14 de fev. de 2012

Souvenir

Ilustração: Zansky
Texto: Paulo Biscaia Filho





É um erro definir a memória como algo puramente abstrato. Não podemos alcançar fisicamente nossas lembranças, ainda assim existem fragmentos que nos tocam a ponto de sentirmos um líquido espesso e cheio de insetos rastejantes tomando o lugar de nosso sangue. Somos tolos. Insistimos na contínua formação de um compêndio de lembranças apesar da incontestável impossibilidade de reviver estas experiências. Paradoxalmente, quando tentamos fazê-lo, nos frustramos ou ardemos em dor. Como certos exploradores no século XIX em busca de terras e culturas virgens a olhares europeus, existem ainda alguns que buscam novas experiências apenas para trazer novas matizes a seus repertórios de impressões. Ao encontro dessas cores que não deveriam tingir nenhuma tela, tudo mais se desfaz e encontramos rumos que em nada se assemelham a jornada original.

Sou escritor porque não conseguia encontrar outro ofício que me desse alguma paz - não! Não é ‘paz’. Isso é uma péssima escolha de palavra. É conseguir suportar tudo em volta. Nas obsessões que este trabalho traz como rotina busquei lugares, olhares, atos, ritos e outros elementos que podem sugerir substância ao conjunto de palavras. Em vez de viver, me alimentava de material apenas para dar vida ao que pretensiosamente chamava de obra. Esqueci de minha vida e de meu corpo. Esse modus operandi deve ter sido o motivo que culminou em um conflito amoroso que vivi pouco depois das festas de ano novo. Não deveria ter sentido tanto, já que não via a vida como algo mais importante que meus escritos. As palavras que ouvi antes de ela ir embora parecem ter lacrado, ou pelo menos confundido meu olhar para o mundo como uma fonte de imagens para meus contos. Não deveria ter acontecido assim, mas me encontrei na mais banal crise criativa. Depois de dizer para mim que eu não era humano, ela foi até a parede da sala e pegou um pequeno quadro de uma paisagem de um navio atracado em um porto ao por do sol. Havíamos comprado a pequena pintura juntos, juntando os trocados que carregávamos, em uma feira de rua. A imagem do quadro trazia pinceladas que remetiam aos impressionistas, mas sem a mesma sutileza e com um olhar naïf, apesar dos traços borrados que lhe dava alguma personalidade. Quando ela saiu, olhei para aquele espaço em branco na parede. Apenas um prego solitário e uma marca retangular de atrito sobre a parede branca. Minha mente se transformou naquele espaço branco. Era necessário preencher para poder viver - não! Péssima escolha de palavra. Para poder escrever.

Nunca fui afeito a beber e sempre achei patético beber por solidão. É tolice acreditar que a embriaguez pelo mais amargo absinto nos transforma em seres diferentes. Ela apenas liberta a estupidez que guardamos atrás de toneladas de costumes e leituras. Estupidez sim, pois somos criaturas que pontuam atos relevantes pelos momentos de insensatez. Eu já estava embriagado pela brancura daquele espaço na parede. Nenhum destilado de zimbro seria capaz de me embriagar mais. Foi justamente o auge deste delírio - no meio de uma invisível espiral num retângulo branco - que me fez querer viajar. Era preciso sair dali. Fugir daquele prego na parede que mostrava uma ponta de ferrugem e oxidava minha vontade de escrever.

Viajei em plena sexta feira de Carnaval. É inacreditável que em meio a toda esse caos, ainda precisemos de datas no calendário para celebrar a insensatez que é nossa razão de ser. Sempre odiei este feriado. Durante carnavais anteriores, ficava trancado em meu apartamento lendo jornais velhos e esperando que aqueles dias terminassem para poder abrir a porta. Foi justamente esta minha aversão que me fez viajar para um lugar onde as festas de Carnaval eram conhecidas por seus peculiares e delirantes excessos.
Parecia perfeito. Eu precisava de uma nova experiência. De uma nova cor para preencher aquele branco mais insuportável que a palidez da baleia para Ahab. Uma condição compulsória de dissipar meus preconceitos e buscar uma perspectiva alheia a tudo o que eu até então cultivava.

Aquela cidade estranha parecia ter sido tomada por exércitos ímpios que obrigavam a população a usar fantasias. Era uma lei marcial. Ainda assim todos pareciam estranhamente confortáveis pelo que eu via como um cumprimento de lei. As batidas repetitivas do bumbo soavam como uma cerimônia pagã de sacrifício humano. Gritos que lembravam brados de guerra, mas ao contextualizar compreendia que não passavam de expressões afetuosas para angariar novos integrantes aos blocos de foliões. Os gritos me afastavam da vibração sedutora das batidas. Caminhava pelas ruas olhando para aqueles foliões como mortos-vivos que vagam acéfalos tentando saciar algo que é impossível de saciar. Exatamente como eu, mas com anseios distintos. Estas diferenças eram grandes o suficiente para fracassar em minha busca por uma fantasia que não me pertencia.

Sentei-me em um boteco. Pedi ao garçom uma cerveja e um pastel. Menu que era a única possibilidade energética naquelas ruas. Aguardei as iguarias sentado naquela mesa sobre a calçada de petit-pavê irregular. Ali contemplei apartamentos e vi sombras de festas privadas cruzando as molduras das janelas. O movimento daquelas sombras exalava uma sexualidade que me fez sentir o sangue correr até o meio das pernas e iniciar uma ereção. Hoje vejo que aquilo deveria ter me surpreendido, mas foi algo absolutamente natural e justamente por esta organicidade, não havia surpresa alguma, apenas o desejo de me mesclar àquelas sombras. Se possível, não em corpo, mas também como sombra. Uma orgia de projeções cuja alegria me impelia a participar. Meu sonho acordado foi interrompido pela imagem de um prato de metal com um pastel de queijo sentado sobre um guardanapo cinza ensopado em óleo. Desejei então por um momento voltar para casa e resolver lá mesmo aquele vácuo de cores. Foi então que ele surgiu em minha frente e fez alguma piada sem graça.

