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1 de nov. de 2012

O Candidato

Conto: Alexandre França
Fotografia: Carine Wallauer


Cá estou, cinco minutos antes de falar sobre a minha candidatura no segundo turno, sobre o que eu poderia ou não fazer pela cidade que vivo desde os meus dez anos de idade (aliás, isto não precisa ser dito na campanha - isto de eu não ser de fato daqui). Esta loira, de saia curta, pernas longas, brancas, mãos delicadas, agora passa a maquiagem no meu rosto. O texto fervilha em minha cabeça, estou pronto para acionar o gatilho da minha retórica emotiva. Sei como emocionar, me preparei para isto, para abraçar com os olhos, através de uma lente, das telas das televisões e do olhar opaco daqueles que não conseguem mais enxergar a realidade. Vejo no contorno da luz a nebulosa deixada pelos rastros de pó, carreiras esquecidas no camarim de algum comício, o final da garrafa de uísque, minha mulher fazendo um chá de carqueja às cinco da manhã.  Nesta sala de aula, preparo o discurso de final de ano, sempre o aluno de cabeça baixa, quatro olhos, que prepara o discurso de final de ano e é obrigado a pagar o lanche dos mais velhos em troca de proteção. Ela, de saia rosa e corpo metade tigre, vem até mim, com seu crucifixo, com sua adaga e seu olhar de apocalipse, como se a multidão a nos investigar fosse um tipo de mar portátil, onde carregamos as angústias do final da vida. Um calouro de uma universidade particular de última categoria, gastando os restos da mesada em rodadas de cerveja servidas com desdém pelo garçom, leite derramado entre aquilo que sou e o que eu poderia ser se estivesse estudado para o vestibular, se me interessasse mais por livros, arte, estas merdas todas que muita gente sente prazer em arrotar em festas regadas a vinho tinto e citações em francês. Agora ela vem até mim, a maquiadora, com seu perfurme Poison (ou seria um Carolina Herrera?), que eu mesmo dei de presente se ela me acompanhasse até o fim da campanha, se ela chupasse um sorvete de morango na minha frente, pouco antes de eu entrar em cena, dando os meus famosos gritos de vitória, fazendo o meu famoso gesto da aliança, clamando por votos através da minha famosa postura de origem humilde e sotaque do interior. Numa família onde a morte sempre esteve presente com suas mãos afiadas na tragédia e no sangue, onde três dos sete irmãos morreram em acidentes automobilísticos, onde o pai (alcoólatra de carteirinha) morreu de enfarte, e a mãe, em estado catatônico, teve seus últimos dias internada numa clínica para retardados, fui o que soube lidar com a raiva, acumulando em minha cabeça o rancor de uma vida sem perspectiva. Cá estou, para liberar esta fúria estocada há uns trinta e poucos anos, neste comício, esperando a lotação máxima e a voz de algum cantor sertanejo para engrossar o caldo da minha miséria estética, eu que já me encontro com as roupas escolhidas a dedo pelo meu personal stylish (embora não pareça  - embora pareça a roupa comprada na última queima de estoque de um shopping de descontos qualquer), que já me encontro aquecido para o discurso da coroação, penso no primeiro animal de estimação que matei com uma faca de serra tramontina enferrujada, largada num dos cantos da minúscula cozinha da nossa casa de campo. Agora um gesto brusco, intempestivo, de meu acessor me faz pensar nas vezes que tive que aguentar a rabugice de patrões sem escrúpulos me pedindo coisas, me mandando a merda, me escurraçando dos lugares onde fui obrigado a estar. O beijo de uma eleitora me remete aos corredores da escola onde tive que aturar a provocação das mais belas garotas da classe, me chamando de coisas cujos sentimentos provocados em mim, hoje, não saberia descrever. Peço pra maquiadora a minha pistola sem registro comprada por um dos meus seguranças de plantão. O marqueteiro dá um sinal, dizendo que “sim, pode arrebentar os ouvidos desta gente suja”. Estou próximo de uma nova fase da minha tragetória política, esta tragetória que não tem absolutamente nada para contar, a não ser imagens vazias de um circo sem palhaço, lona ou arquibancada. Sim, não há malabarismo o suficiente para me colocar no paraíso dos bons servidores da democracia. Nunca fiz algo de relevante nos meus cinco anos de vida pública. Ainda assim, cá estou. Encantando a multidão, me lembrando, com asco, de tudo aquilo que eu poderia ser. Minha mão treme ao pegar na nove milímetros. Cheiro mais duas carreiras de cocaína. Meu coração está a mil.
De duas uma:
1)      ou eu morro aqui dentro
2)      ou eu morro lá fora – nos braços daqueles que, por algum motivo, ainda me admiram.
E isto eu deixo pra você escolher, eleitor.
Vamos juntos nesta caminhada
que Deus nos abençoe.

Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com

Carine Wallauer
Publica suas fotografias em: http://carinewallauer.com

9 de ago. de 2012

O canto

Ilustrações: Arthur d'Araujo
Conto: Alexandre França



Movimentando o esqueleto para acordar às 4 da matina, horário que, segundo o meu primo, ela já está “de pé” atendendo. Entro no banheiro gelado, tomo uma ducha rápida, visto o moleton de domingo e esqueço propositadamente o celular na cabeceira da cama. No elevador, ele me diz que talvez fosse melhor não olhar tanto para o rosto dela, ou melhor, não tentar olhar tanto para o rosto dela, tem esta coisa meio medusa, meio apocalíptica de quem não tem respeito pelas entidades, sabe, os imortais gregos, egípcios, sabe, parada cardíaca, praga, anátema, exorcísmo, coisas desta ordem dentro de uma sala escura que pinga e respinga o tempo todo, um cheiro de mofo que parece perfumar o ambiente como se mofo fosse perfurme, mas aquele era um verdadeiro perfume, anúncio do suor de Zeus repousando suas pernas num longo e divino escalda pé. Lá o dia inteiro é noite. Claro! Já vim aqui, reclamo ao meu primo, vinha direto neste lugar quando era adolescente, comer costela de madrugada e olhar umas primas balançando o rabo flácido para os velhinhos encardidos do centro. Entro no recinto e para minha decepção as garotas do lugar parecem ter a minha idade. Sentamos no fundão. Meu primo insiste em pedir uma cerveja - cê tá maluco, não posso/nem quero/nem tenho saúde para beber há estas horas. Temos que pedir, ele diz, para despistar os olheiros, não podemos dar bandeira, poucos sabem da existência dela. Quem se interessa por isto, pensei, só mesmo alunos de literatura viciados na Odisseia de Homero saem de suas casas na esperança de ver uma verdadeira sereia dando conselhos para cidadãos comuns como eu às cinco da madrugada no bar gato preto (ou pantera negra) no centro doloroso da cidade. Pedimos então a pior cerveja do mundo segundo a pesquisa que realizei com todos os conhecidos homens que passaram pela minha vida nos últimos vinte anos – Kaiser. A bebida chega, do jeito que aqueles tarados metidos a machões gostam – quentinha, quentinha. Meu primo toma avidamente. Ele chega a me deixar em dúvida – poderia mesmo estar gostando da pior cerveja do mundo fermentando pesadelos em seu estômago? Vamos pedir mais uma. Cê tá maluco! Poderiamos não sobreviver a mais uma ampola deste venêno, o que eu diria aos meus netos? Ah, ok,ok, eu não tenho filhos, nem mulher, nem mãe, nem pai, nem irmãos e nem muito menos netos. O garçom de um olho só vem até nós. Masca copiosamente um chicletes. – Quem gostaria de ver a dona Nêmesis? Meu primo logo interrompe qualquer resposta – nós dois, viemos especialmente para isto. – Não é polícia, é? – e se fosse? - Venham. - Quem é esta mulher? - A dona Nenê? Ah, é a dona do bar. Ela é a única que pode nos levar até ELA. Dona Nenê é uma mulher muito importante aqui no bairro, apesar de ser extramamente violenta. Manda cortar o pinto dos homens que não pagam a conta e roga pragas para aqueles os quais ela considera metidos – o