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2 de jul. de 2015

Barba ruiva

Conto: Diego Fortes
Ilustração: Francisco Gusso


Estou de pé. No sótão da casa. Minha casa? Sim, minha casa. Não tenho dúvida... Estou de pé no sótão fazendo o quê? Estou em minha cama. Ouço barulhos. Estalos que vêm de cima. Pantufas. Há um vulto na sombra. É um manequim. Não é um manequim! Está se mexendo! Faz sol. Estou no quintal. De pé. Vejo alguém que me olha da rua. Barba ruiva volumosa. Estou na rua. De pé. Vejo alguém que corta grama. É noite. Uma claraboia sem tranca. Múltiplos cortes. Sangro. Ele. Não sou eu quem sangra. De pé. Com uma faca vermelha na mão. A barba molhada. Não. Esta não é minha casa! Aconteceu de novo. 

31 de jul. de 2014

Dia de faxina

Conto: Luísa Bonin
Ilustração: Francisco Gusso



Me coçam as coxas graças às jeans úmidas que vesti de manhã. Estamos sem sol há dias e já preciso secar as calcinhas atrás da geladeira. Menti para Giana. A faxina é o que me sobra. Combinei com ela hoje, quarta-feira. Mora no centro. Com o tempo que gastaria no terceiro ônibus passo a roupa. Trintão a mais. Toco a campainha do vizinho pela terceira vez. Depois de apertar a dela umas dez vezes. Esse negócio é uma tristeza, ela diz. O prédio não tem elevador e as escadas de pedra têm aquelas fitas antiderrapantes mal colocadas e descolando. Tropeço duas vezes. Giana sobe na minha frente. Porta aberta. Um tapete, uma cadeira, um colchão e um cobertor. Hoje é meu último dia aqui, ela diz enquanto vem da cozinha com um balde e uma vassoura. Deixa o balde no chão e ascende um cigarro. Com fumaça na boca, tira um papel do bolso. Quadra 43, ela fala. Número 2, Cemitério Municipal. Sabe chegar lá? Pode ficar com o balde e a vassoura, ou jogar fora depois. É bom usar água sanitária, dilua um copo num litro d’agua. Não mais que isso. Passe o pano três vezes, por favor, com água sanitária nova. Na terceira, coloca a luva, e passa a água sanitária pura.  As chaves põe no vaso de flor, completa falando rouco enquanto me entrega o dinheiro e as chaves. Conto o dinheiro e tem os trintão a mais que combinei da roupa. Melhor não perguntar nada. Medo eu tenho de vivo, e uma lápide eu limpo rápido. Ainda volto pra casa a tempo de buscar meu filho no colégio e fazer almoço.
Saio do prédio e a chuva não para. Resolvo ir andando para o cemitério. Quadra 43. 5, 3, 2. Tá com a luz acesa. E é tudo menos uma lápide. Grande esse! Grita de longe o coveiro – eu acho. Mausoléu dos Bernini! Grita ele mais uma vez. Ficar cuidando de parente depois de morto só não deve ser pior porque ela tá me pagando para fazer isso. Abro a porta. Tem um metro quadrado do que eu chamaria de “antessala”, e a câmara principal com uns 5 metros quadrados, muitas velas derretidas e a parede e o chão verdes de mofo.
Água sanitária. Pano. Abstraindo o cemitério. Já tô acabando.  São 11h30min. Se eu termino rápido e faço bem são R$ 130 e ela pode me chamar de novo. É muito mofo. Vou demorar mais mas passo o pano pela terceira vez em tudo. Tá limpo mas tá sujo. Não faz sol. Vai continuar mofando. Já perdi a hora do colégio. Mas se eu sair agora chego a tempo de almoçar com meu filho. Deixo a chave do lado da porta, no vaso de barro. Mas agora tem uma flor no vaso. Duas. Olho pra trás e tem uma confusão de gente chegando perto de mim e colocando mais flores no vaso.
Foi ontem. Terça-feira. Ela escorregou na escada do prédio que morava. A chuva não para e nem os antiderrapantes deram conta. Giana morreu na hora, traumatismo craniano. Me contou a primeira senhora que colocou as flores no vaso. 


Luísa Bonin

2 de out. de 2012

O Dia V

Conto: Rafael Pesce
Ilustração: Francisco Gusso

O dia 6 de junho de 1944 ficou conhecido como o Dia D, o golpe final das tropas aliadas contra o regime nazista de Adolf Hitler. Mais de 155 mil homens dos exércitos americano, britânico e canadense lançaram-se em um ataque nas praias da Normandia, na França. Para os livros de história foi o começo do fim da Segunda Guerra Mundial, mas para mim, foi o início de uma nova vida, um ciclo que desbravaria a eternidade.

