30 de nov de 2012

Conto Gótico

Conto: Cilene Tanaka
Ilustração: Danilo Oliveira


Cortou-se-lhe o bico do seio esquerdo. O esquerdo ficou pendurado por um pouco de pele. Isto causa agonia quase insuportável. Mais que dor, agonia. Talvez angústia, proximidade do desejo. Odiável sensação. Ou sentimento? Mas não sente dor. Queria ter prestado atenção a ela, mas fechou os olhos e tentou fugir. Pensou que quando o outro for cortado vai tentar se concentrar. Mas tem medo. Agora sente nada além de medo do próximo. Mas dá-se conta disto e se recupera. Em que hei de pensar? Nas escolhas. Melhor não seguir este caminho. Vai me tirar do objetivo. O objetivo é sentir dor. Vamos. Analisá-la, mais do que senti-la. A questão é que um dia estava voltando para casa. De noite. Sozinha. Alguém mal-encarado cruzou seu caminho. Quando se cruzaram, ela teve a impressão de que ele virara o pescoço para olhá-la por trás. Mas ela não podia olhar e conferir, sob pena de passar por flerte. Seguiu. Mas tinha a impressão de ouvir passos e aguardou um pouco até que o homem tivesse saído do campo de visão para poder, finalmente, olhar para trás. Ainda não. Ainda não. Ainda não. Vou pegar a chave e deixá-la já na mão para o caso. Agora! Olhou. Ninguém. Muitos carros, entretanto. Mas sente um pânico tão grande que apressa o passo, começa a temer que um cachorro a ataque, lata, que um carro invada a calçada ou que não olhe direito para a rua e seja atropelada ao atravessá-la. Chegou. E só aí seu pânico passa. Ao atravessar o portão tudo aquilo passa e já não se lembra mais do pavor. O medo nos domina. Desesperamo-nos pela sobrevivência, agarrando-nos à vida que sequer sabemos de onde vem. E nos agarramos ao não saber, fugindo dele e tentando recuperar a segurança da vida que não dominamos. E se eu dominar o medo da morte? Medo da morte não é propriamente. Em primeira camada, um medo terrível de ser acometida pelo mal. O susto, ou o medo dele. O medo do medo do... desconhecido? Em seguida, tentando identificar que mal é este originador do temor imediato, a agressão física. O sofrimento, apesar de engrandecer, não é desejado. Não conscientemente. E se ele me bate? Pior! Pior que me bater! E se ele me estupra? O temor do estupro. Que é convincente para toda mulher. Matamos ou morremos em nome do estupro. Se o falo é o símbolo masculino, o estupro é o feminino. Num futuro superador, faremos piadas sobre estupro, chamaremos as amigas de estupradoras quando quisermos provocá-las, diremos que alguém precisa é de um belo estupro pra tomar jeito. E se ele quiser fazer por trás? Se ele for muito grande e estourar meu ... sem o cuidado que esta atividade requer? Se ele vier com tudo sem lubrificar. Se eu ficar excitada, talvez...Se ele vier com muita força e eu não aguentar? Meus intestinos estourando. E se eu estiver com o intestino cheio e ele estourar. Enchendo todo meu interior de coisa que devia sair por onde ele está entrando? Será que ele não teria nojo? Mas quem é ele? Este homem ideal que me estupra no medo? Nunca é bonito. Apesar de poder ser atraente. E se eu gostasse? Não. Não posso gostar. Nunca. Gostar de estupro...tá maluca? Sempre é moreno, porque estes são os maus segundo o preconceito. Mas o temor não pára no estupro. Estupro é tema suficiente para análise posterior, em outro momento, outro sujeito. Ele pode me machucar. Ferir-me. Mas eu também posso machucá-lo: dir-lhe-ei que me dê seu pinto palpitando de tesão, pô-lo-ei na boca nojenta e morde-lo-ei até que sobre só um pedacinho de pele segurando o pinto de merda. Mas minha estratégia de defesa, apesar de eficaz, não resolve meu temor. A capacidade de reação não resolve minha tragédia temorosa. Porque ainda assim sinto tanto medo? Cortou-se-lhe o seio esquerdo. Saiu inteiro, textura grosseira e faca afiada. Mas não prestei atenção, estava ocupada com o estupro. Posso tentar lembrar. Agora está doendo. Porque agora está doendo se da primeira vez não doeu? Devo estar me acalmando. Da primeira vez estava bombando adrenalina que, sei, é anestesiante. Minha adrenalina deve estar baixando. Amanhã é que vou sentir dor verdadeira. O momento do corte só é importante por símbologia. O primeiro contato com a dor causada por elemento externo. Não é o momento da dor verdadeiramente física. É apenas o primeiro encontro com o desconhecido. O medo. Onde a aflição ao corpo é realizada juntamente com a simbólica demarcação do início de minha aflição geral. E neste caso há complicações morais que, provavelmente, aumentam toda a sensação que acabamos chamando simplesmente “dor”. Vou tentar lembrar: quando a faca encostou, vi que não tinha dentes e que, portanto, não ia serrar, mas passar vigorosa e de uma vez. Senti frio e quase fechei os olhos. Senti frio porque estava frio. E quase fechei os olhos para fugir dali. É difícil enfrentar o que se deve. E tão difícil escolher o que se deve enfrentar. Já que geralmente fazemos escolhas sem percebê-las. Resolvera concentrar-me em mim. Única resolução que segui à risca. Além, é claro, da resolução de enfrentar o medo. Medo e temor são diferentes. Medo está relacionado ao desconhecido. Temor é relacionado a um perigo iminente, como um afogamento. Mas falo “medo” ha muitos mais anos do que tenho esta reflexão. Então provavelmente seguirei por algum tempo dissociando teoria da prática. Discordando do termo enquanto o uso. Ás vezes me rasgo de contradição. Ás vezes, só a areia me cola. 

Danilo Oliveira
30 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com.

Cilene Tanaka
Nasceu em Curitiba, cidade onde reside e tece sua colcha de contos, crônicas e críticas. Aluna do Núcleo de Dramaturgia do SESC e habitante da Casa Selvática. Gosta de mistérios, barbáries, laços, óculos de armação branca e versos heptassílabos. Flâneur citadina que perambula nas fronteiras da ficção e realidade. Costuma emprestar seus olhos, corações e mentes para circunspecções sobre o teatro em www.gazetadopovo.com.br/blog/teatrofagia.