que, convenhamos, possui uma boa dose de relatividade – portanto, reze para que ela vá com a sua cara. Seja humilde, nunca olhe diretamente para os seus olhos. Chegando no balcão, um senhor bigodudo parece não nos dar muita bola. Ele fecha contas, digita coisas no computador e coça a cabeça numa só ação precisa e ligeira. Parece gostar daquilo – faz tudo com a disposição de um moleque de quinze anos se masturbando no banheiro da escola. E este, quem é? O Frederico? Ah, ele aceitou faz muito tempo a condição trágica da existência. Na parede, ao lado do caixa, vejo escrito a seguinte frase: “Fiado, nunca: niilistas aqui não se criam”. Olá, Fred, diz meu primo. O homem não esboça a mínima reação, continua com suas tarefas orgásticas sem dar a mínima trela para o ambiente. FREDERICO, grita o meu primo. - Ah, sim, quer pagar a conta? - Você sabe que não, Fred – viemos aqui para uma consulta. - Vocês estão dispostos a ir até o fim nesta consulta? Vejo que estou tratando aqui com homens que não medem as consequências, certo? - Não queremos os seus conselhos filosóficos, Fred. - A Nenê não está nada legal hoje – teve que cortar algumas pirocas no decorrer da tarde. Ouçam apenas este conselho – quando forem falar com a Nenê, não a enrolem – vão direto ao assunto. É assim que os super-homens fazem. - Ai, meu Deus/ - Não fala em deus na minha frente. Você sabe como eu fico sentimental com este assunto. Frederico sugere soltar uma lágrima do olho direito, mas logo sorri sarcásticamente da nossa cara.  - E não se esqueça – mesmo que o mundo ideal pareça melhor, infinitamente melhor do que este, prefira o mundo real, ou seja, este mundo. Pois é só este mundo que nós temos! Meu primo agora começa a conversar com o garçon de um olho só. - Vou levá-los até a dona Nenê. Atravessamos todo o bar e subimos uma escadinha em forma de caracol nos fundos. Um cheiro de mofo se insinuava levemente no decorrer da subida. Um largo corredor, então, abria seus braços para nós. É a última porta lá do fundo. Este bar parecia menor, pensei. Como será possível uma estrutura tão grande aqui em cima, e lá em baixo uma tripa curta e fechada? Chegando lá, um escritório cafona decorado com motivos de zebrinha misturados com oncinha. Nenê fuma um charuto cubano e cospe copiosamente em uma escarradeira ao lado de seu trono barroco. Apesar dos maus modos daquela quarentona, um corpo delgado e moreno saltava por detrás da saia curta de vinil e do top estilo bad boy verde limão, já rasgando as laterais de tanto carregar aqueles peitões siliconados. Seus olhos eram inteiramente negros. Não havia nem um resquício de córnea alí. Dois pequenos buracos negros que se abriam e se fechavam lentamente. Meu primo parecia hipnotisado pelos olhos de Nêmesis, embora fizesse um esforço hercúleo para não olhá-los. Dona Nenê, me apressei em falar, queremos uma consulta com ela. - Quem vocês pensam que são para vir até o meu escritório e falar assim comigo deste jeito? - Desculpa, dona Ne/ - QUE HISTÓRIA É ESTA DE DONA? EU TENHO A IDADE DE VOCÊS, PORRA! - É verdade, temos a mesma idade, não é bacana