Pela sonoridade, era certo que aquele homem - Não! A palavra não é homem. Isso é uma péssima escolha de palavra. Aquela... ‘criatura’. Melhor. Aquela criatura havia feito algum comentário cômico sobre o estado de meu pastel. Não sei exatamente o que ele disse, mas sorri em resposta, sem imaginar o motivo de estar sorrindo. Olhei para ele. Tinha um bigode bem aparado na parte de cima e um corpo peculiar. Em pontos parecia ser magro demais, em outros com gorduras disformes. Sei disso com detalhes pois seu torso estava nu, não fosse por um peculiar sutiã de cones em seus mamilos. Um sarong escondia suas pernas e completava a imagem bizarra a meus olhos estrangeiros. Perguntou então de onde eu era. Estava mais do que claro que eu não pertencia àquele cenário. Antes que eu pudesse responder, ele me interrompeu:


'Desculpe. Eu não deveria ter feito essa pergunta. Muito menos nessa época do ano. Já sei demais ao ver que você não é daqui. E não é apenas porque você não usa fantasia, mas principalmente por seu olhar. Você parece que está desesperadamente buscando por algo. Estou errado? '
Sorri encabulado confessando silenciosamente que ele estava certo. Ele continuou:
'Agora que estou aqui, você sem dúvida está querendo que eu te mostre alguma coisa para não voltar para sua cidade de mãos vazias, estou errado?'
'Talvez', respondi tentando manter um ar tolamente blasé que pretensos autores como eu gostam de ostentar.
'Você estava olhando para aquela janela ali naquele prédio. Eu percebi quando cheguei aqui e olhei para você', ele falou em meio a um arroto de cerveja.
'Você está me oferecendo alguma arapuca para turista? Quanto isso vai me custar?'
Ele riu e tomou mais um gole da garrafa.
'Não quero seu dinheiro. É carnaval. Eu também quero ver coisas novas. É o que todos querem por aqui'
O sotaque diferente do meu fazia com que aquela conversa ficasse ainda mais próxima de um conflito cultural, mas eu estava ali pelos motivos que ele me apresentava. Não havia como negar. Estava estampado em meus olhos.
'Aquele apartamento que você estava olhando é meu. Aquela festa é minha.', gabou-se.
'E o que é que você está fazendo aqui? Não deveria estar cuidando de seus convidados?'
'Eles sabem se cuidar sozinhos. E eu estava entediado. Então? Quer subir de volta e fazer algo pra fazer este Carnaval valer a pena?'
Pausei poucos segundos para tentar mostrar alguma dúvida, mas era inútil. Eu queria muito aquilo. O que quer que ele estivesse oferecendo.

Entramos no prédio e subimos a longa escadaria com degraus suntosamente marcadas por grossas placas de ébano. Eu ouvia o som da música crescer e meu coração acelerava fora do compasso. Quando estávamos pisando no penúltimo degrau, ele se interrompeu e me disse:
'Precisamos fazer algo com essa cara de gringo. Se você continuar assim, vão tirar proveito de você e eu quero que você tire proveito desta festa. Desviamos da porta de entrada e entramos pelos fundos do apartamento. Era uma área de serviço repleta de copos com restos de bebida. No meio do comprido cômodo percebi uma poltrona de couro com marcas de corpos suados e uma gota seca de esperma fazendo a curva do assento em direção ao chão. Deixei meu olhar pousado sobre aquela poltrona e não pude evitar a recriação da imagem daqueles dois corpos. Minhas visões foram interrompidas pela imagem de um esqueleto. De uma fantasia de esqueleto. Por trás dela, surgiu o rosto sorridente de meu anfitrião.
'Vista isso. Um dos músicos faltou e deixou essa fantasia sem uso. Essa máscara deve dar conta dessa sua cara de cachorro abandonado no sábado de Carnaval', e riu como se aquilo fosse algum tipo de piada. Não vi graça, mas sorri socialmente.

Vesti aquela imagem de mensageiro da morte e me senti particularmente livre. Ria dentro da máscara apenas por pensar que ninguém sabia que eu estava rindo..

Ele olhou satisfeito para mim e falou em meu ouvido, 'Agora eu vou te mostrar coisas que você nunca viu, mas peço que você também me mostre. '

Aquele pedido gelou meu espírito e desejei desistir, mas não havia retorno.

Ele abriu a porta que dava para o salão principal. Era um apartamento gigantesco. Uma verdadeira mansão cravada dentro de um antigo prédio. Músicos com uma fantasia igual a minha tocavam e faziam os pés dos demais convidados dançarem. A dança e a música não eram o mais importante ali. Os convidados usavam fantasias dos mais diferentes estilos. As mulheres, como regra, usavam pouca roupa. algumas usavam apenas uma máscara e um bikini. Outras nem mesmo o bikini. Algumas dançavam de olhos fechados, outras conversavam entre sorrisos com um ou mais homens. Tudo era pretexto para que eles então se ausentassem do salão e entrassem em um dos inúmeros quartos que rodeavam a sala principal.

'Lindas mulheres, não? Qual você vai querer?'. Tão súbito quanto ele lançou esta pergunta, virei para ele surpreso. Ele riu. 'Não, não… não se preocupe, já disse que não quero dinheiro. Não sou cafetão e elas não são prostitutas, o que estou dizendo é: que mulher negaria uma trepadinha com a morte em pessoa?' Estendeu o braço para mim de cima a baixo, como seu se eu fosse um carro novo e ele o vendedor. Não me movi. 'Já vi que você não vai tomar iniciativa alguma. Deixe que eu escolho então. Tome, tome uma bebida...e mais um desse aqui." Estendeu para mim uma taça de champanhe - a mais saborosa que já provei - e um comprimido. Hesitei brevemente, mas eu havia pedido por aquilo. Não! Péssima escolha de palavra. Eu havia desejado aquilo.

Em menos de um minuto o champanhe começou a fazer efeito e o comprimido logo depois.

Ele me levou até uma mulher. Um belo corpo e cabelos negros e compridos. Ele disse que não deveríamos trocar nomes. Me vendeu a ela da mesma forma que vendia ela a mim. As imagens borradas causadas pelo comprimido começaram a me irritar. Era preciso que eu tivesse uma percepção clara de o que estava acontecendo ali, mas já não era mais possível. Conversamos banalidades e ríamos. Pelas leis do bom senso, ele agia com misogenia digna de punição, mas tanto eu como ela estávamos nos regozijando com o tom impresso por nosso anfitrião. Depois de três taças e sabe-se lá quantos minutos, ele nos conduziu até uma porta além do salão. Entramos em um escritório. As paredes estavam repletas de adagas de todo tipo. Sarracenas, ocidentais, medievais, renascentistas, réplicas e originais. Maravilhei-me com a coleção até que minha companheira me desse um beijo e uma mordida em meu pescoço. Ela se afastou e sorriu. Levantou sua mão até a minha máscara, mas o anfitrião segurou seu pulso sorrindo.