20 de nov de 2012

Inglórias

Texto : Luiz Bertazzo
Ator: Marlon Anjos
Fotografias: Marco Novack
Arte: Marja Calafange
Figurinos : Day Bernardini & Renata Luciana
Maquiagem : Carol Suss e Dalvinha Brandão
Apoio : TRIO LUZ, XIK & COUVE -FLOR Minicomunidade Artística Mundial





Estrelando: 

Demia Fina

Darlene, a Gentil

Stephânia, a Bruta

Para mim era como uma dessas inúmeras lendas urbanas e só. Sabia claro da existência das mortes em confrontos patéticos entre nós e... Essa gente!!!!
Campos de batalhas em saídas das boates, nos calçadões de madrugada, mortos deste e daquele lado, as nossas baixas sempre acreditei não passarem de um amadorismo dos nazi-novatos, uma mistura de ansiedade por sangue e a força descomunal dos saltos afiados no asfalto. Qualquer rumor de seres bestiais enviados da morte de batom pareciam delírios daqueles que sobreviveram ao confronto e que de nós recebiam a correta punição com sangrias, rituais medievais para purificar o sangue fraco e derrotado.



Este sangue que sinto agora na minha boca é um sangue puro, não tem o cheiro, nem o gosto do sangue ralo daquelas ovelhinhas fracas da fraternidade, é o gosto vermelho de um de nossos melhores homens, coagulado em anos de honra defendida por nossos coturnos, servido agora em uma taça de espumante. Na borda do cristal uma grosseira gordura cor-de-rosa de mancha de batom. Elas provam e servem pra mim o líquido que até pouco tempo atrás corria nas veias de Talles.





Talles e eu crescemos juntos na vida e nas botinadas nas faces das bestas, casei-me com sua irmã, uma loira leite, tal qual meu filho que nasceu ontem. Éramos só comemoração, um legitimo pura raça, as transparências da pele fina dele revelavam um emaranhado de veias azuis que me enchiam de orgulho. Em uma delas eu tenho certeza, eu vi o símbolo cruzado, feito minha tatuagem que carrego no peito esquerdo. Talvez pela emoção carregada estávamos desatentos, havíamos acabado de liquidar uma dessas frágeis borboletas bêbadas, sozinha na saída de um de seus antros no centro histórico da cidade, era uma noite de comemoração. –“ Uma borboletinha de leve!!”, como dois amigos que saem para tomar “uma cervejinha de leve” num happy hour depois de uma promoção. Não queríamos grandes emoções, só pichar o asfalto de vermelho e voltar pra casa.


Descendo pela rua escura vimos algo como um brasão correndo em nossas direções, sou surpreendido por um cheiro de perfume doce misturado a um suor de armaduras. Não sei bem ao certo como me deixei golpear. Com os olhos cerrados no chão só pude ver Talles dançar uma coreografia ridícula tentando se livrar do salto enterrado no seu tímpano.


Sinto agora minhas cicatrizes ardendo e borbulhando da champanhe derramada sobre elas. Risadas histéricas, ao fundo algum clássico daquela puta loira dos anos 80. Dançam freneticamente. Será esse seu ritual de morte? PATÉTICO, sem o mínimo da decência de nossos grandes feitos, dos dentes quebrados de seus semelhantes no meio fio das ruas de paralelepípedos. Não posso mentir que estou assustado, preciso reconhecer no diabo sua força.  São três as cavaleiras  do inferno, fui apresentado a elas assim que recobrei a consciência. DEMI a Fina, aquela do brasão, sua imagem me violenta em todos os sentidos, seu sadismo é tão elegante quanto os trajes em que está vestida. Repousa minhas mão em baldes de agua fria me aplicando pequenos choques com o secador de cabelos em punho. E ri sempre armada de uma taça de um champanhe fino comprado certamente pela herança que um pai desolado deve ter lhe deixado. Penso em mil formas de combate-las quando sair daqui. Até o mais cruel dos skins se sensibilizam com os gritos de misericórdia das libélulas no asfalto. Mas com DEMI seria cruel sem piedade. Meteria goela abaixo as mais finas marcas de batom até seu estomago explodir na banha rosa choque desses produtos, mas nada se compara ao que guardaria para DARLENE a Gentil, seu sotaque de puta brasileira erradicada na França entra nos meus ouvidos como choques anafiláticos ao mundo de testosterona que fui criado e pretendo passar pro meu filho. Apelidei-a de Gentil, pois no momento em que entrei nesse cativeiro tinha a impressão de conseguir seduzi-la em troca de liberdade, está na cara dela os olhos brilhantes e sedentos de sexo, foi ela que com a maior das gentilezas me ofereceu um copo d`agua, não podia imaginar que seria ela também que tiraria da jugular de Talles o cálice de sangue que me serviria logo depois, DARLENE a Gentil penetra em meus orifícios algumas rosas que combinam com o enjoativo perfume doce que usa, rosas encharcadas de querosene afim de queimá-las das pétalas até o talo. Gentil como uma puta criada na Europa. Penso em todas as atrocidades que sou capaz de cometer.  Penso para conseguir dormir em Paz, pois sei que daqui não saio vivo.  Foi o que ouvi de STEPHÂNIA a Bruta, dura como uma rocha, ela quem respondia aos meus olhares que gritavam dentro de mim “- CHEGA, por misericórdia!!!” os motivo dessa captura. Lia nomes de suas amigas abatidas, nomes ridículos, misturas de divas dos anos 50 com sobrenomes forçadamente sonoros.  Tento me defender quando percebo que nem língua tenho mais, mutilada assim como todos os dedos da minha mão direita que agora jaz junto ao soco inglês emoldurado na parede. Desespero, fraquejo, mas retomo minhas forças ao olhar fundo nos olhos de STEPHÂNIA e ver que neles refletem minha retina. Consigo ver uma imagem... É nítido!!! Dizem que no fundo dos olhos antes de morrer está gravado, entalhado a última imagem que te fez sorrir, e pude ver nos grandes olhos da besta... Eu vi... Refletido dos meus, meu filho e suas veias azuis, meu herdeiro que um dia ouvirá minhas histórias, que um dia vingará minha morte.




