9 de ago de 2012

O canto

Ilustrações: Arthur d'Araujo
Conto: Alexandre França



Movimentando o esqueleto para acordar às 4 da matina, horário que, segundo o meu primo, ela já está “de pé” atendendo. Entro no banheiro gelado, tomo uma ducha rápida, visto o moleton de domingo e esqueço propositadamente o celular na cabeceira da cama. No elevador, ele me diz que talvez fosse melhor não olhar tanto para o rosto dela, ou melhor, não tentar olhar tanto para o rosto dela, tem esta coisa meio medusa, meio apocalíptica de quem não tem respeito pelas entidades, sabe, os imortais gregos, egípcios, sabe, parada cardíaca, praga, anátema, exorcísmo, coisas desta ordem dentro de uma sala escura que pinga e respinga o tempo todo, um cheiro de mofo que parece perfumar o ambiente como se mofo fosse perfurme, mas aquele era um verdadeiro perfume, anúncio do suor de Zeus repousando suas pernas num longo e divino escalda pé. Lá o dia inteiro é noite. Claro! Já vim aqui, reclamo ao meu primo, vinha direto neste lugar quando era adolescente, comer costela de madrugada e olhar umas primas balançando o rabo flácido para os velhinhos encardidos do centro. Entro no recinto e para minha decepção as garotas do lugar parecem ter a minha idade. Sentamos no fundão. Meu primo insiste em pedir uma cerveja - cê tá maluco, não posso/nem quero/nem tenho saúde para beber há estas horas. Temos que pedir, ele diz, para despistar os olheiros, não podemos dar bandeira, poucos sabem da existência dela. Quem se interessa por isto, pensei, só mesmo alunos de literatura viciados na Odisseia de Homero saem de suas casas na esperança de ver uma verdadeira sereia dando conselhos para cidadãos comuns como eu às cinco da madrugada no bar gato preto (ou pantera negra) no centro doloroso da cidade. Pedimos então a pior cerveja do mundo segundo a pesquisa que realizei com todos os conhecidos homens que passaram pela minha vida nos últimos vinte anos – Kaiser. A bebida chega, do jeito que aqueles tarados metidos a machões gostam – quentinha, quentinha. Meu primo toma avidamente. Ele chega a me deixar em dúvida – poderia mesmo estar gostando da pior cerveja do mundo fermentando pesadelos em seu estômago? Vamos pedir mais uma. Cê tá maluco! Poderiamos não sobreviver a mais uma ampola deste venêno, o que eu diria aos meus netos? Ah, ok,ok, eu não tenho filhos, nem mulher, nem mãe, nem pai, nem irmãos e nem muito menos netos. O garçom de um olho só vem até nós. Masca copiosamente um chicletes. – Quem gostaria de ver a dona Nêmesis? Meu primo logo interrompe qualquer resposta – nós dois, viemos especialmente para isto. – Não é polícia, é? – e se fosse? - Venham. - Quem é esta mulher? - A dona Nenê? Ah, é a dona do bar. Ela é a única que pode nos levar até ELA. Dona Nenê é uma mulher muito importante aqui no bairro, apesar de ser extramamente violenta. Manda cortar o pinto dos homens que não pagam a conta e roga pragas para aqueles os quais ela considera metidos – o que, convenhamos, possui uma boa dose de relatividade – portanto, reze para que ela vá com a sua cara. Seja humilde, nunca olhe diretamente para os seus olhos. Chegando no balcão, um senhor bigodudo parece não nos dar muita bola. Ele fecha contas, digita coisas no computador e coça a cabeça numa só ação precisa e ligeira. Parece gostar daquilo – faz tudo com a disposição de um moleque de quinze anos se masturbando no banheiro da escola. E este, quem é? O Frederico? Ah, ele aceitou faz muito tempo a condição trágica da existência. Na parede, ao lado do caixa, vejo escrito a seguinte frase: “Fiado, nunca: niilistas aqui não se criam”. Olá, Fred, diz meu primo. O homem não esboça a mínima reação, continua com suas tarefas orgásticas sem dar a mínima trela para o ambiente. FREDERICO, grita o meu primo. - Ah, sim, quer pagar a conta? - Você sabe que não, Fred – viemos aqui para uma consulta. - Vocês estão dispostos a ir até o fim nesta consulta? Vejo que estou tratando aqui com homens que não medem as consequências, certo? - Não queremos os seus conselhos filosóficos, Fred. - A Nenê não está nada legal hoje – teve que cortar algumas pirocas no decorrer da tarde. Ouçam apenas este conselho – quando forem falar com a Nenê, não a enrolem – vão direto ao assunto. É assim que os super-homens fazem. - Ai, meu Deus/ - Não fala em deus na minha frente. Você sabe como eu fico sentimental com este assunto. Frederico sugere soltar uma lágrima do olho direito, mas logo sorri sarcásticamente da nossa cara.  - E não se esqueça – mesmo que o mundo ideal pareça melhor, infinitamente melhor do que este, prefira o mundo real, ou seja, este mundo. Pois é só este mundo que nós temos! Meu primo agora começa a conversar com o garçon de um olho só. - Vou levá-los até a dona Nenê. Atravessamos todo o bar e subimos uma escadinha em forma de caracol nos fundos. Um cheiro de mofo se insinuava levemente no decorrer da subida. Um largo corredor, então, abria seus braços para nós. É a última porta lá do fundo. Este bar parecia menor, pensei. Como será possível uma estrutura tão grande aqui em cima, e lá em baixo uma tripa curta e fechada? Chegando lá, um escritório cafona decorado com motivos de zebrinha misturados com oncinha. Nenê fuma um charuto cubano e cospe copiosamente em uma escarradeira ao lado de seu trono barroco. Apesar dos maus modos daquela quarentona, um corpo delgado e moreno saltava por detrás da saia curta de vinil e do top estilo bad boy verde limão, já rasgando as laterais de tanto carregar aqueles peitões siliconados. Seus olhos eram inteiramente negros. Não havia nem um resquício de córnea alí. Dois pequenos buracos negros que se abriam e se fechavam lentamente. Meu primo parecia hipnotisado pelos olhos de Nêmesis, embora fizesse um esforço hercúleo para não olhá-los. Dona Nenê, me apressei em falar, queremos uma consulta com ela. - Quem vocês pensam que são para vir até o meu escritório e falar assim comigo deste jeito? - Desculpa, dona Ne/ - QUE HISTÓRIA É ESTA DE DONA? EU TENHO A IDADE DE VOCÊS, PORRA! - É verdade, temos a mesma idade, não é bacana isto? - Achamos que era mais respeitoso chamá-la de Dona. - E por acaso vocês estão tratando com a mamãe de vocês? Por que vocês querem uma consulta, vai um tequinho? Na mesa de mármore rosa, Nêmesis preparava umas vinte carreiras de cocaina. Eu vou, me apresso a dizer. Meu primo continua hipnotisado pelos olhos de dona Nenê. Nós viemos aqui apenas para saber se é verdade que ela existe, diz meu primo. - Então, você terá que fazer um favor para mim – tira a calça. - Mas/ - TIRA AGORA A PORRA DA CALÇA! Ele então desabotoa o cinto, enquanto Nêmesis abria aquele bocão cheio de dentes. Aliás, dentes afiados, todos eles – parecia mais a arcada de um tubarão. - Você vai ter que gozar, filhote, se não, nada feito. Meu primo tremia inteiro, um cheiro fétido de ovo podre tomava conta do lugar. - Você peidou, meu bem? Nêmesis sorria com aqueles dentes afiados. - Não, não. - Agora fica bem quietinho. Nhac! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Meu pau, meu pau, o que você fez, sua vadia desgraçada. Ela, calmamente, ainda com a boca cheia, mastigando, falava - Você é muito cuzão para se consultar com ela. Esta sua hipocrisia não me engana. Se faz de gostoso, mas no fundo é só um coitado querendo pagar de fodão para o primo mais novo. Saia da minha sala, antes que eu faça pior. Antes que eu enfie/ - Ok, ok, sua lazarenta, filha de uma égua, mas eu vou me vingar, você vai ver! - Hahahaha, de mim? Querido, eu inventei a vingança. Agora você, ela se virou para mim antes mesmo de eu acabar de cheirar a quinta carreira. Vejo que você gosta de uma farinha. - Nunca tinha usado, mas como esta é uma ocasião especial. - Todas as ocasiões são especiais, meu querido. Ela então estala os dedos. As carreiras desaparecem. Você não precisa disto, meu bem. Seus olhos adquirem uma cor mais para o avelã. Brilham, como se olhassem pela primeira vez para o ser amado. Beijo ela na boca, mais por impulso, do que por presunção. Ela retribui. Seus dentes não possuem mais a aparência monstruosa de antes. Ao abrir meus olhos, a sala havia se transformado radicalmente. Apenas móveis brancos bem alinhados e distribuídos pelo amplo espaço. A roupa de dona Nenê, uma camiseta Hering branca e uma calça jeans rosada. Você sim, deve ir ao encontro dela. Não entendo por que? Não pense, ela me diz, apenas vá ao encontro dela. MOIRA! Grita dona Nenê, já com o seu velho mal humor de sempre. Moira, acompanhe o rapaz até ela. Uma senhora, já com bastante idade, corcunda e com um olhar opaco de tão cego segura em meus braços. Ela diz – vou dizer o caminho, você só terá que nos guiar até lá. Que senhora agradável: sua testa enrugada, suas mãos trêmulas, seus andar paciente – até a temperatura de seus braços era agradável. - A dona Nenê é temperamental, né? - É, meu filho, a vingança é cega. Quando ela não vai com a cara de alguém, já viu. Se a pessoa vem aqui neste lugar mais de três vezes e não olha diretamente na cara da Nêmesis…daí o bicho pega. Ela considera que a pessoa está dando uma de metida, sabe como são estas neuroses de madame. Chegamos! Disse a simpática vovó. 


