deve ser. Ela está de roupas diferentes. Um lindo vestido de renda e fita no cabelo. Ele carrega o mesmo uniforme de tantas aventuras. A felicidade é tão grande que Vitorino resolve estender sua perna comprida por baixo da mesa e em meio ao vestido...

Ela não faz caretas. Ela certamente não ama Vitorino. 

... choro...

...cabeça cai na mesa...

 Vitorino estende sua mão. Ela é dura e com pedaços descascados e sem tinta que revelam a verdadeira cor de seu material. Estende sua mão sobre minha cabeça e me faz cafuné. 

... Não faço caretas, apenas olho para frente e vejo o relógio na parede com o ponteiro grande no seis e... 



 



Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Marco Novack
Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br

20 de abr. de 2012

Calabresa com borda de cream cheese

Texto: Paulo Biscaia Filho
Fotografia e direção de arte: Eli Firmeza
Estrelando: Olívia D' Agnoluzzo e Carol Winter




Cheguei em frente ao prédio com as portas de ferro pichadas com letras intraduzíveis.
Acionei o porteiro eletrônico.

Lembrei da cantora de blues nas manchetes. Depois de anos de críticas a suas performances desleixadas, sua morte por aparente overdose fez os jornais lembrarem de seus anos de ouro como diva da música.

Ouvi sua voz abafada pelo porteiro eletrônico com mal contato. Um zunido e a porta se abriu. Entrei no saguão. Fui até a frente do elevador e pressionei o botão com o miolo erodido por todos os dedos que décadas antes arranharam sua superfície.

Aquele escritor fez tantas obras que determinaram o pensamento de uma geração de rebeldes. Agora estava caminhando para livros de auto ajuda. Ninguém entendia. Ninguém mais lia. A auto ajuda caiu por terra junto com seu corpo quando tombou do vigésimo sexto andar. A polícia ainda investiga a possibilidade de suicídio. Ele não deixou nenhuma nota. Por mim, cada um de seus últimos livros já era uma despedida. Suas primeiras obras hoje são estudadas e cultuadas.

O elevador chega. Entro e procuro pelo quinto andar. Depois de um solavanco, começo a subir.



Nos anos 50, a beleza daquela atriz estampava cartazes e revistas de cinema. Suas pernas eram adoradas como deuses legítimos. O whiskey e um vício por bolinhos de chocolate a transfiguraram. O laudo médico decretou que ela havia se engasgado com um brigadeiro e não havia ninguém por perto para ajudar. Havia. Agora sua beleza era eterna.

Chego no quinto andar e a porta do elevador faz um barulho assustador. Vacilei em sair. Eu sempre vacilo em algum momento quando faço isso. Não vou mais vacilar de agora em diante. Caminhei pelo corredor de parede chapiscada até o apartamento 502. Toquei a campainha.

Não havia ninguém no halfpipe como ele. Seus giros de 960º levavam o público ao delírio. Abandonou o skate e o trocou por uma Bíblia. Pregava o amor de Jesus em troca de doações. Seu atropelamento fará com que ele conheça Jesus com mais propriedade. Ninguém conseguiu anotar a placa do carro que atravessou o corpo a 180Km/h.

Ele abre a porta. Eu estendo a pizza calabresa com borda de cream cheese. Ainda nervoso, anuncio seu destino:
-  São R$32,50.


Eu sei quem é ele. Tudo o que sei sobre cinema devo a ele. Estico o pescoço e consigo ver prêmios sobre uma prateleira. Palma de Ouro, Globo de Ouro, Oscar, Kikito! A poeira cobria todo o brilho das estatuetas. Em uma parede, recortes de jornal emoldurados mostram fotos de apertos de mão com presidentes, companhias de lindas pin ups, grupos de ícones do século XX. Seu nome não é mais lembrado nem mesmo em círculos de acadêmicos. Ele comerá a pizza. Em dois ou três dias, os vizinhos irão reclamar do cheiro. A polícia arrombará essa porta sem dificuldade. Seu corpo será encontrado sob moscas e vermes. Os jornalistas saberão. Seu nome será lembrado. Seus filmes serão revistos. Sua obra será novamente cultuada.