"Esse sujeito aqui", disse ainda segurando seu pulso, "esse sujeito é a surpresa da festa. É por isso que eu não quero que você veja o rosto dele. Pra não estragar a surpresa". "Não posso mesmo tirar essa máscara dele?", ela disse rindo e colou sua mão em meu peito.
"De jeito nenhum! ", bradou o anfitrião.
"Então quer dizer que beijo na boca não pode? ", ela disse para me fazer corar ainda mais debaixo daquela máscara, se é que havia sobrado algum sangue em minha cabeça. Ela logo sentou-se sobre a escrivaninha do escritório e deslizou sua mão até o meio de minhas pernas. Gemeu como se estivesse me confirmando seu desejo. Fez seus dedos caminharem até minhas nádegas e empurrou meu corpo para entre suas pernas. Com o canto dos olhos vi meu anfitrião tomar um gole de champanhe e sorrir maliciosamente debaixo daquele bigode bem aparado. Com apenas um olhar, ele comandou que eu continuasse. Também disse algo. Não pude entender. A bebida e os efeitos do comprimido entorpeciam meus sentidos. A distante batida dos músicos vestidos de esqueleto vibravam em meus ossos enquanto eu penetrava aquela mulher. Ela não sabia quem eu era. Não sabia meu nome. Não sabia meu rosto. Não sabia o que eu realmente queria, mas se entregava passionalmente e verdadeiramente a mim. Meus sentidos foram evaporando à medida que acelerávamos nossos quadris. Olhei para frente e não via mais nada do corpo daquela mulher. A única coisa que havia sobrado eram seus olhos. Aqueles olhos flutuantes me instigaram paixão ainda mais fervorosa. Não a paixão dos românticos, mas a palavra compreendida no sentido mais amplo. Paixão significando onipotência. Percebia as gargalhadas daquele que permanecia ali como espectador e produtor do espetáculo. Senti as mãos dele em meu pulso, afastando meus dedos do seio de minha amante sem corpo. Ele me fez segurar algo que eu não sabia o que era. Era frio. Parecia mais um copo de bebida gelada. Ele então sussurrou em meu ouvido: 'Vai'. Não entendi por que é que ele queria que eu bebesse naquela hora, mas sua ordem fez crescer minha sensação de poder e meu êxtase foi se aproximando, mas subitamente tudo dissipou e não compreendi mais nada. Não havia mais olhos, nem corpo, nem lugar, nem música. Tudo era escuridão.

Na manhã seguinte embarquei de volta para casa com um misto de ressaca e uma estranha plenitude. Quando cheguei em casa o porteiro me perguntou se eu tinha aproveitado a viagem. Ainda tonto e incapaz de discernir o que havia acontecido, apenas resmunguei algo para dar a impressão de continuidade a conversa. Entrei no elevador e minha cabeça passou a latejar. Deduzi que era algum efeito tardio de meus excessos. Quando deixei minha mala sobre a mesa da sala, a enxaqueca aumentou. Abri a mala e vi minha máscara de caveira em meio a minhas roupas sujas. Levei minha mão em direção àquele souvenir grotesco e então percebi que seu peso era incomum para algo que deveria ser apenas de tecido barato. Havia algo dentro da máscara. Passei a desdobrar o pacote. Minha mão chegou a um cabo de marfim frio como o gelo. Levantei a última dobra da máscara em um gesto brusco que revelou a lâmina de uma adaga marroquina com a lâmina embebida em sangue que ainda coagulava. A rapidez de meu gesto fez com que uma gota escarlate voasse pelo ar e pousasse contra a parede escorrendo alguns centímetros. Meu coração subiu até a garganta e imagens foram se formando diante de meus olhos. Não eram meros delírios. Eram lembranças. Eram as mais diabólicas imagens de lembranças! Os dentes de uma voluptuosa mulher prazerosamente mordendo o lábio inferior… uma lâmina forjada à moda sarracena em minha mão… uma voz em meu ouvido… um gemido de gozo… um corte em uma vagina onde o jorros de sangue se misturavam ao meu esperma… risos… um corpo nu tombando no chão sem vida… mais um riso se contendo e dizendo: 'Me diga se esse não vai ser um carnaval inesquecível? Pode deixar que eu cuido do resto. Obrigado."

Com o sangue se tornando espesso em meu corpo, fui tomado por um espírito mais forte que a qualquer delírio de ópio e me atirei a escrever. A cada palavra escrita, aquela adaga entrava cada vez mais em minha mente. Ao digitar o ponto final de minha história, entendi que aquela lâmina estaria ali cravada por toda a eternidade de minha alma.


Zansky
Outros trabalhos: http://www.zansky.com.br/


Paulo Biscaia Filho
Diretor da companhia de teatro: http://www.vigormortis.com.br