Marco Novack
Publica suas imagens no site: http://www.marconovack.com.br

8 de nov de 2012

O Pente da Guerra

Conto: Fabiano Vianna
Ilustração: André Ducci





“Não vos esqueçais de que a Terra ama sentir os vossos pés descalços. Não vos esqueçais de que ao vento agrada jogar com os vossos cabelos”¹
Khalil Gibran

Estávamos eu e meu amigo Murillo Da Rós num destes cafés que oferecem de cortesia chocolates, na Rua XV, quando ele me perguntou:
“O que você acha sobre um pente que oferece a imortalidade a quem o usa?”
Na hora achei a pergunta um pouco esquisita e enigmática, porém depois ele esclareceu-me que se referia ao artefato que teria causado a discórdia que culminou na “Guerra do Pente” em Curitiba, no dia 8 de Dezembro de 1959.
Segundo um jornal local, o estopim da batalha se deu porque o Subtenente Antônio Tavares, da Polícia Militar do Estado do Paraná, comprou um pente pelo valor de quinze cruzeiros e exigiu uma nota do comerciante libanês Ahmed Najar. Houve uma discussão entre eles e o vendedor fraturou a perna do Subtenente, arremessando-o sobre a calçada. Depois disso, cento e vinte lojas de árabes, judeus e italianos foram depredadas por outras pessoas que se envolveram na confusão. Alguns estabelecimentos foram totalmente destruídos. Cidadãos de bem e Potypos² se meteram no tumulto, tentando separar os briguentos. Parece que até o exército fora convocado. Até um tanque enguiçou vindo do quartel do Boqueirão.
 O conflito durou três dias e só cessou por causa de um temporal na tarde do dia 10. O jornalista, ironicamente, termina dizendo que nenhum conflito, por mais grave que seja, não resiste a uma forte chuva, em Curitiba.
No outro dia, centenas de pentes e outros produtos das lojas – destroçados e pisoteados – formavam um tapete de bugigangas entre as praças Tiradentes e Osório.
Eu sempre achei inverossímil esta peleja ter sido causada por um mero pente de plástico. Nenhuma guerra começa assim. Parece coisa de filme. Aliás, li em algum lugar que o caso pode ter sido fruto da imaginação de um cineasta.
Contudo, meu camarada Murillo, dedicado estudioso da história dos artefatos mágicos perdidos, mantém a teoria do amuleto incitador. Relata inclusive que a peça foi batizada de “O Pente da Guerra”, mas há quem acredite – entre eles meu ex-professor de teoria literária Maurício Pereira, que pertenceu a Sherazade, em “As Mil e Uma Noites”. Inclusive, segundo conta, foi o pente que a permitiu viver tantos anos, sem demonstrar nenhum sinal do tempo. Achei o causo maravilhoso. Sempre fui fascinado por este livro e por seu caráter fantástico. Lembro-me da primeira edição que peguei para ler. Encontrei numa bibliotecazinha de bairro, perto da minha casa. Foi nesta biblioteca que li meus primeiros Charles Dickens, Júlio Verne e descobri a Coleção Vagalume. O livro “As Mil e Uma Noites” era bem velho, com as costuras a mostra e páginas amareladas. Se não me engano, faltavam algumas páginas também. Mas como não era ainda um leitor tão voraz, pulei algumas histórias e li as que me chamaram mais atenção, tipo “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa” e “Simbad”.
Para Jorge Luis Borges, o título do livro se deve a duas razões. A primeira, supersticiosa, segundo a qual os números pares seriam de mau agouro. Assim, procurou-se um número ímpar, acrescentando-se o “e uma”. Caso fosse novecentos e noventa e nove noites, sentiríamos que falta uma noite. Assim, ao contrário, sentimos que não só nos é oferecido algo infinito, como de quebra, acrescenta-se uma noite ao infinito.
Incrível que o pente tenha pertencido a uma personagem que povoou meus sonhos e desenhos desde a infância. Quando eu tinha mais ou menos uns 12 anos, e estudava no Colégio Jean Piaget, fiz uma ilustração de Sherazade e o Rei Shariar para a matéria de Educação Artística. A professora – lembro até seu nome, Alba – gostou tanto que escolheu o desenho para a exposição e fui muito elogiado.
Utilizei uma técnica mista na composição. Colei lantejoulas e areia colorida para formar o vestido, e o lençol da cama fiz com papel de seda tipo mosaico. Coincidentemente, neste meu desenho, Sherazade penteava os cabelos com um pente dourado.


 *   *   *

Escreveu meu ex-professor Maurício Pereira, numa Revista Joaquim que não chegou a ser publicada:
“O pente foi citado num livro de cartas entre ela e sua irmã, Duniazade. Dizem, inclusive, que foi presente da mana, desde que se penteasse com ele todas as noites, para manter-se jovialmente bela para sempre.”
A matéria trazia também a capa do livro, chamado “Das Cartas com minha irmã Duniazade”.
Dizia ainda, Pereira, sobre Sherazade:
“Noite após noite, Sherazade tece, com a ajuda da memória, o fio de suas histórias. Não é um traço linear, mas uma teia infinita. Uma história dá margem à outra, que, engastada dentro dela, desemboca numa terceira e assim por diante...”
Na definição de um tradutor ocidental chamado Rene R. Khawam, Shera­zade é "La Tisserande des Nuits" – a tecelã das noites.
Como o pente veio parar em Curitiba, eu não sei. Nem Murilo.
Nenhum objeto místico é, segundo dizem, imaculado. Para Murilo, o pente não deseja ser encontrado. Entre uma bebericada e outra no café, diz que na verdade, todos os objetos míticos são apenas um.
“Existem mil e um nomes para simbolizar apenas duas coisas – o cavaleiro e a espada.
O pente já foi o retrato de Dorian Gray e a espada de Artur – Caledfwlch. Antes teria sido Harpe – a espada usada por Perseu para decapitar a Medusa. Foi também o Sabre de San Martín e a lança de Dom Quixote.
Estes objetos habitaram por muito tempo as prateleiras dos chamados Gabinetes de Curiosidades, no tempo antigo. Estes espaços foram os antecessores dos museus. Porém, em fases distintas. Caledfwlch e Harpe nunca foram vistas uma ao lado da outra, por exemplo. Nestes gabinetes, as coleções eram organizadas em quatro categorias, nomeadas em latim: Artificialia, Naturalia, Exótica e Scientifica.”
Sempre fui fascinado por depósitos e coleções. Os desenhos dos Gabinetes feitos por Van  Haecht e o Frontispício do Museu Wormiani mostrando o quarto das maravilhas de Worm, são maravilhosos.
  

