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24 de jun. de 2014

Ossos gelados

Conto: Daniel Russell Ribas
Ilustração: Liber Paz


Só mais alguns minutos. Mas ela sabe que durará mais. À medida que a rajada sibila e eletrifica seus nervos por um instante, percebe que a rua está deserta. É a única alma presente naquele corredor longo e estreito, cercado por muradas de prédios residenciais. Sabe disso, porque não é a primeira vez. Talvez sequer seja a última. Como uma caçadora, a espera é tudo. O frio e as horas demoradas, embora incomodem, são suportáveis. A expectativa é a chave que mantém seu motor ligado. Ela sente. Ele voltará. E, quando isto ocorrer, se entregará por inteiro.
A primeira vez foi um acidente. Ela tropeçou. Tinha terminado um noivado com um homem bom, mas incapaz. Voltava para casa tarde da noite, a rua vazia e escura, com o chiado do vento como companhia e o frio lembrando-a de que não se tratava de um sonho. Ou um pesadelo. Ela tropeçou em um buraco na calçada e caiu. Após atingir o chão, ouviu um som diferente. A corrente de ar emitia uma frequência aguda, para, em seguida, silenciar. A ausência de barulho era tamanha que sentiu em uma realidade suspensa, um tempo parado. Sentiu os ossos gelarem. Ainda estava caída no chão quando o ataque veio.
O homem arfava, segurando-a com força, explorando seu corpo com suas mãos. Tentou gritar, mas seus dentes não se mexeram. O sangue bombeado pelo coração acelerado não surtia efeito em seu corpo engessado. A rua estava deserta. Nenhuma janela acesa. Em algum lugar, a lua... Então, de novo, ouvia a frequência aguda. Em seguida, o silêncio, que seria rompido com o uivo.
Retomou os movimentos de seu corpo, se arrastou na calçada de pedras portuguesas úmidas e enroscou os braços em portão de um prédio. Levantou a cabeça. Então, viu.
A criatura deveria ter dois metros. As sombras o engolfavam, a luz passando apenas pelas extremidades de seus pelos. As pernas e os braços pareciam moldados em pedra. O longo e afunilado focinho deixava escorrer a saliva e o sangue. Em sua mão, erguida como um brinde maldito aos céus, a cabeça decepada do homem que a atacara. O animal a vê e joga o membro na direção contrária. Ela só sente os ossos gelados e nada mais. Após encará-la, a fera solta um ruído estrondoso de êxtase e corre para as sombras.
Demorou para recobrar os sentidos. As pessoas que a acudiram, entre moradores e policiais, lhe contaram que só ela repetia, sem fôlego: "O lobo... o lobo o matou... O lobo me salvou..." Após buscas, não encontraram nada similar à sua descrição. Mas ela sabe o que viu. Pode sentir nos ossos.
Não conseguia dormir. A lembrança era vívida, mas não o suficiente. O lobo estava lá. Ela sabia. A presença dele a fazia se sentir mais forte, calorosa, com uma intensidade incomum. Queria tocá-lo. Mais do que acariciar seus pelos, desejava mergulhar sua cabeça neles. Sentir o calor de seu corpo e beijá-lo. Os sonhos eróticos aumentaram. Logo, a libido passou a ser aliviada em fantasias solitárias. Precisava de mais. Sair da loucura e partir para uma ação mais direta e fatal. Em outras palavras, deixar-se apaixonar.
Desde então, duas semanas se passaram. A vigília era severa em seu horário e nas condições climáticas. Nada importava, nem os comentários. "Cuidado com a mulher de branco!" ou "A noiva do lobisomem tá nua.", ouvia de forma indireta ou não da vizinhança. Nada importava, exceto reencontrar o animal e se entregar a ele. O frio, embora incomodasse, era suportável. O que era o oposto do que queria. Sabia que ele reaparecia quando a som ficasse agudo e o vento, intenso em seu corpo. Quando estivesse quase morta. Então, estaria pronta para ser tomada pelo lobisomem, aquecendo seus ossos gelados pela alma.

