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3 de jun. de 2012

(Bônus) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão


Fotos bônus:







Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
 o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 

Marco Novack

Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br

2 de jun. de 2012

(6) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão




Parte 6  –  Final

Acordei cedo no outro dia para comprar produtos de limpeza. Aproveitei também para reabastecer a geladeira com cerveja. Trouxe logo dois engradados. Foi trabalhoso esfregar o piso e limpar o sangue. Não sabia o quanto era difícil. Definitivamente é melhor usar veneno para matar as pessoas. Enrolei o tapete e liguei para a lavanderia.
Daí sentei em frente ao computador, mas não consegui escrever. Como a inspiração não veio, mandei um email para a editora com as crônicas que havia escrito até então. Ainda não eram suficientes para formar um livro, mas pelo menos dava para sacar o clima.
Abri uma lata e fui até a janela. O mundo continuava em sua organicidade banal: os vizinhos passeando com cachorros – entre bombas de cocô, na pracinha da Americanas, o vendedor de gravatas dando encima da mocinha da Ótica, o mendigo que parece o Gandalf, encostado no poste da esquina. Olhei para as janelas do prédio e vi outras cenas habituais – tudo matéria prima para novas crônicas.
Toca o telefone. Paro de lavar a louça e fecho a torneira. É minha editora, dizendo que adorou as crônicas e quer marcar uma reunião. Comenta a nefasta coincidência de terem morrido três escritores que ela publicava. Combinamos de nos encontrar à tarde num café do Batel Soho.
Desligo e abro mais uma latinha. Não acredito que enfim serei publicado!
Se isso acontecer, não precisarei mais matar nenhum escritor.
“Poxa, mas era tão bom...e agora?”
Talvez seu eu bolar uma nova lista de desafetos.
O atendente mal humorado do Café da Boca, que finge esquecer que eu gosto de meu sanduíche de queijo e presunto esquentado na chapa, pode ser o primeiro.

(fim)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
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Marco Novack

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1 de jun. de 2012

(5) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão







Parte 5

Fomos lá para casa e enquanto bebíamos, eu só conseguia pensar nas camisinhas que permaneciam em segredo no bolso do casaco.
Mostrei toda minha coleção de revistas pulp e de fotonovelas – ela leu e interpretou alguns trechos. Depois li as minhas crônicas novas, mas ela disse que preferia mais os de horror.
Então fui até o quarto e peguei o meu roteiro abandonado das samambaias gigantes assassinas para saber o que achava. Mônica deu várias risadas e achou bem melhor, mas acabamos não lendo tudo, porque nos beijamos e rolamos sobre os papéis.
Só não fomos mais adiante porque a campainha tocou. Achei estranho, porque ninguém me visitava tão tarde, entretanto podia ser um pretexto para ir até a sala pegar as camisinhas no paletó.
Abri a porta e era o sujeito que eu tinha pagado para matá-la, com revólver na mão, cobrando o resto da grana e anunciando meu plano maquiavélico a plenos pulmões. Não adiantou pedir que falasse mais baixo. Ele gritava: “Até entendo que você não queira mais “matá” a vadia, mas quero as minhas quinhentas pratas que faltam!”
Mônica apareceu na sala, para saber quem era e deu um grito quando viu o rosto do mesmo bandido que tentou nos assaltar na porta do restaurante. Debruçada na janela, pediu socorro.
O bandido disse que eu que tinha contratado ele para matá-la e que não fosse besta.
Eu me fiz de desentendido: “Como é que é?”
Aproveitei a distração e agarrei o braço dele. Acabou disparando uns tiros, mas por sorte eu consegui alcançar a faca que estava sobre o criado-mudo e enfiei no bucho. Espirrou sangue pra todo o lado. Para minha tristeza, descobri depois que um dos tiros disparados durante a luta havia atingido Mônica. Seu corpo estava caído, ensanguentado, sobre o tapete da sala.
Mônica não sobreviveu. Os vizinhos ligaram para a polícia. Meia hora depois, eu estava sentado na mesa da cozinha, explicando para os detetives toda a história. Eles elogiaram minha valentia, disseram que estavam atrás daquele trafica há meses e lamentaram a morte trágica da garota. Eu também fiquei muito triste, porque ela foi a única pessoa que elogiou minha história das samambaias assassinas.
Quando os investigadores foram embora, me senti ainda pior. Não só pela perda como pelo fato que eu não tinha Quiboa na dispensa para limpar o sangue. 


(continua...)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
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31 de mai. de 2012

(4) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão







Parte 4

Mas aí aconteceu uma coisa que não estava nos meus planos. Mônica, a terceira da lista, era – pasmem – uma pessoa incrível, apesar de ter escrito vários romances chorosos dramáticos, entre eles a história de uma ex-BBB viciada em macarrão instantâneo. Ela me disse que gostava mesmo é de literatura pulp e ficou empolgadíssima quando mostrei minha coleção de fotonovelas de zumbis. Ainda me contou que fez teste para participar de um filme do Zé do Caixão nos anos oitenta e que a esqueceram numa cova durante duas horas. Eu sempre quis conhecer alguém que tivesse participado daquelas seleções.
O papo fluiu muito bem, falamos até sobre The Walking Dead, mas eu só conseguia pensar, durante o jantar, no calango que eu tinha pagado para forjar um assalto e enfiar uma faca no bucho dela. Ele nos esperava lá fora, escondido atrás de um poste. Eu tinha pagado quinhentos pilas adiantado, com a promessa de saldar o restante quando ele finalizasse a moça. O plano era perfeito, ia parecer um assalto seguido de morte.
Mas não imaginei que Mônica poderia ser tão bonita e gente boa. Estava certamente rolando um clima.
Tentei prorrogar ao máximo o jantar, pedindo vinho e sobremesa. Depois que terminamos o pudim, ainda pedi mais um cheesecake.
Ela, ainda por cima estava muito elegante, e usava sapato social masculino. Eu sou fascinado por mulheres que usam sapato social masculino.
Propus então que pegássemos um taxi, para que não nos molhássemos. Solicitei que o maître ligasse e o carro parou bem em frente ao restaurante, na Saldanha Marinho. Andamos rápido, mas o ladrão surgiu de repente, com faca na mão. Tive que me jogar em cima, o que lhe causou espanto. Ele dizia no meu ouvido: “Ei, isso não foi combinado. É para fingir que lutamos?”. Peguei a faca da mão dele e gritei para que Mônica entrasse logo no taxi. Ela correu desesperada e eu fui logo depois, respirando através da bombinha, com a faca do bandido em mãos. Bradei para o taxista: “Mete o pé porque quase fomos assaltados!”.
Disse o endereço para o motorista e Mônica ficou impressionada com minha bravura: “Não imaginei que um rapaz tão frágil pudesse ser tão valente. Muito obrigada, meu coração está batendo forte!”
Aproveitei o nervosismo para convidá-la a beber uma água e descansar lá em casa. Ela topou. No caminho passamos num posto para comprar algumas cervejas e eu comprei também um pacote de camisinhas, sem que ela notasse e enfiei no bolso de dentro do paletó. 


(continua...)

Fabiano Vianna 
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também
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Marco Novack

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30 de mai. de 2012

(3) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
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Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão


Parte 3

Isabela Souza foi a segunda pessoa que eu matei. Até então, a queridinha da editora. Publicou quatro romances – o último conta a história de um amor não correspondido entre uma mulher e um orangotango. Podia até ser bom, se não fosse o linguajar poético romanesco. Tenho vontade de pulverizar cada um dos poetas que vagam pela XV com seus livretos Xerox e que me perguntam diariamente se gosto de poesia e eu respondo: “Prefiro Turma da Mônica”.
Eles parecem emergir de dentro dos bueiros, tipo jogo do Mario Bros. Andar no centro é um videogame – saltar ciganas, se esconder dos palhaços, ignorar estátuas vivas...
Marquei com Isa no Parque Barigüi – ela costumava correr todo final de tarde. Totalmente aparamentada com roupas de lycra e tênis futurista. E eu, completamente sedentário, tive que comprar um agasalho só para isso. Com tênis allstar velho, antiquado. Fingi ser um atleta, mas a cada cem metros tinha que dar uma aspirada de oxigênio na bombinha. Ela percebeu e até ficou preocupada, mas eu disse que naquele dia a asma estava atacada.
Então quando estávamos perto da região do lago onde eu sabia que o jacaré atacava, empurrei-a. Fiz parecer que ela havia caído acidentalmente. Gritei: “Meu Deus! Alguém me ajuda! Minha amiga caiu no lago. O jacaré...”. Felizmente em alguns segundos, o réptil devorou-a completamente. Os guardinhas municipais apareceram depressa, mas só conseguiram resgatar um dos braços, com IPOD acoplado. Eu forcei um choro e disse: “Que desastre! Que desastre!” Algumas pessoas vieram me consolar. Um dos guardas verificou o aparelho e disse: “Ui, ela gostava de Foo Fighters!”. E o outro: “O jacaré vai ter congestão!”
Daí juntou um monte de curiosos e uma viatura me trouxe em casa.
Antes de subir até o apartamento, comprei duas latinhas de cerveja, desta vez. Senti a mesma euforia, adrenalina correndo solta, enquanto os números do elevador se aproximavam do meu andar. Abri a blusa do moletom, sentei em frente ao computador e escrevi mais uma crônica. Depois mais uma, e a inspiração durou até de madrugada. Matar os escritores estava me fazendo muito bem. Se eu continuasse neste ritmo, logo teria um livro. Ou virava alcoólatra.


(continua...)

Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também 
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Marco Novack

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29 de mai. de 2012

(2) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
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Arte: Marja Calafange
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Parte 2


Esperei Fernando ir ao banheiro para borrifar estricnina no café. O problema é que sou meio ruim de mira e acabei molhando o livro que ele levou de presente para mim. Também porque, quando fico nervoso, tremo um pouco. Mas deu tempo de secar o tomo na minha blusa antes dele voltar.
Quando sentou, perguntou se estava tudo bem, e eu respondi que sim – foi só um calor repentino por causa da bebida. Eu suava muito e a cada sorvida de café que ele dava, eu tremia mais.
Antes de a toxina começar a agir, ainda conversamos mais um pouco. Ele me contou sobre seu último e sonolento livro, “Voa, voa, andorinha” e pensei que talvez fosse o antídoto para meu problema de insônia. Foi o exemplar que ele me deu, além de várias dicas de como escrever “grande literatura” e largar de vez o pulp. Eu poderia também usar o volume como peso para segurar a minha porta da lavanderia que está com problema na fechadura.
Inventei uma desculpa qualquer e vazei, antes que ele começasse a estrebuchar. Paguei minha conta, disse “quanto o admirava”, agradeci a paciência de se encontrar comigo, me despedi do “amigo” e caminhei em direção à Praça Osório, onde sentei num dos bancos. Cronometrei dez minutos e voltei até o Café.
Uma ambulância da ECO SALVA piscava vermelho e azul na frente, enquanto enfermeiros carregavam o corpo do escritor. Pensei comigo: “Não é que funcionou!” Um grupo de curiosos reuniu-se em volta e pude ouvir uma das pessoas falar “Era um baita escritor! O melhor da cidade. Grande perda!”
Escutar o comentário me deixou puto, mas não chegou a estragar o prazer que sentia. Antes de subir passei na Pizzaria Itália e comprei cerveja. Coisa que eu raramente faço, porque prefiro Yakult ou qualquer outra bebida. Mas não sei por que naquele momento senti vontade de beber “uma gelada” – como dizem os amantes da loirosa.
 Eu estava me sentindo muito bem, era como se eu tivesse sido ligado em duzentos e vinte. Fui dominado por uma súbita vontade de escrever. Paguei a bebida e subi até o apartamento.
Desfrouxei a gravata, abri a latinha e comecei a digitar imediatamente. Neste dia, escrevi minha primeira história de cotidiano: “A Andorinha capenga”. Segundo a editora, minha melhor crônica.
Descuido do ralo e a peneira entope de novo. Não sei quanto tempo fiquei olhando em direção ao nada. Odeio quando a água sobe e suja as louças. Por sorte não transbordou. Enfio a mão no meio da água com detritos boiando e libero a peneira para que a água escoe.
O resto da lasanha que esquentei no microondas quinta-feira passada se transformou num grude mutante colado no prato. Meto detergente e esfrego com Bombril. Então o pedaço se parte em vários fragmentos menores, escorrem com a água e se concentram na peneira do ralo para então jogá-las no lixinho. A massa desforme lembra-me a carne da escritora dilacerada pelas mandíbulas do jacaré. 




(continua...)

Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também 
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Marco Novack

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28 de mai. de 2012

(1) Por causa da editora que não gosta de literatura pulp

Texto: Fabiano Vianna
Fotos: Marco Novack
Estrelando: Dimis Sores, Carolina Fauquemont, Nika Braun & Wagner Corrêa
Arte: Marja Calafange
Figurinos: Day Bernardini
Maquiagem: Carol Suss
Assistente de Maquiagem: Grace Lee França
Apoio: Trio Luz

Agradecimentos : 
Raquel Deliberali, Ato 1 Lab, Eugênia Castello & Andrea Tristão


Parte 1

Enquanto lavo a louça, lembro-me de como eu matei cada um deles. As imagens voltam em flashs, desordenadas – o veneno dissolvendo-se no café do velho; a carne da perua esportista sendo dilacerada pelas mandíbulas do jacaré, a minha falta de ar correndo na Saldanha Marinho seguida da aspirada na bombinha de oxigênio.
As migalhas concentram-se na peneira sobre o ralo. Por causa dos restos, lembro o que eu comi ontem. Como estava bom o strogonoff, pena que não tinha batata palha. É preciso esfregar com força as panelas, para limpar o molho que encrosta as beiradas. Para isso uso um produto desengordurante e esponja de aço. Passo com força nas panelas até que fiquem praticamente lisas novamente. Os restolhos que são capturados pela triagem eu arremesso no lixinho rente a pia, para que não entupa o ralo e faça a água subir. Eu odeio quando a água sobe, porque acaba sujando louças que não estavam tão sujas. E daí tem que enfiar a mão no meio da água com detritos boiando para liberar a peneira e a água poder escoar. Tudo isso por causa da editora que não gosta de literatura pulp.
Curitiba não é uma cidade de muitas editoras e a única que existe – chamada Aveia & Mel, não gosta do que eu escrevo.
Ela é a peneira que não deixa a sujeira escoar.
Já apresentei romances que considero fantásticos, como um que terminei a pouco tempo, chamado “Samambaias gigantes assassinas”, de uma história que se passa na Confeitaria das Famílias, onde os clientes são devorados pelas plantas enquanto tomam café. Deu um puta trabalho escrever este livro, passei meses frequentando o local, anotando as características dos clientes, e, é claro, aproveitei também para experimentar todos os doces.
A editora sugeriu que eu escrevesse um livro de crônicas. Mas como farei uma coisa dessas? Meu olhar já foi estragado pelo pulp. Vejo zumbis e monstros por toda a parte. E não estou me referindo à minha vizinha, a que passeia com poodles mutantes na Osório – parecem capivaras. Falo dos seres da imaginação mesmo. A realidade é muito bizarra, basta dar uma passeada pelos corredores do Edifício Tijucas ou ficar atento às lamúrias no elevador.
Tenho vários livros engavetados, morando ao lado de minhas pílulas soníferas. Entre eles um de contos chamado “Manual de sobrevivência a zumbis do Batel Soho”. São histórias de mortos-vivos Geeks que renascem no cemitério da Água Verde e caminham em direção aos shoppings, ansiosos por novidades da Apple. Não sei como a editora não gostou deste. Chego até a suspeitar que não esteja na cidade certa.
Incrível como o macarrão endurece e vira uma pasta grudenta quando seca. Fico imaginando esta gosma dentro do estômago. Borrifo desengordurante e abro a torneira da água quente. A fumaça me lembra do café do primeiro escritor que eu matei. Foi na cafeteria Metrópolis.
Decidi que a única maneira de ser editado pela Aveia & Mel seria eliminando todos os meus concorrentes. 

(continua...)

Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também 
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Marco Novack

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26 de jan. de 2012

De Coração

Texto: Vanessa Rodrigues
Filme: Rodriane DL/ Renata Corrêa / Caroline Biagi / Ana Paula Málaga Carreiro / Alex Rocca
Estrelando: MARCO NOVACK E CAROLINA FAUQUEMONT




O cara entrou em casa, a mulher dele estava encostada na pia, sendo comida por trás pelo filho da vizinha da frente. O cara chegou em casa bêbado, a mulher não tinha esperado ele pra jantar. O cara chegou em casa, a mulher não estava, voltou à força da casa da cunhada. A mulher chegou em casa feliz, o cara estava bêbado. Ou os dois discutiram por muitas horas o significado do amor e o que ele representava na sociedade capitalista pós-maio-de-sessenta-e-oito e escreveram um manifesto de quinze páginas com todos os passos que deveriam ser dados durante a performance, instalaram câmeras pela casa inteira, convidaram os amigos mais próximos. O cara chegou em casa, a mulher estava lá. Ela se levantou, pegou um copo de café pra ele. Ela chegou em casa feliz. Ele desconfiou, enfiou a mão na cara dela. O cara chegou em casa e sem motivo nenhum enfiou-lhe a faca. E ela morreu aos poucos, no tempo de ele acordar da vertigem da pinga.
Amor não existe porque é palavra o que existe é a carne. O que existe é a fome.
O cara percebeu que não tinha mais volta, arrancou o coração ainda quente. Levou embrulhado num pano de prato pro bar do Batista, pra ele fritar na manteiga, servir como tira-gosto. Também pediu uma cerveja.


O blog da Vanessa Rodrigues é o vanrodrigues.wordpress.com.
Outros videos da Rodriane em: http://www.youtube.com/user/carochinha/videos

20 de jan. de 2012

De coração e 911 Donuts

Estão quase prontos os primeiros dois filmes do blog!
Vocês poderão assistir, pela primeira vez, e em primeira mão, os contos pulp em movimento.
O primeiro chama-se "De coração", escrito por Vanessa Rodrigues e o outro, "911 Donuts" de Rodriane DL.
Publicaremos nos dias:

De coração: 26/01/12
911 Donuts: 02/02/12

De coração
texto: Vanessa Rodrigues
Estrelando: MARCO NOVACK E CAROLINA FAUQUEMONT
por Rodriane DL & Renata Corrêa & Caroline Biagi & Ana Paula Málaga & Alex Rocca.

911 Donuts 
texto: Rodriane DL
por Rodriane DL & Renata Corrêa & Caroline Biagi & Ana Paula Málaga & Alex Rocca.
 
Você pode ler este e outros contos da Rodriane no blog dela: caramelosestragados.blogspot.com.
O blog da Vanessa Rodrigues é o vanrodrigues.wordpress.com.


Algumas fotos de making of feitas por Alex Rocca:









27 de dez. de 2011

O Coração Desesperado

Texto: Eduardo Capistrano
Fotografias: Marco Novack*
* Estrelando: Carolina Fauquemont e Wagner Corrêa
Assistente: Nika Braun / Maquiagem: Andréa Tristão / Arte: Leonardo Goulart




Sou um amaldiçoado. A razão de minha maldição é o amor. Achei que não haveria prova maior dele. Hoje, sei que estou enganado. Como provar algo que não se compreende?
Eu gostaria, realmente, de poder descrever meu amor por Rebeca. Poderia dizer como a conheci, como nos apaixonamos, como ela é maravilhosa. Poderia tentar explicar como ela pareceu invadir minhas memórias de vida antes dela, como ela passou a fazer parte de cada plano meu para o futuro. Não sou capaz.
Posso dizer que ela tornou-se uma porção indispensável de minha vida. Depois de anos lutando contra o câncer, ele venceu. Os médicos estimaram que restava a ela um ano de vida.
A ela, e a mim.
Rebeca resignou-se e pretendia aproveitar da melhor forma que podia o tempo que lhe restava. Para ela, a morte parecia cada vez mais uma libertação de todo o sofrimento. Era para mim que a morte se anunciava horrorosa.
Minha existência tornou-se um suplício ímpar. Estava convencido de que o sofrimento só teria fim com minha própria vida, mas ao mesmo tempo tinha medo de fazê-lo, e me assolava a repugnância por minha própria covardia. Sentia-me acorrentado e sob tortura aplicada por meu próprio coração. “Ora”, fustigava ele. “Seu amor não é verdadeiro?”





Separava meu tempo entre testemunhar o definhamento diário de Rebeca e procurar escapatória, qualquer coisa, que pusesse fim ao sofrimento dela e ao meu. A certeza da impossibilidade, em vez de obstáculo, acabou quebrando obstáculos. Assim que cessaram todas as possibilidades médicas, científicas, racionais, transpus a barreira para o irracional.
Das falsas panaceias prometidas na forma de simplórios chás e misturas, cheguei aos ridículos rituais das simpatias, e delas às “operações” empreendidas por sacerdotes milagreiros, curandeiros e espíritos carnados e descarnados. O tempo passava e a cada fracasso a Morte se insinuava mais próxima. Aos meus tormentos somou-se a frustração com minha absoluta incompetência.
Rebeca parecia tão bem quando aquilo aconteceu. Lembrávamos com carinho de certo momento passado. Senti-me momentaneamente leve como antes de toda aquela dor. Ela sorria com tal brilho vívido nos olhos! Em menos de uma hora ela estava inconsciente no hospital, e eu estava coberto de sangue que ela vomitou sobre mim. Eu me lavava no banheiro do hospital, as palavras do médico ecoando em minha cabeça.
“Não passará de amanhã.”
Meus únicos pensamentos eram essas palavras e a velha questão que vinha fazendo ao longo daquele longo e excruciante ano. Como faria? Eu me enforcaria? Abriria os pulsos? Jogaria-me de um prédio, ou na frente de um carro? Entupiria-me de remédios? Estouraria os miolos?
Naquele momento, em que qualquer limite, qualquer tabu foi varrido do meu ser pela tormenta da fatalidade, minha visão caiu sobre um papel amassado que trazia no bolso, então sobre a pia do banheiro. De todas as minhas posses, apenas aquele pequeno pedaço de brancura não estava ensanguentado.
O anúncio de “Madame Rúbia” provocava. “Última Chance Para O Coração Desesperado.” Havia a visitado três vezes, e nenhuma das vezes ela me atendeu pessoalmente. Um assistente me trouxe em todas as vezes a mesma resposta lacônica. “Você não é um desesperado. Volte quando for.”
Talvez sinal maior de meu genuíno desespero foi ter deixado Rebeca moribunda no hospital em direção ao que podia ser mais uma charlatã, mais uma estelionatária com um pouco mais de talento teatral do que as outras, e que por uma grande sorte havia conseguido pôr naquele papel as palavras exatas para arrastar-me, em minha delirante confusão, para a madrugada mais escura de minha vida.
Assim, não era dono de perfeitas faculdades mentais quando me vi uma vez mais na ante-sala de Madame Rúbia. Assim que cheguei, contudo, não havia quem me recebesse. Entrei e avancei através de cortinas esfarrapadas até uma sala escura com uma mesa e duas cadeiras. Uma delas estava ocupada pela Madame. Não pude discernir suas feições nas sombras, apenas que era corpulenta, velha, feia e fumava um charuto.
Sentei-me diante dela. Em uma voz rouca e zombeteira, parando apenas ocasionalmente para soltar baforadas, ela descreveu como eu conheci Rebeca, falando nomes que só nós conhecíamos, com detalhes que só nós sabíamos. Em seguida riu de minha expressão de espanto e de lamentação. Descreveu então o dia de nosso casamento, para em seguida rir novamente.
Eu esmurrei a mesa, o rosto coberto de lágrimas. Ela parou de rir. Uma mão enrugada coberta de anéis e pulseiras surgiu das sombras, com dedos de unhas compridas empurrando um lenço branco em forma de coração.
Ela negou-me qualquer resposta, que não fosse narrar outro episódio de minha vida com Rebeca, escolhido para fustigar-me com o valor que tinha para mim. E a frase. “Um coração por um coração.”
A gargalhada da velha e a fumaça da sala expulsaram-me com o coração de tecido amassado em meu punho. Eu sabia o que a velha queria. Eu sabia do que ela precisava. Eu sabia, de alguma maneira, que funcionaria. Não era fato ou conhecimento algum que me fazia saber. Era o desespero. Eu chegara ao ponto de não-retorno. Eu faria qualquer coisa por Rebeca.
E o que tinha a perder? Eu já me considerava morto.
Voltei para casa e abri a funesta maleta que recheara com os possíveis instrumentos de minha própria morte. Em uma macabra antecipação de minha hora derradeira, havia em tempos recentes considerado esta ou aquela faca para abrir os pulsos, esta ou aquela corda com que me enforcar. Várias garrafas de bebida, vários frascos de remédios. E um revólver.
Saí às ruas, imaginando como faria aquilo. Algumas horas depois, bêbado e sedado com sabe-se lá que drogas correndo soltas por minhas veias, havia escolhido uma rua afastada e deserta. O torpor havia eliminado qualquer resquício de bom senso e humanidade que ainda restasse. Naquele momento, reduzido a um predador sem face nas trevas, pronto para atacar qualquer incauto que passasse, eu regozijava na perfeita perda de mim mesmo, e ao mesmo tempo, em algum recôndito superior, transcendental, imaculável de meu espírito, ocorria exatamente o oposto: eu finalmente me encontrava, revelava a verdadeira Rebeca, descobria meu amor por ela.
Ainda respirava pela boca quando uma vez mais fiquei diante da velha. Coloquei o pacote encharcado e rubro sobre a mesa na frente dela. Com a ponta dos dedos, ela removeu o pano e deixou seu mórbido conteúdo rolar pela mesa. Entregou-me o pano, pigarreando. “Ponha sobre o dela. Para o próximo sol ver.” Sua voz agora era solene, sem risos, sem zombaria. Ela não acreditava que eu seria capaz.
A manhã se aproximava, passava o torpor das drogas e a exaltação do crime, e a ansiedade pelo resultado impossível apenas multiplicava as angústias do arrependimento que já ameaçava me consumir. Eu mal lembrava direito quem havia sido minha vítima, mas em meus devaneios, imaginava que nada significaria, se Rebeca ficasse curada, feliz, sorridente. Viva.


O sol surgiu. Rebeca demonstrou desde o primeiro dia melhoras incríveis. Os médicos ficaram atônitos. Em uma semana ela saiu do hospital. Recuperou o peso, o tom de pele, o ânimo. Seus cabelos, seus lindos cabelos estavam de volta, ao redor de seu olhar e de seu sorriso. Viajamos em uma segunda lua-de-mel para comemorar. Ela retornou ao trabalho, revigorada. A doença, e a verdadeira causa de sua recuperação, pareciam apenas lembranças ruins.

Um ano se passou. Um ano de vida, de felicidade. Um filete de sangue do canto da boca de Rebeca, um ano depois. Ela retornou aos médicos, e a doença estava de volta, exatamente como estava há um ano atrás.
E eu também retornei, através de cortinas esfarrapadas, ao quarto escuro, onde Madame esperava. Eu gritei em desespero que tudo estava de volta, que não havia dado certo.
Madame descreveu nossa segunda lua-de-mel, coisas que só eu e Rebeca sabíamos. Tonto e nauseado, ouvi a velha gargalhar, vendo seus dedos velhos empurrando para a luz um lenço branco em formato de coração.


Marco Novack
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Eduardo Capistrano
Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011). Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com.