isto? - Achamos que era mais respeitoso chamá-la de Dona. - E por acaso vocês estão tratando com a mamãe de vocês? Por que vocês querem uma consulta, vai um tequinho? Na mesa de mármore rosa, Nêmesis preparava umas vinte carreiras de cocaina. Eu vou, me apresso a dizer. Meu primo continua hipnotisado pelos olhos de dona Nenê. Nós viemos aqui apenas para saber se é verdade que ela existe, diz meu primo. - Então, você terá que fazer um favor para mim – tira a calça. - Mas/ - TIRA AGORA A PORRA DA CALÇA! Ele então desabotoa o cinto, enquanto Nêmesis abria aquele bocão cheio de dentes. Aliás, dentes afiados, todos eles – parecia mais a arcada de um tubarão. - Você vai ter que gozar, filhote, se não, nada feito. Meu primo tremia inteiro, um cheiro fétido de ovo podre tomava conta do lugar. - Você peidou, meu bem? Nêmesis sorria com aqueles dentes afiados. - Não, não. - Agora fica bem quietinho. Nhac! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Meu pau, meu pau, o que você fez, sua vadia desgraçada. Ela, calmamente, ainda com a boca cheia, mastigando, falava - Você é muito cuzão para se consultar com ela. Esta sua hipocrisia não me engana. Se faz de gostoso, mas no fundo é só um coitado querendo pagar de fodão para o primo mais novo. Saia da minha sala, antes que eu faça pior. Antes que eu enfie/ - Ok, ok, sua lazarenta, filha de uma égua, mas eu vou me vingar, você vai ver! - Hahahaha, de mim? Querido, eu inventei a vingança. Agora você, ela se virou para mim antes mesmo de eu acabar de cheirar a quinta carreira. Vejo que você gosta de uma farinha. - Nunca tinha usado, mas como esta é uma ocasião especial. - Todas as ocasiões são especiais, meu querido. Ela então estala os dedos. As carreiras desaparecem. Você não precisa disto, meu bem. Seus olhos adquirem uma cor mais para o avelã. Brilham, como se olhassem pela primeira vez para o ser amado. Beijo ela na boca, mais por impulso, do que por presunção. Ela retribui. Seus dentes não possuem mais a aparência monstruosa de antes. Ao abrir meus olhos, a sala havia se transformado radicalmente. Apenas móveis brancos bem alinhados e distribuídos pelo amplo espaço. A roupa de dona Nenê, uma camiseta Hering branca e uma calça jeans rosada. Você sim, deve ir ao encontro dela. Não entendo por que? Não pense, ela me diz, apenas vá ao encontro dela. MOIRA! Grita dona Nenê, já com o seu velho mal humor de sempre. Moira, acompanhe o rapaz até ela. Uma senhora, já com bastante idade, corcunda e com um olhar opaco de tão cego segura em meus braços. Ela diz – vou dizer o caminho, você só terá que nos guiar até lá. Que senhora agradável: sua testa enrugada, suas mãos trêmulas, seus andar paciente – até a temperatura de seus braços era agradável. - A dona Nenê é temperamental, né? - É, meu filho, a vingança é cega. Quando ela não vai com a cara de alguém, já viu. Se a pessoa vem aqui neste lugar mais de três vezes e não olha diretamente na cara da Nêmesis…daí o bicho pega. Ela considera que a pessoa está dando uma de metida, sabe como são estas neuroses de madame. Chegamos! Disse a simpática vovó. 