Liber Paz
Site: liberland.blogspot.com.br/

Daniel Russell Ribas 
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Participa do grupo “Clube da Leitura” no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro e é editor da Editora Oito. Também participou da antologias “Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1” e “Caneta Lente Pincel” (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra “David Lynch - o lado obscuro da alma”. Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea “A Polêmica Vida do Amor” (ed. Oito e meio).
dribas2.blogspot.com

26 de set. de 2012

Contos da Cripta apresenta: Mais olho que barriga

Conto: Daniel Russell Ribas
Ilustração: Lord Velprost



Guardião da Cripta: Olá, crianças! Aqui é seu amigo, o Guardião da Cripta, e eu tenho uma receita de matar, hi hi hi hi hi. É sobre um homem que descobriu uma das maiores delícias que existe: A Morte! Então, preparem seus sacos de vômito para esta refeição macabra que eu chamo:   
     
Mais olho que barriga
Brown Glass odiava cheesecake. Como importante crítico culinário, achava que deveria ser o mais isento possível. Acreditava que qualquer falha em um experimento gastronômico deveria ser culpa de seu perpetuador, não da matéria-prima. O material não tinha emoção ou racionalidade, existia somente para ser manipulado por mãos hábeis e se transformar ou em um espetáculo digno de êxtases proustianos em sua boca ou em uma manifestação da morte ceifada por uma criatura sem alma; uma merda preparada por um ignóbil, enfim. Claro que não escreveria "merda" em seus textos. Era um cosmopolita. Mais do que um intelectual brasileiro, era um novaiorquino do Upper West Side. Escreveria merde, se arrastando na primeira sílaba tônica.
No entanto, havia alguma coisa em seu ser mais íntimo por que nutria desprezo, nojo: cheesecake. O que era aquela coisa? Era um salgado, mas parecia um pudim de tofu com mais consistência. Era enjoativo, e não doce, sequer o contrário. Só o contato com o interior de sua boca bastava para que uma agressão, uma blitzkrieg contra seus sentidos fosse iniciada. Pedia desculpas para ir ao banheiro e vomitava além do que consumira durante o dia, como uma garota bulímica de 14 anos. Ele arrancaria sua língua se tivesse coragem ou outra maneira de sustento. Afinal, era um cosmopolita e, como tal, só sabia praticar uma única atividade. Ele era um crítico culinário, mééééérd!
Este segredo fazia parte de uma área da mente de Brown Glass que ele alcunhou como "o baú da vergonha". Os constrangimentos legados cumpriam a tarefa de relembrá-lo da necessidade de discrição. Sim, ele era membro da família de artistas considerados loucos e misantropos. Seu tio Seymour se matou num quarto de hotel ao lado da mulher deitada na cama. Seu sobrenome, Glass, um caco infeliz em uma peça perfeitamente estruturada. Glass; uma vitrine para a loucura, quase uma marca do anticristo. Tudo aquilo era verdade, mas, agora, eles estavam mortos. Até o escritor barato que popularizou sua família deixara de ser alimento para a mente para se tornar comida para vermes. Ele, o crítico culinário, não o louco de vaudeville, faria sua história.
Brown Glass, além de autoridade jornalística, também estava noivo de Gertrude Scheizen. Apesar do nome de origem alemã, ela era tão wasp quanto Woody Allen, Martin Scorsese ou a Estátua da Liberdade. Sua voz lembrava o zunido de uma vespa, mas isso vinha com o pacote, junto com os infinitos jantares festivos, comentários azedos a respeito de arte contemporânea e a temperada frigidez. Mesmo frustrado sexualmente, Glass sabia que este comportamento era um sinal de aprovação social e canalizava a energia acumulada em palavras impressas semelhantes a um estupro grupal.