Agora devo ligar para um certo vendedor de planos de saúde. Um certo senhor grisalho que nos anos 80 foi reverenciado como a maior revolução nas artes plásticas desde Warhol.

Minha missão é justa. 

Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Eli Firmeza
Filmes e trabalhos de direção e fotografia em: http://vimeo.com/elifirmeza 

14 de fev. de 2012

Souvenir

Ilustração: Zansky
Texto: Paulo Biscaia Filho





É um erro definir a memória como algo puramente abstrato. Não podemos alcançar fisicamente nossas lembranças, ainda assim existem fragmentos que nos tocam a ponto de sentirmos um líquido espesso e cheio de insetos rastejantes tomando o lugar de nosso sangue. Somos tolos. Insistimos na contínua formação de um compêndio de lembranças apesar da incontestável impossibilidade de reviver estas experiências. Paradoxalmente, quando tentamos fazê-lo, nos frustramos ou ardemos em dor. Como certos exploradores no século XIX em busca de terras e culturas virgens a olhares europeus, existem ainda alguns que buscam novas experiências apenas para trazer novas matizes a seus repertórios de impressões. Ao encontro dessas cores que não deveriam tingir nenhuma tela, tudo mais se desfaz e encontramos rumos que em nada se assemelham a jornada original.

Sou escritor porque não conseguia encontrar outro ofício que me desse alguma paz - não! Não é ‘paz’. Isso é uma péssima escolha de palavra. É conseguir suportar tudo em volta. Nas obsessões que este trabalho traz como rotina busquei lugares, olhares, atos, ritos e outros elementos que podem sugerir substância ao conjunto de palavras. Em vez de viver, me alimentava de material apenas para dar vida ao que pretensiosamente chamava de obra. Esqueci de minha vida e de meu corpo. Esse modus operandi deve ter sido o motivo que culminou em um conflito amoroso que vivi pouco depois das festas de ano novo. Não deveria ter sentido tanto, já que não via a vida como algo mais importante que meus escritos. As palavras que ouvi antes de ela ir embora parecem ter lacrado, ou pelo menos confundido meu olhar para o mundo como uma fonte de imagens para meus contos. Não deveria ter acontecido assim, mas me encontrei na mais banal crise criativa. Depois de dizer para mim que eu não era humano, ela foi até a parede da sala e pegou um pequeno quadro de uma paisagem de um navio atracado em um porto ao por do sol. Havíamos comprado a pequena pintura juntos, juntando os trocados que carregávamos, em uma feira de rua. A imagem do quadro trazia pinceladas que remetiam aos impressionistas, mas sem a mesma sutileza e com um olhar naïf, apesar dos traços borrados que lhe dava alguma personalidade. Quando ela saiu, olhei para aquele espaço em branco na parede. Apenas um prego solitário e uma marca retangular de atrito sobre a parede branca. Minha mente se transformou naquele espaço branco. Era necessário preencher para poder viver - não! Péssima escolha de palavra. Para poder escrever.

Nunca fui afeito a beber e sempre achei patético beber por solidão. É tolice acreditar que a embriaguez pelo mais amargo absinto nos transforma em seres diferentes. Ela apenas liberta a estupidez que guardamos atrás de toneladas de costumes e leituras. Estupidez sim, pois somos criaturas que pontuam atos relevantes pelos momentos de insensatez. Eu já estava embriagado pela brancura daquele espaço na parede. Nenhum destilado de zimbro seria capaz de me embriagar mais. Foi justamente o auge deste delírio - no meio de uma invisível espiral num retângulo branco - que me fez querer viajar. Era preciso sair dali. Fugir daquele prego na parede que mostrava uma ponta de ferrugem e oxidava minha vontade de escrever.