Meu nome é James McCovil, mas meus companheiros me chamavam de Jim. Fui casado com uma linda garçonete de nome Margareth, com a qual tive dois filhos. Deixei minha família no longínquo estado do Texas após meu alistamento militar em 1940. Tornei-me cabo do exército americano, pertencente ao 83° Regimento de Infantaria. Junto com centenas de milhares de soldados fiz parte da ofensiva na Normandia.   

Daquele dia me lembro da tensão constante. O olhar perdido de alguns companheiros contrastava com o sangue nos olhos de outros. Estávamos todos preparados para morrer, sem medo de nosso destino. Os tiros e explosões chegavam mais perto a cada metro que o barco se aproximava da praia. Não demorou muito para as primeiras embarcações serem explodidas. Nessa hora, apenas olhava fixamente para frente, rezando internamente para a próxima bala não atingir meu corpo. Assim que minhas botas tocaram os primeiros grãos de areia, corri em busca de um ponto de defesa. Nossa companhia foi uma das primeiras a desembarcar. Tínhamos a missão de tomar dois morteiros localizados no norte da praia, facilitando, assim, a locomoção das tropas. Dividimos nossa força. Vinte homens avançaram em lados opostos na tentativa de surpreender o inimigo. Fiz parte do ataque pelo flanco leste. Costeamos o alvo, em bloco. Tudo parecia correr como planejado, mas foi então que ouvi gritos por perto. Meus dois companheiros da direita caíram após tiros certeiros, que perfuraram seus capacetes sem dificuldade. Pouco tempo depois outros três combatentes foram alvejados, antes que pudessem reagir. Percebi que havíamos caído em uma emboscada. A partir deste momento o terror tomou conta do resto da tropa. Sem saber o que fazer, tentei correr o mais rápido possível em busca de algum abrigo momentâneo. Enquanto minhas pernas tentavam carregar o meu corpo, ainda infectado pelo pavor, ouvi um zunido. Na minha frente caiu uma granada. Booooooooooooooooooooom! Barulho ensurdecedor e falta de visão total.

*  *  *

Acordei em uma cama simples, de madeira. Tentei me levantar, ainda assustado, quando a vi: uma linda mulher, de pele branca e longos cabelos negros que envolviam seus ombros como uma espécie de manto. O olhar dela me petrificou, mas o sorriso, tímido no canto da boca, me passou certa tranquilidade. Ela parecia um anjo. Pensei que estava morto, só poderia estar no céu. Era a única explicação possível.

- Sente-se bem? – Perguntou a mulher calmamente.
- Minha cabeça dói. Onde estou? O que aconteceu comigo? – Um ruído insistente ainda passeava pela minha cabeça.
- Digamos que você está a salvo...
- Quem é você?
- Meu nome é Annabel. Sou uma enfermeira, quer dizer, eu era uma enfermeira. Mas ainda sei como cuidar de um soldado.
- Como assim? Estou em um hospital militar?
- Não, essa é a minha casa. Fique tranquilo, as poucas pessoas que cruzam minha porta estão a salvo.

A cabana era escura, pouco ventilada. Apenas uma janela, não muito grande, permitia um vislumbre da parte externa da casa. Alguns móveis, gastos pela ação do tempo, ornamentavam o lugar. Era noite, um estranho silêncio insistia em me manter calmo. Memórias antigas apareciam como flashes na frente dos meus olhos. Neste momento, pensei na minha terra natal, em tudo que tinha ficado para trás. Uma lágrima escorreu em meu rosto. Annabel não entendia o porquê daquilo.

- Você está bem soldado?
- Sim, apenas lembranças do passado. Esses pensamentos sempre me assombram.
- Fantasmas. Fantasmas de outrora. Diga-me, o que o atormenta?
- Minha mulher, Maggie. Deixei-a nos Estados Unidos. Nosso casamento não ia bem, desconfiava que ela me traísse. Diziam que muitos homens do bairro experimentaram dos prazeres dela. Não conseguia encontrar mais emprego. O dinheiro se tornou escasso. Talvez seja por isso que ela tenha buscado a felicidade nos braços de outros homens. Na época não queria acreditar, mas alguns anos de solidão na guerra foram suficientes para abrir meus olhos. Se algum dia eu voltar para meu país sei que ela estará com outro. E as crianças?  Meu Deus! Christopher tinha quatro anos quando parti. Não tive nem tempo de jogar baseball com meu filho. Annie tinha apenas um ano, perdi o primeiro passo dela. Hoje os dois nem se lembram do pai que um dia tiveram – a intensidade das lágrimas aumentou neste momento, mas continuei a falar - A guerra é uma fuga. Claro, queria ajudar meu país, mas cruzar o mar e pegar em armas foi apenas uma desculpa para escapar de uma realidade que me trazia tormento. Agora, tudo que penso é terminar com essa guerra e matar quantos nazistas eu puder. Quem sabe um dia eu consiga viver em paz comigo mesmo.