Um dia, Brown Glass chegou à redação e, após deixar seu cachecol de cashmire e paletó tweed verde-oliva de Savile Row com a secretária, recebeu desta um envelope. Na parte da frente se lia a inscrição: "The Reaper - Para terminar a noite com um nocaute". Glass de imediato achou a chamada típica de um boteco do cais e jogou o bilhete na lata de lixo. Pegou o jornal e o leu, com destaque para a seção de Economia, porque ele e Gerdie receberiam primos de Wall Street esta noite. Terminou e foi ao banheiro se masturbar. Ao retornar, notou que o envelope que tinha atirado ao esquecimento havia feito o trajeto até a parte central de sua mesa. E estava aberto. Antes que pudesse reclamar, uma misteriosa curiosidade subiu em sua coluna como um carrapato, e Brown Glass se viu lendo o carta em transe. "Venha conhecer a cozinha do Chef Eli Bathory, cujos pratos são de morrer". Talvez fosse seu desejo destrutivo de crítico ou pura ânsia suicida, mas, após a leitura, Brown Glass pegou o telefone e cancelou o jantar com sua esposa e os primos, porque um trabalho inesperado havia surgido.
Após algumas voltas, o crítico encontrou o restaurante. "The Reaper" ficava localizado em uma rua deserta, escura e enevoada. Ele entrou e foi recebido pelo chef, aparentemente o único funcionário presente. Glass achou isso um insulto para uma personalidade como ele. Contrariado, pediu o prato principal "para acabar logo com isso!" Bathory depositou na mesa um grande, amarelo e ameaçador cheesecake. Glass quis se levantar e sair daí, mas não poderia dar o braço a torcer. Cortou uma fatia pequena e a levou à boca. E uma sensação semelhante a um orgasmo cultural atingiu suas papilas gustativas, correu para o sistema nervoso e se manifestou em sua virilha. Em lágrimas, declarou ser o melhor prato que provara em sua vida, e pediu mais um. E mais um. E mais um. Quando se deu por vencido, perguntou para o chef qual era o segredo. Eli Bathory se inclinou e, em seu ouvido, sibilou: "Almas humanas frescas." "Como assim, almas humanas frescas?", riu Glass. "Os olhos são a janela da alma. Então, eu arrumo mendigos, os mato e sirvo no meu restaurante. Os olhos são para a receita do cheesecake." "E o resto?" "Bom, temos a noite do churrasco à brasileira..."
Glass fugiu. Não ligou para a indigestão ou para o fato de que agora seria alvo de um "serial killer". Só queria chegar em casa. Sem fôlego, abriu a porta e a fechou com força. Então, ouviu barulhos vindos do quarto. Pegou uma faca e se deparou com Gerdie Scheizen esparramada na cama, nua. Ao redor dela, os primos de Wall Street, pelados e assustados. Logo atrás, uma câmera gravava a cena para posteridade. Gerdie engatinhou em direção a ele e explicou que eles só estavam relembrando quando nadavam sem roupa no acampamento de verão. A mente de Brown Glass se fez um lago cristalino e, em um ímpeto, eviscerou os parentes masculinos de sua noiva ordinária. Após nocautear Gerdie com o cabo da faca, Brown Glass ligou para o "The Reaper": "Alô, senhor Bathory? Como vai? Adorei o restaurante, mas não é por isso que estou ligando. Eu queria saber se vocês fecham tarde. Porque esta noite eu pretendo finalmente comer a minha mulher."

