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30 de jun. de 2014

Que horas são ?

Conto: Rodriane DL
Ilustração: Júlio Vieira


Descemos a rua dos frigoríficos caminhando rápido. As placas vermelho-escarlate pareciam lápides ostentando a morte dos pobres bichinhos. Você ficava triste e eu apressava o passo. Estávamos indo até o descampado onde eles jogavam os restos dos bois. E sua tristeza acabava rápido, tiquetaqueando junto com meu relógio.
A gente chegava lá e sabia de cor cada decomposição, cada cheiro podre, cada resto de osso lambido até o tutano pelos cachorros vadios que zanzavam por lá. Um deles, com tufos de pelo lutando heroicos contra a sarna, chamávamos de Cão.
Ele abanou o rabo entre as tábuas quando nos viu cruzando a cerca.
- Tá gordo e roliço como um porco esse Cão!
- Mas é feio, hein ?
Eu estiquei o braço e apontei na diagonal :
- Olha, Cris, uma cabeça nova!
Corremos lá para ver o tamanho do estrago. Uma cabeça sem chifres e olhos esbugalhados era a novidade, coberta de moscas ensandecidas.
- O bicho não teve nem chance.
- Não mesmo.
Peguei uma vareta e cutuquei a cabeça bem no nariz, milhões de larvas enlouqueceram saltando para fora.
- Está recheada!
- Parece salgadinho...
Ficamos ali olhando aquele negócio se mexer sem vida por alguns minutos, cutucando e rindo do jeito dela.
- Que horas são, Luis ?
Olhei o relógio e contei os números, porque não consigo saber as horas assim de supetão e isso faz a Cris sorrir.
- Acho que são quase seis.
- Então temos que ir.
Passamos a cerca, não sem antes fazer festinha com Cão que abanava o rabo de tufos, porque Cão bem sabia que a gente voltava.
E voltávamos mesmo, com a mesma desculpa de ver ossos cheios de larvas, escondendo a vontade verdadeira de querer estar junto, seja lá para o que for.
- Eu vi um caminhão de bois chegando na cidade ontem, Cris.
Ela baixou o olhar e eu não gosto quando eu a deixo triste. É como se as larvas invadissem meu coração.
- Vocês acham que vão matar todos?
- Só alguns...  talvez nenhum. Acho que são só para exposição mesmo.
Ela olhou para o descampado com os olhos castanhos e desacreditados. As larvas se mexeram um pouco mais dentro de mim.
- Nós podemos não vir mais...
- Não, Luis. Nós precisamos ver se está tudo ok com o Cão...
Nós dois, apressados como um relógio passando das seis, tínhamos boas desculpas para estar junto um do outro.
E as larvas saíam do meu coração.


Rodriane DL

28 de set. de 2012

A porta trancada


Texto: Mel Ferreira
Ilustração: Júlio Vieira




Você não faria isso.
O que?
Solte...
Você gosta?
Você não faria isso.
O que?!
Aperte de novo.
Você gosta?
Você nem teria coragem.
De que? (Risos insinuando algo.)
Está quase me cortando, sabia?
Você não gosta?
É que você não faria isso mesmo.
O que?
Com aquele machado.
Isso?
Esse.
Posso segurar seu braço?
Não faria isso...
O que?
Mais firme! (Pausa) E se eu te pedisse para abrir minha blusa?
Eu faria isso?
Você é covarde. Aquela faca esquentando no fogão...
Eu faria isso?
Você é covarde.
(Ele rasga sua blusa).
Entregue.
Não, pegue você.
(Ela tenta. Seus braços friccionam entre a cadeira e a corda que os prendem. Um vergão especialmente no pulso.)
Dá.
Você quer a faca?
Você não me cortaria.
Arranco seus dedos com canivete se você alcançar a faca esquentando no fogão.
(Um grito com os dentes cerrados.) Eu quero!
O que?
Corta.
A corda?
Meu braço!
Eu faria isso?
Você é covarde. Arranque meu braço!
Quer mesmo?
O aquecedor.
O que tem ele?
Encoste aqui na minha bochecha.
(Ele pára na frente dela. Olham-se fixamente.)
Não. (Diz devagar)
Aquele liquidificador... Nos meus cabelos... (Ela lacrimeja.)
Não.
Então me solte que eu vou pular!
Da janela? Está trancada.
Coloque veneno no meu olho? (Quase fazendo manha)
(Ele implacável.) Não.
Beije minha boca.
(Imóvel. Frio. Nenhum sinal de expressão no rosto dele.)
Estou grávida.
Parabéns.
Vai! Agora pegue um pedaço da minha orelha e jante.
(Silêncio.)
(Ele se levanta. Tira a faca quente do fogão. Deixa ao lado da cabeceira.)
Não alcanço! (Berra.)
(Ele pega o aquecedor ligado. Coloca perto das costas dela.)
Por favor, encoste! (Desespero.)
(Ele toma o alicate nas mãos e crava no cachorro.)
É minha vez!
(Ele tira uma chave do bolso. E sai.)

Ps. Volte ao início.

Mel Ferreira
Publica outros contos e narrativas em seu blog: eternoseefemeros.wordpress.com   

Júlio Vieira
Publica suas criações no blog: juliovieira.blogspot.com

16 de ago. de 2012

Anan

Ilustração: Júlio Vieira
Conto: Yusef Al Ayub Hudhayfah


O capitão Zaide Muwaffaq e sua tripulação conheciam muito bem os riscos e as lendas a respeito das águas malignas do mar Makhluk antes de aceitar a perigosa incumbência alvitrada pelo imperador Dal Ima Adin, de Amtullah. Entretanto, isso não foi suficiente para intimidar os maiores marujos mercenários de Zaide ≈ bando composto pelo seu irmão Zaim, Radi Habib, Benevides Nasih, Butrus Moamede, Anadil e Sharif Mahmud, Jibril Fahd, Boulos Latif, Dharr Dhul Fiqar, Shadi Ra’id, Ayub Dib, Rarin Katar, Sab Mu’ayyad e Zaib Mansur.  
O rei desafiou Zaide e seus comparsas a encontrar o Nazar Bancugu, um talismã milenar que protege quem o usa, da inveja dos inimigos. Ele é conhecido também como O Olho Místico ou Olho Turco. Os turcos acreditam que com o amuleto do olho você estará protegido e toda a energia ruim estará dirigida ao amuleto e não atingirá você. 
A recompensa foi generosa e o soberano Dal Ima Adin sabia muito bem como agradá-los: pagou antecipadamente a metade do valor em moedas e artefatos de Zildar.
O navio de Zaide partiu no dia seguinte à negociação. Levaram suprimentos suficientes para mais de cinco meses de viagem. E um pequeno baú de madeira, especial, chamado Kahon, abençoado pelos magos, onde deveria ser guardado o Nazar.
Depois de vinte noites no mar, algumas aterrorizadas por pujantes tempestades, aportaram em Anan ≈ cidade de brumas. Muitas histórias de bruxarias e rituais de Anan circulam pelas barbas dos frequentadores das tavernas de Amtullah. Anan é uma cidade encoberta pela névoa, encrustada nas montanhas de Azmar. O que favorece a obscuridade de rituais macabros. Dizem que muitos bruxos amaldiçoados se escondem nesta cidade, inclusive tramam e agem contra os grandes reis. O Silêncio fático das janelas e ruelas de pedra tortuosas não passa de um ardil para enganar visitantes. Corujas bicéfalas e morcegos alvos furavam a cerração, dando rasantes, assustando os marujos.
O grupo passou a noite numa pousada com degraus de musgo, chamada Estalagem Almas, a menos de cem passos da praia. Durante a madrugada, vozes gritavam na escuridão. Anadil ainda tentou enxergar algo pela fresta da veneziana no quarto, mas só viu neblina. E depois, mais berreiros desesperados.
No outro dia, os marujos levantaram cedo e antes de embarcar, se depararam com algo se movendo na praia ≈ um restolho de corpo, pedaço de ser humano retalhado. No lugar da cabeça, havia uma mão, seios no tronco com tatuagens de caveira e as extremidades cortadas em pequenos tocos. A escória movimentava-se na areia, feito uma serpente, arrastando-se lentamente. O corpo parecia ter sido também queimado ou entregue a algum tipo de ritual. A pele, vermelha como lava. Dharr Dhul transpassou a carne da cria com sua lança, fazendo o sangue jorrar.
Então finalmente, Anan se revelou para eles. Aquele pedaço de carne humana modificada era uma amostra do que acontecia por trás do véu de nuvens, do outro lado da cortina que protegia os bruxos. Alguns acreditam, inclusive, que a bruma é criação dos magos e que além dos rituais, a cidade abriga também alguns dos mais cruéis assassinos do Oriente. Dizem, inclusive, que no meio das brumas das ruas tortuosas de Anan, é capaz de se encontrar com parentes mortos, almas perdidas. Quem sabe até se deparar com algum deles, no salão de café de uma pousada.
Contudo, ironicamente, foi em Anan que o grupo de Zaide dormiu o sono dos justos. Descansaram as vinte noites mal dormidas. E Zaide sonhou pela primeira vez com sua amada, Kamilah, depois de vinte e um dias longe. O sonho foi tão real que ele acordou com a sensação exata do seu perfume de jasmim, pode tocar suas mãos macias e lembrou da maciez dos seus lábios.

Júlio Vieira
Publica suas criações no blog: juliovieira.blogspot.com

Yusef Al Ayub Hudhayfah 
Nasceu em Teerã, em 1977 e hoje vive em São Paulo, Brasil. Começou a escrever aos 18 anos e publicou em 2008 seu primeiro livro de contos, “Almas” pela editora “Mizmar”.