18 de ago de 2012

Coração das trevas

Ilustração: Foca Cruz
Conto: Daniel Russell Ribas

17 de agosto (ano ignorado)

A busca continua. Não recordo como exatamente teve início. Só lembro do agora. Este momento. Este vento frio cortante. Este cheiro salgado e irritante. Esta água gelada e dura, que corrói os corações e a moral. O nome do Senhor não é usado na embarcação. Ele jamais é pronunciado. Pois uma tripulação imersa em uma terra que não se fixa ou termina, sem sinal de civilização em todo o horizonte, está entregue aos instintos e práticas mais abomináveis que o homem é capaz. Aqui, Deus não enxerga. Trata-se do coração das trevas, onde o mal prevalece e todo o horror faz sentido.
Deveríamos ter chegado em terra firme há meses. O céu sem estrelas tira a pouca esperança dos homens. Nosso suprimento acabou há semanas. Houve inquietação. Mandei que fossem recolhidas todas as armas e objetos cortantes. Mas isto não adiantou. Senti que se uma medida mais urgente não fosse aplicada, um motim estouraria. Precisei fazer uma escolha. Uma opção que os homens de bem jamais cogitariam ou teriam de fazer. Mas um homem do mar é não é um homem de bem. É um ser entregue ao puro instinto, acostumado ao selvagem.
Tentamos pescar, mas o mar não foi generoso. O que conseguíamos diariamente não conseguia alimentar a tripulação. A fome se espalhou. Qualquer discordância, real ou imaginária, levava a conflito e a sangue. Sabia que era o começo do fim. No mar, é preciso evitar a morte a todo custo, sendo que esta nos cerca por todos os lados. Marinheiros são uma espécie suicida, disposta a morrer à procura de algo além do usual. Isso também os torna matadores sem remorso. Quando fiz minha escolha, não prestei contas ao Senhor. Não busquei perdão, apenas sobrevivência.
O primeiro foi um imediato de cujo corpo tomei para minhas necessidades de homem. Como disse, no mar, não há morais, apenas instintos. Além do mais, alguém que se presta a esta papel, mesmo que necessário em uma embarcação, não é digno. É uma criatura abaixo dos homens e dos tementes ao Senhor. Com minha faca, cortei sua garganta. Com o balde, conservei seu sangue. Com o fogo, cozinhei sua carne. Com a tripulação, saciei minha fome.
Cinco almas até o momento foram perdidas. Digo para todos que o mar as levou, embora haja desconfiança. Desde então, ando fortemente armado.
Foi após a quinta refeição anormal que a besta surgiu. Como que enviada por um Senhor que finalmente olhou para seus filhos pródigos em meio ao lar dos desgarrados, mandou a criatura para nos punir. Para lembrar-nos que há limites, mesmo quando estes são se aplicam em nome da sobrevivência.
A besta é incansável. Persegue-nos há dias. Nos embates, sete almas foram engolidas por sua gula maldita. Sua fúria, como que manipulada por uma força sobrenatural, é inesgotável. A força, quase imensurável. Ontem, por um dia e uma noite, atacou-nos pela proa, pela pompa e por baixo. Embora tenha causado danos extensos, nenhum deles foi o suficiente para afundar a nau. É como este bicho irracional não estivesse disposto a nos assassinar ainda. Deseja mais. Quer torturar-nos, expiar nossos pecados antes que tenhamos que pagá-los na danação eterna.
Esta noite, até agora, o ser das profundezas não apareceu. O mar está calmo. À distância, vê-se uma tempestade. Nada de terra. A busca continua. O porto surgirá, seja como um lugar exótico e firme ou na escuridão da barriga da besta. O monstro é a encarnação de nossa heresia, que retorna para mostrar-nos que somos homens e que há um preço a pagar. Cinco assassinatos imorais não compensam ao Senhor a vida de cinquenta homens cujo instinto é sobreviver. Seremos punidos por ceder à selvageria, pelo coração das trevas, onde mal prevalece e todo o horror faz sentido.


Foca Cruz
Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

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