Guardião da Cripta: Pobre Gerdie. Mas mulheres ricas sempre entram na faca, não é? Quanto a Brown Glass, não se preocupem. Ele acabou de criticar sua última refeição e dizem que ela foi... ELETRIZANTE! HA HA HA HA HA HA HA!!!... 


Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  



18 de ago. de 2012

Coração das trevas

Ilustração: Foca Cruz
Conto: Daniel Russell Ribas

17 de agosto (ano ignorado)

A busca continua. Não recordo como exatamente teve início. Só lembro do agora. Este momento. Este vento frio cortante. Este cheiro salgado e irritante. Esta água gelada e dura, que corrói os corações e a moral. O nome do Senhor não é usado na embarcação. Ele jamais é pronunciado. Pois uma tripulação imersa em uma terra que não se fixa ou termina, sem sinal de civilização em todo o horizonte, está entregue aos instintos e práticas mais abomináveis que o homem é capaz. Aqui, Deus não enxerga. Trata-se do coração das trevas, onde o mal prevalece e todo o horror faz sentido.
Deveríamos ter chegado em terra firme há meses. O céu sem estrelas tira a pouca esperança dos homens. Nosso suprimento acabou há semanas. Houve inquietação. Mandei que fossem recolhidas todas as armas e objetos cortantes. Mas isto não adiantou. Senti que se uma medida mais urgente não fosse aplicada, um motim estouraria. Precisei fazer uma escolha. Uma opção que os homens de bem jamais cogitariam ou teriam de fazer. Mas um homem do mar é não é um homem de bem. É um ser entregue ao puro instinto, acostumado ao selvagem.
Tentamos pescar, mas o mar não foi generoso. O que conseguíamos diariamente não conseguia alimentar a tripulação. A fome se espalhou. Qualquer discordância, real ou imaginária, levava a conflito e a sangue. Sabia que era o começo do fim. No mar, é preciso evitar a morte a todo custo, sendo que esta nos cerca por todos os lados. Marinheiros são uma espécie suicida, disposta a morrer à procura de algo além do usual. Isso também os torna matadores sem remorso. Quando fiz minha escolha, não prestei contas ao Senhor. Não busquei perdão, apenas sobrevivência.
O primeiro foi um imediato de cujo corpo tomei para minhas necessidades de homem. Como disse, no mar, não há morais, apenas instintos. Além do mais, alguém que se presta a esta papel, mesmo que necessário em uma embarcação, não é digno. É uma criatura abaixo dos homens e dos tementes ao Senhor. Com minha faca, cortei sua garganta. Com o balde, conservei seu sangue. Com o fogo, cozinhei sua carne. Com a tripulação, saciei minha fome.
Cinco almas até o momento foram perdidas. Digo para todos que o mar as levou, embora haja desconfiança. Desde então, ando fortemente armado.
Foi após a quinta refeição anormal que a besta surgiu. Como que enviada por um Senhor que finalmente olhou para seus filhos pródigos em meio ao lar dos desgarrados, mandou a criatura para nos punir. Para lembrar-nos que há limites, mesmo quando estes são se aplicam em nome da sobrevivência.
A besta é incansável. Persegue-nos há dias. Nos embates, sete almas foram engolidas por sua gula maldita. Sua fúria, como que manipulada por uma força sobrenatural, é inesgotável. A força, quase imensurável. Ontem, por um dia e uma noite, atacou-nos pela proa, pela pompa e por baixo. Embora tenha causado danos extensos, nenhum deles foi o suficiente para afundar a nau. É como este bicho irracional não estivesse disposto a nos assassinar ainda. Deseja mais. Quer torturar-nos, expiar nossos pecados antes que tenhamos que pagá-los na danação eterna.
Esta noite, até agora, o ser das profundezas não apareceu. O mar está calmo. À distância, vê-se uma tempestade. Nada de terra. A busca continua. O porto surgirá, seja como um lugar exótico e firme ou na escuridão da barriga da besta. O monstro é a encarnação de nossa heresia, que retorna para mostrar-nos que somos homens e que há um preço a pagar. Cinco assassinatos imorais não compensam ao Senhor a vida de cinquenta homens cujo instinto é sobreviver. Seremos punidos por ceder à selvageria, pelo coração das trevas, onde mal prevalece e todo o horror faz sentido.


