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20 de nov. de 2012

Inglórias

Texto : Luiz Bertazzo
Ator: Marlon Anjos
Fotografias: Marco Novack
Arte: Marja Calafange
Figurinos : Day Bernardini & Renata Luciana
Maquiagem : Carol Suss e Dalvinha Brandão
Apoio : TRIO LUZ, XIK & COUVE -FLOR Minicomunidade Artística Mundial





Estrelando: 

Demi, a Fina

Darlene, a Gentil

Stephânia, a Bruta

Para mim era como uma dessas inúmeras lendas urbanas e só. Sabia claro da existência das mortes em confrontos patéticos entre nós e... Essa gente!!!!
Campos de batalhas em saídas das boates, nos calçadões de madrugada, mortos deste e daquele lado, as nossas baixas sempre acreditei não passarem de um amadorismo dos nazi-novatos, uma mistura de ansiedade por sangue e a força descomunal dos saltos afiados no asfalto. Qualquer rumor de seres bestiais enviados da morte de batom pareciam delírios daqueles que sobreviveram ao confronto e que de nós recebiam a correta punição com sangrias, rituais medievais para purificar o sangue fraco e derrotado.



Este sangue que sinto agora na minha boca é um sangue puro, não tem o cheiro, nem o gosto do sangue ralo daquelas ovelhinhas fracas da fraternidade, é o gosto vermelho de um de nossos melhores homens, coagulado em anos de honra defendida por nossos coturnos, servido agora em uma taça de espumante. Na borda do cristal uma grosseira gordura cor-de-rosa de mancha de batom. Elas provam e servem pra mim o líquido que até pouco tempo atrás corria nas veias de Talles.





Talles e eu crescemos juntos na vida e nas botinadas nas faces das bestas, casei-me com sua irmã, uma loira leite, tal qual meu filho que nasceu ontem. Éramos só comemoração, um legitimo pura raça, as transparências da pele fina dele revelavam um emaranhado de veias azuis que me enchiam de orgulho. Em uma delas eu tenho certeza, eu vi o símbolo cruzado, feito minha tatuagem que carrego no peito esquerdo. Talvez pela emoção carregada estávamos desatentos, havíamos acabado de liquidar uma dessas frágeis borboletas bêbadas, sozinha na saída de um de seus antros no centro histórico da cidade, era uma noite de comemoração. –“ Uma borboletinha de leve!!”, como dois amigos que saem para tomar “uma cervejinha de leve” num happy hour depois de uma promoção. Não queríamos grandes emoções, só pichar o asfalto de vermelho e voltar pra casa.


Descendo pela rua escura vimos algo como um brasão correndo em nossas direções, sou surpreendido por um cheiro de perfume doce misturado a um suor de armaduras. Não sei bem ao certo como me deixei golpear. Com os olhos cerrados no chão só pude ver Talles dançar uma coreografia ridícula tentando se livrar do salto enterrado no seu tímpano.


