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6 de out. de 2012

Dolorosa Busca

Conto: Jean Michel Silva
Ilustração: Bruno Oliveira


- Maldição
O sol insistia em entrar pelas frestas da janela encardida pelo descuido. Que horas eram? Já não importava. Nada importava naquele momento. Os passos apressados da vizinha de cima a fizeram despertar.

- Maldita

Correu as mãos pela penteadeira ao lado. Acreditava que com os olhos fechados limitaria sua visão. O esmalte forte e vermelho brilhava na luz daquela manhã – mas ela não via, não enxergava o brilho que sempre era ofuscado pela sombra que colocara diante da vida. No passeio das mãos, brancas e bem cuidadas, pode identificar algumas garrafas, animou-se. Apressadamente correu em direção a sua bebida – procurando pelos vestígios da noite anterior. Um copo espatifou-se.

- Inferno

Ainda de olhos fechados insistia em procurar… Nem ela mesma sabia qual era o objeto da busca – mas não desistia. Com uma velocidade quase que animalesca, corria com os dedos tentando agarrar o invisível. Precisava preencher o que estava seco. A secura a consumia internamente, a destruía como fogo em palha, como pedra em vidro fino. Pedra jogada em cristal puro. Por não encontrar o que buscava agarrou o que estava ao seu alcance. Abriu uma garrafa de whisky vagabundo já pela metade e colocou em seus lábios. Apesar de não ver, ela sentia. Passou a mão pelo frasco como quem busca por um pensamento que fugiu . Fechou os punhos e começou a movimentar sua mão como se masturbasse o litro de grossa espessura. Com o movimento, a princípio suave – porém rápido – o líquido começava a escorrer facilitando o vai-e-vem obsceno.

Pode sentir que seu seio estava enrijecido, mas não viu. Não olhou. Sentiu. Os mamilos ficavam agora bem delineados em uma belíssima camisola vermelha. Corpo torneado, corpo de mulher feita. Entre um movimento e outro ousava tocar a garrafa com seus lábios. Lambia com tesão o whisky da noite passada. Passava os lábios, consumia o álcool que lhe deixava viva.

Sem pudores e livre de qualquer amarra, desceu sua mão vagarosamente e quando se deu conta, encontrava com seu próprio prazer. Num ritmo inconstante, intercalava longos goles da bebida com uma massagem excitante. Gemeu. Livrou-se de qualquer pensamento e foi assumidamente egoísta: naquele momento era ela que estava em cena.

O sol já havia caminhado do lado de fora, levando a luz para onde antes não era iluminado. Ela sentia. Agora suas coxas estavam quentes. Num gesto não planejado, desceu com a garrafa. Hesitou em um primeiro momento, mas acabou cedendo a sua verdadeira vontade. Penetrava agora cada centímetro da garrafa , ainda aberta, em si mesma. Gemeu. A dor e o prazer se confundiam. Estava ardendo. Queimava por dentro.

Enfiava cada vez mais fundo, e sentia-se rasgada por dentro. Sentiu algo quente escorrer, mas não se preocupou. Deixou escorrer, deixou correr, porque algumas coisas precisam ser expurgadas, porque precisava ser liberta – então se exorcizava.
A garrafa já estava pela metade e o prazer era quase pleno. Mordia a boca, tirou sangue dos lábios. Afundava os dentes em si mesma tentando engolir o que era. Líquido.

Quando sentiu que havia chego ao seu limite, parou repentinamente. O lençol manchado em tom de papel antigo trazia muito da cor do seu esmalte – porém, menos vibrante e, agora, menos vivo. Levou as duas mãos até seu rosto, aproximou-as dos lábios e as lambeu canibalmente.

Havia chego no limite, mas se viu insatisfeita. O prazer poderia ser maior, o tesão poderia aumentar – e não relutou. Passou as mãos agora molhadas com whisky e seu sangue vermelho e grosso pela penteadeira. Encontrou um maço de cigarros já no final – era o último. Sentiu uma alegria imensa, era o último. De olhos fechados riscou o fósforo e o acendeu. Deu um tragada profunda e segurou a fumaça o máximo que pode. Fumava com uma mão e se tocava com a outra, numa perfeita sincronia, num ritmo invejável.

Quando viu que o cigarro se aproximava do fim o lançou para longe. Apesar de estar acabado, fumado até o filtro, até o fim, ainda acreditava que a pertencia. Então jogou longe, mas ao alcance das mãos.

Se aproximava cada vez mais do prazer que buscava, da recompensa perdida que acreditava merecer. Enfiava, mais e mais, a garrafa em seu interior. Pode ouvir a pele ceder e o sangue escorrer entre as coxas. Encontrava o que havia perdido, encontrava com o que desde o princípio havia procurado. E num ritmo agora, inconstante e tortuoso, se tocava e tinha prazer em ouvir e sentir sua pele rachando.
O sol não se movimentou novamente, mas a luz havia aumentado. Um calor descomunal tomava conta de seu corpo, de sua alma e de seu quarto. Ouvia o estalar de madeira velha, sentia o cheiro da fumaça – densa, preta e carregada. E enfiando o garrafa de whisky até a máxima profundidade de seu corpo, suspirou.

- Encontrei.

Bruno Oliveira
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/oitoart.