*   *   *

Passei grande parte de minha infância na casa de minha tia Neide. Como eu estudava de manhã e minha mãe trabalhava o dia todo, a tia cuidava de mim durante as tardes. Minha mãe era professora, mas quando venceu a candidatura e assumiu a direção da escola, aumentou sua carga horária de trabalho.
O que eu não achava ruim. Porque era um lugar cheio de coisas para fazer. A casa ficava na Nunes Machado, perto da Praça Ouvidor Pardinho.
A tia Neide era uma pessoa exotérica, com inclinação para todo tipo de fantasia. Muitos dos filmes de ficção científica que gosto até hoje, assisti com ela. Fora os livros fantásticos que li na sua biblioteca. E o legal é que não era um cômodo arrumado, assim como toda a casa também não o era. Sentia-me muito mais a vontade no meio de tanta bagunça. Os livros, empilhados de qualquer forma, lateralmente ou em diagonais. Uma biblioteca desordenada é muito mais atraente e instigante a se perder em seus conteúdos.
Você poderia pegar qualquer tomo empilhado sobre a mesa e lê-lo. Depois também não precisava guarda-lo no mesmo local. A regra era, que inclusive, o depositasse sobre qualquer outra prateleira ou gaveta.
Outra coisa que me empolgava era o fato da casa ser habitada por gatos, e eu sempre gostei de felinos. Na escada externa, que acessa a varanda, havia um leão de pedra no qual eu costumava galopar. Uma vez meu pé prendeu entre a estátua e parede lateral e tiveram que chamar o tio Aníbal para empurrar. Por sorte, sobrevivi.
Eu curtia caminhar sorrateiramente pelo jardim, em busca dos gatos. Tinha que ser tão silencioso quanto eles, se quisesse observá-los. Ou senão sumiam, pulavam para os terrenos vizinhos, escondiam-se nos buracos.
Minha tia era tão fascinada pelos bichanos, que as balas que ela oferecia para os sobrinhos era da marca “Xaxa”, com a cara de um gato na embalagem.
Um dos lugares que eu mais gostava de ir – e na maioria das vezes, sem minha tia saber, era o quarto de tralhas, atrás da lavanderia.
O cômodo era tomado de prateleiras e armários com rádios antigos, vitrolas, luminárias abandonadas. Eu gostava de abrir os pequenos baús, fuçar os álbuns de fotografias, abrir as latas repletas de fichas de plástico – de jogar baralho. Lembro também de uma caixa de madeira lotada de figurinhas do Zequinha. Se bobear até o Zahir³ estava lá. Lembro de muitas moedas e até uma esfera parecida com o Palantír4.
 Se fechar os olhos, consigo sentir o cheiro de mofo que enfestava o quarto. E a cara dos bichos empalhados, ameaçadores.
Depois descobri que a profissão de meu tio era taxidermista, mas na época nem sabia o que era isso.
Um bicho que me dava muito medo era um macaco babuíno com nariz vermelho e pelagem branca.
Alguns gatos que desapareceram da casa, depois tornaram a aparecer dentro do Quarto das Maravilhas, porém, empalhados.
Esta era a mágica do lugar. Minha tia dizia que todo o objeto perdido, ia para lá. Porém, em compartimentos aleatórios. Por isso era comum encontrar um broche na caixa de canetas, ou um cachimbo com as bonecas de porcelana.
Certa vez aconteceu algo fantástico. Uma carta de meu baralho Super trunfo se perdeu na minha casa e depois a reencontrei lá dentro, no pote dos alfinetes.
Se fechar os olhos, consigo sentir o cheiro de mofo que enfestava o quarto.

*   *   *

Depois da conversa com Murillo, que aconteceu, se não me engano, numa terça-feira de Agosto, passei a perambular pelo centro de Curitiba em busca do pente. Não conseguia pensar em outra coisa. Verifiquei as ofertas das casas chinesas, farmácias e lojas de 1,99 da XV. Deparei-me com todos os tipos possíveis de formas. Fucei nos bazares e armazéns da parte velha. Adentrei até mesmo os shoppings populares que já foram cinemas. Vi pentes transparentes, lisos, de madeira. Redondos, quadrados e até circulares.
Num camelô da Praça Santos de Andrade, encontrei uma peça com arabescos árabes pintados de dourado.  Pensei muito no Santo Graal e em quanto sua aparência simples e miserável significa.
Diversas noites sonhei com Sherazade nua, penteando sua vasta e negra cabeleira rente à minha cama. A pele âmbar refletida pela luz da lua, o vestido de lantejoulas e areia colorida. Mesmo acordado, me pegava pensando. Seus cabelos são como a guerra – alastram-se pelas ruelas do centro velho.
Amaldiçoadas imagens que se formam na borra do café. É preciso virar a xícara de ponta cabeça e esperar o líquido secar para daí sim observar os desenhos. Ursos, serpentes, índios, gigantes de pedra, palácios em ruínas. Eu olhei e vi o universo. Porque creio que tudo, inclusive o universo, pode estar contido dentro de uma xícara de café.
Na Galeria Minerva achei que estava sendo seguido. Andei mais rápido, mas o sujeito continuava em meu encalço. Tentei despistá-lo, atravessando por dentro da C&A, entretanto senti que continuava perto quando peguei a escada rolante. Empurrei pessoas, corri dentro da loja derrubando funcionários e araras. Vi a morte estampada nas roupas. Naquele dia nem voltei ao escritório. Peguei o primeiro táxi disponível. O símbolo da lua crescente com a estrela do Islamismo estava gravado no pente que eu comprei.
            Meus dias nunca mais foram os mesmos. Permaneci recluso durante uma semana. Dei uma desculpa qualquer aos clientes e atrasei alguns trabalhos.
            Montei um armário, na dispensa, para guardar os pentes. No mesmo cômodo onde eu arquivo minhas outras coleções de objetos míticos – revistas, figurinhas, cachimbos, miniaturas, armas, moedas...
Separarei os pentes por cores e formatos. Dispu-los lado a lado, em ordem decrescente. Os menorzinhos, em caixas. Também construí um quadro de madeira e fixei-o na parede para pendurar os modelos mais bonitos. Entre eles o pente com arabescos dourados que comprei no camelô.

*   *   *

Dias depois me encontrei novamente com Murillo, no centro, ao acaso. O mago caminhava com o seu pequeno cachorrinho Yorkshire – o Puppy, na XV, quando me viu sentado no café. Disse-me que a pouco tinha cruzado por uma moça com um cão da mesma raça e tamanho que o seu, e que pegara o telefone dela. Isso porque o Puppy precisa urgentemente de uma namorada.
Convidei-o para dividir a mesa e logo que se sentou, desvirou a minha xícara vazia que estava ao contrário.
“Permite-me?”
“Claro.”
Enquanto lia a borra, contei-lhe de minha coleção de pentes, o sujeito que me perseguiu na galeria e dos sonhos com Sherazade.
“Cara, você não vai conseguir encontrá-lo. Desista. Lembre-se daquilo que te disse. De tempos em tempos o pente muda de forma para se perder entre tantos outros objetos. Pode ser um espelho ou de um pincel. Pode ser uma colher, um lápis ou até mesmo esta xícara em que você bebe o café.”
            Se isto fosse verdade, eu nunca saberia em qual das xícaras entre tantas, bebi o elixir da juventude. Qual destas revelou-me o segredo da guerra.
Posso voltar aqui, neste mesmo café, diversas vezes e, vez ou outra beberei na xícara certa. Noutros dias, ela será sorteada por outro.
“Tudo está gravado na borra”, me diz Murillo. E acrescenta:
“Vejo Sherazade, Rei Artur, San Martin, Perseu, Dorian Gray e Dom Quixote. Vejo um gabinete lotado de objetos, armas e animais empalhados. Vejo um velho mendigo penteando a barba. Te vejo atravessando galerias e lojas de 1,99, depois correndo para pegar um taxi. E vejo por fim nós dois, sentados, olhando para esta xícara. Num destes cafés que oferecem de cortesia chocolates, na Rua XV.”

