15 de ago. de 2014

Meu epitáfio (parte 1 de 3)

Conto: Cilene Tanaka
Arte: Isabele Linhares

Aqui jaz Nelson Ascher consumido
pelo amor-próprio não correspondido.
(Nelson Ascher)



(Parte 1)

Eu tava pensando, esses dias, numa alegoria para o meu epitáfio. Algo pra ficar escrito na minha lápide. Sabe “alegoria”, né? Sabe “epitáfio”, né? E lápide, sabe, né? Eu tava pensando muito profundamente. É, tudo é profundo. Até você, que diz “ih. Lá vem papo cabeça”, é profunda. Claro que é ironia. Sou a rainha da ironia. Tá, tá, mentira minha, cê é muito profunda mesmo. Teu: “ih. Lá vem papo cabeça” é uma ironia e você é bem profunda mesmo. Agora cala a boca, que eu quero te contar uma história. Sei lá, pára de perguntar se eu tenho certeza. Eu tô só inventando. E não é isso que pensador faz? Tô tentando ser pensadora. Haha. Sabe “pensadora”, né? Eu não sei. Haha. Não achou engraçado? Só porque eu não disse que você é profunda? Mas eu disse. Eu disse que você é profunda. Tá bom, desculpa pela ironia. Não! Não vai embora. Eu não sou chata, sou pensadora, é diferente. Ouve, ouve aqui, só deixa eu terminar o que eu ia dizer. É rapidinho. O problema é que, na hora da morte ainda tô muito jovem – eu, meu físico - e não devo morrer, a não ser espiritualmente. E morte espiritual implica o que? Ah! Morte espiritual implica uma coisa pra cada um. Mas, pra resumir, pra chegar logo no meu ponto. Tá, tô resumindo, ó. É rapidinho. Pra mim, morte espiritual também implica um monte de coisa. É, tô resumindo. Nâo, nem é tanta coisa que eu tenho pra falar, só que você fica me interrompendo. Olha, escuta só isso, é rapidinho, eu juro. O que eu quero que morte implique nesta alegoria, nisso que eu tô falando, é a morte intelectual a morte da alma. Filosófico, né? E dá pra ser complicado também. Não, pára de ser chata. Não é nada complicado se você prestar atenção. Eu sei, é chato. Dá pra ser chato também. Dá pra ser complicado também, ó, presta atenção que você entende. Dá pra ser ainda mais complicado que antes, que o filosófico. Dá pra ser mais complicado que arranjar um homem bom por aí. Não, brincadeira, não é tão complicado. Você é esperta, é só prestar atenção que não é complicado. Vou complicar só um pouquinho, mas, daí, como você vai prestar atenção, vai ficar fácil, ó. Por favor, presta atenção. Juro que o chato fica legal as vezes. Juro que eu termino rapidinho, ó: o tempo acelerado – o tempo atual, o tempo que a gente vive, hoje em dia, atualmente - é como se a gente amadurecesse antes do tempo. É algo tipo como se a morte chegasse ainda em vida. Entendeu? Continuo, vou continuar, calma. Ô olha. Não terminei ainda, olha. Tô terminando. Esse “algo tipo” já é algo. Parece abstrato, parece que “algo tipo” não existe, mas já existe. É um algo, assim, sem muitas características, mas já é algo, sabe? Entendeu? Ai, é que você não tá prestando atenção. Presta atenção que você entende. Por isso que você tá solteira ainda. Não presta atenção em nada. Você é profunda, juro. Todo mundo é profundo. Só um tolo se entedia em meio a uma multidão. Todo mundo é profundo. Você é profunda, só não presta atenção. Olha, presta atenção e você entende, tá? Não faz diferença você não querer ser profunda. Não é tua escolha, não adianta achar que não é porque você é profunda e ponto. Que nem todo mundo. Quero dizer, o “é como se” já “é”. Então não é só “como se” a morte chegasse ainda em vida. A morte chega ainda em vida. E isto é, de novo, uma alegoria. Sabe “alegoria”? E não é por ser alegoria que não é real. Não,
não é surreal, é real. Não, não, é aí que ce tá enganada: não é estranho, só é real. Não é por ser alegoria que não é verdade. Não, não, você tá falando besteira. Nâo é bizarro, é real. Nem foi tão complicado assim. Ce viu? Eu e você, a gente é e não é profunda. Tá, tá, eu quase terminei, falta só mais uma coisinha que eu queria te falar antes de você ir lá. Eu sei, papo muito cabeça e tals, mas você gosta. Você só acha que não gosta, mas você gosta. Não, não é porque eu sou diferente. É que eu tento ser mais profunda que você. Você tenta ser mais...mais...sei lá o que você tenta ser mais. O que você mais tenta ser na maior parte do tempo. O que você mais tenta ser na maior parte do tempo? Ah, deixa, depois ce me fala, que eu quero terminar de te contar essa história antes que você vá lá. Ó, rapidinho, terminando, só pra terminar. Daí, aconteceu que, sem pensar nisto tudo, fiz um monte de coisa, esquecida que eu tava da morte. Tô tentando ser profunda. Percebeu? É, isso mesmo, bem profundona. Duma textura daquelas profundas, sabe? Ah! Eu gosto de ser profunda. É bonito ser profunda. Todo mundo gosta de gente profunda. É, ce te razão, não em festa, né? Haha mas, ah! festa é o melhor lugar pra gente mostrar que é profunda. Em festa, ser profunda é legal, é atraente, é ssssexy. Porque daí você é alternativa. Você é diferente. Você é única. Esquecida que eu tava do “hoje em dia” e do amadurecimento. Conversei, conversei e achei que faltava leitura. Li, li, li, pisquei e tava mais que madura. Passei a escrever, já que tinha muito a falar. Agora, passada do ponto, depois de madura, pra onde? Calma, já tô acabando, olha só isso: a morte chega ainda em vida. Parece que a gente apodrece, tipo fruta que põe verde na geladeira. Nâo, não, não tô declamando nenhum poema. Tô te contando uma história. Tá acabando, só mais esses dois versinhos, ó: parece que a gente apodrece antes de amadurecer mesmo. Antes de ficar realmente saborosa. Antes de ficar no ápice do nosso sabor, a gente já tá com a casca cheia de fungo. É divertido ser chata. Ser profunda, eu sempre digo, é ter coragem de ser chata. É charmoso, é legal, é atraente, é ssssexy. E sabe o que é mais sexy do que ser chata E profunda? Não sabe, né? Claro que não sabe. Ce não sabe nada. Não, não fica chateada. Tô brincando com você. Só deixa eu terminar a história. Ce não vai embora antes de eu terminar de te contar minha história, né? É só brincadera minha com você. Você sabe tudo, eu sei que você sabe. Você me entende. Tô vendo no teu olho. Tô vendo neste teu olhinho aí, que você é profunda, ce sabe. Ce sabe tudo. Então, o que é mais sssexy que ser profunda é...tchan tchan tchan tchan: saber ouvir! Hahahaah Eu te juro. Não tem nada mais profundo que homem que sabe ouvir. Nada mais atraente. É sssexy. Mais sexy que dançarino de axé. Mais sexy que vocalista de banda indie. Que homem rico. Que homem engraçado ou inteligente. Que aquela indiferença charmosa. Aquele olhar de quem tá com o sol bem no olho. Mais sexy que falar, é ouvir. Afinal de contas, a gente tem só uma boca, mas tem duas orelhas, né? Hahahaha é...duro. Mas, olha só isto. Deixa ela. Deixa ela ir. Eu não quero mais conversar com ela, ela é chata. Ela não gosta de papo cabeça, quero conversar com você. Olha pra mim. Olha pra mim. Agora é só eu e você. Agora não tem mais ninguém em volta. Neste boteco, estamos só eu e você, meu dançarino de axé, meu vocalista de banda indie com composições próprias. Meu alternativo neo punk. Meu cantor de pop rock. Você. Você, meu ser humano lindo que tenta parecer feio porque é mais ssexy. Você, ideal de homem que usa óculos retrô. Que usa calça justa que nem no axé mas que não gosta de axé. Você, que vai na woods pra pegar mulher mas tá procurando o amor. Você que é charmoso, você que gosta de ouvir. Você é bom ouvinte, né? É, claro que tua mãe te ensinou a sempre ouvir uma mulher. E ensinou muito bem, viu? Você é menino de família então? Além de charmoso e profundo, você é bem educado. Nossa! A mulherada deve cair em cima de você, hein? Deve fazer a mulherada