Viajei em plena sexta feira de Carnaval. É inacreditável que em meio a toda esse caos, ainda precisemos de datas no calendário para celebrar a insensatez que é nossa razão de ser. Sempre odiei este feriado. Durante carnavais anteriores, ficava trancado em meu apartamento lendo jornais velhos e esperando que aqueles dias terminassem para poder abrir a porta. Foi justamente esta minha aversão que me fez viajar para um lugar onde as festas de Carnaval eram conhecidas por seus peculiares e delirantes excessos.
Parecia perfeito. Eu precisava de uma nova experiência. De uma nova cor para preencher aquele branco mais insuportável que a palidez da baleia para Ahab. Uma condição compulsória de dissipar meus preconceitos e buscar uma perspectiva alheia a tudo o que eu até então cultivava.

Aquela cidade estranha parecia ter sido tomada por exércitos ímpios que obrigavam a população a usar fantasias. Era uma lei marcial. Ainda assim todos pareciam estranhamente confortáveis pelo que eu via como um cumprimento de lei. As batidas repetitivas do bumbo soavam como uma cerimônia pagã de sacrifício humano. Gritos que lembravam brados de guerra, mas ao contextualizar compreendia que não passavam de expressões afetuosas para angariar novos integrantes aos blocos de foliões. Os gritos me afastavam da vibração sedutora das batidas. Caminhava pelas ruas olhando para aqueles foliões como mortos-vivos que vagam acéfalos tentando saciar algo que é impossível de saciar. Exatamente como eu, mas com anseios distintos. Estas diferenças eram grandes o suficiente para fracassar em minha busca por uma fantasia que não me pertencia.

Sentei-me em um boteco. Pedi ao garçom uma cerveja e um pastel. Menu que era a única possibilidade energética naquelas ruas. Aguardei as iguarias sentado naquela mesa sobre a calçada de petit-pavê irregular. Ali contemplei apartamentos e vi sombras de festas privadas cruzando as molduras das janelas. O movimento daquelas sombras exalava uma sexualidade que me fez sentir o sangue correr até o meio das pernas e iniciar uma ereção. Hoje vejo que aquilo deveria ter me surpreendido, mas foi algo absolutamente natural e justamente por esta organicidade, não havia surpresa alguma, apenas o desejo de me mesclar àquelas sombras. Se possível, não em corpo, mas também como sombra. Uma orgia de projeções cuja alegria me impelia a participar. Meu sonho acordado foi interrompido pela imagem de um prato de metal com um pastel de queijo sentado sobre um guardanapo cinza ensopado em óleo. Desejei então por um momento voltar para casa e resolver lá mesmo aquele vácuo de cores. Foi então que ele surgiu em minha frente e fez alguma piada sem graça.

Pela sonoridade, era certo que aquele homem - Não! A palavra não é homem. Isso é uma péssima escolha de palavra. Aquela... ‘criatura’. Melhor. Aquela criatura havia feito algum comentário cômico sobre o estado de meu pastel. Não sei exatamente o que ele disse, mas sorri em resposta, sem imaginar o motivo de estar sorrindo. Olhei para ele. Tinha um bigode bem aparado na parte de cima e um corpo peculiar. Em pontos parecia ser magro demais, em outros com gorduras disformes. Sei disso com detalhes pois seu torso estava nu, não fosse por um peculiar sutiã de cones em seus mamilos. Um sarong escondia suas pernas e completava a imagem bizarra a meus olhos estrangeiros. Perguntou então de onde eu era. Estava mais do que claro que eu não pertencia àquele cenário. Antes que eu pudesse responder, ele me interrompeu:


'Desculpe. Eu não deveria ter feito essa pergunta. Muito menos nessa época do ano. Já sei demais ao ver que você não é daqui. E não é apenas porque você não usa fantasia, mas principalmente por seu olhar. Você parece que está desesperadamente buscando por algo. Estou errado? '
Sorri encabulado confessando silenciosamente que ele estava certo. Ele continuou:
'Agora que estou aqui, você sem dúvida está querendo que eu te mostre alguma coisa para não voltar para sua cidade de mãos vazias, estou errado?'
'Talvez', respondi tentando manter um ar tolamente blasé que pretensos autores como eu gostam de ostentar.
'Você estava olhando para aquela janela ali naquele prédio. Eu percebi quando cheguei aqui e olhei para você', ele falou em meio a um arroto de cerveja.
'Você está me oferecendo alguma arapuca para turista? Quanto isso vai me custar?'
Ele riu e tomou mais um gole da garrafa.
'Não quero seu dinheiro. É carnaval. Eu também quero ver coisas novas. É o que todos querem por aqui'
O sotaque diferente do meu fazia com que aquela conversa ficasse ainda mais próxima de um conflito cultural, mas eu estava ali pelos motivos que ele me apresentava. Não havia como negar. Estava estampado em meus olhos.
'Aquele apartamento que você estava olhando é meu. Aquela festa é minha.', gabou-se.
'E o que é que você está fazendo aqui? Não deveria estar cuidando de seus convidados?'
'Eles sabem se cuidar sozinhos. E eu estava entediado. Então? Quer subir de volta e fazer algo pra fazer este Carnaval valer a pena?'
Pausei poucos segundos para tentar mostrar alguma dúvida, mas era inútil. Eu queria muito aquilo. O que quer que ele estivesse oferecendo.

Entramos no prédio e subimos a longa escadaria com degraus suntosamente marcadas por grossas placas de ébano. Eu ouvia o som da música crescer e meu coração acelerava fora do compasso. Quando estávamos pisando no penúltimo degrau, ele se interrompeu e me disse:
'Precisamos fazer algo com essa cara de gringo. Se você continuar assim, vão tirar proveito de você e eu quero que você tire proveito desta festa. Desviamos da porta de entrada e entramos pelos fundos do apartamento. Era uma área de serviço repleta de copos com restos de bebida. No meio do comprido cômodo percebi uma poltrona de couro com marcas de corpos suados e uma gota seca de esperma fazendo a curva do assento em direção ao chão. Deixei meu olhar pousado sobre aquela poltrona e não pude evitar a recriação da imagem daqueles dois corpos. Minhas visões foram interrompidas pela imagem de um esqueleto. De uma fantasia de esqueleto. Por trás dela, surgiu o rosto sorridente de meu anfitrião.
'Vista isso. Um dos músicos faltou e deixou essa fantasia sem uso. Essa máscara deve dar conta dessa sua cara de cachorro abandonado no sábado de Carnaval', e riu como se aquilo fosse algum tipo de piada. Não vi graça, mas sorri socialmente.

Vesti aquela imagem de mensageiro da morte e me senti particularmente livre. Ria dentro da máscara apenas por pensar que ninguém sabia que eu estava rindo..

Ele olhou satisfeito para mim e falou em meu ouvido, 'Agora eu vou te mostrar coisas que você nunca viu, mas peço que você também me mostre. '

Aquele pedido gelou meu espírito e desejei desistir, mas não havia retorno.

Ele abriu a porta que dava para o salão principal. Era um apartamento gigantesco. Uma verdadeira mansão cravada dentro de um antigo prédio. Músicos com uma fantasia igual a minha tocavam e faziam os pés dos demais convidados dançarem. A dança e a música não eram o mais importante ali. Os convidados usavam fantasias dos mais diferentes estilos. As mulheres, como regra, usavam pouca roupa. algumas usavam apenas uma máscara e um bikini. Outras nem mesmo o bikini. Algumas dançavam de olhos fechados, outras conversavam entre sorrisos com um ou mais homens. Tudo era pretexto para que eles então se ausentassem do salão e entrassem em um dos inúmeros quartos que rodeavam a sala principal.