Foca Cruz
Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

7 de jul. de 2012

Os fatos acerca dos desaparecimentos no edifício Waldemar

Ilustração: Hafaell Pereira
Conto: Daniel Russell Ribas


Tudo começou há pouco mais de um ano. Pode ser. Não lembro. Eu só sei que estou com muita fome. Não como há dias. Tudo o que tinha no estoque, mesmo estragado, acabou. Mas não posso sair. Tenho medo. Ouço os gritos simiescos rondando as janelas como as trombetas do Anjo da Morte e tremo. Penso: "É minha vez! Eu vou morrer! Essas coisas vão me pegar!" As linhas de telefone foram cortadas e há meses a energia também. O prédio está incomunicável. Por que ninguém apareceu até agora? Como um edifício inteiro com pessoas pode ser ignorado assim? Às vezes, me pergunto se ainda há moradores vivos além de mim. Quantos? Espero pelo socorro, com esperança terminal. Fico encolhido, aguardando a mortalidade surgir violenta e com o estrondo de um ser forte e enfurecido.
Antes dos moradores do edifício Waldemar começarem a desaparecer, eu costumava ir às escadas da área de acesso na madrugada para fumar uns baseados. Apesar de ser um lugar de uso comum, quase ninguém passava por lá. Além do mais, gostava da sensação de relaxar ligeiramente em alerta, caso um dos porteiros estivesse vindo em sua ronda. As escadas também não eram de fácil transição à noite. A iluminação falhava em diversos andares, não havia corrimões, o espaço entre os degraus era alto e o ponto de apoio menor ao tamanho do pé de um adulto de um 1,70 m. Assim, apenas os porteiros utilizavam aquele espaço e eu conseguia ouvir seus passos lentos através do eco com uma antecedência estratégica.
Numa noite, estava apertando um baseado quando ouvi gritos. Primeiro, eram sons guturais, primitivos. Várias vozes que poderiam ser um animal selvagem ecoaram de forma ensurdecedora pela passagem em espiral e cessaram. Quando estava num estágio de introspecção química desejável, algo me assustou e levantei com o coração disparado. Em meio a escuridão, mais gritos surgiram. Desta vez, não eram de uma besta indecifrável. A voz era humana, bastante humana. Um homem em dor, implorando pela vida misturando com tecido rasgado. Eu nada vi, mas não precisava. Fugi escalando os degraus como um bicho desesperado, nas quatro patas.
No dia seguinte, desci para ir ao trabalho. Quando adentrei a portaria, notei uma tímida comoção. Perguntei o que houve. Responderam que Rosseno, o responsável pelo local no turno da noite, sumira. Seu colega, que ficara na entrada do edifício o tempo todo, não o tinha visto sair ou acionar a portão da garagem. Ao verificar as escadas, onde ele teria ido pela última vez, encontraram um círculo formado por gotas de sangue, com uma pequena extremidade vertical acima. Como se indicando um caminho, um traço ou uma forca.
Um tempo se passou. Desde aquela noite, evitava as escadas. Muito arriscado, especialmente com as buscas a Rosseno. O homem parecia ter evaporado no ar, comentavam os vizinhos no elevador. Tinha minhas suspeitas, mas resolvi que o melhor era ficar calado. Finalmente, a síndica convocou uma reunião para discutir o desaparecimento da mãe do morador do 202. Abaixo, a frase "presença indispensável". Fui e mais umas sete pessoas.
Reinaldo, o residente do 202, dissera que sua mãe, uma senhora senil, sumira de casa. Aparentemente, ninguém a viu sair do prédio. As câmeras de segurança recém-instaladas indicavam sua última imagem: indo em direção às escadas da área de acesso. Logo após, apenas um azul desagradável na televisão. Terminado o apelo, a síndica assumiu. Ela relatou que era o terceiro desaparecimento de residente do prédio em pouco mais de um mês. Houve uma pequena comoção entre nós oito, pois achávamos que era apenas um. A síndica, então, revelou uma pista. Em cada ocasião similar, uma pequena trilha de líquido vermelho, no formato de um círculo e com uma linha vertical na parte de cima, foi encontrada. E, mais importante, "tocos de cigarros de maconha foram recolhidos durante as primeiras buscas." De repente, me apavorei.