lamber o chão. É, eu sei que é machista. Mas o mundo é machista e as feministas são chatas. Eu sou só uma mulher. Uma mulher conversando com um homem. Um homem como você, nossa! Olha como você olha com indiferença pra mim, que charme! É...eu até que lamberia o teu chão também. Que nem essa mulherada. Não tem nada mais interessante que homem charmoso, profundo e bom ouvinte. Ainda meio indiferente, ainda, meu deus! É charmoso. É atraente. É sssexy. Sou atraída, confesso, por homem assim. Homem que não mostra que ama. Homem que finge que eu não sou importante pra ele. Sou atraída, confesso, por homem assim. É como eu sempre digo. Mas sabe o que é ainda mais interessante que homem charmoso, profundo, indiferente, bom ouvinte e educado? Homem que tem memória! Sabia? A memória é a única coisa que faz a gente organizar as coisas na cabeça. Falando nisso, lembra do que eu tava falando? Não lembra, né? Tudo bem. Só fica assim, me olhando com essa indiferença charmosa. Com esse olhar cerrado de quem tá com sol na cara. É. Essa tua sobrancelha meio arqueada como se tivesse satirizando o Johnny Bravo, só que não sabe o que é sátira. Essa segurança indiferente que quando sorri parece que quebra. Essa pose constante pra foto que ninguém tá tirando. Não! Não sorri! Fica assim, sério. Sorriso estraga você porque parece que você é vulnerável, daí. Você, charmoso assim, não precisa ter memória. Você pode. Você pode tudo. Bom, eu não lembro também. Mas é claro que é importante o que eu tava falando! Que pergunta! Quer saber? Melhor ainda: sabe o que é melhor? Melhor é quando o homem além de ter memória, sabe o que importa. Lê a mente da gente, sabe? Adivinha até o que a gente nem sabe que queria. Aí sim. Aí é a magia. E é magia porque isso não aparece no espelho. Quer dizer, não aparece no teu espelho. Aparece só no meu, né. Bom, foi mal, eu até limpava teu chão. Mas você não limpou o meu direito. Nem tá me ouvindo. Do que eu tava falando mesmo? Se bem que você não precisa me ouvir. Não precisa ter memória, não precisa nada. Fica assim, só me olhando como se não tivesse prestando atenção. Me olhando como se eu fosse completamente desimportante pra você. Olhando sempre pra porta, porque pode chegar um conhecido mais interessante. Ai! Que charme! Nossa, como você é charmoso. Adoro ser desvalorizada. Não faz assim que eu me apaixono, hein?hahaha Ah! Tava falando do meu epitáfio, porra! Sabe “epitáfio”, né? Da morte que acontece com a gente vivo. Do que tá acontecendo agora, porra. Se a gente fizesse epitáfio pra cada uma dessas mortes em vida, ia sair caro, né? Haha ah! Olha só pra você! Você, assim, lindo, perfeito, homem, sssexy. Eu, aqui, uma mulher. Este bar, só nós dois. Ssexy. Finge que só tá a gente aqui. Isso. Pode até olhar pra porta, mas espera só eu terminar de falar pra sair. Olhou pra porta? Tá olhando? Isso. Agora fica quietinho e ouve, tá? Esta morte, a morte alegórica (sabe “alegoria”, né?) é pulsão. Tem pulsão de morte e pulsão de vida, sabe “pulsão”, né? Claro que sabe! Um menino bonito desses não sabe o que é pulsão! Se não soubesse o que é, pelo menos saberia fazer a cara de quem sabe, né? Daí já é suficiente. Sorri pausado tipo capa de revista, vai. Ai que lindo, você é. Você inunda o salão com a tua beleza e quem vai lembrar de perguntar se sabe o que é pulsão, né? Não é verdade? Shh shh, fica quietinho. Ouve quem sabe das coisas, isso, assim, bonito. Silencioso. Sério. Ssexy. Então. Tem pulsão de morte e pulsão de vida. A pulsão de morte é a que busca o fim, já que o fim é a morte, né? E a pulsão de vida tem a ver com a busca do início, começar as coisas, entende? Então. Daí tem a pulsão. Olha, é bem poético, tá? Tô tentando ser poética. Faz cara de quem tá fruindo o poético, faz. Faz! Ah! Faz, meu, que que custa? Viu? sabe tudo esse garoto! Continua com essa cara, tá? Essa boca vermelha que nem precisa de batom. Isso é a corporificação do poético! Quem aqui precisa de poesia quando a gente vê uma boca dessas, né? Hahaha Vamo tentá ser poético? Pulsão. Pulsão de morte. Morro toda.
Só parar de respirar. Não fosse essa dorzinha na lombar sabe a lombar, né? Faz carinha de dorzinha na lombar, vai. Isso! Que carinha mais linda. Fica bonito até imitando dor inexistente na lombar que não sabe onde é. Sabe onde é a lombar, né? A parte final da coluna, aquela que dói de tanto ficar sentado errado? Shh shh não responde. Fica assim, com essa carinha que finge que tem dor na lombar que não conhece. Me olha sério. Assim. Shh shh quietinho. Bonito. Lindo. Não fosse essa dorzinha na lombar...morte certa. Nem precisava fazer nada, só ficar sentada e era morte certa. A pulsão de vida, a vontade de começar a fazer nada geraria a pulsão de morte, a vontade de fim. Tá chato? Tô chata? Sô chata? Achei que eu era legal. Achei que eu era inteligente, charmosa, atraente. Achei que eu era ssexy. Pode olhar pra porta, então, só enquanto eu termino de falar. Falastrona? Eu? Porque falastrona? Hehe que que eu fiz? Ce só diz isso porque você não viu esse cara que acabou de sair. Esse, sim. Um arrogante. Não tem nada mais chato que gente arrogante. É sexy, é atraente, mas que adianta se é superficial? Acha que é perfeito, tadinho. Daí, quando viu que eu não me desvalorizo, que eu tenho mais que um corpinho bonito pra mostrar, ficou entediado. Quando viu que eu não sou menos que ele, acho que ficou inseguro. Porque eu tenho algo que ele nunca tem. Eu sou inteligente. E inteligência, meu filho, só cresce. Ele, todo lindo agora, vai virá um bagaço daqui a alguns anos. Daí não sobra nada pra ele. Ele vai tá lá, sofrendo porque ficou feio e eu só vou estar mais inteligente. É, é, recalque também não envelhece, ce tem toda razão, mas como eu tava falando, enquanto ele só tem beleza e charme e educação, eu tenho inteligência. A beleza o charme e a educação dele vão sumir. A minha inteligência, não. É como eu sempre digo: inteligência só cresce. E depois, eu até que sou bonita, não sou? Quando eu me arrumo, fico bonita até. Então. Eu tenho mais beleza do que ele tem inteligência. Daí eu tenho mais pra oferecer, sabe. Não sou superficial. Só sô mais mulher que ele. Sou o pacote completo. Daí ele foi embora. Acho que ficou inseguro, tadinho. A inteligência, especialmente de mulheres bonitas como eu, ameaça os homens, né? Sou o pacote completo. Mas ainda bem que você tá aqui, né? A gente pode trocar uma idéia verdadeira. A gente, gente assim como nós duas, a gente é diferente dessa gente aí. Como assim “como eu sei que você é diferente?”. Eu sei, ah, eu sei porque tô te vendo, ué. Dá pra ver, da pra sentir quando a pessoa é diferente. A gente sabe, né? Por empatia. Dá pra ver no olhar. Vou dar um exemplo, ó. Do que eu tava falando antes. Eu tava tentando ser profunda, sabe? A gente não pode ser só um corpinho bonito. A gente tem que ser profunda. A gente tem que ser atraente. A gente tem que ser ssexy. Acho que todo mundo sempre conversa as mesmas coisas. Ninguém é profundo. Mas a gente, pessoas como nós, não se contentam com essa mesmice, sabe. Vê só o que eu tava falando e o babaca nem entendeu: eu tava falando que se não fosse essa ardênciazinha no olho, a vista cansada, que mostra que eu ainda tô viva...morte certa. Nem precisava fazer nada. Não fosse, enfim, o corpo, reclamando existência. É como eu sempre digo: todo mundo só fala a mesma coisa. E, só um detalhe, rapidinho: o corpo sou eu, ele me constitui, certo? Nada muito complicado aí. Ah! Nem sei porque eu tô me preocupando, você entende como ninguém. Vou resumir, porque você já sabe isso tudo. E pra ir mais rápido também, vou resumir. Você também é linda e inteligente, sabe como é. Não fosse, enfim, o corpo, reclamando existência...morte certa. E morte alegórica (lembra “alegoria”?) não quer dizer que não é real, né? Lembra?Alegoria? Meu epitáfio? A morte em vida? Minha lápide que é o meu corpo? Não lembra? Ah! não foi pra você que eu falei isso.