'Lindas mulheres, não? Qual você vai querer?'. Tão súbito quanto ele lançou esta pergunta, virei para ele surpreso. Ele riu. 'Não, não… não se preocupe, já disse que não quero dinheiro. Não sou cafetão e elas não são prostitutas, o que estou dizendo é: que mulher negaria uma trepadinha com a morte em pessoa?' Estendeu o braço para mim de cima a baixo, como seu se eu fosse um carro novo e ele o vendedor. Não me movi. 'Já vi que você não vai tomar iniciativa alguma. Deixe que eu escolho então. Tome, tome uma bebida...e mais um desse aqui." Estendeu para mim uma taça de champanhe - a mais saborosa que já provei - e um comprimido. Hesitei brevemente, mas eu havia pedido por aquilo. Não! Péssima escolha de palavra. Eu havia desejado aquilo.

Em menos de um minuto o champanhe começou a fazer efeito e o comprimido logo depois.

Ele me levou até uma mulher. Um belo corpo e cabelos negros e compridos. Ele disse que não deveríamos trocar nomes. Me vendeu a ela da mesma forma que vendia ela a mim. As imagens borradas causadas pelo comprimido começaram a me irritar. Era preciso que eu tivesse uma percepção clara de o que estava acontecendo ali, mas já não era mais possível. Conversamos banalidades e ríamos. Pelas leis do bom senso, ele agia com misogenia digna de punição, mas tanto eu como ela estávamos nos regozijando com o tom impresso por nosso anfitrião. Depois de três taças e sabe-se lá quantos minutos, ele nos conduziu até uma porta além do salão. Entramos em um escritório. As paredes estavam repletas de adagas de todo tipo. Sarracenas, ocidentais, medievais, renascentistas, réplicas e originais. Maravilhei-me com a coleção até que minha companheira me desse um beijo e uma mordida em meu pescoço. Ela se afastou e sorriu. Levantou sua mão até a minha máscara, mas o anfitrião segurou seu pulso sorrindo.

"Esse sujeito aqui", disse ainda segurando seu pulso, "esse sujeito é a surpresa da festa. É por isso que eu não quero que você veja o rosto dele. Pra não estragar a surpresa". "Não posso mesmo tirar essa máscara dele?", ela disse rindo e colou sua mão em meu peito.
"De jeito nenhum! ", bradou o anfitrião.
"Então quer dizer que beijo na boca não pode? ", ela disse para me fazer corar ainda mais debaixo daquela máscara, se é que havia sobrado algum sangue em minha cabeça. Ela logo sentou-se sobre a escrivaninha do escritório e deslizou sua mão até o meio de minhas pernas. Gemeu como se estivesse me confirmando seu desejo. Fez seus dedos caminharem até minhas nádegas e empurrou meu corpo para entre suas pernas. Com o canto dos olhos vi meu anfitrião tomar um gole de champanhe e sorrir maliciosamente debaixo daquele bigode bem aparado. Com apenas um olhar, ele comandou que eu continuasse. Também disse algo. Não pude entender. A bebida e os efeitos do comprimido entorpeciam meus sentidos. A distante batida dos músicos vestidos de esqueleto vibravam em meus ossos enquanto eu penetrava aquela mulher. Ela não sabia quem eu era. Não sabia meu nome. Não sabia meu rosto. Não sabia o que eu realmente queria, mas se entregava passionalmente e verdadeiramente a mim. Meus sentidos foram evaporando à medida que acelerávamos nossos quadris. Olhei para frente e não via mais nada do corpo daquela mulher. A única coisa que havia sobrado eram seus olhos. Aqueles olhos flutuantes me instigaram paixão ainda mais fervorosa. Não a paixão dos românticos, mas a palavra compreendida no sentido mais amplo. Paixão significando onipotência. Percebia as gargalhadas daquele que permanecia ali como espectador e produtor do espetáculo. Senti as mãos dele em meu pulso, afastando meus dedos do seio de minha amante sem corpo. Ele me fez segurar algo que eu não sabia o que era. Era frio. Parecia mais um copo de bebida gelada. Ele então sussurrou em meu ouvido: 'Vai'. Não entendi por que é que ele queria que eu bebesse naquela hora, mas sua ordem fez crescer minha sensação de poder e meu êxtase foi se aproximando, mas subitamente tudo dissipou e não compreendi mais nada. Não havia mais olhos, nem corpo, nem lugar, nem música. Tudo era escuridão.