13 de fev. de 2012

Carnaval que não é meu

Ilustração: Danilo Oliveira
Texto: Alexandre França



E é por isto que estou com os dedos indicadores em riste, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, num movimento autista, jogando a cabeça pra lá e pra cá, por dormir e acordar e perceber as cores e a poluição sonora que me esvazia de glitter a cada segundo, por lembrar da casa, das suas traquitanas, das mulheres rebolando feito gado, das meninas injetadas de hormônio, das mais velhas entregues à volúpia, por andar sem rumo pelos labirintos do meu tédio, por ficar sem comer há pelo menos quatro horas, por aguentar o sol e os que gostam imensamente do sol, entre confetes e serpentinas que não fazem parte do nosso tempo, por suportar a falsa nostalgia de um tempo que para estes jovens nunca existiu, pela bebida que me cospe pra fora do folião e me alivia atrás de moitas e cercadinhos, por saber me intoxicar aos poucos e ralentar o compasso sujo deste dia, por fumar cigarros e baseados e cheirar carreiras de tantas e tantas substâncias ilícitas, por quase morrer e sorrir do abismo da última canção de ninar bambas, por chorar as mágoas da tristeza que não é minha, por prestar atenção nas letras das marchinhas do tempo que não é nosso, por receber boquetes de pessoas desconhecidas, por passar a mão em bundas e passar a mão em copos e passar a mão em orgãos genitais e vomitar na pele do desconhecido e voltar a beber e voltar novamente a beber e secar a sujeira na roupa que não é minha e transar na fogueira alheia e lembrar que se queima que se morre dentro de uma fogueira que se agoniza dentro de uma fogueira, ele me quer ao seu lado, pois sabe do medo e do horror de se encontrar sozinho em meio a esta multidão, colocarei ele pra dentro do meu útero, de onde posso acariciar com mais calma as suas dobras e as suas angústias, mas o que acontece depois da meia-noite, depois de um dia de intoxicação e falsa nostalgia, o que acontece quando a sujeira fica em primeiro plano e as grávidas dão a luz no meio da avenida, e a purpurina varrida para debaixo do tapete de esgoto toma forma e nos asfixia, por onde sambar depois dos fogos disparados em nossos corpos, quem inventou esta coreografia de zumbis de pântanos de insetos, e se a bateria parar e acabar com a festa arquitetada pelo tempo que não é nosso, pode meu coração bater descompassado e me embrulhar o estômago e me afogar em álcool e me escovar a pele e me mostrar a carne e os músculos e me apresentar a forma daquilo que não se pode tocar nem ritmar ou acariciar, nossos filhos dormem enquanto sonhamos com um outro casulo de caos e solidão, as luzes do trio elétrico que passa morno cantando a escuridão da nossa melancolia na parte histórica de lugar algum, as bicas de chopp jorrando, ejaculando a nossa frigidez calculada, as ruas entortam e nos abraçam forçadamente, as luas que nos orbitam agora brilham a plasticidade da mulata globeleza e as valsas dos casamentos são nada mais do que um movimento contínuo de corpos copulando em meio a ciranda das crianças de rua, por onde sugar o espírito do próximo, a roupa que deixei em casa, a louça e as dúvidas que esqueci na pia, a água do filtro que não para de escorrer e o meu coração bombeando sangue, e velando a felicidade dos desvalidos, o sorriso banguela do final de tudo, a pistola que me faz seguro e viril, quantos tiros atingiram o meu seio esquerdo, o sangue no azulejo da cozinha forma um desenho tão bonito, deita aqui comigo, vou te manter seguro de toda esta sujeira, e as fantasias rotas dos pobres coitados que esperam por este dia por esta alegria pré-fabricada, onde choram suas mulheres, no colo de quem elas rebolam, no pau de quem elas cavalgam, estas pobres coitadas que choram em fila indiana bem aqui na minha frente, te perdôo, amor, por me atirar e deformar o meu rosto que um dia te acalentou à noite, a noite que me esfola tanto entre as mulheres que não são minhas, a noite que me quer úmido em meio ao caos de risos cortando a madrugada, dos gritos e gemidos dos adolescentes, a noite que me contagia de raiva, a noite que me paralisa agora

a noite que me faz atirar na cabeça

daqueles que me chamam exaustivamente para dançar.


Danilo Oliveira
28 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com/



Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com/

12 de fev. de 2012

Desafio

Ilustração: Daniel Gonçalves
Texto: M.D. Amado






– Cara, eu não consigo... ferrado!
– Ainda tem tempo, relaxa.
– Como ainda tem tempo? Eu tenho que entregar esse texto hoje! – empurrou o notebook e jogou o corpo para trás, esticando ao máximo o encosto da cadeira.
– HOJE? – o copo de refrigerante quase caiu de sua mão.
– É, porra... hoje. Que parte do “hoje” você não entendeu? – voltou-se para o notebook e clicou novamente na imagem.
– Velho, e agora? Aqueles caras não brincam com essas coisas. O papo é sério e você, me desculpe, mas você é perfeito idiota. Aceitar um desafio desses... puf!
– Parecia simples... aliás, é muito simples. Só preciso pegar essa ilustração e criar um conto... como eu ia adivinhar que eu ia travar desse jeito? Não consigo escrever nada que preste, cara. Eu mesmo ferrado. Provavelmente vou ser o primeiro imbecil a receber a tal punição do grupo literário.
– Na boa? Se você não quiser ter a sua pele retirada com você ainda vivo, é melhor parar de conversar sozinho e tentar escrever pela vigésima vez...
...