***


(Continua...)

Cilene Tanaka
Nasceu em Curitiba, cidade onde reside e tece sua colcha de contos, crônicas e críticas. Aluna do Núcleo de Dramaturgia do SESC e habitante da Casa Selvática. Gosta de mistérios, barbáries, laços, óculos de armação branca e versos heptassílabos. Flâneur citadina que perambula nas fronteiras da ficção e realidade. Costuma emprestar seus olhos, corações e mentes para circunspecções sobre o teatro em www.gazetadopovo.com.br/blog/teatrofagia.


Isabele Linhares

7 de ago. de 2014

Lápide

Conto: Thiago Tizzot
Fotos: Marco Novack*
* Com: Digão Duarte e Michelle Rodrigues
Maquiagem : Cristopher Gegembauer




Ela usava uma saia um pouco abaixo dos joelhos. O sapato era bege, provavelmente de couro, com um cadarço de mesma cor. Lembrava um sapato masculino, mas com salto. A meia era grossa, apesar do sol a cidade tinha um vento frio e cortante. Ele gostava de sentir o rosto gelar com a brisa. Não lembrava a primeira vez que a viu, tão pouco seu rosto. Sempre começava a admirá-la pelos sapatos, as meias, a saia e não passava da bolsa. De couro preto.







Era como se sua cabeça não conseguisse se erguer. Como se os anos de humilhação e fracasso tivessem solidificado sobre seus ombros e a ousadia de encarar alguém nos olhos o tivesse abandonado. O emprego de varrer os caminhos que serpenteavam as lápides foi a única coisa que restou. Tirava pouco dinheiro, mas pagava o aluguel e a pinga. Tava de bom tamanho. Ofereceram para carregar os defuntos, mas com isso ele não queria mexer. Uma coisa era ver as lápides, imóveis na frieza da pedra. Outra eram os caixões, os parentes chorosos, a sensação de ser humano. Isso ele não queria.
Os anos se acumularam, os cabelos, agora brancos, permaneceram somente acima das orelhas o resto o tempo levou. Passou a mão pelo rosto molhado da chova fina. A mulher vinha toda a semana, nas terças, às 10h30. Jamais faltava. Ou se atrasava. Nunca teve curiosidade de saber quem ela visitava ou até mesmo para onde ela seguia depois. Simplesmente a admirava passar, apoiado em sua vassoura e com os olhos baixos.








Era como deveria ser, não existia uma razão, como se alguém lá em cima ou lá embaixo tivesse determinado e assim se fez.
Consultou o relógio no pulso, herança do pai, nunca viu o sujeito usar. Um dia saiu para comprar bebida e nunca mais voltou. Ele era pequeno não entendia o que se passava a de noite chorava de saudades do pai. Talvez por isso ele hoje beba. Encontrou o relógio em uma gaveta na casa de sua mãe. Depois que ela faleceu, foi chamado para recolher os pertences da velha senhora. Uma vida inteira em uma caixa de sapatos. Há anos não via Dona Zuleica, também não viu seu enterro, não sabe quem a enterrou ou onde. Pode ser que seja no mesmo cemitério que trabalha, nunca procurou. Falta de vontade ou vergonha. Não importava.




Estava na hora, 10h30, logo ela passaria. Pela primeira vez percebeu que existia uma rotina, uma seqüência de movimentos e ações que fazia todas as terças pela manhã. A primeira era olhar o relógio, lembrar de seu pai e sua mãe, depois segurava a vassoura com a mão direita, a esquerda buscava pela pequena garrafa de metal em seu bolso. Um rápido gole, o líquido descendo pela garganta, ardente. O frio do metal de volta no bolso, a mão esquerda se junta sobre a direita apoiada na vassoura. Em cima das mãos o queixo e a perna direita cruza sobre a outra.