Na noite em que Rosseno desapareceu e ouvi os gritos, saí correndo como um animal, escalando os degraus de quatro. Em meio a meus temores e a escuridão, só queria voltar ao meu apartamento. Só mais tarde percebi que havia perdido meu isqueiro. Entendam que não era um isqueiro qualquer, mas um importado contendo as iniciais de meu nome. E, evidente, impressões digitais. Criei coragem e, naquela noite, voltei às escadas.
Com um boné na cabeça e usando a luz de meu celular como lanterna, fui lentamente procurar pelo maldito isqueiro. Eu me sentia em parte calmo, porque todos evitavam aquela área agora e o corredor em espiral estava quieto. Quieto demais, como, na hora, falhei em notar. Imerso em meus pensamentos e um tanto chapado, descobri que havia mais alguém quando uma força me puxou para trás. Gritei e apontei a luz do visor para o rosto de quem me atacava. E, do interior das sombras, surgiu Reinaldo. Ele berrava comigo, querendo saber o que eu fazia ali, o que tinha feito com a mãe dele... Antes que pudesse gaguejar uma resposta, os sons guturais que escutara na primeira noite fatal se manifestaram mais uma vez pelas escadas. Primeiro, um urro. Um aviso. Depois, vários. Entendemos a mensagem. Fomos procurar a saída mais próxima, mas, com os degraus tão estreitos, nossa movimentação não podia ser veloz quanto gostaríamos.
Reinaldo tropeçou. Eu me virei e apontei o celular para onde havia caído. Ia estender o braço, mas os rugidos primatas surgiram poderosos e assassinos. Congelei, enquanto Reinaldo era arrastado por alguma coisa escondida no vazio que envolvia as escadas. Fui testemunha auditiva de suas últimas palavras. Timbres agudos, pedidos por perdão e socorro, a surdez de roupa sendo cortada. E os sons líquidos. Para não ser o próximo, corri. Tentei chamar a atenção de moradores bramindo "Reinaldo! Reinaldo!", mas sem reação dos outros. Encontrei uma porta e cai no quinto andar.
Desde então, as coisas pioraram. Fiquei alguns dias fora. Tentei encontrar um novo apartamento, mas os preços dos aluguéis subiram de maneira absurda. Só saía para trabalhar e nada mais. Há alguns meses, a energia foi cortada e os telefones ficaram mudos. Olho pela janela e nada ouço lá fora ou enxergo luzes.
Conversava apenas com uma vizinha do apartamento ao lado, através da parede. Ouvia-a e a seus pássaros. Revezávamos para buscar comida em apartamentos vazios, sempre com um servindo de apoio. Éramos rápidos e sabíamos qual local invadir pelo caos. As portas arrombadas, os movéis quebrados, os membros humanos e o sangue espalhados. Há semanas, não a ouço. Nem aos pássaros. Somente os gritos.
Não saio de casa há meses. Ninguém sai. O mundo foi tomado pelas trevas. Acumulei o máximo de víveres possível. Em certos momentos, pareço ser um item numa loja de quinquilharias antigas. Fico refugiado no meu quarto, o reflexo de uma mente enlouquecida ou de um ser preparado para a era após o fim da humanidade.
Não sei ao certo se estou vivo ou morto, se é um sonho ou um delírio. Estou tão cansado que não sei mais o que me cerca. Meu pescoço coça. Talvez ainda esteja vivo. Muitos morrem durante a escuridão. Tudo o que ouço são estrondos bestiais, a morte em seu estado selvagem, me avisando de que, cedo ou tarde, minha vez chegará.


