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28 de jul. de 2014

Pedra lavrada

Conto: Dragomir Kephas
Ilustração: Rafael Pto



O viajante deparou-se com uma bela peça lavrada em pedra, na confluência da estrada principal e um caminho até então desconhecido, quase oculto pela relva crescida.  A tal escultura, um anjo melancólico, postado no remoto trajeto entre duas cidades do interior, certamente sinalizava a entrada de alguma propriedade. Revigorado pela surpresa, Getúlio tinha certeza de que ninguém lhe negaria um bom prato de comida e um canto para dormir.
Ele fazia sua jornada a pé, acompanhado por um cavalo magro, puxado pelas rédeas e incumbido da bagagem.  Depois de alguns minutos caminhando, foi possível avistar uma colina descampada e um casebre com a chaminé fumegante. Ainda seguindo a trilha, passou por um grande paredão rochoso, uma pedreira. Ao final desse trecho, após uma curva abrupta, o viajante estava aos pés da colina encimada pela choupana.
Getúlio prendeu as rédeas num arbusto e bateu palmas. Sem demora, um idoso apareceu na porta da casa e fez sinal para que o viajante se aproximasse.
O sujeito, cuja boca escancarada ostentava não mais que três dentes, ria com a satisfação de quem revê um ente querido. Os olhinhos brilhavam, espremidos, entre incontáveis rugas. Os cabelos eram brancos, esparsos e desgrenhados. Tinha a estatura de uma criança de dez anos. Apesar do aspecto frágil, o ancião apresentava muita vitalidade. Puxou um banco e fez sinal para que Getúlio sentasse à mesa, então serviu uma jarra de água, bananas, pão e um ensopado de carne. O anfitrião nada dizia, apenas produzia alguns sons guturais e gesticulava muito.
Getúlio não fez desfeita, alimentou-se com tudo que estava à disposição, demonstrando gratidão em cada gesto. Depois de saciado, puxou a carteira do bolso e ofereceu um pagamento pela comida, mas o idoso refutou enfático e sorriu dando tapinhas no ombro de seu convidado. Então, saiu do cômodo e retornou com lápis e papel e, colocando-os na frente do viajante, disse com dificuldade:
– Nome.
Getúlio escreveu seu nome no papel e depois, a convite, seguiu o idoso até os fundos do casebre. O local era uma espécie de ateliê, um pátio de terra batida coberto com telhas de amianto. Havia anjos de toda espécie, carrancas, capitéis, balaústres, colunas torneadas e todo tipo de artefato talhado em pedra. Orgulhosamente o artesão apontava para cada um dos trabalhos. Caminharam para fora da área coberta, chegando a um local onde havia dezenas de lápides, todas belamente trabalhadas.  As primeiras que Getúlio observou estavam deitadas no chão, ornamentadas com alto-relevos ao redor da face polida. Ao lado, fileiras de lápides dispostas perpendiculares ao chão, como em um cemitério, porém mais próximas umas das outras. Ele seguiu entre os estreitos corredores e percebeu que aquelas lápides possuíam nomes entalhados.
Getúlio virou-se para o idoso quando sentiu a lâmina penetrar suas costas. Ele caiu e teve a cabeça golpeada com uma espécie de tacape de pedra. O velho destrinchou sua carne, depositando-a numa bacia. Separou as vísceras e os ossos num saco de pano, que enterrou onde havia espaço para mais uma lápide.


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Dragomir Kephas 
Colaborador da revista Lodo, desde 1958.
revistalodo.blogspot.com.br

Rafael Pto

facebook.com/rafael.pto

27 de jul. de 2012

Limoeiro

Arte: Francisco Gusso
Conto: Dragomir Kephas



O sujeito taciturno, habitante solitário daquela paisagem desolada, seguia por uma trilha rumo à civilização para adquirir mantimentos. Em certa altura do trajeto deparou-se com uma carroça que havia deslizado e estava encalhada em um barranco. Uma mula jazia suspensa pelo dorso e, caído sobre o assoalho da carroça, estava um padre abraçado a uma grande cruz de madeira. O andarilho verificou que o clérigo estava morto, embora não apresentasse ferimentos. Com dificuldade, desvencilhou a cruz dos dedos do defunto, foi quando percebeu que o objeto era oco; algo sacolejava em seu interior. Na base do artefato havia um orifício, uma fechadura, que foi aberta com a chave que o eremita encontrou pendurada no pescoço do padre. A base da cruz desprendeu-se e de dentro do objeto o homem retirou um limão; seco, duro como pedra. Enquanto protegia o padre dos urubus, ajeitando-o sob o assento da carroça, negligenciou a fruta que caiu em uma fissura do solo erodido. Continuou seu caminho, pretendia retornar com ajuda para levar o padre ao cemitério da vila.
Dois dias depois, o eremita retornou acompanhado pelo pároco local e dois policiais emprestados pelo delegado. Para espanto do homem solitário, um frondoso limoeiro havia crescido junto à carroça. A planta devia ter uns três metros de altura, pela sua avaliação. A pequena fissura, em que o fruto havia caído, era agora uma fenda tão grande, que serviria para ocultar o cadáver da mula e ainda sobraria muito espaço. Perplexo, tentou relatar os fatos sem parecer insensato, mas foi ignorado. O padre morto certamente priorizava a atenção daqueles que o acompanhavam.
Primeiro desprenderam a mula e arrastaram-na para a fenda no solo, conforme previsto pelo eremita. Então, nivelaram a carroça, de modo a conduzir o padre para a vila em seu interior. Para isso haviam trazido o cavalo da paróquia. O esforço exaustivo sob o calor do pleno sol levou um dos policiais a experimentar um daqueles limões. Espantou-se com a suculência e doçura da fruta. Todos, exceto o ermitão, entregaram-se ao deleite oferecido pelo limoeiro. O homem simples tentou alertar novamente, sobre o mistério daquela árvore, mas foi ignorado mais uma vez.
Em poucos minutos, aqueles que haviam provado as frutas começaram a queixar-se de uma sede aguda. Esvaziaram seus cantis e começaram a disputar uns pela água dos outros, primeiro com argumentos, depois com violência. O eremita jogou seu cantil para eles e, enquanto engalfinhavam-se pela água, fugiu e escondeu-se a uma distância segura. Ele ouviu tiros, gritos; tiros novamente. Mesmo com o silêncio total, aguardou quase até o anoitecer para verificar os fatos. Deparou-se com um horror sem precedentes. O pároco, um policial e o cavalo estavam mortos. O segundo policial rastejava-se alvejado por tiros nas pernas, ele revirava as entranhas do cavalo, sugando-lhe o sangue freneticamente. As vísceras dos outros cadáveres estavam espalhadas pela trilha, quase sem sangue, praticamente secas. O eremita aproximou-se com cautela para não ser ouvido e matou o policial com uma coronhada de fuzil na cabeça.
Todos os cadáveres couberam na fenda junto ao limoeiro. O eremita terminou de sepultá-los cobrindo-os com terra. A cruz de madeira, que pertencia ao padre forasteiro, ele usou para demarcar aquele túmulo coletivo. Ateou fogo ao limoeiro, fez uma prece para que o mesmo morresse e partiu para nunca mais voltar.

Dragomir Kephas 
Colaborador da revista Lodo, desde 1958.

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: franciscogussoarts.blogspot.com 

5 de dez. de 2011

Por que Lama?


Edição rara, Lodo nº 29, de 1950.

Por que o nome é Lama? Primeiramente queríamos homenagear a Lodo, de Florestano.  A Lodo é uma revista criada na década de cinqüenta, e que nos inspirou a criar a Lama. Publicada pelo Florestano Boaventura, escritor que mora atualmente no bairro do Uberaba, em Curitiba. Ele publicava estas revistinhas, formato cordel, desde 1948, com histórias pulp, de horror e fantásticas. Mas por algum motivo parou de fazê-las na década de setenta. Muita gente nunca ouviu falar. Resolvemos então prestar uma homenagem criando a Lama. Inclusive o nome, tem a ver e até o número de letras. 
Daí quando ficou sabendo da Lama, Florestano entrou em contato conosco e disse que se quiséssemos poderíamos republicar algum material das Lodos antigas e nos cedeu contos e revistinhas. Propusemos a ele então de fazermos um novo design e novas ilustrações e lançar a partir do número que ele havia parado, número 127, junto com a Lama 2. E ele topou. Daí o Daniel Gonçalves ilustrou e diagramou as histórias que reeditamos nesta Lodo nº 127. O nosso parceiro lamacento Otávio Linhares também teve um papel importante no processo, porque foi ele que primeiramente teve contato com o Florestano e passou também a escrever novas histórias para publicarmos na edição.


Lodo nº 127 editada por nós: Fabiano Vianna, Daniel Gonçalves, L.F. Leprevost, Milena Buzzetti e Otávio Linhares, Junho de 2011.Contos de Florestano Boaventura, Dragomir Kephas, Fúlvio Lopes e Detetive Linhares.

Depois tínhamos a vontade que fosse também um nome em português e curto. Lama além de satisfazer estas questões, é uma metáfora também de uma cidade construída sobre o pântano, que é Curitiba. Também existe o provérbio “Sujeito está na lama”, utilizado quando o cara está na pior. E, de certa maneira, nas histórias pulp sempre tem alguém em apuros. Cadáveres enterrados na lama.
Depois, por pura coincidência, descobri que o nome do edifício Tijucas, sede da revista, significa em tupi-guarani: lodo, pântano ou lama. Viemos para o lugar certo sem saber. Ou será que foi o pântano que nos atraiu, através de seus tentáculos até aqui? Heheh
Agora, o que levou Florestano Boaventura a batizar a Lodo, não sei. Preciso perguntar a ele. 

 
Edição rara, Lodo nº 29, de 1950.