Naquele segundo, antes de os ponteiros marcarem o momento exato, percebeu que fazia a mesma rotina. Não lembrava há quantos anos. Olhou para a calçada, bem no ponto em que uma pedra era mais alta que a outra. Esperou pelos sapatos de bico quadrado, beges, com cadarço. Mas eles não vieram.
O sol incomodava os olhos, espremia o rosto tentando enxergar melhor. Mas não tinha nada para se ver. A mulher não apareceu.
Coçou a cabeça, o coração batia acelerado, abriu a garrafa de metal, o tampa rolou pelo chão irregular de pedra. Bebeu em longos goles, sentiu suas entranhas se aquecerem. O cheiro de álcool agrediu as narinas.
Os passos eram hesitantes, arrastava os pés. Não sabia que direção tomar, só queria ir em frente. Precisava ver a mulher. Não se preocupava em descobrir porque ela não estava ali. Só precisava que ela estivesse. O vento acariciou seu rosto, gelado, sempre gelado.
Tudo era igual, uma selva de pedras escuras com letras douradas, alimentada pelos incontáveis corpos que chegavam em carrinhos de metal, empurrados por aqueles mais queridos do pobre coitado morto no interior do caixão.
Os pés pararam. Pesavam uma enormidade e ele não conseguia que fossem adiante. A lápide era simples, flores mortas sobre a tumba. Era ali. Não tinha dúvidas de que aquela era a lápide que a mulher vinha visitar. Como sabia? Não importava. Mas sabia.
Finalmente conseguiu erguer a cabeça, viu o céu, azul e sem nuvens. Depois as letras rebuscadas cravadas na lápide. Seu nome.



Marco Novack
flickr.com/photos/oavestruz

Thiago Tizzot
Autor dos livros "O Segredo da Guerra" e "A Ira dos Dragões e outros contos", pai da Lili e Basilisco.

4 de ago. de 2014

O bote

Conto: Mel Ferreira
Ilustração: Thiago Thome


A pele seca, áspera e fria cercava o corpo do pigmeu. Rastejava fluidamente. Ele não percebia. A noite o havia apagado num desmaio que roncava forte. A pele se espreguiçava ao seu lado; o cheirava, tremendo a língua bifurcada e inquieta, embora seus olhos permanecessem a espreita. Pálpebras transparentes. Foco. Pupilas finas e imóveis. Desgarrada, ela ouvia as ressonâncias do pigmeu que sonhava. Estava medindo... Caberia? Coube.
De bote, a pele o apertou até seus olhos abrirem marejados. Um formigar lento e perpétuo o pinicava, deixando seu corpo bêbado. Ainda que, de pronto, os músculos reagissem com espasmos, não demorou aos primeiros ossos se romperem, abalando a postura.  Os dentes cerrados usavam quase toda a força, agora inútil ao corpo descoordenado. O pigmeu perdia o olhar, enquanto sua consciência agitada tentava distinguir o que estava acontecendo. Doía.  E o coração começou a correr, como se quisesse sair pelos poros de tantas batidas por segundo. Como se quisesse arrancá-lo à morte iminente.
Líquidos vertiam dos cortes que ela fez enquanto o engolia. O corpo hemorrágico do pigmeu, lentamente, se misturava ao seu sepulcro. O esfíncter cedeu. Suas pálpebras caíram. O sangue perdia seu talento, porque do nariz do pigmeu não saía nem entrava ar. O que era pânico virou silêncio. E muito do que existia na cobra, era o pigmeu recém enterrado.

Mel Ferreira


31 de jul. de 2014

Dia de faxina

Conto: Luísa Bonin
Ilustração: Francisco Gusso



Me coçam as coxas graças às jeans úmidas que vesti de manhã. Estamos sem sol há dias e já preciso secar as calcinhas atrás da geladeira. Menti para Giana. A faxina é o que me sobra. Combinei com ela hoje, quarta-feira. Mora no centro. Com o tempo que gastaria no terceiro ônibus passo a roupa. Trintão a mais. Toco a campainha do vizinho pela terceira vez. Depois de apertar a dela umas dez vezes. Esse negócio é uma tristeza, ela diz. O prédio não tem elevador e as escadas de pedra têm aquelas fitas antiderrapantes mal colocadas e descolando. Tropeço duas vezes. Giana sobe na minha frente. Porta aberta. Um tapete, uma cadeira, um colchão e um cobertor. Hoje é meu último dia aqui, ela diz enquanto vem da cozinha com um balde e uma vassoura. Deixa o balde no chão e ascende um cigarro. Com fumaça na boca, tira um papel do bolso. Quadra 43, ela fala. Número 2, Cemitério Municipal. Sabe chegar lá? Pode ficar com o balde e a vassoura, ou jogar fora depois. É bom usar água sanitária, dilua um copo num litro d’agua. Não mais que isso. Passe o pano três vezes, por favor, com água sanitária nova. Na terceira, coloca a luva, e passa a água sanitária pura.  As chaves põe no vaso de flor, completa falando rouco enquanto me entrega o dinheiro e as chaves. Conto o dinheiro e tem os trintão a mais que combinei da roupa. Melhor não perguntar nada. Medo eu tenho de vivo, e uma lápide eu limpo rápido. Ainda volto pra casa a tempo de buscar meu filho no colégio e fazer almoço.
Saio do prédio e a chuva não para. Resolvo ir andando para o cemitério. Quadra 43. 5, 3, 2. Tá com a luz acesa. E é tudo menos uma lápide. Grande esse! Grita de longe o coveiro – eu acho. Mausoléu dos Bernini! Grita ele mais uma vez. Ficar cuidando de parente depois de morto só não deve ser pior porque ela tá me pagando para fazer isso. Abro a porta. Tem um metro quadrado do que eu chamaria de “antessala”, e a câmara principal com uns 5 metros quadrados, muitas velas derretidas e a parede e o chão verdes de mofo.
Água sanitária. Pano. Abstraindo o cemitério. Já tô acabando.  São 11h30min. Se eu termino rápido e faço bem são R$ 130 e ela pode me chamar de novo. É muito mofo. Vou demorar mais mas passo o pano pela terceira vez em tudo. Tá limpo mas tá sujo. Não faz sol. Vai continuar mofando. Já perdi a hora do colégio. Mas se eu sair agora chego a tempo de almoçar com meu filho. Deixo a chave do lado da porta, no vaso de barro. Mas agora tem uma flor no vaso. Duas. Olho pra trás e tem uma confusão de gente chegando perto de mim e colocando mais flores no vaso.
Foi ontem. Terça-feira. Ela escorregou na escada do prédio que morava. A chuva não para e nem os antiderrapantes deram conta. Giana morreu na hora, traumatismo craniano. Me contou a primeira senhora que colocou as flores no vaso. 