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1 Trecho da principal obra de Kalil Gibran, gravado nos painéis de ladrilhos numa das paredes do Memorial Árabe, em Curitiba, no Centro Cívico.
2 Gigantes que habitaram Curitiba durante um curto intervalo de tempo, de 1955 a 1960. Não se sabe se formavam uma família de estrangeiros ou se eram nômades como os ciganos.  
3 Objeto de um conto de Jorge Luis Borges. Borges personifica o Zahir em uma moedinha comum, de vinte centavos de peso, que amaldiçoa aqueles que porventura venham a pousar os olhos sobre ela.
4 Os Palantír são artefatos mágicos do universo ficcional criado por  J.R.R. Tolkien.

Fabiano Vianna
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também o blog www.contosdapolpa.blogspot.com. 


André Ducci
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://abducci.blogspot.com


1 de nov de 2012

O Candidato

Conto: Alexandre França
Fotografia: Carine Wallauer


Cá estou, cinco minutos antes de falar sobre a minha candidatura no segundo turno, sobre o que eu poderia ou não fazer pela cidade que vivo desde os meus dez anos de idade (aliás, isto não precisa ser dito na campanha - isto de eu não ser de fato daqui). Esta loira, de saia curta, pernas longas, brancas, mãos delicadas, agora passa a maquiagem no meu rosto. O texto fervilha em minha cabeça, estou pronto para acionar o gatilho da minha retórica emotiva. Sei como emocionar, me preparei para isto, para abraçar com os olhos, através de uma lente, das telas das televisões e do olhar opaco daqueles que não conseguem mais enxergar a realidade. Vejo no contorno da luz a nebulosa deixada pelos rastros de pó, carreiras esquecidas no camarim de algum comício, o final da garrafa de uísque, minha mulher fazendo um chá de carqueja às cinco da manhã.  Nesta sala de aula, preparo o discurso de final de ano, sempre o aluno de cabeça baixa, quatro olhos, que prepara o discurso de final de ano e é obrigado a pagar o lanche dos mais velhos em troca de proteção. Ela, de saia rosa e corpo metade tigre, vem até mim, com seu crucifixo, com sua adaga e seu olhar de apocalipse, como se a multidão a nos investigar fosse um tipo de mar portátil, onde carregamos as angústias do final da vida. Um calouro de uma universidade particular de última categoria, gastando os restos da mesada em rodadas de cerveja servidas com desdém pelo garçom, leite derramado entre aquilo que sou e o que eu poderia ser se estivesse estudado para o vestibular, se me interessasse mais por livros, arte, estas merdas todas que muita gente sente prazer em arrotar em festas regadas a vinho tinto e citações em francês. Agora ela vem até mim, a maquiadora, com seu perfurme Poison (ou seria um Carolina Herrera?), que eu mesmo dei de presente se ela me acompanhasse até o fim da campanha, se ela chupasse um sorvete de morango na minha frente, pouco antes de eu entrar em cena, dando os meus famosos gritos de vitória, fazendo o meu famoso gesto da aliança, clamando por votos através da minha famosa postura de origem humilde e sotaque do interior. Numa família onde a morte sempre esteve presente com suas mãos afiadas na tragédia e no sangue, onde três dos sete irmãos morreram em acidentes automobilísticos, onde o pai (alcoólatra de carteirinha) morreu de enfarte, e a mãe, em estado catatônico, teve seus últimos dias internada numa clínica para retardados, fui o que soube lidar com a raiva, acumulando em minha cabeça o rancor de uma vida sem perspectiva. Cá estou, para liberar esta fúria estocada há uns trinta e poucos anos, neste comício, esperando a lotação máxima e a voz de algum cantor sertanejo para engrossar o caldo da minha miséria estética, eu que já me encontro com as roupas escolhidas a dedo pelo meu personal stylish (embora não pareça  - embora pareça a roupa comprada na última queima de estoque de um shopping de descontos qualquer), que já me encontro aquecido para o discurso da coroação, penso no primeiro animal de estimação que matei com uma faca de serra tramontina enferrujada, largada num dos cantos da minúscula cozinha da nossa casa de campo. Agora um gesto brusco, intempestivo, de meu acessor me faz pensar nas vezes que tive que aguentar a rabugice de patrões sem escrúpulos me pedindo coisas, me mandando a merda, me escurraçando dos lugares onde fui obrigado a estar. O beijo de uma eleitora me remete aos corredores da escola onde tive que aturar a provocação das mais belas garotas da classe, me chamando de coisas cujos sentimentos provocados em mim, hoje, não saberia descrever. Peço pra maquiadora a minha pistola sem registro comprada por um dos meus seguranças de plantão. O marqueteiro dá um sinal, dizendo que “sim, pode arrebentar os ouvidos desta gente suja”. Estou próximo de uma nova fase da minha tragetória política, esta tragetória que não tem absolutamente nada para contar, a não ser imagens vazias de um circo sem palhaço, lona ou arquibancada. Sim, não há malabarismo o suficiente para me colocar no paraíso dos bons servidores da democracia. Nunca fiz algo de relevante nos meus cinco anos de vida pública. Ainda assim, cá estou. Encantando a multidão, me lembrando, com asco, de tudo aquilo que eu poderia ser. Minha mão treme ao pegar na nove milímetros. Cheiro mais duas carreiras de cocaína. Meu coração está a mil.
De duas uma:
1)      ou eu morro aqui dentro
2)      ou eu morro lá fora – nos braços daqueles que, por algum motivo, ainda me admiram.
E isto eu deixo pra você escolher, eleitor.
Vamos juntos nesta caminhada
que Deus nos abençoe.

Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com

Carine Wallauer
Publica suas fotografias em: http://carinewallauer.com

26 de out de 2012

Tentáculos

Conto: Otavio Linhares
Ilustração: Sueli Mendes


logo ao acordar notei tentáculos em meus braços. tatuagens, pensei. fui tatuado enquanto dormia. empurrei-a com o cotovelo. viu isso amor? são lindos, disse e voltou a dormir. levantei e fui tomar um banho. estavam por toda parte. nasciam das costas, do lado esquerdo. de uma bola de fogo. e eram roxos. sem ventosas. nas pernas eles eram mais finos e balançavam. dentro do olho cortavam a pupila ao meio e eram pretos. bem finos. as pálpebras abriam e fechavam. ora pra cima e pra baixo, ora pros lados. e os cabelos haviam sumido. interessante, minhas gengivas estão negras e os dentes amarelados. toquei as cavidades ao lado da cabeça. e elas tem a profundidade de um dedo. há mais duas dessas na região da pélvis. alguns tentáculos maiores nas costas. de vez em quando se descolam e tentam agarrar os objetos que estão por perto, principalmente os amarelos e vermelhos. eles os quebram e os largam no chão e logo procuram por algo novo em que tocar. porque estão me arrastando pra fora do banheiro? dois deles se lançam contra o corpo da minha namorada e a penetram na vagina e na boca com velocidade. me desequilibro e caio de costas sobre ela. todos atacam ao mesmo tempo. eles a absorvem em poucos segundos. sinto a energia dela atravessando para o meu corpo. fluindo em minhas veias. aos poucos os tentáculos vão sumindo de mim. um vazio toma conta do quarto. olho meu corpo e ele está limpo dos desenhos. agora tenho grandes seios e um quadril largo. lábios grossos e cabeleira ruiva. toco meus buracos. 

Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

Sueli Mendes
Seus trabalhos podem ser visualizados no blog: 
bigandlittledreams.blogspot.com

22 de out de 2012

Eu, o filho

Conto: Daniel Gonçalves
Ilustração: Dea Lellis

Meu mundo era um salão sem janelas onde ficavam as camas, os armários, a TV e a cozinha. O sanitário, contíguo a esse ambiente, era ventilado por um exaustor embutido no forro. Eu nunca havia visto o céu, nem uma árvore, nem pisado na grama; nada disso. Distraía-me com os livros e DVDs trazidos esporadicamente por meu pai. Eu costumava questioná-lo insistentemente sobre o mundo exterior, contudo, sua resposta limitava-se a encerrar o assunto. Invariavelmente afirmava algo do gênero:

- Não se deixe levar pelo que você lê e assiste, são visões idealizadas, românticas.  Não há lugar para a inocência nesse mundo, não há lugar para fragilidades.

Nos lábios de meu pai a palavra fragilidade tinha a conotação da maior das virtudes. Todavia, eu já estava livre dos pontos e ataduras, não dependia mais de soro e minha coordenação motora evoluíra satisfatoriamente. Os argumentos de meu pai sucumbiam à minha inquietação e, por mais que eu sinalizasse aceitar suas idéias, secretamente ansiava por escapar daquele recinto.  Os obstáculos consistiam em duas portas, separadas por um corredor escuro.  Ambas permaneciam trancadas o tempo todo, mesmo com meu pai em casa. Finalmente, em um filme de aventura, descobri um modo simples e efetivo de fugir: remover o pino das dobradiças. Aguardei que meu pai saísse para trabalhar. O primeiro contato com a luz foi doloroso, protegi meu rosto com as mãos até as pupilas se adaptarem.  Observei minha casa pelo lado de fora e percebi que outrora ela possuía janelas, haviam sido vedadas apenas por dentro. Um longo caminho de pedriscos conduzia até um portão de madeira, mas antes de alcançá-lo, fui atraído pelo gramado em frente a casa. Enquanto meus pés descalços acariciavam o verde, dezenas de ninfas saltitavam; uma onda de minúsculos insetos. Essa distração que me fez ignorar a aproximação sorrateira de um cão. Esquivei-me por sorte da primeira investida do animal e tentei escapar correndo para a grade coberta de hera. Escalei uma mureta próxima ao portão, mas o cachorro alcançou-me e mordeu meu calcanhar com toda sua voracidade.  Desesperado, arremessei-me por cima da cerca e caí na calçada de pedra. Meu corpo foi perfurado pelas lanças do gradil, meu pijama estava em trapos, meu corpo coberto de sangue.

A rua estava deserta, dei alguns passos e recostei-me em uma árvore em busca de alento. Ali, no gramado entre o gradil de minha casa e o meio-fio da rua, eu adormeci.  Despertei com uma dor aguda em minha fronte e as gargalhadas sádicas das crianças que atiravam pedras em mim, meia dúzia de meninos. Aparentavam pouca idade, dez anos no máximo. Tentei erguer-me do solo, mas recebi uma violenta saraivada de pedras que minou minhas forças. Encolhido e com as mãos sobre a cabeça, recebi chutes, pauladas, pisões em minhas costas.  Um garoto aproximou-se erguendo um paralelepípedo o mais alto que podia – minha última lembrança daquela tarde.

Meu pai diz que foi sorte ele ter chegado enquanto eu ainda respirava. Os agressores não estavam mais ali, apenas meu corpo destruído. Ele disse que me fará dormir profundamente. Pode demorar a conseguir novas partes, por isso precisarei dos aparelhos para sobreviver. Ele lamenta que eu não o tenha escutado, muito provavelmente herdarei sequelas de minha transgressão.  Minha aparência deve piorar e pode ser necessário que eu mude de sexo. Não o questiono, nem me revolto. Ele é um bom pai e um bom médico. Ele me ama, ele me fez, ele sabe o que é melhor.

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  

Dea Lellis
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/metalpreto 

18 de out de 2012

Salgado

Conto: Paco Steinberg
Ilustração: Zansky



-Nome?
-Plínio Salgado.
-Idade?
-47.
-Não sei se deu pra entender, mas o senhor está sendo processado por falsidade ideológica. É bom começar a falar a verdade, senão as coisas vão piorar pro seu lado!
- Mas será o benedito! Vá lá, como queira.
- Escrivão! Apaga tudo. Do início: Nome?
- Plínio Salgado.
- Idade?
- 586 anos.

Antes de eu responder essa última pergunta, você leitor deve imaginar a preguiça que eu tive de matar aquele guarda, e deve imaginar também que não era a primeira vez que eu ia preso pela Polícia Federal por causa daquela maldita carteira de identidade falsa.

Todo mundo acha bonito quando aparece no cinema essa coisa do vampiro ser eterno e que a gente vive em danação e isso e aquilo. Danação é ter que ir até a Vicente Machado pedir pra um vampirinho mequetrefe fazer meu RG no computador toda vez que alguém me pega. Pra plastificar vamos eu mais ele até o Terminal do Guadalupe, lá ninguém acha nada errado.