Sinto agora minhas cicatrizes ardendo e borbulhando da champanhe derramada sobre elas. Risadas histéricas, ao fundo algum clássico daquela puta loira dos anos 80. Dançam freneticamente. Será esse seu ritual de morte? PATÉTICO, sem o mínimo da decência de nossos grandes feitos, dos dentes quebrados de seus semelhantes no meio fio das ruas de paralelepípedos. Não posso mentir que estou assustado, preciso reconhecer no diabo sua força.  São três as cavaleiras  do inferno, fui apresentado a elas assim que recobrei a consciência. DEMI a Fina, aquela do brasão, sua imagem me violenta em todos os sentidos, seu sadismo é tão elegante quanto os trajes em que está vestida. Repousa minhas mão em baldes de agua fria me aplicando pequenos choques com o secador de cabelos em punho. E ri sempre armada de uma taça de um champanhe fino comprado certamente pela herança que um pai desolado deve ter lhe deixado. Penso em mil formas de combate-las quando sair daqui. Até o mais cruel dos skins se sensibilizam com os gritos de misericórdia das libélulas no asfalto. Mas com DEMI seria cruel sem piedade. Meteria goela abaixo as mais finas marcas de batom até seu estomago explodir na banha rosa choque desses produtos, mas nada se compara ao que guardaria para DARLENE a Gentil, seu sotaque de puta brasileira erradicada na França entra nos meus ouvidos como choques anafiláticos ao mundo de testosterona que fui criado e pretendo passar pro meu filho. Apelidei-a de Gentil, pois no momento em que entrei nesse cativeiro tinha a impressão de conseguir seduzi-la em troca de liberdade, está na cara dela os olhos brilhantes e sedentos de sexo, foi ela que com a maior das gentilezas me ofereceu um copo d`agua, não podia imaginar que seria ela também que tiraria da jugular de Talles o cálice de sangue que me serviria logo depois, DARLENE a Gentil penetra em meus orifícios algumas rosas que combinam com o enjoativo perfume doce que usa, rosas encharcadas de querosene afim de queimá-las das pétalas até o talo. Gentil como uma puta criada na Europa. Penso em todas as atrocidades que sou capaz de cometer.  Penso para conseguir dormir em Paz, pois sei que daqui não saio vivo.  Foi o que ouvi de STEPHÂNIA a Bruta, dura como uma rocha, ela quem respondia aos meus olhares que gritavam dentro de mim “- CHEGA, por misericórdia!!!” os motivo dessa captura. Lia nomes de suas amigas abatidas, nomes ridículos, misturas de divas dos anos 50 com sobrenomes forçadamente sonoros.  Tento me defender quando percebo que nem língua tenho mais, mutilada assim como todos os dedos da minha mão direita que agora jaz junto ao soco inglês emoldurado na parede. Desespero, fraquejo, mas retomo minhas forças ao olhar fundo nos olhos de STEPHÂNIA e ver que neles refletem minha retina. Consigo ver uma imagem... É nítido!!! Dizem que no fundo dos olhos antes de morrer está gravado, entalhado a última imagem que te fez sorrir, e pude ver nos grandes olhos da besta... Eu vi... Refletido dos meus, meu filho e suas veias azuis, meu herdeiro que um dia ouvirá minhas histórias, que um dia vingará minha morte.




Marco Novack
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15 de ago. de 2012

Vitorino

Fotografias: Marco Novack
Conto: Paulo Biscaia Filho
Estrelando: Luiz Bertazzo
Maquiagem: Andréa Tristão
  • Figurino: Day Bernardini
  • Apoio: Trio Iluminação & Cia Senhas




… o pequeno se esforçando para chegar ao oito. Vitorino está só. Olha para o teto buscando ver horizonte, mas não existem curvas no mundo quando você…

Vitorino busca a lembrança de Anastácia. A bela Anastácia - a verdadeira - cuja pele de porcelana... 

Os laços de cetim no cabelo cacheado não eram tão perfeitos como as rosadas bochechas de seu rosto. Quantas vezes Vitorino olhou por baixo daquele vestido de renda e procurou alguma coisa ali? Sua cabeça afundava em meio a suas pernas e ele a provocava, mas ela mantinha sua expressão congelada. 

Nenhuma careta? Mesmo? 

Apenas um sorriso protocolar de quem deseja ser simpática. Mais nada. Não ofegava. Não deixava nenhum lábio mordiscado. Nem mesmo seus olhos fechava. Não gritava. Anastácia certamente não o amava. Vitorino se deita novamente e com a ponta de seus dedos...



... que foi o momento onde as lembranças de Vitorino deixaram de circular pelos olhos que ele não sentia mais ter. Percebeu suas roupas amassadas e tentou ajeitá-las, mas, no meio de um movimento para tentar alisar um engruvinhado, interrompe. Ele apreciava as rugas de sua roupa. Em seu rosto não havia nenhuma, mas havia na roupa. O peso de tudo o que fez não estavam em sua face, apenas nas rugas da roupa. Dedicou-se a contemplar toda sua história em cada dobra jamais removida. Lembrou de suas aventuras em minha infância. Quando ele não pensava em Anastácia, mas apenas em escalar um Everest imaginário feito de pilhas de livros que minha mãe deixou espalhados anos antes de sua temporada no hospital onde...