Luísa Bonin

28 de jul. de 2014

Pedra lavrada

Conto: Dragomir Kephas
Ilustração: Rafael Pto



O viajante deparou-se com uma bela peça lavrada em pedra, na confluência da estrada principal e um caminho até então desconhecido, quase oculto pela relva crescida.  A tal escultura, um anjo melancólico, postado no remoto trajeto entre duas cidades do interior, certamente sinalizava a entrada de alguma propriedade. Revigorado pela surpresa, Getúlio tinha certeza de que ninguém lhe negaria um bom prato de comida e um canto para dormir.
Ele fazia sua jornada a pé, acompanhado por um cavalo magro, puxado pelas rédeas e incumbido da bagagem.  Depois de alguns minutos caminhando, foi possível avistar uma colina descampada e um casebre com a chaminé fumegante. Ainda seguindo a trilha, passou por um grande paredão rochoso, uma pedreira. Ao final desse trecho, após uma curva abrupta, o viajante estava aos pés da colina encimada pela choupana.
Getúlio prendeu as rédeas num arbusto e bateu palmas. Sem demora, um idoso apareceu na porta da casa e fez sinal para que o viajante se aproximasse.
O sujeito, cuja boca escancarada ostentava não mais que três dentes, ria com a satisfação de quem revê um ente querido. Os olhinhos brilhavam, espremidos, entre incontáveis rugas. Os cabelos eram brancos, esparsos e desgrenhados. Tinha a estatura de uma criança de dez anos. Apesar do aspecto frágil, o ancião apresentava muita vitalidade. Puxou um banco e fez sinal para que Getúlio sentasse à mesa, então serviu uma jarra de água, bananas, pão e um ensopado de carne. O anfitrião nada dizia, apenas produzia alguns sons guturais e gesticulava muito.
Getúlio não fez desfeita, alimentou-se com tudo que estava à disposição, demonstrando gratidão em cada gesto. Depois de saciado, puxou a carteira do bolso e ofereceu um pagamento pela comida, mas o idoso refutou enfático e sorriu dando tapinhas no ombro de seu convidado. Então, saiu do cômodo e retornou com lápis e papel e, colocando-os na frente do viajante, disse com dificuldade:
– Nome.
Getúlio escreveu seu nome no papel e depois, a convite, seguiu o idoso até os fundos do casebre. O local era uma espécie de ateliê, um pátio de terra batida coberto com telhas de amianto. Havia anjos de toda espécie, carrancas, capitéis, balaústres, colunas torneadas e todo tipo de artefato talhado em pedra. Orgulhosamente o artesão apontava para cada um dos trabalhos. Caminharam para fora da área coberta, chegando a um local onde havia dezenas de lápides, todas belamente trabalhadas.  As primeiras que Getúlio observou estavam deitadas no chão, ornamentadas com alto-relevos ao redor da face polida. Ao lado, fileiras de lápides dispostas perpendiculares ao chão, como em um cemitério, porém mais próximas umas das outras. Ele seguiu entre os estreitos corredores e percebeu que aquelas lápides possuíam nomes entalhados.
Getúlio virou-se para o idoso quando sentiu a lâmina penetrar suas costas. Ele caiu e teve a cabeça golpeada com uma espécie de tacape de pedra. O velho destrinchou sua carne, depositando-a numa bacia. Separou as vísceras e os ossos num saco de pano, que enterrou onde havia espaço para mais uma lápide.


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Dragomir Kephas 
Colaborador da revista Lodo, desde 1958.
revistalodo.blogspot.com.br

Rafael Pto

facebook.com/rafael.pto

23 de jul. de 2014

Tacale pau, Pancada! (parte 1)

Conto: Lielson Zeni
Ilustração: Sueli Mendes



(Parte 1)

Parece importante que a história comece assim: é noite, chove fino e o frio arrepia o pelo.

Uma hora atrás, em uma sala embaixo das arquibancadas do Estádio Anilado, Badanha e Cachoeira davam plantão na Agência de Detetives Beltrão. Cachoeira revirava as gavetas em busca de fósforos pra acender o cigarro quando o telefone tocou.

– Opa! Atende lá, Badanha.
– ADETBEL, boa noite./ sim.../ meeee, que louco!/ tá certo, então, pode deixar.
– Que que deu?
– O Nelsinho Coveiro do Jacutinga achou uns papel esquisito. É pra ir lá, Cachoeira!
– Péra, piá. Eu não saio daqui sem dá uma pitada.
– Sossega o facho que passemo ali no Gringo comprar um avio.

A chuva aumentou quando eles correram até o carro parado em frente a ADETBEL. Badanha guiou até a bodega do Gringo, onde pararam pra comprar fósforo e bolacha. Em seguida, tomaram o rumo, abaixo de muita água.

Badanha dirige e come bolacha, enquanto Cachoeira risca fósforos molhados que não acendem o seu cigarro. Depois de muito barro na estrada, chegam a uma igrejinha no Jacutinga, ao lado do cemitério da paróquia São Lázaro. 

Eles descem do carro e Badanha bate palmas na frente de uma casinha entre a igreja e o cemitério, enquanto Cachoeira cobre os olhos e o cigarro com a mão. Um homem de boné com cuia de chimarrão aparece na área da casa.

– Opa, não é que vieram? Vamo chegando!
– Estamos meio na correria aí, seu Nelsinho.
– Mas não querem chegar mesmo? Vão pegar gripe aí na chuva!
– Acho que entrar rapidinho não tem problema, ô Cachoeira.
– E como tá teu pai com os negócio dele lá, Badanhinha?

Cucas com chimia e rodadas de mate depois, Nelsinho causeia:

– Eu tava ali ó, naquelas quiçaça pra lá do potreiro, uns mil metro pra frente da igreja, cortando aquelas capoeira tudo, daí dei uma foiçada assim e TOC! parei pra ver que que era e vi umas latinha. Abri e tinha uns papel, esses daí ó. Queria que vocês dessem uma olhada pra ver como-que-é-como-que-não-é, como diz o outro.
– Me pinche esses papel aí, seu Nelsinho. Badanha, pega pra nós aquela lanterna lá no carro?
– Opa!
– Posso pitá aqui, seu Nelsinho?
– Decerto que sim!
– Pórco-di, molhou meu cigarro...
– Pére-lá!, e puxou uma palha do bolso, um pedaço de fumo e preparou um paeiro pro detetive.

Enquanto Nelsinho trabalha no seu próprio paeiro, Cachoeira acende o cigarro de palha no fogão à lenha e espalha a papelada em cima da mesa da cozinha. Analisa tudo e descobre que:

1) são diários, cartas, recortes de jornal e um atestado de óbito;
2) o atestado de óbito era de uma pessoa enterrada no cemitério;
3) os recortes de jornal falam de um tal PANCADA, que defendia os colonos de assaltos;
4) os diários são do PANCADA (ou tentam parecer que são).

Cachoeira conduz o papo com Seu Nelsinho, enquanto Badanha dá aquela olhada nos papéis pra se interar também do rolo.

– Seu Nelsinho, já ouviu falar desse um aqui, o PANCADA?
– Ouvi? Pfff, quem que não? Arrodiava tudo por aí uns ano atrás. Só que naquele tempo era Espírito o nome dele. Mas daí teve uns enrosco de direito autoral e mudou de nome pra PANCADA.
– E onde que fica esse túmulo, o 14-12?
– Hmm, é logo ali, na grutinha com grade de fronte.

A dupla caminha pelo pequeno cemitério até achar a gruta. Quando miram a lanterna no túmulo, veem que está aberto, e não enxergam mais nada.

Um homem grande desacordou os detetives com golpes na nuca, pegou o atestado de óbito e a chave do carro, anotou um bilhete, catou a papelada dentro do carro e entrou na igreja. O bilhete é este:

obrigado pelo meu arquivo
aquele abraço,
PANCADA

Ao acordar deram busca tudo em volta, na casa, na igreja e não encontraram nem sinal de nada, nem mesmo pegadas no barro — apagadas pela chuva. Ou seja, Cachoeira e Badanha tomaram na nuca, sujaram a roupa de lama e tudo que conseguiram foram algumas fatias de cuca e perguntas não respondidas: quem é o PANCADA? O que ele quer?