Já esse guardinha, vejam só. A lei, estamos cumprindo a lei, ele ficava repetindo enquanto eu entrava no camburão; eu avisei que não ia prestar. Paspalho. Imagine, eu, que jogava bocha com o Vladinho usando cabeça de otomano, agora enfiado naquela carroça malfeita, fingindo ter medo da arminha dele. Esse negócio da arma, depois me lembre de te contar, é triste ver um homem se achar macho atirando à distância.

Voltando à delegacia, onde eu estava? Ah, sim, o guardinha. Virei-lhe um safanão na orelha que o infeliz vai levar pra outra vida. Já o escrivão me deu um trabalho danado de matar, eu odeio gente que se esconde embaixo da mesa. Sorte que eu não tenho artrite. Fugir da delegacia também foi chato. Virar pombo é complicado, a gente sempre entala nas janelas, mas nada que uma boa cuspidela pelo rabo não me esvazie a barriga e me faça passar pelas grades. Ah, claro. Por que eu não virei morcego? Mas que pergunta. Morcego na capital? A gente perde a originalidade por conta da civilização. Uma vez o IBAMA me pegou e eu fiquei uns 06 meses dividindo quarto com papagaios e tucanos no CRAS, lá no Mato Grosso do Sul, e os matutos tentando me devolver pra mata num programa de readaptação. Caralho.

Lógico que eu podia ter voltado antes, só não o fiz por conta de umas meninas que moravam por lá. Essas sim, minha danação. Com um pequeno detalhe que - não me julgue escatológico, caro leitor - faz meus companheiros vampiros mais afrescalhados, digo, de gosto mais refinado, torcerem a cara numa reprovação nauseante.

Lembro como se fosse agora, a primeira de todas. Chamá-la de moça é uma extrema bondade da minha parte, mas convenhamos que idade não é meu forte também. Vestia uma roupinha duvidosa, como toda boa puta sabe vestir, toda apertada, vazando as feminilidades pelos decotes. Pedi a ela que fosse sozinha para o quarto, ela estranhou. É que entrar pela janela na cidade não dá mais. É câmera, é alarme, cidade é um saco. E aqui no mato dá pra gente se soltar, fazer as coisas do jeito original. Mas enfim. Ela lá, deitada de bruços, toda serelepe, com as pernocas abertas pensando que eu vinha pela porta. Fiquei ali olhando a dona da janela, achando graça de sua sem-vergonhice um pouco ultrapassada, até que a safada virou o rostinho na minha direção e me chamou numa rebolada, que com o movimento das ancas escancaradas fez cair um pingo descuidado de seu primeiro licor mensal. Pensa que ela avermelhou, leitor? Qual nada! Aí é que se assanhou de vez...Que marota.

Foi aí que começou esse meu fetiche. De gostar de menstruação. Eu sou tarado por menstruação. Aquela dos primeiros dias então, em que os coágulos se amontoam e fazem uma dança na calcinha das meninas mais apressadas fazendo manchar a roupa, é uma perdição. O meu negócio é esse. Só chupar, ao invés de morder. O sangue é bem menos que uma jugular, é verdade, mas não há prazer que pague. Pra morder você assusta a pessoa, é aquela gritaria, luta, e o IML fica lá com aquela cara de paisagem pra diagnosticar a causa mortis. Chupando eu me sinto mais novo, conquisto as moçoilas, dou prazer e ainda mato a fome. Cada refeição, uma diversão. Às vezes a festa é tanta que deixo-as gozadas na cama, finjo ir ao banheiro e sumo pelas janelinhas, com a boca ainda suja de sangue. Não são todas que deixam, mulher é complicada, faz aquela cara de “não acredito” quando eu peço, mas prazer todo mundo quer e no fim das contas ninguém recusa quando a pedida é bem feita.

Há muito tempo montei um açougue ali no Juvevê pra ninguém ficar mais perguntando das marcas de sangue na roupa e até na minha cara. Se bem que o sangue desse povo da capital é muito fino e aguado. Essa gente mais loirinha então cruz credo, é morder num dia, no outro eu suo fedido como um bêbado do Passeio Público.

E assim vai indo, né. Eu e os outros vampiros (estava achando que só tinha o da Ubaldino, é?) ficamos ali na Boca Maldita, engraxando o sapato e contando mentiras um pro outro. É, leitor, durante o dia mesmo. Esse negócio de que a gente só sai à noite é coisa da cabeça do Stoker! Eu, por exemplo, nunca tive castelo nem durmo em caixão, já pensou, e a minha claustrofobia como é que fica? Que mania de misturar ficção com realidade que esse povo tem... Falando nisso, dia desses fomos comer um pão de alho ali no Lucca Café só pra tirar um sarro, e na mesa ao lado uma mocinha folheava um livro sobre vampiros, as outras coleguinhas de colégio todas interessadas, só porque fizeram um filminho mequetrefe do assunto. Uma delas, toda séria, chamou a atenção da que lia, perguntando por que ela perdia tanto tempo acreditando numa besteira dessas de vampiro. A garota ficou ofendida, enfiou o livro na bolsa e foi embora. No seu movimento juvenil atordoado, deixou cair um absorvente no chão.

Eu, que não sou bobo, paguei o meu café e fui atrás dela.