Seria verdade que aquele clube de escritores tinha mesmo um pacto de morte? Em pleno século XXI, isso seria possível? Esse pensamento o acompanhava ao descer as escadas. Pelo amor de Deus, eu sou mesmo um trouxa. Claro que isso não passa de uma brincadeira dos caras. Deve ser uma espécie de batismo para quem entra no clube literário. E eles falam tão sério, que você nem percebe a sacanagem. Vou lá, pessoalmente. A essa hora devem estar reunidos na livraria.
E foi assim, falando sozinho em pensamento, que o nosso aspirante a escritor fechou a porta de casa e entrou no carro.
– Minha mãe do céu! – gritou logo após colocar a chave na ignição e olhar para o retrovisor interno. – Quem é você, moça? Quer me matar de susto?
– De susto?! Não... de susto não.
– Como?
– Nada... esqueça, mas se você realmente não quiser morrer, me entregue o texto.
– O quê? – ele não queria acreditar – Ah, entendi... ok, quem foi o engraçadinho que pegou a cópia da minha chave? Boa tentativa, moça. Levei um baita susto quando te vi, mas já saquei a brincadeira dos caras. Eles estão na livraria? Vamos até lá? – ligou o carro.
– Eu seria o seu prêmio – ela tirou o casaco, revelando um vestido verde transparente, de alças finas. Era possível ver os bicos dos seios, rijos... – mas você não cumpriu o combinado. Agora...
O barulho lá fora chamou a atenção da ruiva, que se virou para a janela. Olhou para um lado e para o outro. Viu o carro sendo cercado.
– Vai! – gritou – Arranca o carro. Corre! Vamos sair daqui... rápido!
– Olha aqui, chega tá b...
– Vai pagar pra ver? Olhe lá fora... não vê as sombras?  Vai logo!
– O que é isso? Agora que eu saquei... a ilustração! Caralho! Os caras são muito bons mesmo. Estamos vivendo a cena da ilustr...
– Arranca, filho da puta! – esbravejou, deixando escapar um som gutural, mas que não foi percebido pelo rapaz.
E na dúvida...
O carro saiu em disparada até a esquina, mas logo desacelerou ao ver que não havia mais ninguém por perto. Algumas quadras depois, virou à esquerda e parou no final de uma rua sem saída.
– Devo admitir que eles fazem tudo com muito capricho. Tomara que eles me deem uma segunda chance pra tentar entrar no clube – olhou novamente para o retrovisor. A ruiva olhava para trás e ele percebeu algo amarrado no braço da garota. – Ei, você vai a alguma festa à fantasia?
– Eu já disse. Eu era o seu prêmio. Um dos babacas inventou que eu deveria fazer o papel de uma fada, ou um ser qualquer da floresta. Me deram esse projeto de fantasia, com essa coisa ridícula... – ela o encarou e sorriu – mas como eu tentava dizer quando eles chegaram, agora você vai ser o meu prêmio.
– Ora, ora... mas... – ele não terminou a frase. Ao acender a luz interna e olhar para trás, interrompeu o sorriso malicioso e percebeu a palidez da garota, que alguns minutos atrás, era a coisa mais linda que ele já tinha visto nos últimos meses. No entanto, ao encará-la de frente naquele momento, se viu diante de uma velha com o rosto completamente enrugado. No lugar dos olhos, cavidades escuras por onde escorria um líquido purulento e fétido. O corpo ainda mostrava uma juventude invejável, apesar das veias se destacarem sob a pele. Ela desceu a alça do vestido e deixou à mostra os seios perfeitos. Era só um artifício para distraí-lo...
...
“O laudo da autópsia do corpo encontrado no início da semana passada, dentro de um veículo estacionado na zona leste da cidade, foi divulgado hoje. Os peritos do Instituto Médico Legal afirmam ser de um homem de 25 anos, cujo nome, a família pediu para que não fosse divulgado. A identificação só foi possível graças aos documentos da vítima, encontrados no chão do veículo. O que mais chama a atenção, é que toda a pele do corpo do rapaz foi retirada, e segundo exames feitos pelos legistas, pode-se dizer com absoluta certeza, que o jovem ainda estava vivo quando a retiraram”.
O Detetive Linhares desligou a TV.
– Você não tem nada a ver com isso, não é, Florestano?
– Já me viu arrancando a pele de alguém, Linhares? Eu não faço isso... eu arrebento logo o peito ou o ventre, me delicio com as entranhas e acabo logo com a fatura. Não seria capaz de uma maldade dessas. Isso é muito cruel, cara.
– Mas você estava com eles ontem à noite.
– Sim, os idiotas daquele clube literário queriam dar um susto no rapaz. Só que os estúpidos chamaram a pessoa errada para servir de atriz. Quando me contaram da brincadeira e deram a descrição da garota, fomos correndo para tentar salvar o cara. Chegamos bem na hora e tentamos cercar o carro, mas ele arrancou cantando pneu e se mandou.
– Então você sabe quem fez isso... Quem... – o próprio Linhares se interrompeu, e erguendo os braços mudou o rumo da conversa. – Ora, a quem eu quero enganar? Você não vai me dizer, não é Florestano?
O lobisomem do Uberaba apenas sorriu.
– Por que não foram atrás deles? – perguntou Linhares, enquanto se dirigia até a cozinha.
– Nós fomos, mas a vadia sabe como despistar o meu faro. A filha da puta me enganou direitinho. Fomos parar num puteiro.
– E tudo isso por causa de um desenho?
– Ilustração, Linhares... ilustração. Não se fala desenho. Quer ofender a classe?
– Que seja... é muita estupidez.
– Aliás, eu peguei uma cópia... – apontou para a mesa de centro, onde estava um papel com uma grande ilustração colorida. – Não quer tentar?
– Tentar o quê? – Linhares tomou um gole de café.
– Sei que você gosta de escrever. Escreva algo inspirado na ilustra.
– Ah, vá...
– Eu te desafio... – Florestano piscou, levantou-se e saiu. Era noite de lua cheia. Quase hora da transformação.
Na esquina, passou por uma jovem ruiva de pele pálida e corpo perfeito.
Sorriu.


Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado e pai de três filhos. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA, seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br .  Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 

M.D.Amado
Conheça seu livros de contos, Aos Olhos da Morte: www.estronho.com.br/olhos


11 de fev. de 2012

Carta pro Arnaldo

Ilustração: André Ducci
Texto: Vanessa Rodrigues





André Ducci
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://abducci.blogspot.com/

Vanessa Rodrigues
O blog dela é o vanrodrigues.wordpress.com.

10 de fev. de 2012

carne uales

Fotografia: João Castelo Branco*
*Estrelando: Fabiano Vianna
Texto: FMAN

inspirado na obra de Grimhildr Janovčik Sedlácĕk (1306-68)
           


Por uma fração de segundo, o menino pensou que o que mais lhe chamou à realidade da situação não foi o tiro lançado entre os olhos do garoto que histericamente recusou fazer parte da encenação, tampouco o segundo estampido no companheiro que, à cause do primeiro alvejado, ficou em estado de choque, e, sim, a percepção - depois de perder os sentidos e não saber mais o que estava acontecendo - de que um de seus conhecidos estava sendo sodomizado, com a saia de bailarina arriada sobre o abdômen e vestido com uma máscara de Capitano, por debaixo da qual o menino podia enxergar lágrimas escorrendo e escutar urros contidos. 
Foi nesse instante, igualmente, que o menino teve flashes lúcidos e inexplicáveis de tudo que deu início a esse exato momento e tudo que se passou depois - enquanto ainda consciente - uma excursão de Carnaval para Florianópolis com van alugada, quatro amigos e mais seis desconhecidos que haviam optado pelo mesmo pacote, a aparição dele na primeira parada que fizeram, a carona, o vinho batizado, a visão da cabeça do motorista pendendo sobre o assento, com a boca aberta e a língua puxada para fora (e os intestinos, mas essa lembrança rapidamente evaporou-se), a porta traseira – aberta - quase encostada num portão de prédio cuja abóbada possuía em letras garrafais a palavra TIJUCAS, as mãos dele carregando-o rapidamente no colo – teria ele entregado uma nota para o porteiro dentro da galeria? –, barulho de portas, escuro, em cima de um tablado todos vestidos como bailarinas, ele apontando a arma, “o negócio é o seguinte, NENHUM PIO, PORRA, CE ME ENTENDEU?, eu só quero que cêis faça uma encenação pra mim, ok?, é só isso e ninguém morre, todos têm porcaria de idade pra entendê isso, não?”, uma daquelas músicas clássicas tocando e todos os outros absurdos.
Foi nesse momento, curiosamente, que o menino lembrou o trabalho de sociologia a ser entregue depois do feriado, talvez porque, também aqui, ele sentiu a presença das máscaras, muito oportunamente, nesse caso. Deu-lhe energia de ação e seus sentidos se aguçaram. “Adrenalina...n-não permite que meus reflexos fiquem mais aguçados?” O CARNAVAL SURGIU NA GRÉCIA. Isso deu ao menino aguda percepção do que estava PRECISAMENTE acontecendo. Ele, o homem com costeletas enormes e pelos abundantes. MÁSCARAS VENEZIANAS. “Ocê aí, é, ocê lorinho memo, cê não tá fazendo certo. Cê não tá pulando na hora que ela pulava!” O menino viu o “lorinho memo” no canto do tablado. Tinha se mijado. “Quem é ‘ela?’”, pensou o menino. A máscara de Carnaval que decidira usar, poucos segundos atrás, tomou-lhe conta completamente. Não sentiu nada como piedade, compaixão ou terror – talvez medo, mas daquele tipo que impulsiona para frente. Só teve a capacidade de se perguntar quem era “ela” e planejar seu plano de fuga, na verdade, desesperada fuga, porque a ação foi correr a todo vapor para a porta enquanto ele se dirigia ao “lorinho memo” e lhe amputava o braço com precisos três golpes da peixeira que carregava consigo. Ele tinha esquecido a arma no banco em frente da porta, junto com o molho de chaves. OS FOLIÕES DESFILAM EM MULTIDÕES, O RIO DE JANEIRO É O MAIOR CARNAVAL DO MUNDO. O menino, surpreso com sua lucidez, pensou “Ele é louco. Ele é completamente louco. É isso. Essa é a RAZÃO. Ele nem percebeu que eu estou aqui, pegando as chaves.” Porém, quando experimentou a quarta, a que deu certo – enquanto ele ainda desvencilhava a peixeira e praguejava “Em um dia como este, ela também, ela também...” -, o menino constatou que todos seus companheiros de viagem, inclusive seus amigos, estavam mortos. “Sou o último sobrevivente.” Abriu a porta e correu à direita por um corredor mal iluminado e que parecia não ter fim. No calor da explosão de força e sobrevivência, não conseguiu enxergar uma saliência à sua esquerda, esbarrou o braço e perdeu o equilíbrio, escorregando no piso lustrado. “É possível que tenha deslocado qualquer coisa.” E aí a máscara caiu. ARLECCHINO, BRIGHELLA, DOTTORE, IL CAPITANO. Ele surgiu, iluminado pela fresta de luz branca e opaca vindo do apartamento, quase etéreo, recortado contra o fundo espectral daqueles corredores que davam a sensação de se estar em um quadro de Bosch, o Tijogas1, um lugar que o menino, em seus 16 anos de idade, sequer imaginava que existia ou se chamava assim, não possuindo, portanto, a noção de seu passado histórico e maldito. Psycho Carnival, como chamam. PANTALONE, SCARAMUCCIA.
O menino não soube dizer porque a EMOÇÃO que o possuiu conseguiu paralisar suas cordas vocais, impedindo-lhe de gritar ou emitir nada além do som de sua respiração pesada. “Não é a palavra certa”, pensou, com angústia, e isso lhe pareceu um pensamento completamente incoerente com a situação. Não podia mais acreditar na máscara. O CARNAVAL TAMBÉM POSSUI BLOCOS DE RUA. Não podia ser choque também, porque seus sentidos funcionavam bem, ainda. Mas o fato é que suas cordas vocais não emitiram nada a não ser chiados porque, atrás dele, o menino viu uma moça com um vestido vermelho, de olhar distante e vidrado, uma mulher que não pertencia nem ao presente nem ao passado, mas à algo enterrado para além do tempo, em sua forma plástica e tremelicante. “Fique quieta!”, ele gritou. COLUMBINA. A mulher despiu-se e gargalhou longamente. ISABELLA E MATEO. O menino não reagiu ao ser molhado com querosene. Nem ao ser carregado de volta para a câmara forrada com dispositivos antissom. “Carnaval... por que diabos... Eu vou morrer. Eu vou morrer.” Ela estava lá, rindo, e ele disse O CARNAVAL É O PRAZER DAS CARNES.
Foi nesse momento que o menino, sob o fogo dos malditos e o calor de todas as coisas que nunca haveria de compreender ou para as quais jamais acharia um rosto adequado, neste momento, o menino viu ele colocar sua definitiva máscara. 

1 Citação (e homenagem) a Jacques Brand, criador da palavra, brincadeira com a lenda/fama de várias pessoas terem se matado no Edifício Tijucas, prédio clássico de Curitiba. 

João Castelo Branco
Blog: 
http://casadojoao.blogspot.com

FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

9 de fev. de 2012

Lorena

Ilustração: Arthur d'Araujo
Texto: Daniel Gonçalves



Absorta em seu cigarro, Lucia desce a ladeira sem elegância alguma, equilibrando-se sobre as sandálias plataforma. Próximo dali, ecoa a algazarra dos foliões de carnaval. Um carro encosta; carro imponente; e ela vai se debruçando junto à janela da porta traseira. O homem mascarado deposita trezentos Reais no decote da moça e abre-lhe a porta sem delongas. A quantia supera o lucro de uma noite inteira de programas, Lucia embarca.
– Prazer, Lorena! – ela se apresenta, estendo a mão para ser beijada.
– Prazer, Lorena! – ele retruca, beijando-lhe as costas da mão estendida.
– Misterioso... hummm...
– Que bom que isso lhe agrada...
Ele ordena ao motorista que siga; ela observa que esse também está mascarado.
– Coloque essa máscara, por favor, Lorena.
– Tudo bem! Fetiche de carnaval... espera! Essa máscara não tem olhos!
– É uma precaução, por minha privacidade; mas se preferir, eu paro o carro e você desce aqui...
– Não, tudo bem!
Alguns minutos rodando na escuridão pareceram uma eternidade. Ainda de olhos vendados, Lucia foi conduzida gentilmente casa adentro e acomodada em um sofá por seu anfitrião.
– Não tire a máscara, vamos brincar assim por enquanto.
Pela cabeça de Lucia, passam várias hipóteses: de deformidades faciais a complexos fálicos. Ela ouviu uma garrafa sendo aberta e o tilintar de taças.
– Beba esse vinho, é excelente!
– Nesse calor, eu cobiçava uma cerveja bem geladinha...
– Ah! Mas o vinho é uma bebida tão mais sensual, não me faça essa desfeita, sim?
Foram alguns goles da bebida adulterada; a partir daquele momento, ela estaria totalmente vulnerável. Outros mascarados adentraram a sala e ajudaram a carregar Lucia, ou Lorena, até o porão - uma antiga adega erigida em pedra. Despida, deitaram-na sobre um altar, ornamentado com bizarros simbolismos. A moça contorcia-se em delírio. O rito começou com a entoação de um mantra – YOG-SOTHOTH AI’F ZHRO OGTHROD – repetido continuamente. Uma urna foi aberta e um odor nauseabundo alastrou-se pelo recinto. Da caixa, ergueram um saco de tecido roto que continha uma cabeça, aparentemente taxidermizada, de um animal de pelagem grossa, bocarra feroz e olhos vidrados. Com uma adaga, cortaram sete vezes a moça. Cortes superficiais. Para cada incisão, uma única gota de sangue, a ser precipitada na boca da cabeça grotesca – sete gotas. Depois, posicionaram a cabeça entre as pernas de Lucia. A respiração da meretriz gradualmente ritmava-se ao mantra. Quanto maior a força na evocação das palavras, mais profunda tornava-se sua respiração; seu ventre contraia-se violentamente. Ouviu-se um bufar poderoso; o monstro piscou os olhos e começou a respirar; o corpo de Lucia agora lhe pertencia. Um segundo recipiente foi aberto, tratava-se de uma caixa térmica com gelo, que guardava um coração humano. O mestre da cerimônia depositou o órgão na boca da criatura, que mastigou e engoliu a oferenda.
Lucia acordou com o ruído do ventilador de teto, em um quarto de hotel barato. Ao lado da cama, encontrou uma bolsa com tanto dinheiro que desistiu de contar. Aturdida, desceu as escadas; na recepção, descobriu que sua diária estava paga. Perguntou sobre seu acompanhante, mas uma vaga descrição foi tudo que obteve.
Alguns meses depois, Lucia morreu. Complicações no parto.


Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado e pai de três filhos. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA, seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br .  Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 

Arthur d'Araujo
Outros trabalhos em arthurdaraujo.com/

8 de fev. de 2012

A Festa dos loucos

Texto: Rafael Pesce
Ilustração: Lord Velprost



As longas paredes de pedra protegem o reino dos perigos que rondam o castelo. As torres, altas e guarnecidas com arqueiros e uma extensa linha de lanceiros, intimidam um possível ataque inimigo. Mas nem sempre os maiores riscos encontram-se fora das muralhas...

Em tempo de carnaval, a chamada festa dos loucos, o povo camuflava-se em meio a cores, vestindo espalhafatosas fantasias e abandonando qualquer devoção religiosa. Mas não eram apenas os súditos que se divertiam. A corte real era igualmente virada de cabeça para baixo, entregando-se aos prazeres propostos pela folia. E ninguém estava mais a vontade do que o Rei Cedric III, o Ogro Louco, como era conhecido pelos populares. Um Rei obeso, cujo peso em excesso era proporcional a sua ganância e sadismo. No carnaval essas características eram acentuadas. Centenas de litros de hidromel ajudavam no descontrole generalizado. Bufões e bobos da corte perdiam literalmente a cabeça mediante qualquer piada infeliz ou sem graça. Sangue jorrava ao som dos risos do Ogro Louco. Munido de seu cetro de ouro, o Rei espetava os convidados, atiçava as prostitutas e provocava os empregados do castelo: “tragam logo minha bebida! Ou me deixam mais bêbado ou cabeças vão rolar”. Gargalhadas escandalosas ecoavam pelos corredores da fortaleza de pedra. A Rainha, assustada desde o casamento forçado, nunca dizia nada, apenas ficava sentada, passiva em seu canto. A palavra piedade não constava no dicionário real. Na muralha norte uma extensa fileira de cabeças apodrecia em cima de estacas afiadas, servindo como um aviso do que acontecia àqueles que se opunham a vontade do Rei.

Roselyn, agora com 14 anos, conheceu bem os hábitos de seu suserano. A garota viveu no castelo até os cinco anos, já que seus pais eram empregados do Ogro Louco. Em meio a um carnaval, a criança presenciou o sadismo do Rei, que estuprou e assassinou sua mãe, obrigando o pai a assistir tudo, pouco antes de matá-lo. Abandonada do lado de fora do castelo, a criança foi encontrada pela Senhora Madelaine, dona de um dos bordéis mais frequentados da cidade. A mulher compadeceu-se da dor de Rose e a criou como se fossa uma filha.

Nove anos se passaram após o incidente. Tudo que a menina conseguia pensar era em vingança. Estava cansada da passividade com que o povo via as crueldades do Rei. Ela sabia que não existia nenhum exército numeroso suficiente para vencer as muralhas do reino. Seria uma pobre adolescente capaz de fazer o que 10 mil homens não conseguem? Queria tentar, nem que isso significasse perder a vida. Madelaine sabia dessas intenções e tinha consciência que jamais conseguiria tirar esse sentimento de Rose. Resolveu ajudá-la. Unidas, confabularam um audacioso plano de assassinato para o próximo carnaval real.

Durante a festa dos loucos, Cedric exigia que os bordéis abastecessem o castelo com um número abundante de prostitutas. Mas nesse ano a Senhora Madelaine daria um presente especial. A dona da casa de prazeres iria oferecer um tributo que o Rei jamais negaria, uma virgem, Rose, que apesar da pouca idade já exibia um belo corpo de mulher. Essa era a porta de entrada para a vingança. A morte do Ogro Louco deveria ser dolorosa. A dupla de futuras regicidas não queria um fim rápido. A opção escolhida foi o uso de extrato de Jatropha Curcas, proveniente de uma planta conhecida como Pinhão-de-Purga. Depois de ingerido, o líquido calmamente bloqueava a circulação do sangue, resultando em uma morte agonizante e insuportável.

O dia decisivo havia chegado. Madelaine levou Rose ao castelo, em posição de destaque no meio da comitiva de prostitutas que serviriam à corte real. O extrato de Jatropha, armazenado dentro de um pequeno vidro, ficou escondido entre os peitos da virgem. Quando chegaram ao salão real constataram que a festa já havia começado há um bom tempo. Príncipes, lordes e meretrizes embriagavam-se em todos os cantos. A cerveja, vinho e hidromel pareciam não terminar, saciando e impulsionando a libertinagem de todos. Não demorou muito para o Rei perceber a chegada da virgem prometida. Encantou-se com a beleza da jovem, e em um estalar de dedos pediu para os empregados arrumarem os seus aposentos e providenciarem mais alguns barris de hidromel.