A outra Anastácia trazia o jantar sem tempero e insatisfatório que é típico desses lugares. Ela sempre vinha as sete e meia. Eu sabia disso pois via os ponteiros no relógio ao lado da porta. Me presenteava com uma xícara de chá por que era "bonito um filho que não sai de perto da mãe". A outra Anastácia era uma mera empregadinha que merece... Não, não, ela era... 

... pelos corredores tentando não pensar. Como ele conseguia pensar? Ele era apenas...
... um tapa bem dado em seu rosto. "Meu deus, ela está morta e você quer brincar de que?" 
... não era para...
... "embora daqui e enterre sua mãe como ela merece". Perguntei murmurando pra mim mesmo se ela realmente merecia algo. "O que? Fale direito!!". Ela sabia como gritar. Eu gosto de uma mulher que sabe exatamente como ... 

Vitorino continuava olhando para o teto. A campainha bate. Me arrependi depois de ter caminhado lentamente até a porta. Se soubesse antes que era ela, teria voado. Certamente veio pedir desculpas. Santa campainha! Ela estava aqui em casa! A outra. A de carne. Que ideia! Poderíamos subir o Everest juntos! Ela certamente adoraria iss... 

Boneco? Que Boneco? 
"Esse que está aí na sua mão." 
Nada ele só é uma coisa que eu tenho e ... Entre. 
..."É que você tá?" ... Bem ... "... não deveria ter dado um tapa na..." ... Tudo bem, eu acho que eu merec... "então eu vou ind..." quando ela se levanta, curva seu corpo para frente e eu consigo ver seus seios por baixo da blusa de alças e deixo escapar um gemi... Não!!! Fica mais um pouco. a gente pode tomar chá! ... Segurando pelo braço... ela grita, mas não com raiva. Pelo menos eu acho que não era com raiva. É bom o som. Sinto crescer meu ... No chão! ... "Pára!" ... Eu não... Mão esquerda na garganta e a direita... Entra... Grita mais ... Se debate... Ofega... Seu rosto é um moto-contínuo de caretas de horror e dor e pânico e ... Acho engraçado e continuo... ela sente algo .... Isso é bom, não é? Ter alguém que faça te sentir alguma coisa? .... e eu também sinto ... Quando o meu corpo treme e minha mão esquerda sente um estalo... Ela não faz mais caretas. Só uma. É sem graça. Não tem nada. Nada. Nem mesmo o sorriso protocolar.

 




ESTÁ NA HORA DO CHÁ, VITORINOOO!!!!

Vitorino e Anastácia - a verdadeira - estão à mesa. Comportadinhos e bem arrumados como deve ser. Ela está de roupas diferentes. Um lindo vestido de renda e fita no cabelo. Ele carrega o mesmo uniforme de tantas aventuras. A felicidade é tão grande que Vitorino resolve estender sua perna comprida por baixo da mesa e em meio ao vestido...

Ela não faz caretas. Ela certamente não ama Vitorino. 

... choro...

...cabeça cai na mesa...

 Vitorino estende sua mão. Ela é dura e com pedaços descascados e sem tinta que revelam a verdadeira cor de seu material. Estende sua mão sobre minha cabeça e me faz cafuné. 

... Não faço caretas, apenas olho para frente e vejo o relógio na parede com o ponteiro grande no seis e... 