É, não dá pra se queixar de uma noite dessas na ADETBEL.


(Continua...)

Lielson Zeni  Afirma ter nascido em Francisco Beltrão, morado 11 anos em Curitiba e que estava em São Paulo quando tudo aconteceu. Diz trabalhar como editor e já ter escrito roteiros. Suas digitais não estão cadastradas no sistema. lielson.wordpress.com
Sueli Mendes

bigandlittledreams.blogspot.com

21 de jul. de 2014

Morri pela beleza

Conto: Celly Borges
Ilustração: Johandson Rezende



– Ora, que patético você dizer isso.
– Como patético se é esta a única verdade, Joana?
– Emily, é provável que o fato tenha se dado de outra forma, mas ninguém tenha contato com os detalhes reais.
– Pois vou contar todos os detalhes e você que julgue como reais ou não.
“Aconteceu logo depois que eu entrei em casa. Voltava do chá da tarde com as madames do clube de leitura, que acontecia na casa de uma querida amiga, Mary. Apesar de ser boa com algumas pessoas, ela era arrogante com outras. Mas isso não vem ao caso.
Acontece que cheguei um pouco mais cedo do que o normal, pois o chá estava frio e as bolachas, amolecidas. Entrei em casa como normalmente fazia, pensando que estava só, pois meu marido trabalhava até tarde nas quintas-feiras, mas ouvi uma correria no andar superior e meu sangue gelou. Travei no chão e não soube o que fazer.
Fiquei ali, escutando a correria, quando alguém começou a descer as escadas...
– Oh, meu bem, não sabia que chegaria tão cedo – disse John, meu marido.
Por poucos minutos pude sentir uma alívio, mas logo algo apitou dentro de mim e percebi que John estava apenas de cueca e meias brancas, todo suado. Meus instintos apurados disseram que havia algo errado. Olhei para ele e logo para a escada. Quando ameacei subir, ele me segurou pelo braço. O olhei assustada com o gesto inesperado.
– Sente-se aqui. Já que cheguei cedo – disse-me ele, apontando a cadeira da mesa da cozinha –, vou preparar uma xícara de chá para nós.
Ele sabia que eu havia ido para o chá com as madames do clube. Estranhei ainda mais e disse que aceitaria sua oferta, mas que precisava tirar a roupa desconfortável.
John me olhou tenso, então eu passei por ele como um foguete e subi até nosso quarto.
Em nossa cama, onde tantas vezes trocamos carícias, juras de amor e muito sexo, estava sentada uma jovem. Ela era muito jovem. Sorriu, era linda. Nunca tinha visto tamanha beleza.
Ela me olhou e sorriu. Seu sorriso não tinha nenhum remorso, era falso, então eu voei sobre ela. Pulei em seu pescoço com a faca que havia pegado sobre a mesa lá embaixo, sem que John percebesse.
Quando meu querido e compartilhado marido enfim chegou em nosso quarto, sua bela amante estava no chão. Ao levantar seu rostinho desfigurado ele deu um berro de desespero, enquanto o sangue sujava todo o tapete.
– Sua louca– ele berrava. E eu estava estática. – Tirou dela toda a sua beleza! Acabou com a única mulher que eu amei em toda a minha vida infeliz ao seu lado!
Ele também trouxera uma faca”.
– Eu morri pela beleza de outra.
– Então agora somos irmãs, em meio aos túmulos e lápides esquecidos.
– Neste ambiente que me causa repugnância. Até que o musgo cubra nossos nomes.


Celly Borges 
Nasceu em São José dos Pinhais, PR, onde sobrevive. É apaixonada pelos livros. Mantém há cinco anos o blog Mundo de Fantas no mundo dos livros (mundodefantas.blogspot.com.br). Autora de contos de horror e fantasia. Também escreve literatura infantil sob o nome Gisele Borges. Enfim, profissão: leitora.                 

17 de jul. de 2014

Destino

Conto: Marco Antônio Santos
Ilustração: Gustavo Ramos



Depois de virar mais uma noite limpando estações de ônibus biarticulados na avenida República Argentina, um homem de corpo e alma muito antigos começou a se dirigir à própria casa, no Centro. Os anos gritam, trabalhar é chato, e nenhuma grande emoção tinha lhe ocorrido naquele turno. O frio não fora intenso o bastante para merecer nota, os pixadores não tinham aparecido, e sequer os bêbados de sempre vieram enunciar suas histórias usuais de desgraças e danação, de onde quer que tenham vindo. Ele havia apenas ouvido música e caminhado de um lado para o outro para fazer correr o tempo - como se este fosse mesmo qualquer coisa mais que mera convenção imbecil.
Despertou na esquina entre a Avenida Água Verde e a Guilherme Pugsley. Julgou ter visto o tio Michel no banco de trás de um carro que passou muito rápido, a despeito do fato de que o tio Michel estava morto havia décadas. “Sono da porra”, pensou.
Tentou se recuperar do choque estalando os dedos das mãos enquanto atravessava a rua. Não funcionou. Levantou os olhos e viu uma senhora vestida de preto olhando para ele, na esquina do Cemitério. Ela sorria de forma sincera, e esperou ele se aproximar para emitir um pensamento, que nunca foi pronunciado com palavras, mas apenas com a sensação que ela provocou. Ela, monotonamente, para ele: “Já pensou numa mensagem final beeeem bonita? Eu sei que cê num perguntou o que eu acho, mas eu acho que você devia pensar nisso”.
E sumiu.
Deus se manifesta em tudo, por ser o Todo, claro, mas Ele aparece especialmente nas palavras e nas energias emanadas pelos atos daqueles que nos cercam. No entanto, Ele também se prova verdadeiro através da Própria Ausência, quando aqueles que não estão alinhados com Seus propósitos tomam o controle e passam a rondar os espíritos errantes que somos com suas vibrações estranhas. E aquela mulher, ou fantasma, não parecia alinhada com nenhum bom plano, do tipo dos que convidam os justos para o engajamento.
O velho sentiu o coração disparar e não se conteve. Recostou-se numa parede enquanto esfregava os olhos e tentava controlar a respiração. “Caralho”, disse pra si mesmo. Recuperou uma parte do próprio senso de realidade fitando as luzes dos farois de carros e ônibus na já movimentada Via Rápida, e também na lateral do cemitério, sempre tão caótico quanto o comportamento de uma nuvem interessante. Quando compreendeu, estava sentado nos bancos da praça mais próxima, ainda na mesma quadra, e dormiu.
Sentiu-se rodeado por vultos escuros, debaixo de um céu cinza e macabro. Não chovia nem ventava, mas ele sentiu o desconforto que estes fatos costumam trazer enquanto uma espécie de mantra era entoado por estes anjos maus que o circundavam, todos com as mãos direcionadas ao seu corpo. “Quem era aquela velha?”, pensava, e ela aparecia, de forma que buscou parar de trazer a imagem ao pensamento. Foi inútil. Há forças maiores que nós. Agora ele sabia. Viu o próprio corpo flutuando em cima da estrutura de cimento de um túmulo pobre e não sabia como havia parado ali. Tentou, de longe, ler as palavras do epitáfio, mas elas estavam escritas em alguma língua que ele não dominava.
Buscou recuperar as próprias funções corporais e as faculdades mentais, mas quando deu por si só conseguiu voar devagar em direção à velha e ao tio Michel, que estavam alguns metros a sua frente, dois metros acima do chão. Sentiu a mulher emanar as palavras “Vamo embora, que tamo cheio de notícia ruim pra dar ainda”. O tio Michel murmurou algo como “Eu sei”.
Não deixa de ser curioso que o senhor precisou morrer para encontrar algum tipo de conforto.