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

Zansky
Outros trabalhos: www.zansky.com.br

12 de out de 2012

Uma Sátira

Conto: Cilene Tanaka
Arte: Danilo Oliveira





Ela esta lá sentadinha no biarticulado. Entra um rapaz pela porta 1, ela o olha e vê seus cabelos raspados, suas mãos sem anéis, calça suja de moletom surrado. Entra, ao mesmo tempo, um rapaz pela porta 2. Ela o olha caminhando meio rapper até a porta 3... porta 4...sentando-se: touca preta, sem anéis, calça jeans surrada.Vê alguma relação entre eles, mas inconsciente disto,  relaciona-os apenas ao restante da população pobre que anda de ônibus.
Um charme típico do menino mau. O de verdade que ataca para se defender. Ela é assim também, daí a identificação. Mas ela é mulher e nela as coisas se apresentam de maneira diferente: vestimenta, ironia, silêncio, e outras armas psicológicas da classe média.
Atrai-se pelo estereótipo tanto quanto todo o ibope da Cidade de Deus. Acha esta atração tão repreensível quanto engraçada pela mesma razão que nos faz rir das legendas em francês do filme brasileiro.
É como se a França tentasse traduzir nossa malandragem, o que temos de melhor. Nosso único trunfo sobre o biquinho e a poesia franceses. É como se toda a educada burguesia francesa do XIX não superasse o apelo sexual da pele morena brasileira. Como se sexo superasse toda a história da literatura e do teatro e das ciências e da filosofia e...e se apresentasse naquela fala que é sempre tão informal quanto sábia (Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra). Há muita sapiência na simplicidade, sabia? A relação entre nome e identidade é problema da psicologia, psicanálise, sociologia, literatura, filosofia e etc. desde o XVIII, sabia?
Não pensa isto tudo, só reage com olhares esquivos misto  de temor e atração. Olha até um ponto em que percebe que o olhado percebe estar sendo olhado. Até o ponto em que percebe que aquele ser humano é humano e, como ela, vê. Lembra do positivismo? Ela não. A partir daí já não é mais seguro observar, o observador interfere na ação do objeto e altera seu curso.
O primeiro rapaz para na porta um. Em pé. Começa a falar com o cobrador e ela não consegue ouvir nada. Estranha que a conversa não acabe logo. E vagarosamente (calma...ainda não) vagarosamente, forma a convicção de que algo está errado.
Continuam conversando. Nenhum deles sorri, não são amigos. O rapaz aperta os botões do painel, o motorista não o impede. Eles não olham ao redor, não procuram ajuda. Não acaba logo, não é mero pedido de informação. Não se cumprimentam com aperto de mãos, não se conhecem.
Ocorre a ela que pode descer do ônibus. Mas ele me viu olhando, pode perceber que desci com medo e ficar ofendido se não for bandido. Para não ofender, guarda o iphone no bolso falso, devagar e sem olhar ao redor, como se nada acontecesse, para não ofendê. Pensa se tem algum dinheiro, resolve guardá os vinte pila dentro do tênis, na dúvida. Está chegando seu ponto, faltam dois tubos. E se descer? Vai ser muito ofensivo. E se mudá de lugar? Nem pensar. Perguntar se tá tudo bem seria idiota. Gritá pro ônibus fugir pode ser mentira. E ligar para a polícia só se fosse retardada.
Em contra-partida, se ficar e ele for bandido, respeitou o cara errado. Mas também não pensa isto claramente, só reage. Reage pelo respeito. Não por respeito à pessoa do malaco. Por medo de ser vista como desrespeitosa. Onde já se viu? Tão bonitinha e sentando de perna aberta? Tão bem-educada e falando assim?
“O decoro as vezes nos coloca em paradoxos”, diria o teatro do séc. XVIII. Brincadeira, ele os forja. Lembrou-se dos limites, e isto pensou, não só reagiu. Os limites das coisas e das crenças. A bosta (menina bonita também fala palavrão) da tolerância que impede (impede?) a verdadeira existência das várias culturas. Tudo pode estar certo então nunca posso estar certa. Ninguém nunca está errado porque não há verdade absoluta. É feio xingar, filha. Porque? Por que é muito bonito.
E se o outro rapaz estiver junto no assalto? Não, não, muito desrespeito.
Olha em volta, ninguém parece assustado. Guarda o dinheiro sob a meia, devagar, pra não ofender. E se o outro estiver junto? Não, ele é só malaco. Pensa no computador que não dá pra salvar. Pensa no que fará quando ele chegar perto. E se o outro estiver junto? Credo. E se ele for só um malaco? Se tentar estuprá-la, vai chutar o saco, sem ofensa, claro. E se o outro estiver junto? Não pode nem ser malaco em paz, tadinho. Vai pedir para por o pinto na boca e, nada pessoal mas... vai mo-orde-er a-até-é arrancar. Nem que ele a mate. E se o outro tivé junto? Claro que ele tá, olha lá ele com a mão no bolso. Estupro, perdoe-me pela exagerada alteridade, mas não. Algumas verdades existem.  Se ele não pará de olhá em volta é porque tá junto. Se insinuá desrespeito sexual ou ofensa a algum querido meu, desculpe-me, senhor, vou ter de reagir. Apesar de que ele já insinuou, tá insinuando. Tá. Então, se realizá, oficialmente, de fato, desrespeito sexual a mim ou ofensa a algum querido meu, sinto muito. Tá olhando com muita segurança pra todo o ônibus. Algumas verdades existem. Tolerância é uma verdade estúpida. Olha em volta, todo mundo parece assustado. Só impressão.
Mas realizá oficialmente implica o que? Tipo quando começá a tirá a  própria calça ou me acertá um murro? Não...algo mais forte. Tipo arrancá a calcinha e atirá? Não dá pra estipulá um limite, tem que vê na hora. Mas a hora é agora, vai fazê o que? Tolera e vê no que dá. Ainda não é hora. Eles ainda não fizeram nada. Claro que fizeram, tão assaltando o onibus! Mas nem sei se são os dois. E se o outro só for suspeito porque é moreno? E se for ofensa sexual contra um querido teu e não contra você? E se for alguém tipo uma amigona da faculdade com quem você não fala há anos? Daí acho que não faço nada. Acho que ia tentá atrair a atenção pra mim, vê se ele me tolera. Na verdade, si atraísse a atenção pra mim, podia me fudê, né? Tolerância não é pra todo mundo. Acho que ia, sei lá, ia tentá pegá o telefone e ligá pra polícia. Mais será que isso não é intolerante? Ia tentá falá pro cara não fazê aquilo. Não sei, ui. Que foda. A gente não sabe quem é querido né?
Puta merda! Minhas últimas fotos tão no notebook! Não tenho cópia! Filha da puta.
Tá nervosa, parou de olhar os dois. Eles se esqueceram dela. Olha pela janela. Olha, olha. Pensa, pensa.
Chegô meu tubo. “NINGUÉM DESCE!!!!!!” – ele gritou. Mas ela já está na porta com o pé dentro do tubo. Corre, corre, corre. Olha pra trás, não vê nada. Corre. Entra no no Estação olhando pra trás apavorada. Corre, corre. Não precisa mais correr. Caralho. Anda rápido. Vô tê que atravessa este shopping intêro agora. E se tiverem me seguido. Olha pra trás. Não tão. Nem faria sentido mesmo. Olha pra trás de novo. Iam deixá de assaltá o ônibus inteiro só por minha causa?
Olha pra trás. Para e olha. Puta merda. Caralho. Ligo pra quem? Faço o que?
Vai embora sem ser registrada nos o índices de violência urbana.  

Danilo Oliveira
30 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com.

Cilene Tanaka
Nasceu em Curitiba, cidade onde reside e tece sua colcha de contos, crônicas e críticas. Aluna do Núcleo de Dramaturgia do SESC e habitante da Casa Selvática. Gosta de mistérios, barbáries, laços, óculos de armação branca e versos heptassílabos. Flâneur citadina que perambula nas fronteiras da ficção e realidade. Costuma emprestar seus olhos, corações e mentes para circunspecções sobre o teatro em www.gazetadopovo.com.br/blog/teatrofagia.