Na manhã seguinte embarquei de volta para casa com um misto de ressaca e uma estranha plenitude. Quando cheguei em casa o porteiro me perguntou se eu tinha aproveitado a viagem. Ainda tonto e incapaz de discernir o que havia acontecido, apenas resmunguei algo para dar a impressão de continuidade a conversa. Entrei no elevador e minha cabeça passou a latejar. Deduzi que era algum efeito tardio de meus excessos. Quando deixei minha mala sobre a mesa da sala, a enxaqueca aumentou. Abri a mala e vi minha máscara de caveira em meio a minhas roupas sujas. Levei minha mão em direção àquele souvenir grotesco e então percebi que seu peso era incomum para algo que deveria ser apenas de tecido barato. Havia algo dentro da máscara. Passei a desdobrar o pacote. Minha mão chegou a um cabo de marfim frio como o gelo. Levantei a última dobra da máscara em um gesto brusco que revelou a lâmina de uma adaga marroquina com a lâmina embebida em sangue que ainda coagulava. A rapidez de meu gesto fez com que uma gota escarlate voasse pelo ar e pousasse contra a parede escorrendo alguns centímetros. Meu coração subiu até a garganta e imagens foram se formando diante de meus olhos. Não eram meros delírios. Eram lembranças. Eram as mais diabólicas imagens de lembranças! Os dentes de uma voluptuosa mulher prazerosamente mordendo o lábio inferior… uma lâmina forjada à moda sarracena em minha mão… uma voz em meu ouvido… um gemido de gozo… um corte em uma vagina onde o jorros de sangue se misturavam ao meu esperma… risos… um corpo nu tombando no chão sem vida… mais um riso se contendo e dizendo: 'Me diga se esse não vai ser um carnaval inesquecível? Pode deixar que eu cuido do resto. Obrigado."

Com o sangue se tornando espesso em meu corpo, fui tomado por um espírito mais forte que a qualquer delírio de ópio e me atirei a escrever. A cada palavra escrita, aquela adaga entrava cada vez mais em minha mente. Ao digitar o ponto final de minha história, entendi que aquela lâmina estaria ali cravada por toda a eternidade de minha alma.


Zansky
Outros trabalhos: http://www.zansky.com.br/


Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

9 de jan. de 2012

2ª Rodada


A 2ª rodada começará dia 8 de Fevereiro de 2012, o tema é "Carnaval do Horror" e será uma rodada invertida, ou seja, nesta, os ilustradores e fotográfos é que serão incubidos da missão de criar as imagens apavorantes que inspirarão os escritores.
E além desta novidade, noticiamos que novos colaboradores se juntaram ao grupo neste mês! Os enlameados escritores: Paulo Biscaia Filho, Alexandre França, FMAN, Mel Ferreira e Luiz Andrioli. Os pantanosos ilustradores: Hafaell Pereira, Yan Copelli, Carol Winter, Arthur d´Araujo, Dolores Garcia, Zansky e Elis Marina B. Também o exímio fotógrafo, Eli Firmeza.
A idéia é que os ilustradores e fotógrafos criem cenas aterrorizantes que tenham a ver com o universo do carnaval brasileiro. Estes vislumbres servirão de base para os contos dos escritores.
O blog Lama, ao contrário da revista impressa, enfoca narrativas curtas, velozes. São pequenos delírios pulp recheados de agonias e pesadelos, ao som, desta vez, de uma infausta marchinha fúnebre.