Quando Rose entrou no quarto, o Rei cambaleava de um lado para o outro, balbuciando palavras sem nexo, em meio a soluços e arrotos. Ardilosamente a garota, em meio a beijos e carinhos, conseguiu colocar Cedric na cama, com a promessa de um tratamento especial. O Ogro Louco estatelou-se em seu leito, que incrivelmente suportava aquele peso todo. Rose aproveitou um momento de distração e pegou o frasco com o veneno. Começou a tirar a roupa e calmamente andou em direção ao Rei, que parecia enfeitiçado com a graciosidade da garota. Doce engano. Quando ela se aproximou, fingindo um beijo, sentiu um duro golpe nos dedos, fazendo-a largar o vidro no chão. Cedric era uma raposa velha, havia percebido as intenções da suposta rameira. Furioso, Ogro Louco apanhou uma adaga que repousava embaixo de seu travesseiro e partiu para cima da indefesa moça. Um, dois, três golpes foram desferidos, mas Rose conseguiu desviar de todos. O Rei tentou chutá-la algumas vezes, mas obeso e embriagado daquele jeito, viu os pontapés saírem sem velocidade alguma. Perto da entrada do cômodo estava o manto real, e com ele o cetro de ouro. Rose vislumbrou naquilo uma oportunidade. Rapidamente correu até lá e agarrou o objeto. Quando Cedric virou-se, tentando colocar ordem nas palavras para chamar os guardas, foi tarde demais. A jovem de 14 anos espetou o cetro no coração do Rei, girando o artefato enquanto a vítima, aflita, tombava no chão. O corpo recebeu uma dezena de talhos, à medida que a fúria e vendeta de Rose saciavam-se.

Quando os empregados encontraram o Rei, ensanguentado em meio a um mar vermelho, Rose já não estava mais lá. A garota fugiu por uma janela não muito alta, onde Madelaine a esperava com um cavalo e uma rota de fuga. Já do lado de fora do castelo, Rose cavalgava livre, agora sem peso nenhum no corpo, já que toda raiva que carregara durante nove anos havia se transformado em sangue. 

Rafael Pesce
Outros contos em: http://contosdefleming.blogspot.com/


2 de fev. de 2012

911 Donuts

Texto: Rodriane DL
Filme: Rodriane DL/ Renata Corrêa / Caroline Biagi / Ana Paula Málaga Carreiro / Alex Rocca




Cinco crianças ficam ali paradas por cinco minutos. As mãos espalmadas na vitrine. Uma montanha desajeitada de Donuts de todas as cores, todos os sabores, todas as coberturas e todos os cheiros caem sobre nossos olhos. Mais adiante, cinco viaturas policiais distribuem sirenes e luzes girantes. De repente tudo pára. E ninguém sabe quem procurava as digitais de quem. Policias contra ladrões que assaltam confeitarias ou a moça da limpeza armada de paninhos limpantes contra dedos de crianças açucaradas.

Outros videos da Rodriane em: http://www.youtube.com/user/carochinha/videos

26 de jan. de 2012

De Coração

Texto: Vanessa Rodrigues
Filme: Rodriane DL/ Renata Corrêa / Caroline Biagi / Ana Paula Málaga Carreiro / Alex Rocca
Estrelando: MARCO NOVACK E CAROLINA FAUQUEMONT




O cara entrou em casa, a mulher dele estava encostada na pia, sendo comida por trás pelo filho da vizinha da frente. O cara chegou em casa bêbado, a mulher não tinha esperado ele pra jantar. O cara chegou em casa, a mulher não estava, voltou à força da casa da cunhada. A mulher chegou em casa feliz, o cara estava bêbado. Ou os dois discutiram por muitas horas o significado do amor e o que ele representava na sociedade capitalista pós-maio-de-sessenta-e-oito e escreveram um manifesto de quinze páginas com todos os passos que deveriam ser dados durante a performance, instalaram câmeras pela casa inteira, convidaram os amigos mais próximos. O cara chegou em casa, a mulher estava lá. Ela se levantou, pegou um copo de café pra ele. Ela chegou em casa feliz. Ele desconfiou, enfiou a mão na cara dela. O cara chegou em casa e sem motivo nenhum enfiou-lhe a faca. E ela morreu aos poucos, no tempo de ele acordar da vertigem da pinga.
Amor não existe porque é palavra o que existe é a carne. O que existe é a fome.
O cara percebeu que não tinha mais volta, arrancou o coração ainda quente. Levou embrulhado num pano de prato pro bar do Batista, pra ele fritar na manteiga, servir como tira-gosto. Também pediu uma cerveja.


O blog da Vanessa Rodrigues é o vanrodrigues.wordpress.com.
Outros videos da Rodriane em: http://www.youtube.com/user/carochinha/videos

20 de jan. de 2012

De coração e 911 Donuts

Estão quase prontos os primeiros dois filmes do blog!
Vocês poderão assistir, pela primeira vez, e em primeira mão, os contos pulp em movimento.
O primeiro chama-se "De coração", escrito por Vanessa Rodrigues e o outro, "911 Donuts" de Rodriane DL.
Publicaremos nos dias:

De coração: 26/01/12
911 Donuts: 02/02/12

De coração
texto: Vanessa Rodrigues
Estrelando: MARCO NOVACK E CAROLINA FAUQUEMONT
por Rodriane DL & Renata Corrêa & Caroline Biagi & Ana Paula Málaga & Alex Rocca.

911 Donuts 
texto: Rodriane DL
por Rodriane DL & Renata Corrêa & Caroline Biagi & Ana Paula Málaga & Alex Rocca.
 
Você pode ler este e outros contos da Rodriane no blog dela: caramelosestragados.blogspot.com.
O blog da Vanessa Rodrigues é o vanrodrigues.wordpress.com.


Algumas fotos de making of feitas por Alex Rocca:









9 de jan. de 2012

2ª Rodada


A 2ª rodada começará dia 8 de Fevereiro de 2012, o tema é "Carnaval do Horror" e será uma rodada invertida, ou seja, nesta, os ilustradores e fotográfos é que serão incubidos da missão de criar as imagens apavorantes que inspirarão os escritores.
E além desta novidade, noticiamos que novos colaboradores se juntaram ao grupo neste mês! Os enlameados escritores: Paulo Biscaia Filho, Alexandre França, FMAN, Mel Ferreira e Luiz Andrioli. Os pantanosos ilustradores: Hafaell Pereira, Yan Copelli, Carol Winter, Arthur d´Araujo, Dolores Garcia, Zansky e Elis Marina B. Também o exímio fotógrafo, Eli Firmeza.
A idéia é que os ilustradores e fotógrafos criem cenas aterrorizantes que tenham a ver com o universo do carnaval brasileiro. Estes vislumbres servirão de base para os contos dos escritores.
O blog Lama, ao contrário da revista impressa, enfoca narrativas curtas, velozes. São pequenos delírios pulp recheados de agonias e pesadelos, ao som, desta vez, de uma infausta marchinha fúnebre.