Hafaell Pereira
Conheça mais de seu trabalho em: flickr.com/photos/hafaell

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

11 de abr. de 2012

Carta

Texto: Daniel Russell Ribas
Ilustração: Elis Marina B



 Lu,

 Faz tempos que não nos falamos, seja por mensagem ou ao vivo. Escrevo agora por sugestão de meu analista. E de meus amigos. E de eventuais desconhecidos, que provavelmente mencionaram algo assim ao escutarem passivamente minhas elaboradas dissertações alcoolizadas a respeito de nosso relacionamento e o efeito que teve em minha vida. Até hoje. Na verdade, é uma sugestão antiga, mas que levo a cabo devido aos acontecimentos recentes. Sempre tive muita coisa para lhe dizer, mas nunca tive a coragem. Acho que agora chegou a hora. Não planejei isso, foi uma situação em que a vida me colocou. Você e o dr. House diriam que a culpa por nossas ações está em nós. Gostaria de lhe perguntar ao vivo se ainda acredita nisso. Mas este será mais uma dentre as várias coisas que não farei. Eu lhe vi recentemente. Fiquei impressionado em notar como não tinha mudado nada. Era como se o tempo não tivesse passado para você. Sua beleza permanecia a mesma, assim como o efeito de sua presença em mim persiste. Em meio à tristeza, me espantei ao constatar um sincero alívio de que você não podia me ver. Sei que nunca gostou de homens fracos ou sinais de vulnerabilidade em geral, e também sei que seria incapaz de esconder minha submissão perante você. Quando disse que lhe amava há anos, naquele restaurante, chorei. Você me olhou com misto de constrangimento e medo. Talvez até nojo. Naquele instante, toda emoção se transformou em um ato consciente de conter uma gafe social. Você reagiu a minha declaração como se eu tivesse peidado num elevador cheio de gente e ter me feito de desentendido logo em seguida. Acho que você tivesse me visto ontem teria tido a mesma reação, ou não. Se tem algo que aprendi é que as pessoas mudam no decorrer dos anos. Não me refiro a uma transformação radical, como se fosse um Gremlin, mas a um fenômeno que chamo de “adaptação”. As pessoas se adaptam a novas circunstâncias, sabe? A partir daí, para sobreviver, alguns aspectos de sua personalidade, que se estavam dormentes, surgem com força e outros, que dominavam suas ações, perdem fôlego e recuam. Quando estávamos juntos, me guiava pelo instinto e pelo risco. Acreditava nas possibilidades que apareciam à minha frente como meras consequências de quem eu era, e não de minhas ações. Era como se as coisas acontecessem porque eu as merecia, porque eu havia nascido com um dom, porque eu tinha sido tocado por Deus. Tinha você ao meu lado e toda vida pela frente. Estava errado. Não vou me lamentar, porque sei que nunca gostou disso. Apenas digo que minha “adaptação” me tornou alguém mais racional e inibido. Amargurado, para ser específico. Percebi que não tenho um dom, nem fui tocado por Deus. Era apenas um cara que teve seu momento e, sem perceber, o perdeu. Alguns de nós seguiram adiante, e eu fiquei para trás. Claro que isto não me espanta; só não esperava que fosse acontecer comigo. Mas ninguém espera o inesperado. Daí, o fato de ser inesperado. Você sabia que ia acontecer? Duvido. Para o horror mútuo, passei anos lamentando o fim de nosso relacionamento. Você se afastou, por quaisquer que fossem seus motivos. Soube de um amigo que você achava que a distância “ia me fazer bem”... Você realmente acreditava nesta merda? Sinceramente, você falava tanta merda às vezes que me questionava se realmente acreditava no que dizia ou se estava rindo por dentro. Só digo que fico feliz por nunca ter jogado pôquer com você. Ou melhor: escrevo, porque dizer não adianta mais. Acompanhei sua evolução por anos, nas sombras. Enquanto escutava por conhecidos em comum ou descobria por acidentes sociais, a raiva se tornou sangue fluindo quente em minhas veias me alimentando dando forças motivando. Sua indiferença quanto à minha dor era herética. Estabelecia que meus sentimentos não eram apenas inválidos, mas irreais. Como as pessoas não podiam compartilhar daquela dor, da humilhação? E você, capitaneando a caravana da minha anulação. O que para os outros era melancolia, para mim era luto. Era verdade. Era real. Era sangue quente vermelho. E todos me encarando como se eu estivesse falando de discos voadores e do coelhinho da páscoa. Agora, o tempo passou e, finalmente, estou certo. Não é melancolia mais. É luto. Finalmente, você morreu em minha vida. Também na sua. Você está morta e eu estou livre. Com esta carta, eu lhe mato de vez. Participei de seu funeral para me certificar de sua morte física. Garanti que esta acontecesse quando lhe surpreendi em sua casa e enfiei aquela faca em sua barriga. Admito que temi que tivesse sobrevivido, apesar de observar seus olhos perderem a vida à medida que colocava minha arma dentro de você. Eu sei que, naquele momento, também morri e, mais uma vez, entramos em sintonia. Você abandonando a vida, e eu aquilo que me restava de espírito. Àquele que encontrar esta carta, espero que entenda que tudo o que fiz foi por amor.

 Sinceramente, M.  