Jean Michel Silva
Site pessoal: about.me/jeeanmichel


24 de jul. de 2012

Sabor Alagoano

Ilustração: Zansky
Conto: Jean Michel Silva



            Era um dia normal na pacata cidade de Doutor Irineu. Um dia típico de verão alagoano, com temperatura muito alta beirando a 40 graus. A economia do vilarejo girava em torno do pequeno comércio que ali existia. A terra era seca, o gado morria, faltava água e às vezes até mesmo comida. As pessoas se viravam da maneira como dava: procuravam por bicos nas cidades vizinhas, plantavam alguma coisa em seus quintais e trocavam entre si os alimentos que nasciam, sofridos, da terra árida e desprovida de nutrientes.

            Apesar de toda essa situação, os habitantes do local procuravam juntar economias para gastarem na famosa, e única, sorveteria da cidade: a Sorveteria da Ivete. Lá, era o ponto de encontro de famílias inteiras durante as tardes quentes de domingo. Ninguém nunca havia conhecido a moça que dava nome ao estabelecimento. Os moradores mais antigos da cidade diziam que Ivete foi uma personalidade muito importante da região e que, inclusive, foi uma espécie de líder política. Fundou escolas, abriu poços e negociava com o governo local para garantir melhores condições de vida aos moradores. Conta a lenda que ela desapareceu da cidade assim que algumas luzes foram avistadas sobrevoando a região. Desde então, o caos e a miséria se abateram sobre a cidade.

            A ignorância de um povo mal instruído e o medo em relação as famosas luzes fez com que o misterioso desaparecimento de Ivete virasse assunto proibido. Contam os idosos da cidade que no dia em que a luminosidade tomou conta do lugar, uma voz autoritária invadiu as casas e chegou ao ouvidos de moradores dizendo: “Esqueçam o que aqui aconteceu. Enterrem esta história”. Desde então, nada foi dito ou falado. Ou melhor, nada foi dito ou falado até a chegada do jovem Klauss a cidade misteriosa.

   Klauss estudava química e chegou até a cidade devido ao sucesso dos Sorvetes de Ivete. O mais estranho é que todos os alagoanos sabiam a respeito do sabor incomparável da sobremesa gelada, mas nem desconfiavam da lenda por trás da sua história.

&bsp; Não por acaso, chegou a cidade no mesmo domingo ensolarado. Alugou um quarto de hotel e deixou seus equipamentos sobre a escrivaninha. Queria encontrar o segredo da fórmula tão saborosa para, em seguida, revendê-la na capital.

            Klaus dirigiu-se à sorveteria. Estava disposto a descobrir o que Ivete escondeu tão bem escondido que somente seu filho, atual dono do negócio, sabia. Ao chegar lá ficou surpreso. O filho de Ivete já o aguardava.

-         Como assim?
-         Quer conhecer a fómula dos meus sorvetes, não é isso?
-         Não, imagine, só vim experimentar e...
-         Não se preocupe. Posso te mostrar.
-         Simples assim?
-         Simples assim. Me acompanhe.

            Os dois desceram até o estoque do lugar, uma espécie de depósito. Klauss, a cada passo, ficava mais nervoso. Estava achando tudo fácil demais. Sentiu certo pavor. O filho de Ivete percebeu.

-         Acalme-se Klauss. Não veio até aqui por isso? Vou lhe mostrar.

            A cada passo, mais horrorizado ia ficando. Desceram escadas infinitas em forma de caracol até que deram de frente com uma porta grande de ferro. Uma luz azul escapava pelas frestas. Klauss ficava cada vez mais tenso. Suava frio.

-         Não tenha medo.
            Hesitou, num primeiro momento, em dar o passo a frente, mas uma força estranha o fez caminhar. O filho de Ivete movimentou a mão esquerda rapidamente, fazendo com que a porta fosse aberta.

            A princípio, nada muito chocante. Klauss achava que o nervosismo o fez sentir e imaginar coisas estranhas. Viu uma grande, ou melhor, enorme panela sobre uma espécie de fogo azul que cozinhava algo fazendo exalar um cheiro terrível. Ao se aproximar mais, pode ver uma mulher que esticava a mão implorando por socorro. Era uma senhora, metade pessoa, metade esqueleto. Alguns ossos estavam a mostra. Seus músculos levavam uma coloração roxa. Era possível ver pedaços de seu corpo boiando sob água que, apesar de um azul exuberante, oscilava entre temperaturas muito altas e muito baixas. A mulher se desintegrava aos poucos, mas ainda tinha forças pra falar.

-         Me ajude seu moço. Sou Ivete. Esses bichos....

            Enquanto tentava complear a frase, seu maxilar caiu em meio a água.

Klauss estava apavorado. Pensou em sair correndo, mas sabia que seria tarde de mais.

-         Essa é Ivete? O que fizeram com ela? Quem..o que você... é?

            Antes que pudesse tomar qualquer atitude, o filho de Ivete riscou uma cruz no ar com seu dedo, desfazendo Klauss em quatro partes.  Enquanto o corpo dividido caía lentamente, Klauss ainda conseguiu ouvir:

-         Sou filho de Ivete. E você, curioso demais.

 Zansky
Outros trabalhos: www.zansky.com.br

Jean Michel Silva
Site pessoal: about.me/jeeanmichel