Gustavo Ramos

11 de jul. de 2014

Quatro Segundos

Conto: Santiago Santos
Arte: André Lissonger



- Já decidiu?
- Sim.
- Quando vai ser?
- No dia que eu morri. Ela só soube por que ligaram, né?
- Foi.
- E depois ela foi pra rua? Logo em seguida? Pra pegar o táxi pro hospital?
- Isso.
- Então. Esse dia. Antes disso. Pode ser a hora que ela foi no banheiro. Ou regar as plantas. Ou lavar a roupa. Vê o que fica melhor.
- Tá. Tu vai ter quatro segundos.
- Puta merda. Só quatro?
- Quatro. Teu filho trouxe nove galinhas pretas, não quinze, o sangue não era de bode, era de cabra, as velas eram pequenas, e teve que parcelar porque disse que tá pagando o teu funeral ainda.
- Eu sempre disse pra ele não gastar comigo.
- Ele gastou.
- Me tira daqui, vamos.

O homem ergue a tampa e a terra revirada escorre pra dentro do caixão. Estende a mão pro morto e puxa. Só vem o braço.

- Puta merda, caralho. Me puxa com cuidado, porra.

O homem levanta o cadáver como uma noiva e o coloca de pé na grama. Ali ele fica bambo, mexendo lentamente a cabeça, as pernas e o braço restante. Quando tem segurança suficiente pra andar, anda. O homem o segue em silêncio. No meio da tarde chegam na casa.

- Explicou pro meu filho o que cê me disse? Que não há garantia pro que pode acontecer depois?
- Expliquei. A reação dele foi a mesma que a sua.
- É que a Maria era muito fácil de amar.

Entram na casa de jardim desgrenhado, empoeirada, entristecida. Vão até o quarto do casal. O morto para diante da cômoda, se olha no espelho, vê algumas tiras de carne grudadas no crânio, uma minhoca saindo pelo buraco onde antes havia um olho.

- É aí que vai ficar?
- Aqui mesmo. Ela sempre deixava o celular aqui.
- Quatro segundos. Se prepara. Ela tá na cozinha desfiando frango.
- Tá bom.

A casa rejuvenesce quando o homem bate palma. Os perfumes se materializam na cômoda, os livros, o celular. Segura o botão de desligar do aparelho.

Quando ligam pra dizer que o seu marido morreu num acidente de trânsito, o telefone não toca. Por isso Maria não chora ao pé da cama, não pega a primeira roupa limpa do armário, não sai esbaforida e com os olhos borrados de desgosto, não acaba debaixo das rodas do ônibus e depois na cova ao lado do amado. No fim da tarde, quando já desfiou o frango e terminou o jantar e espera a família voltar pra casa, nota ao lado do celular desligado a correntinha que o marido usa desde pequeno. Ele não a tira por nada no mundo.

Está suja de terra.




Santiago Santos
Começou a escrever cedo e nunca parou. Leitor compulsivo, tereréficionado e jornalista meia-boca. Atualmente reside em Cuiabá – MT, onde já se aventurou pelo mercado independente dos contos ilustrados e blogs abortados. Publica minicontos no Facebook, na página Flash Fiction:

9 de jul. de 2014

Jogo

Conto: Luiz Bras
Ilustrações: Henrique Martins



Tenho medo.
Jurupari-mãozudo gosta de carne podre. Suas garras cavam o solo do cemitério. Cavam de baixo pra cima. Do fundo pra superfície. A terra treme, as lápides tombam.
Minha sombra tem meia dúzia de contas secretas em bancos da Suíça. Minha sombra me traiu & fugiu do país.
Tenho muito medo.
Anhangá-bocarra gosta de dentes velhos. De ossos porosos semeados no solo morto. Suas presas rasgam o fundo dos túmulos. Trituram a madeira dos caixões.
Minha sombra desviou seis milhões de reais do ministério da saúde. Minha sombra me traiu & fugiu do país.
Tenho muito, muito medo.
Abro os olhos & volto a respirar. O cheiro de decomposição é meu pior pesadelo. O cheiro da minha decomposição. Não consigo mexer os ombros nem os joelhos, parece que meus ossos porosos foram separados da carne podre. Não consigo enxergar nada, só a verdade: sou uma coleção de peças soltas & estou preso.
Enterrado morto, continuo vivo.
O pavor aguça meu radar, Jurupari-mãozudo está chegando. Mentalizo, modelo na imaginação um espaço a céu aberto. Uma praça pública. Não dá certo, o escuro não brilha, não me teletransporto.
Anhangá-bocarra está cada vez mais perto. Mentalizo, modelo na imaginação uma praia deserta. O saguão de um shopping. Meu quarto. Não dá certo, o escuro não brilha.
Enterrado vivo, continuo morto.
Virado do avesso: órgãos do lado de fora, pele dobrada feito um casaco velho.
Jurupari-mãozudo me alcança, devora minha carne podre. Anhangá-bocarra fica com os dentes velhos. Com os ossos porosos.
Game over.
Minha sombra me traiu? Minha sombra me prendeu em meu próprio delírio?
Tenho muito, muito, muito medo.
Mentalizo, modelo na imaginação uma saída desta armadilha. Uma passagem secreta através do espelho.
Pra mim chega, desliguem tudo. Eu quero parar.
Quero & não quero.
Medo.
Tenho muito, muito, muito, muito medo de acordar & descobrir.
Que jamais acordei, jamais acordarei.
Que neste jogo de um jogador só.
Minha sombra & eu.
Jurupari & Anhangá.
Somos o mesmo morto-vivo.
O mesmo vivo-morto.





Luiz Bras
Nasceu em 1968, em Cobra Norato, MS. Sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. É de leão e, no horóscopo chinês, cavalo. Na infância ouvia vozes misteriosas que lhe contavam histórias secretas. Adora filmes de animação, histórias em quadrinhos e gatos. Acredita em telepatia e universos paralelos.

Henrique Martins

5 de jul. de 2014

A Estrela Líquida (parte 2)

Conto: Gustavo Ramos
Ilustração: Simon Taylor 







Parte 2

Há quase uma década atrás, numa noite de estréia, o estômago da jovem se dobrava e se partia, sendo expelido aos poucos em vômitos convulsivos. A perfeita execução dos passos daquela coreografia eram antes de tudo a moeda que permitiria à jovem alçar voos em palcos internacionais. Ela no banheiro, em agonia. As altas autoridades do estado esperando aflitas o início da apresentação.
            Dez minutos se passaram do que deveria ser o início da dança, e surge na frente da moça, ainda contorcida no chão do banheiro, o maestro que tanto temia. Em sua mão enluvada portava um pequeno vidro escuro daqueles que se usam para conter remédios. Ofereceu a ela, que bebeu o num trago. A dor se foi e ela levantou-se rapidamente. Então, experimentou uma sensação de delírio maravilhosa, todo seu corpo era um só sentimento livre, uma vontade de levitar, de voar e cair com a leveza da pena de um pássaro.
            Ela enfim entrou no palco e dançou. Encantou aqueles olhares ansiosos, arrancou-lhes lágrimas. Não pensava mais nos passos da coreografia, mas naquele sentimento de puro êxtase causado pelo mover de seu corpo, pelo livre transito que sentia entre o palco e as almas daqueles que a assistiam. Ao termino da apresentação, as palmas duraram quase dois minutos. Não eram para a orquestra dedicada, nem para os outros componentes do balé, eram sim para ela, pois aquela plateia nada olhava a não ser o seu riso saboroso e seu vestido azul, salpicado de gotinhas brancas.
            Ao fim dos abraços e sinceros agradecimentos, ela adormeceu ali mesmo no teatro. Percebendo o profundo cansaço da jovem, o maestro avisou a todos que lá a deixassem, pois voltaria ao Teatro na manhã seguinte e poderia conduzi-la ao hotel próximo.
            Ela acordou e sentiu seu corpo envolvido por um grande véu suave, que acariciava lhe inteiramente. Pensava que aquilo não era mais do que a extensão do êxtase experimentado na noite anterior. Sorriu, e fechando os olhos lembrou-se daqueles olhares curiosos e maravilhados da plateia, até aperceber-se da imagem que figurava no espelho logo a frente. A imagem não mostrava seu corpo lânguido, nem o rosto doce, de bochechas sem vida e sorriso acalentador, tampouco seu grande olhar curioso. Tomada por um assombro horrível, viu a imagem de um pássaro de um bico fino e enorme calda verde. Seu pescoço era feito de um azul tão brilhante que parecia machucar seus olhos ainda sonolentos.
            O maestro alemão chegou sem que percebesse e contemplava a cena sem surpresa. Parecia estar há muito tempo ali, a deliciar-se com a beleza da ave. Sem delicadeza a colocou num pequeno cativeiro e a jovem, em sua bela e infame prisão de penas, passa o dia e a noite no claustro do porta-malas de um velho Sedan, e de madrugada é levada ao que deveria seu cativeiro eterno, no Passeio Público, junto a tartarugas e outros pavões.
O pouco sabor da vida reduzia-se a encantar os olhares dos transeuntes, principalmente das crianças, que sempre lhe sorriam com sincera alegria. Era numa sensação parecida àquela encontrada no palco de um grande teatro. Com frequência recebia visitas do maestro, que nada a dizia, que nada lhe dava, apenas a olhava, absorto, compenetrado.
A última visita do maestro acontecera naquela noite. Ele pela primeira vez quis tocá-la. Embalou-a em seus braços e beijou sua cabecinha. Mas ela, tomada por um desejo feroz mergulhou seu bico no peito do velho maestro, com força que não acreditava ter, conseguindo perfurar sua pele e penetrando o interior das cavidades daquele coração amargo.

Ela deu seu ultimo grito de ave, sentindo um frio imenso tomar seu corpo, pois aquele envoltório de penas azuis ia desmanchando-se aos poucos. Percebia vagarosamente a volta da sua nudez de menina, aquela mesma menininha que um dia brilhou nos palcos do Guaíra. Ela então chorou novamente o líquido branco e brilhante, a única herança da maldição do maestro. Chorou, pois talvez não desejasse matá-lo. Talvez o amasse, por ter permitido a vida naquele claustro delicioso de olhares infantis e penas maravilhosas.
Emílio ouviu a história inerte. Mal percebia que o sol quase desabrochava do horizonte. Ele a ajudou a enterrar o maestro no gramado em frente ao cativeiro e a limpar as manchas de sangue. Ainda com as mãos cheias de terra o guarda olhou para o lado, para despedir-se da moça, mas já não encontrou ninguém. Ela se desmanchou no ar e desapareceu como a lua, naquela manhã de abril.

(Fim)
           


3 de jul. de 2014

A Estrela Líquida (parte 1)

Conto: Gustavo Ramos
Ilustração: Simon Taylor



Parte 1

Emílio acordou de sobressalto ao perceber que o gato branco que manchava aquela noite densa e escalava o teto de uma choupana do passeio público não era mais do que a lâmpada de um pequeno quarto, fustigando seu olhar adormecido, distorcida por um delírio febril. Sonhava estar ao relento, esquecido num frio congelante, imóvel num banco de madeira, mas percebeu-se ainda no mesmo quarto que há três anos recebeu para vigiar as madrugadas do parque curitibano. 
Molhou o rosto na pia, tomou um gole de café e saiu para mais uma ronda. Já quase no fim, quando voltava para seu quarto, percebeu que mais um pavão havia desaparecido, justo aquele que possuía as penas mais bonitas, do verde mais claro e frondoso, cujas intensas gotinhas azuis pareciam querer escapar daquela imensa cauda.
            Já era o segundo que fora levado, e agora restava apenas mais um para acariciar os olhares daqueles passantes curiosos que ali paravam todos os dias. Já imaginava o pivete do Guadalupe que agora andava impune nas ruas da cidade, segurando a linda ave pela cauda, rindo de seu sono e incompetência.
            Não havia mais o barulho dos carros, nem o ranger dos caminhões de lixo. Há duas horas atrás os jovens ébrios da Trajano haviam passado, cantando suas tristezas e angústias, mas agora o silêncio era seco, cortante. Aquela orquestra silenciosa foi então interrompida por um grito desesperado, inconsolável e breve, o grito de uma mulher que sofria, certamente dentro dos limites gradeados do parque. Emílio deu a última volta, mas não achou a origem, nem o corpo, nem a alma daquela voz atormentada.
            Aquilo gelou-lhe o estômago. Sacou o revolver, mas congelou seus braços no ar, empalideceu diante do que viu no breu daquela noite de abril. Era a clara forma de uma mulher desnuda, cor pura apenas manchada pelo sangue em sua boca. Os olhos fechados dissolviam-se em gotas luminosas, que estrelavam aquele chão coberto de sangue, jorrando de um imenso corpo, esvaindo seus últimos suspiros naqueles rios vermelhos que bifurcavam desaguando por entre as frestas das pedras do calçamento.
            Ele se aproximou vagarosamente e parou quando ela o olhou com profunda amargura. Ficaram assim, enquanto o pranto cessava, a se olhar como se não existisse aquele corpo sem vida, nem a enorme mancha de sangue, como se nada houvesse além do mistério de dois olhos desconhecidos. Até que o pranto cessou de todo e o pavor que antes o afligia deu lugar a um tenro sentimento de afeição.
            Então ela falou. Falou como quem não o faz há muito tempo, como alguém a quem as palavras foram roubadas e de súbito reabilitadas. Ouviu a história de uma bailarina que um dia floresceu nos palcos do Teatro Guaíra e de um maestro, um alemão insondável de têmperas exaltadas, o mesmo que agora agonizava diante de seus pés. 

(Continua...)


Gustavo Ramos