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

27 de fev. de 2012

O bloco da meia-noite

Arte: Isabele Linhares
Texto: Daniel Russell Ribas



Era o ano de estreia do bloco. Poderia ser apenas mais um entre as dezenas de aglomerações festivas ilegais que brotavam das ruas da cidade a cada carnaval, como as latas de cerveja esmagadas e a urina onipresentes. Ao contrário da maioria, saía do cemitério, na terça-feira, à meia-noite. Depois, dava uma volta no quarteirão e retornava à concentração.
Achamos tão estranho que era imperdível. Que tipo de mulher teria por lá? Nunca tinha "pegado" uma gótica antes. Devia ter alguma gostosinha. Mas, novamente, a gente falou Vamú lá, que vai rolá! e fomos. Àquela altura, tínhamos uma média de cinco a seis blocos por dia, duas mulheres por bloco de ficação, três para ralação séria; às vezes apenas cada um com sua garota, em outras, dividindo entre a gente.
A concentração ficava quase na entrada da cidade, perto da zona portuária. O ar pesava em maresia e podridão. A mistura da poluição das águas com a imundície daquela parte negligenciada do município, ainda mais evidente pelos efeitos legados por foliões relapsos, torna a atmosfera sufocante. Mas não era só isso. Havia mais um odor no ar. Fino, delicado, porém determinante. Era dez para meia-noite. O bloco, em breve, sairia e arrastaria a todos em ritmo de batida e pecado.
Porra, se lembra onde estacionou o carro? Não vejo nada nesta merda, tá escuro pra caralhooooo! Amanhã, cedinho, é Cordão, no Centro! Uhú, dormir é para os fracos! O bloco já saiu do cemitério?! Porra, mal passou de meia-noite! Se liga, tá logo ali, tou ouvindo a bateria!
Os quatros jovens correram, trôpegos pelo cansaço e embriaguez seguidas durante o feriado. Como o bloco estava entrando na esquina, alcançaram-no sem problemas. As ruas estavam desertas e um breu dominava o ambiente. Se não fosse a música alegre, alguém poderia confundir aquela passeata como algo mais obscuro e sinistro. Eles chegam pulando, abraçados e exibindo disposição para festejar.
Não é que o maluco não tava mentindo? Tem mulher nessa porra! Mulher boa! Só não tou vendo ambulante. Foda-se, trouxemos gummy pra encher a cara de geral aqui! Se você fosse sincera! Ôôô!
Os amigos estavam com um objetivo claro em mente: sexo. Conheceram um rapaz em um outro bloco, que os alertara para a estreia do Bloco da Meia-Noite. Após o estranhamento inicial, perguntaram se mulheres estariam. Cara, garanto: vai ter de tudo.
Pra chegar em mulher, tem que ser direto. Em bloco, não pode perder tempo, cara. Perdeu, playboy, já era, parte pra outra. Mulher não falta. A gente foi lá sem muita expectativa, mas a mulherada nos deu a maior moral! Um pôs o braço em volta da morena, e foi! Outro chegou, cantou a marchinha no ouvido e terminou na boca. O cara veio com uma cantada podre, a garota riu e, no final, tavam os dois rindo juntos, abraçados. Eu também me dei bem, uma lourinha que não parecia ser daqui.
O bloco deu a volta no quarteirão. Seguiu sua trajetória sem intervenções problemáticas. Nada de vendedores interrompendo a passagem, moradores reclamando do barulho ou briga no meio. Aos beijos, tudo isto pouco importava aos amigos. O tempo para eles estava acabando e eles pretendiam aproveitar ao máximo. Afinal, já era quarta-feira de cinzas!
Cara, nem notei quando entramos no cemitério! O bloco tava tocando e as garotas na maior disposição e a gente sem conhecer porra nenhuma daquele buraco onde tinha se enfiado. "Vamos pra dentro?" "Só se for agora!", resposta geral. À medida que a música se distanciava, maior era o calor. "Muito quente, não tá a fim de tirar essa blusinha?" Nessa hora, não tem frescura. Pegamos as piranhas no chão mesmo! Chão, chão, chão! Podia ouvir os colegas gozando alto. "AAAHHH!" É que digo: quanto mais longe da cidade, melhor pra pegar mulher. Aqui, não tem frescura pra dar, não!
Quando o último dos amigos finalizou a relação sexual, ele percebeu o sangue. Por um instante, pensou que tivesse rompido o hímen da jovem. Mas uma gota caiu em seu pênis, de cima para baixo. Depois, outra. E outra. A mulher permanecia na mesma posição, sem mexer. Deitada de barriga para baixo no mármore, a cabeça escondida pelas trevas. De onde vinha o sangue? Ele cutuca a jovem, que não responde. Após mais algumas tentativas frustradas, o garoto a puxa pela perna até que todo o seu corpo, dos pés ao pescoço cortado, ficasse visível ao luar. Antes que pudesse gritar, sentiu a pedra pontiaguda abrir caminho entre sua coluna cervical, coração e peito, descansando assim que chegara ao outro lado. Desabou e notou a cabeça de companheira também no chão.
A cabeça sorria.
Enquanto o gosto doce de álcool e sangue inundava sua garganta, poderia jurar que via um desfile de corpos nus e mutilados abrirem as alas do cemitério. Uma das garotas, a morena, pulava, nua, em direção ao grupo. A cada movimento para cima, vermes caíam de seu cabelo cheio de terra. Ela segurava o que parecia ser um braço humano mastigado, parte já no osso. Seria do...
O bloco de assombrações comemorava o último dia da festa da carne antes de retornar ao inferno. Bebida, música e muito churrasquinho até a aurora. Afinal, já era quarta-feira de cinzas!

Isabele Linhares
Seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio).