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11 de jun. de 2015

Casa Velha

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: Raro de Oliveira


O acesso ao sótão ficava no quarto, onde eu dormia, quando passava o fim de semana na casa dos meus avós.
Eu deitava, cobria minha cabeça com o cobertor e tentava dormir antes de ouvir os passos descendo a escada. Raramente eu conseguia. A luz do abajur projetava na cama a sombra de alguém caminhando. Nunca tive coragem de espiar quem era aquele que vinha do sótão e saía pela janela.
Na última vez que dormi na casa velha, eu havia acabado de deitar quando minha avó entreabriu a porta do quarto, chamou-me e fez uma pergunta qualquer. Ao respondê-la, percebi que havia alguém atrás da porta, que se fechou antes que eu pudesse me esconder sob as cobertas. Fiquei sentado na cama, olhando fixamente para o vulto:
– Vóóóó! – gritei no auge da agonia.
O vulto aproximou-se:
– O que foi meu querido? Deite-se, você precisa dormir – parecia ela, porém sem os olhos. 




22 de mai. de 2015

Breve história sobre a dor

Conto: Sheilla Liz
Ilustração: Raro de Oliveira



Quando fui raptada contava com treze anos. Aconteceu como num sonho, mas eu não estava dormindo. Fui jogada ali. Lugar escuro. Sótão da alma. Negros dias de navalha. Apenas eu e meu algoz. Solidão e dor. Gritar não adianta. Que tipo de gente era aquela sem vizinhos? De quantas maneiras é possível torturar alguém? E por quanto tempo? Anos.
Falta pouco agora, estou deixando o mundo. Último suspiro e o pensamento: Quanto mais morta melhor.

20 de mai. de 2015

Revistas Proibidas

Conto: Raro de Oliveira
ilustração: Antonio Dias


O casamento era insuportável. Sua mulher transformara-se numa chata repressora cheia de regras. Cartas de amor, recordações de namoro, lembranças da animada juventude foram todas entulhadas no sótão. Pra lá ele recorria secretamente nos momentos de agonia, livrando-se por algumas horas daquela opressora. Naquele dia quando subiu ao seu templo secreto teve uma surpresa. A megera havia arrumado o sótão! Havia limpado, encerado, organizado tudo. Procurou desesperado por seus tesouros e não encontrou nada, principalmente suas revistas de mulher pelada! O que seria da sua vida sem suas punhetas solitárias? Levantou uma caixa que pertencia à megera e o fundo se rompeu com o peso. Lá estavam as revistas perdidas. Não só as suas, outras também, de homens nus avantajados, e nas capas o nome dela escrito à caneta Bic. Ouviu o gemer do degrau que levava ao sótão e na contraluz sua mulher lhe fitava com um olhar feroz. Se atracaram em uma luta selvagem, cheia de ódio. Caíram exaustos sobre as tranqueiras e fizeram um amor bruto, pornográfico e sujo no colchonete surrado e cheio de manchas da sua juventude.