 



Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

Marco Novack
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3 de jun. de 2012

(Bônus) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão


Fotos bônus:







Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
 o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 

Marco Novack

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2 de jun. de 2012

(6) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão




Parte 6  –  Final

Acordei cedo no outro dia para comprar produtos de limpeza. Aproveitei também para reabastecer a geladeira com cerveja. Trouxe logo dois engradados. Foi trabalhoso esfregar o piso e limpar o sangue. Não sabia o quanto era difícil. Definitivamente é melhor usar veneno para matar as pessoas. Enrolei o tapete e liguei para a lavanderia.
Daí sentei em frente ao computador, mas não consegui escrever. Como a inspiração não veio, mandei um email para a editora com as crônicas que havia escrito até então. Ainda não eram suficientes para formar um livro, mas pelo menos dava para sacar o clima.
Abri uma lata e fui até a janela. O mundo continuava em sua organicidade banal: os vizinhos passeando com cachorros – entre bombas de cocô, na pracinha da Americanas, o vendedor de gravatas dando encima da mocinha da Ótica, o mendigo que parece o Gandalf, encostado no poste da esquina. Olhei para as janelas do prédio e vi outras cenas habituais – tudo matéria prima para novas crônicas.
Toca o telefone. Paro de lavar a louça e fecho a torneira. É minha editora, dizendo que adorou as crônicas e quer marcar uma reunião. Comenta a nefasta coincidência de terem morrido três escritores que ela publicava. Combinamos de nos encontrar à tarde num café do Batel Soho.
Desligo e abro mais uma latinha. Não acredito que enfim serei publicado!
Se isso acontecer, não precisarei mais matar nenhum escritor.
“Poxa, mas era tão bom...e agora?”
Talvez seu eu bolar uma nova lista de desafetos.
O atendente mal humorado do Café da Boca, que finge esquecer que eu gosto de meu sanduíche de queijo e presunto esquentado na chapa, pode ser o primeiro.

(fim)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
 o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 

Marco Novack

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1 de jun. de 2012

(5) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão







Parte 5

Fomos lá para casa e enquanto bebíamos, eu só conseguia pensar nas camisinhas que permaneciam em segredo no bolso do casaco.
Mostrei toda minha coleção de revistas pulp e de fotonovelas – ela leu e interpretou alguns trechos. Depois li as minhas crônicas novas, mas ela disse que preferia mais os de horror.
Então fui até o quarto e peguei o meu roteiro abandonado das samambaias gigantes assassinas para saber o que achava. Mônica deu várias risadas e achou bem melhor, mas acabamos não lendo tudo, porque nos beijamos e rolamos sobre os papéis.
Só não fomos mais adiante porque a campainha tocou. Achei estranho, porque ninguém me visitava tão tarde, entretanto podia ser um pretexto para ir até a sala pegar as camisinhas no paletó.
Abri a porta e era o sujeito que eu tinha pagado para matá-la, com revólver na mão, cobrando o resto da grana e anunciando meu plano maquiavélico a plenos pulmões. Não adiantou pedir que falasse mais baixo. Ele gritava: “Até entendo que você não queira mais “matá” a vadia, mas quero as minhas quinhentas pratas que faltam!”
Mônica apareceu na sala, para saber quem era e deu um grito quando viu o rosto do mesmo bandido que tentou nos assaltar na porta do restaurante. Debruçada na janela, pediu socorro.
O bandido disse que eu que tinha contratado ele para matá-la e que não fosse besta.
Eu me fiz de desentendido: “Como é que é?”
Aproveitei a distração e agarrei o braço dele. Acabou disparando uns tiros, mas por sorte eu consegui alcançar a faca que estava sobre o criado-mudo e enfiei no bucho. Espirrou sangue pra todo o lado. Para minha tristeza, descobri depois que um dos tiros disparados durante a luta havia atingido Mônica. Seu corpo estava caído, ensanguentado, sobre o tapete da sala.
Mônica não sobreviveu. Os vizinhos ligaram para a polícia. Meia hora depois, eu estava sentado na mesa da cozinha, explicando para os detetives toda a história. Eles elogiaram minha valentia, disseram que estavam atrás daquele trafica há meses e lamentaram a morte trágica da garota. Eu também fiquei muito triste, porque ela foi a única pessoa que elogiou minha história das samambaias assassinas.
Quando os investigadores foram embora, me senti ainda pior. Não só pela perda como pelo fato que eu não tinha Quiboa na dispensa para limpar o sangue. 


(continua...)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
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31 de mai. de 2012

(4) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão







Parte 4

Mas aí aconteceu uma coisa que não estava nos meus planos. Mônica, a terceira da lista, era – pasmem – uma pessoa incrível, apesar de ter escrito vários romances chorosos dramáticos, entre eles a história de uma ex-BBB viciada em macarrão instantâneo. Ela me disse que gostava mesmo é de literatura pulp e ficou empolgadíssima quando mostrei minha coleção de fotonovelas de zumbis. Ainda me contou que fez teste para participar de um filme do Zé do Caixão nos anos oitenta e que a esqueceram numa cova durante duas horas. Eu sempre quis conhecer alguém que tivesse participado daquelas seleções.
O papo fluiu muito bem, falamos até sobre The Walking Dead, mas eu só conseguia pensar, durante o jantar, no calango que eu tinha pagado para forjar um assalto e enfiar uma faca no bucho dela. Ele nos esperava lá fora, escondido atrás de um poste. Eu tinha pagado quinhentos pilas adiantado, com a promessa de saldar o restante quando ele finalizasse a moça. O plano era perfeito, ia parecer um assalto seguido de morte.
Mas não imaginei que Mônica poderia ser tão bonita e gente boa. Estava certamente rolando um clima.
Tentei prorrogar ao máximo o jantar, pedindo vinho e sobremesa. Depois que terminamos o pudim, ainda pedi mais um cheesecake.
Ela, ainda por cima estava muito elegante, e usava sapato social masculino. Eu sou fascinado por mulheres que usam sapato social masculino.
Propus então que pegássemos um taxi, para que não nos molhássemos. Solicitei que o maître ligasse e o carro parou bem em frente ao restaurante, na Saldanha Marinho. Andamos rápido, mas o ladrão surgiu de repente, com faca na mão. Tive que me jogar em cima, o que lhe causou espanto. Ele dizia no meu ouvido: “Ei, isso não foi combinado. É para fingir que lutamos?”. Peguei a faca da mão dele e gritei para que Mônica entrasse logo no taxi. Ela correu desesperada e eu fui logo depois, respirando através da bombinha, com a faca do bandido em mãos. Bradei para o taxista: “Mete o pé porque quase fomos assaltados!”.
Disse o endereço para o motorista e Mônica ficou impressionada com minha bravura: “Não imaginei que um rapaz tão frágil pudesse ser tão valente. Muito obrigada, meu coração está batendo forte!”
Aproveitei o nervosismo para convidá-la a beber uma água e descansar lá em casa. Ela topou. No caminho passamos num posto para comprar algumas cervejas e eu comprei também um pacote de camisinhas, sem que ela notasse e enfiei no bolso de dentro do paletó. 


(continua...)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
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Marco Novack