- Mas a senhora nem me indicou o caminho? 
- E olha só o tanto que a gente andou, ela diz. Atrás da porta, uma escuridão úmida. Do fundo da sala, uma voz rouca de fumante perfura as paredes descascadas.
- Por que você está aqui?
- Não sei responder esta pergunta. Queria apenas te conhecer.
- Quer olhar para o meu rosto ou prefere ouvir o meu canto? Você terá que escolher.
- Quero ouvir o seu canto.
- Então preste atenção, querido. Lembra daquela temporada que passamos juntos no interior de São Paulo?
- Lembro. É você? Você é a sereia?
- No meu quarto. Agora você pode entrar no meu quarto. Nós dois estamos de pijamas. Eu gosto do seu pijama, faço questão de elogiar o seu pijama. Você me convida para ir ao seu quarto, quer me mostrar uma coisa e eu vou, vou disposta a tudo que você imagina agora, neste momento, agora, lá, entramos devagar no seu quarto, é de tarde, uma tarde chuvosa cheirando a mato molhado e café da manhã, os seus pais não estão em casa, o ambiente cheira a silêncio e solidão, a chuva cai devagar alí pela janela, no seu quarto há uma janela que dá para o quintal, lá onde as flores florescem mais rápido, lá onde um pé de ipê amarelo nos abraça e colore as lágrimas do céu que caem pacientemente, você sentado na cama, você me diz baixinho no ouvido…o que mesmo?
- Que eu te amo. Eu digo que te amo e que quero te dar um beijo.
- Isto. Consegue sentir a minha língua ainda adolescente passeando pela sua boca? Pacientemente desenhando o desenho da chuva em sua boca, no contorno dos seus lábios, chupo devagar os seus lábios, são gostosos de chupar, tem um gosto de nescau quentinho, aquele que a nossa mãe nos faz todas as manhãs
- Não tenho mais mãe.
- Por isto seus lábios tem o gosto da sua mãe, o gosto do leite da sua mãe, beijo mais um pouco os seus lábios, é a primeira vez que beijo alguém na boca, a sua boca foi a primeira que encostou na minha, o seu peito foi o primeiro peito que toquei com as mãos, embora você tenha guiado as minhas mãos com as suas. Não há ninguém na casa? Você conferiu? Gosto de saber da possiblidade de que alguém pode entrar por aquela porta a qualquer momento, a chuva parece saber quem vai abrir a porta a qualquer momento
- Ninguém vai ver. Ninguém vai abrir aquela porta, eu juro.
- Vem mais perto. Vem sentir a textura da chuva junto comigo.
- A água está gelada.
- Mergulha mais fundo. Eu te esquento dentro da chuva que nos pertence, que nos faz de carne, que nos atravessa sempre quando passo minha língua pelo seu pescoço.
- Sempre fui apaixonado por você. Nunca consegui tirar você da cabeça.
- Então é aqui mesmo que você deve morar. Você deve ficar para sempre dentro desta chuva que nos amacia o espírito. Você se acalma quando eu te chamo de querido, você acha meigo quando falo querido perto do seu pescoço, quando eu pergunto, posso te chamar de querido? Sabe, parece que já estamos há muito tempo juntos, sabe, quando te chamo de querido parece que tenho um certo poder sobre o seu corpo, você me obedece e sente prazer ao me obedecer, querido, querido, querido, tire a calça enquanto eu vejo se não tem mais ninguém na casa
- Não tem ninguém, eu prometo.
- Então você não quer que eu me afaste, querido? Ficarei sempre perto de você, querido. Vou te ajudar a tirar a calça do pijama. Você está sem cueca? Quer que eu te beije aqui, querido, você é o meu querido, você sabe que eu faço isto por amor, por saber o que é melhor pra você e para o seu destino, sua trajetória, sua vida e sua morte.
- Não consigo respirar direito.
- Calma, querido, é só respirar fundo, respire fundo querido, vou colocar a minha boca aqui enquanto você olha para a chuva.
- A chuva é tão linda. Pena que não pode nos molhar.
- Posso fazer com a boca e com as mãos pra você, querido. Não é gostoso? A minha voz pode ficar soando dentro da sua cabeça, querido. Enquanto eu faço este movimento com a boca, com a língua e com as mãos, querido, pode a minha voz soar tranquila em sua cabeça?
- Não estou conseguindo respirar. Quero ir pra fora ver a chuva.
- Mas aqui dentro é muito melhor, querido. Eu trago a chuva pra você. Pronto. Consegue sentir a chuva?
- Consigo. Sei que não é a chuva. Mas consigo sentir a chuva em minhas mãos.
- Agora tudo ao mesmo tempo. Todos os movimentos e a dança que a chuva provoca em seu corpo. Você é tão lindo dançando. Agora me diga: você quer ou não quer ficar para sempre aqui dentro? Sim ou não, querido.
- Sim.





Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com

Arthur d'Araujo
Outros trabalhos em arthurdaraujo.com/


3 de abr. de 2012

O cheiro amadeirado

Texto: Alexandre França
Ilustração: Zansky


Se pudéssemos falar sobre ela, colocaríamos nosso orgulho na mesa de jantar e engoliríamos seco este sentimento, assistindo aos comerciais de domingo, esperando o tempo passar como fazem as famílias de classe média do meu bairro. Ela que consegue paralisar com o dedo indicador a cabeça dos homens mais jovens, que embaça de esperança o olhar opaco dos mais velhos, agora atravessa a rua afoita. Um cheiro amadeirado exala de sua axila. Dá para sentir daqui o cheiro que nos atrai, que nos leva ao banheiro desesperados a prestar homenagens. Ela caminha dançando a música de ninar mal amados. Olha para a mesa a minha esquerda. Eles se conhecem? Um senhor de uns setenta anos. Corcunda e claudicante. Ah, os tempos de farra na cruz machado agora uma aquarela manchada de café. Seu bafo intoxica a jovem de vermelho, aquela pela qual engoliriamos seco o nosso orgulho. Seu avô? Seu pai? O padrasto? Uma última aventura sexual antes da uti, por que não? Ele me olha de fianco, e enfia a mão direita trêmula por sob o vestido da vênus de sabor amadeirado. Olha como eu faço com esta criança, olha o que você poderia ter feito com ela, olha como juntos formamos um quadro perfeito de ternura e desejo, um maço de dinheiro escorre pela manga do paleto cor de cáqui. Uma prostituta, então? Ela diz algo em seu ouvido, talvez evapore algum perfume hipotizante de sua boca, um gás paralisante, fumaça de incenso, narcóticos debaixo da língua, untando de delírio aquela saliva doce (pois imagino que sua saliva deva ser, no mínimo, doce). Ela sorri; ele se encolhe. Ela olha pra mim e finge não me reconhecer. Sua desenvoltura de atriz continua intacta. Nos conhecemos desde a quinta série e seu cheiro não mudou um só tom. Aquele cheiro amadeirado, eu deixo você fazer aquele vai e vem lento, lento me olhando, lento analizando o que não foi seu por tanto tempo,  os uniformes escolares salpicando de azul a minha visão nostálgica. As bundinhas desenhadas de helanca, deixando o vinco da calcinha abrir as portas do imaginário das criaturas feitas de falta e angústia. O sinal da escola é um som contínuo rasgando meus tímpanos moucos, elas percebem minha ereção, minha patética ereção, e riem dos meus olhos brilhando um último desejo, carros buzinam longe acompanhando, feito uma segunda voz, o sinal da escola. Ela joga o cabelo pra trás, encenando um glamour calculado, uma classe de quinta categoria. Até isto pega bem nela que se contorce como chama alta em minha mente. A menina que se destacava nos corredores da escola pela cor morena, pela dentição perfeita, pela simetria divina de sua face. Quanta saudade eu sentia. O velho entorna o copo d’água. Sua. A camisa umedece aos poucos. Diz coisas em seu ouvido, uma fábula, uma chance de mostrar algo de bom por dentro daquela carcaça enrugada. Ela sorri ternamente. Chama o garçom e paga em dinheiro. Depois revira a bolsa, me olha novamente agora de maneira detida, lembra quando eu te deixava louco de tesão e de como seus testiculos doíam a medida que seus olhos vasculhavam o meu corpo ainda adolescente? Uma pistola brilha entre seus dedos delicados e compridos. Ela aponta para o velho. O velho que agora já se tornara um íntimo cúmplice dos acontecimentos do juizo final. Uma arma? Quais perigos guardam aquele corpo amadeirado? De quem afinal estamos falando. E ele? Um cafetão, um velho cafetão, talvez. Minha vontade de conhecê-lo tornara-se patológica. Quem provoca a ira da mulher da qual não deveríamos falar? Ele gesticula desesperado, o que você está fazendo? Onde conseguiu esta arma? Algumas pessoas aflitas, abandonam discretamente o café. Outras, saem correndo, gritando as orações do final da missa. Ela sorri e cospe. Amargamente. Eu continuo alí, na esperança de que ela retorne o seu cheiro amadeirado em minha direção. Que ela me explique o porquê de tudo aquilo. Que ela volte a ser o que sempre foi: a garota guardada nos finais que elaborei para a minha existência – Eu te conheço? Por que você me olha assim? Ela agora aponta a arma para o meu rosto. Eu me engasgo – responde! Ela encosta o cano frio em minha testa. – Não. Não. Não. Desculpe se olhei pra você. Desculpe. Não me mate. Não atire em mim. Ela guarda a arma na bolsa. Levanta-se e sai do local como uma desconhecida. Alguém que se mistura na multidão, entre tantos cheiros irreconhecíveis.

Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com

Zansky
Outros trabalhos: http://www.zansky.com.br


13 de fev. de 2012

Carnaval que não é meu

Ilustração: Danilo Oliveira
Texto: Alexandre França



E é por isto que estou com os dedos indicadores em riste, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, num movimento autista, jogando a cabeça pra lá e pra cá, por dormir e acordar e perceber as cores e a poluição sonora que me esvazia de glitter a cada segundo, por lembrar da casa, das suas traquitanas, das mulheres rebolando feito gado, das meninas injetadas de hormônio, das mais velhas entregues à volúpia, por andar sem rumo pelos labirintos do meu tédio, por ficar sem comer há pelo menos quatro horas, por aguentar o sol e os que gostam imensamente do sol, entre confetes e serpentinas que não fazem parte do nosso tempo, por suportar a falsa nostalgia de um tempo que para estes jovens nunca existiu, pela bebida que me cospe pra fora do folião e me alivia atrás de moitas e cercadinhos, por saber me intoxicar aos poucos e ralentar o compasso sujo deste dia, por fumar cigarros e baseados e cheirar carreiras de tantas e tantas substâncias ilícitas, por quase morrer e sorrir do abismo da última canção de ninar bambas, por chorar as mágoas da tristeza que não é minha, por prestar atenção nas letras das marchinhas do tempo que não é nosso, por receber boquetes de pessoas desconhecidas, por passar a mão em bundas e passar a mão em copos e passar a mão em orgãos genitais e vomitar na pele do desconhecido e voltar a beber e voltar novamente a beber e secar a sujeira na roupa que não é minha e transar na fogueira alheia e lembrar que se queima que se morre dentro de uma fogueira que se agoniza dentro de uma fogueira, ele me quer ao seu lado, pois sabe do medo e do horror de se encontrar sozinho em meio a esta multidão, colocarei ele pra dentro do meu útero, de onde posso acariciar com mais calma as suas dobras e as suas angústias, mas o que acontece depois da meia-noite, depois de um dia de intoxicação e falsa nostalgia, o que acontece quando a sujeira fica em primeiro plano e as grávidas dão a luz no meio da avenida, e a purpurina varrida para debaixo do tapete de esgoto toma forma e nos asfixia, por onde sambar depois dos fogos disparados em nossos corpos, quem inventou esta coreografia de zumbis de pântanos de insetos, e se a bateria parar e acabar com a festa arquitetada pelo tempo que não é nosso, pode meu coração bater descompassado e me embrulhar o estômago e me afogar em álcool e me escovar a pele e me mostrar a carne e os músculos e me apresentar a forma daquilo que não se pode tocar nem ritmar ou acariciar, nossos filhos dormem enquanto sonhamos com um outro casulo de caos e solidão, as luzes do trio elétrico que passa morno cantando a escuridão da nossa melancolia na parte histórica de lugar algum, as bicas de chopp jorrando, ejaculando a nossa frigidez calculada, as ruas entortam e nos abraçam forçadamente, as luas que nos orbitam agora brilham a plasticidade da mulata globeleza e as valsas dos casamentos são nada mais do que um movimento contínuo de corpos copulando em meio a ciranda das crianças de rua, por onde sugar o espírito do próximo, a roupa que deixei em casa, a louça e as dúvidas que esqueci na pia, a água do filtro que não para de escorrer e o meu coração bombeando sangue, e velando a felicidade dos desvalidos, o sorriso banguela do final de tudo, a pistola que me faz seguro e viril, quantos tiros atingiram o meu seio esquerdo, o sangue no azulejo da cozinha forma um desenho tão bonito, deita aqui comigo, vou te manter seguro de toda esta sujeira, e as fantasias rotas dos pobres coitados que esperam por este dia por esta alegria pré-fabricada, onde choram suas mulheres, no colo de quem elas rebolam, no pau de quem elas cavalgam, estas pobres coitadas que choram em fila indiana bem aqui na minha frente, te perdôo, amor, por me atirar e deformar o meu rosto que um dia te acalentou à noite, a noite que me esfola tanto entre as mulheres que não são minhas, a noite que me quer úmido em meio ao caos de risos cortando a madrugada, dos gritos e gemidos dos adolescentes, a noite que me contagia de raiva, a noite que me paralisa agora

a noite que me faz atirar na cabeça

daqueles que me chamam exaustivamente para dançar.


Danilo Oliveira
28 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com/



Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com/

9 de jan. de 2012

2ª Rodada


A 2ª rodada começará dia 8 de Fevereiro de 2012, o tema é "Carnaval do Horror" e será uma rodada invertida, ou seja, nesta, os ilustradores e fotográfos é que serão incubidos da missão de criar as imagens apavorantes que inspirarão os escritores.
E além desta novidade, noticiamos que novos colaboradores se juntaram ao grupo neste mês! Os enlameados escritores: Paulo Biscaia Filho, Alexandre França, FMAN, Mel Ferreira e Luiz Andrioli. Os pantanosos ilustradores: Hafaell Pereira, Yan Copelli, Carol Winter, Arthur d´Araujo, Dolores Garcia, Zansky e Elis Marina B. Também o exímio fotógrafo, Eli Firmeza.
A idéia é que os ilustradores e fotógrafos criem cenas aterrorizantes que tenham a ver com o universo do carnaval brasileiro. Estes vislumbres servirão de base para os contos dos escritores.
O blog Lama, ao contrário da revista impressa, enfoca narrativas curtas, velozes. São pequenos delírios pulp recheados de agonias e pesadelos, ao som, desta vez, de uma infausta marchinha fúnebre.