- Mas a senhora nem me indicou o caminho? 
- E olha só o tanto que a gente andou, ela diz. Atrás da porta, uma escuridão úmida. Do fundo da sala, uma voz rouca de fumante perfura as paredes descascadas.
- Por que você está aqui?
- Não sei responder esta pergunta. Queria apenas te conhecer.
- Quer olhar para o meu rosto ou prefere ouvir o meu canto? Você terá que escolher.
- Quero ouvir o seu canto.
- Então preste atenção, querido. Lembra daquela temporada que passamos juntos no interior de São Paulo?
- Lembro. É você? Você é a sereia?
- No meu quarto. Agora você pode entrar no meu quarto. Nós dois estamos de pijamas. Eu gosto do seu pijama, faço questão de elogiar o seu pijama. Você me convida para ir ao seu quarto, quer me mostrar uma coisa e eu vou, vou disposta a tudo que você imagina agora, neste momento, agora, lá, entramos devagar no seu quarto, é de tarde, uma tarde chuvosa cheirando a mato molhado e café da manhã, os seus pais não estão em casa, o ambiente cheira a silêncio e solidão, a chuva cai devagar alí pela janela, no seu quarto há uma janela que dá para o quintal, lá onde as flores florescem mais rápido, lá onde um pé de ipê amarelo nos abraça e colore as lágrimas do céu que caem pacientemente, você sentado na cama, você me diz baixinho no ouvido…o que mesmo?
- Que eu te amo. Eu digo que te amo e que quero te dar um beijo.
- Isto. Consegue sentir a minha língua ainda adolescente passeando pela sua boca? Pacientemente desenhando o desenho da chuva em sua boca, no contorno dos seus lábios, chupo devagar os seus lábios, são gostosos de chupar, tem um gosto de nescau quentinho, aquele que a nossa mãe nos faz todas as manhãs
- Não tenho mais mãe.
- Por isto seus lábios tem o gosto da sua mãe, o gosto do leite da sua mãe, beijo mais um pouco os seus lábios, é a primeira vez que beijo alguém na boca, a sua boca foi a primeira que encostou na minha, o seu peito foi o primeiro peito que toquei com as mãos, embora você tenha guiado as minhas mãos com as suas. Não há ninguém na casa? Você conferiu? Gosto de saber da possiblidade de que alguém pode entrar por aquela porta a qualquer momento, a chuva parece saber quem vai abrir a porta a qualquer momento
- Ninguém vai ver. Ninguém vai abrir aquela porta, eu juro.
- Vem mais perto. Vem sentir a textura da chuva junto comigo.
- A água está gelada.
- Mergulha mais fundo. Eu te esquento dentro da chuva que nos pertence, que nos faz de carne, que nos atravessa sempre quando passo minha língua pelo seu pescoço.
- Sempre fui apaixonado por você. Nunca consegui tirar você da cabeça.
- Então é aqui mesmo que você deve morar. Você deve ficar para sempre dentro desta chuva que nos amacia o espírito. Você se acalma quando eu te chamo de querido, você acha meigo quando falo querido perto do seu pescoço, quando eu pergunto, posso te chamar de querido? Sabe, parece que já estamos há muito tempo juntos, sabe, quando te chamo de querido parece que tenho um certo poder sobre o seu corpo, você me obedece e sente prazer ao me obedecer, querido, querido, querido, tire a calça enquanto eu vejo se não tem mais ninguém na casa
- Não tem ninguém, eu prometo.
- Então você não quer que eu me afaste, querido? Ficarei sempre perto de você, querido. Vou te ajudar a tirar a calça do pijama. Você está sem cueca? Quer que eu te beije aqui, querido, você é o meu querido, você sabe que eu faço isto por amor, por saber o que é melhor pra você e para o seu destino, sua trajetória, sua vida e sua morte.
- Não consigo respirar direito.
- Calma, querido, é só respirar fundo, respire fundo querido, vou colocar a minha boca aqui enquanto você olha para a chuva.
- A chuva é tão linda. Pena que não pode nos molhar.
- Posso fazer com a boca e com as mãos pra você, querido. Não é gostoso? A minha voz pode ficar soando dentro da sua cabeça, querido. Enquanto eu faço este movimento com a boca, com a língua e com as mãos, querido, pode a minha voz soar tranquila em sua cabeça?
- Não estou conseguindo respirar. Quero ir pra fora ver a chuva.
- Mas aqui dentro é muito melhor, querido. Eu trago a chuva pra você. Pronto. Consegue sentir a chuva?
- Consigo. Sei que não é a chuva. Mas consigo sentir a chuva em minhas mãos.
- Agora tudo ao mesmo tempo. Todos os movimentos e a dança que a chuva provoca em seu corpo. Você é tão lindo dançando. Agora me diga: você quer ou não quer ficar para sempre aqui dentro? Sim ou não, querido.
- Sim.





Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com

Arthur d'Araujo
Outros trabalhos em arthurdaraujo.com/


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