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30 de mai. de 2012

(3) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão


Parte 3

Isabela Souza foi a segunda pessoa que eu matei. Até então, a queridinha da editora. Publicou quatro romances – o último conta a história de um amor não correspondido entre uma mulher e um orangotango. Podia até ser bom, se não fosse o linguajar poético romanesco. Tenho vontade de pulverizar cada um dos poetas que vagam pela XV com seus livretos Xerox e que me perguntam diariamente se gosto de poesia e eu respondo: “Prefiro Turma da Mônica”.
Eles parecem emergir de dentro dos bueiros, tipo jogo do Mario Bros. Andar no centro é um videogame – saltar ciganas, se esconder dos palhaços, ignorar estátuas vivas...
Marquei com Isa no Parque Barigüi – ela costumava correr todo final de tarde. Totalmente aparamentada com roupas de lycra e tênis futurista. E eu, completamente sedentário, tive que comprar um agasalho só para isso. Com tênis allstar velho, antiquado. Fingi ser um atleta, mas a cada cem metros tinha que dar uma aspirada de oxigênio na bombinha. Ela percebeu e até ficou preocupada, mas eu disse que naquele dia a asma estava atacada.
Então quando estávamos perto da região do lago onde eu sabia que o jacaré atacava, empurrei-a. Fiz parecer que ela havia caído acidentalmente. Gritei: “Meu Deus! Alguém me ajuda! Minha amiga caiu no lago. O jacaré...”. Felizmente em alguns segundos, o réptil devorou-a completamente. Os guardinhas municipais apareceram depressa, mas só conseguiram resgatar um dos braços, com IPOD acoplado. Eu forcei um choro e disse: “Que desastre! Que desastre!” Algumas pessoas vieram me consolar. Um dos guardas verificou o aparelho e disse: “Ui, ela gostava de Foo Fighters!”. E o outro: “O jacaré vai ter congestão!”
Daí juntou um monte de curiosos e uma viatura me trouxe em casa.
Antes de subir até o apartamento, comprei duas latinhas de cerveja, desta vez. Senti a mesma euforia, adrenalina correndo solta, enquanto os números do elevador se aproximavam do meu andar. Abri a blusa do moletom, sentei em frente ao computador e escrevi mais uma crônica. Depois mais uma, e a inspiração durou até de madrugada. Matar os escritores estava me fazendo muito bem. Se eu continuasse neste ritmo, logo teria um livro. Ou virava alcoólatra.


(continua...)

Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também 
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29 de mai. de 2012

(2) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
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Parte 2


Esperei Fernando ir ao banheiro para borrifar estricnina no café. O problema é que sou meio ruim de mira e acabei molhando o livro que ele levou de presente para mim. Também porque, quando fico nervoso, tremo um pouco. Mas deu tempo de secar o tomo na minha blusa antes dele voltar.
Quando sentou, perguntou se estava tudo bem, e eu respondi que sim – foi só um calor repentino por causa da bebida. Eu suava muito e a cada sorvida de café que ele dava, eu tremia mais.
Antes de a toxina começar a agir, ainda conversamos mais um pouco. Ele me contou sobre seu último e sonolento livro, “Voa, voa, andorinha” e pensei que talvez fosse o antídoto para meu problema de insônia. Foi o exemplar que ele me deu, além de várias dicas de como escrever “grande literatura” e largar de vez o pulp. Eu poderia também usar o volume como peso para segurar a minha porta da lavanderia que está com problema na fechadura.
Inventei uma desculpa qualquer e vazei, antes que ele começasse a estrebuchar. Paguei minha conta, disse “quanto o admirava”, agradeci a paciência de se encontrar comigo, me despedi do “amigo” e caminhei em direção à Praça Osório, onde sentei num dos bancos. Cronometrei dez minutos e voltei até o Café.
Uma ambulância da ECO SALVA piscava vermelho e azul na frente, enquanto enfermeiros carregavam o corpo do escritor. Pensei comigo: “Não é que funcionou!” Um grupo de curiosos reuniu-se em volta e pude ouvir uma das pessoas falar “Era um baita escritor! O melhor da cidade. Grande perda!”
Escutar o comentário me deixou puto, mas não chegou a estragar o prazer que sentia. Antes de subir passei na Pizzaria Itália e comprei cerveja. Coisa que eu raramente faço, porque prefiro Yakult ou qualquer outra bebida. Mas não sei por que naquele momento senti vontade de beber “uma gelada” – como dizem os amantes da loirosa.
 Eu estava me sentindo muito bem, era como se eu tivesse sido ligado em duzentos e vinte. Fui dominado por uma súbita vontade de escrever. Paguei a bebida e subi até o apartamento.
Desfrouxei a gravata, abri a latinha e comecei a digitar imediatamente. Neste dia, escrevi minha primeira história de cotidiano: “A Andorinha capenga”. Segundo a editora, minha melhor crônica.
Descuido do ralo e a peneira entope de novo. Não sei quanto tempo fiquei olhando em direção ao nada. Odeio quando a água sobe e suja as louças. Por sorte não transbordou. Enfio a mão no meio da água com detritos boiando e libero a peneira para que a água escoe.
O resto da lasanha que esquentei no microondas quinta-feira passada se transformou num grude mutante colado no prato. Meto detergente e esfrego com Bombril. Então o pedaço se parte em vários fragmentos menores, escorrem com a água e se concentram na peneira do ralo para então jogá-las no lixinho. A massa desforme lembra-me a carne da escritora dilacerada pelas mandíbulas do jacaré. 




(continua...)

Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também 
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Marco Novack

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28 de mai. de 2012

(1) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

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Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão


Parte 1

Enquanto lavo a louça, lembro-me de como eu matei cada um deles. As imagens voltam em flashs, desordenadas – o veneno dissolvendo-se no café do velho; a carne da perua esportista sendo dilacerada pelas mandíbulas do jacaré, a minha falta de ar correndo na Saldanha Marinho seguida da aspirada na bombinha de oxigênio.
As migalhas concentram-se na peneira sobre o ralo. Por causa dos restos, lembro o que eu comi ontem. Como estava bom o strogonoff, pena que não tinha batata palha. É preciso esfregar com força as panelas, para limpar o molho que encrosta as beiradas. Para isso uso um produto desengordurante e esponja de aço. Passo com força nas panelas até que fiquem praticamente lisas novamente. Os restolhos que são capturados pela triagem eu arremesso no lixinho rente a pia, para que não entupa o ralo e faça a água subir. Eu odeio quando a água sobe, porque acaba sujando louças que não estavam tão sujas. E daí tem que enfiar a mão no meio da água com detritos boiando para liberar a peneira e a água poder escoar. Tudo isso por causa da editora que não gosta de literatura pulp.
Curitiba não é uma cidade de muitas editoras e a única que existe – chamada Aveia & Mel, não gosta do que eu escrevo.
Ela é a peneira que não deixa a sujeira escoar.
Já apresentei romances que considero fantásticos, como um que terminei a pouco tempo, chamado “Samambaias gigantes assassinas”, de uma história que se passa na Confeitaria das Famílias, onde os clientes são devorados pelas plantas enquanto tomam café. Deu um puta trabalho escrever este livro, passei meses frequentando o local, anotando as características dos clientes, e, é claro, aproveitei também para experimentar todos os doces.
A editora sugeriu que eu escrevesse um livro de crônicas. Mas como farei uma coisa dessas? Meu olhar já foi estragado pelo pulp. Vejo zumbis e monstros por toda a parte. E não estou me referindo à minha vizinha, a que passeia com poodles mutantes na Osório – parecem capivaras. Falo dos seres da imaginação mesmo. A realidade é muito bizarra, basta dar uma passeada pelos corredores do Edifício Tijucas ou ficar atento às lamúrias no elevador.
Tenho vários livros engavetados, morando ao lado de minhas pílulas soníferas. Entre eles um de contos chamado “Manual de sobrevivência a zumbis do Batel Soho”. São histórias de mortos-vivos Geeks que renascem no cemitério da Água Verde e caminham em direção aos shoppings, ansiosos por novidades da Apple. Não sei como a editora não gostou deste. Chego até a suspeitar que não esteja na cidade certa.
Incrível como o macarrão endurece e vira uma pasta grudenta quando seca. Fico imaginando esta gosma dentro do estômago. Borrifo desengordurante e abro a torneira da água quente. A fumaça me lembra do café do primeiro escritor que eu matei. Foi na cafeteria Metrópolis.
Decidi que a única maneira de ser editado pela Aveia & Mel seria eliminando todos os meus concorrentes. 

(continua...)

Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também 
o blog  www.contosdapolpa.blogspot.com. 


Marco Novack

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