Annabel estava com uma expressão consternada. Por um momento pensei que ela iria chorar. Mas a pele pálida permanecia imóvel. Alguns segundos silenciosos inundaram o ar até ela finalmente responder:

 - Eu sei como você se sente caro soldado. Minha guerra não foi essa, muito menos a antecessora, mas do outro lado também estavam os germânicos. Uma guerra entre a França e a então Prússia. Os homens lutaram bravamente na frente de batalha. Para nós, mulheres, sobrava o trabalho de cuidar dos feridos. Perdi meu marido e dois irmãos na Batalha de Sedan. Infelizmente, ou felizmente, Deus nunca me deu a chance de ter um filho. Estava completamente sozinha no mundo. Quando a guerra terminou, sobrou pouca coisa para o lado perdedor, no qual eu me encontrava. Sem ver sentido em minha vida, tentei me matar. Pendurei uma corda em uma árvore, coloquei-a no meu pescoço e esvaziei a mente. Tudo deveria estar acabado em poucos segundos. Mas um salvador apareceu e deu uma benção que me salvou. Terminar com minha vida não era mais uma opção. Uma nova sede tomou conta do meu corpo. Durante muito tempo passei a perseguir qualquer prussiano que estivesse envolvido na antiga guerra. E isso me satisfez por um tempo. Com o passar dos anos fui procurando motivações, desafios e...almas para compartilhar esses momentos.

Fiquei paralisado perante a história de Annabel. Nunca fui um grande conhecedor de história. Sinceramente não sabia nem quando ou por qual motivo essa outra guerra havia acontecido. A aparência jovem de minha anfitriã indicava que o conflito não ocorrera há muito tempo. Era o que eu pensava.

- Soldado, você pode ver que os martírios da guerra não foram apenas um escape para você.
- Eu sei, vejo isso claramente. Queria fazer esse vazio sumir. Sinto um buraco negro crescendo e tomando conta de cada centímetro do meu corpo. Não sei mais o que pensar, nem o que fazer. – Nesse momento as lágrimas verteram de ambos os olhos, incessantemente. 
- Acho que só tem uma solução para isso. Estou pronta para lhe dar uma bênção que há um século me foi ofertada.

Quando olhei para Annabel, sua expressão havia mudado. O sorriso, antes belo, ganhou duas presas, que contrastavam com a penumbra da noite. Ela mordeu o meu pescoço, e antes que a última lágrima tocasse o chão, eu me encontrava inconsciente. Os próximos dias foram de agonia e sofrimento, mas após esse teste do tempo eu estava pronto. Não sentia mais dor, apenas uma sede constante por sangue.


Rafael Pesce 
Nasceu em 1985 na cidade de Três Passos, interior do Rio Grande do Sul. Mudou-se para Porto Alegre em 2003, onde se formou em Jornalismo pela PUC-RS e mora até hoje. Em sua estante de livros Nick Hornby e J.R.R Tolkien brigam constantemente pelo maior espaço, mas agora ganharam a concorrência voraz de George R.R Martin. Devoto do gremismo, não dispensa um café ou um chimarrão bem quente.  
Seus contos podem ser lidos em: http://contosdefleming.blogspot.com

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: flickr.com/photos/volumesvirtuais 

27 de jul. de 2012

Limoeiro

Arte: Francisco Gusso
Conto: Dragomir Kephas



O sujeito taciturno, habitante solitário daquela paisagem desolada, seguia por uma trilha rumo à civilização para adquirir mantimentos. Em certa altura do trajeto deparou-se com uma carroça que havia deslizado e estava encalhada em um barranco. Uma mula jazia suspensa pelo dorso e, caído sobre o assoalho da carroça, estava um padre abraçado a uma grande cruz de madeira. O andarilho verificou que o clérigo estava morto, embora não apresentasse ferimentos. Com dificuldade, desvencilhou a cruz dos dedos do defunto, foi quando percebeu que o objeto era oco; algo sacolejava em seu interior. Na base do artefato havia um orifício, uma fechadura, que foi aberta com a chave que o eremita encontrou pendurada no pescoço do padre. A base da cruz desprendeu-se e de dentro do objeto o homem retirou um limão; seco, duro como pedra. Enquanto protegia o padre dos urubus, ajeitando-o sob o assento da carroça, negligenciou a fruta que caiu em uma fissura do solo erodido. Continuou seu caminho, pretendia retornar com ajuda para levar o padre ao cemitério da vila.
Dois dias depois, o eremita retornou acompanhado pelo pároco local e dois policiais emprestados pelo delegado. Para espanto do homem solitário, um frondoso limoeiro havia crescido junto à carroça. A planta devia ter uns três metros de altura, pela sua avaliação. A pequena fissura, em que o fruto havia caído, era agora uma fenda tão grande, que serviria para ocultar o cadáver da mula e ainda sobraria muito espaço. Perplexo, tentou relatar os fatos sem parecer insensato, mas foi ignorado. O padre morto certamente priorizava a atenção daqueles que o acompanhavam.
Primeiro desprenderam a mula e arrastaram-na para a fenda no solo, conforme previsto pelo eremita. Então, nivelaram a carroça, de modo a conduzir o padre para a vila em seu interior. Para isso haviam trazido o cavalo da paróquia. O esforço exaustivo sob o calor do pleno sol levou um dos policiais a experimentar um daqueles limões. Espantou-se com a suculência e doçura da fruta. Todos, exceto o ermitão, entregaram-se ao deleite oferecido pelo limoeiro. O homem simples tentou alertar novamente, sobre o mistério daquela árvore, mas foi ignorado mais uma vez.
Em poucos minutos, aqueles que haviam provado as frutas começaram a queixar-se de uma sede aguda. Esvaziaram seus cantis e começaram a disputar uns pela água dos outros, primeiro com argumentos, depois com violência. O eremita jogou seu cantil para eles e, enquanto engalfinhavam-se pela água, fugiu e escondeu-se a uma distância segura. Ele ouviu tiros, gritos; tiros novamente. Mesmo com o silêncio total, aguardou quase até o anoitecer para verificar os fatos. Deparou-se com um horror sem precedentes. O pároco, um policial e o cavalo estavam mortos. O segundo policial rastejava-se alvejado por tiros nas pernas, ele revirava as entranhas do cavalo, sugando-lhe o sangue freneticamente. As vísceras dos outros cadáveres estavam espalhadas pela trilha, quase sem sangue, praticamente secas. O eremita aproximou-se com cautela para não ser ouvido e matou o policial com uma coronhada de fuzil na cabeça.
Todos os cadáveres couberam na fenda junto ao limoeiro. O eremita terminou de sepultá-los cobrindo-os com terra. A cruz de madeira, que pertencia ao padre forasteiro, ele usou para demarcar aquele túmulo coletivo. Ateou fogo ao limoeiro, fez uma prece para que o mesmo morresse e partiu para nunca mais voltar.

Dragomir Kephas 
Colaborador da revista Lodo, desde 1958.

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: franciscogussoarts.blogspot.com 

2 de abr. de 2012

O julgamento de Godard

Texto: Vanessa Rodrigues
Ilustração: Francisco Gusso


Tudo o que você precisa é de uma arma e de uma garota

“E então, qual de nós é mais bonita?”.
E olham-se, as três. Como se para mim fosse fácil assumir minha predileção por ela. É mais que polidez. Tem certos momentos na vida de um homem, bem, tem certos momentos que não é possível escolher entre Anna e Brigitte. Entre Brigitte e Jeannie. Entre a monogamia ou a liberdade. Entre o amor e.
O cinema.
Café. Paris. Noite. Eu de frente para Anna e Jeannie. Não apareço. O plano é simples, sem movimento. Pires sujos de café sobre a mesa. Cinzas de cigarro. Anna com cabelo preso no alto da cabeça, linda sob a luz amarela. Vestia azul? Verde? Nunca a ouvi gargalhar. Xícaras, copos de água, papéis anotados. Anna.
Café. Paris. Mesma noite. Jeannie vira-se para chamar a garçonete. Aquela nuca, o cabelo curto. Vestida à la marinière, as omoplatas. Nunca desejei tanto um par de ossos.
A porta do café se abre. Todos voltam-se à Brigitte, linda, casaco de pele marrom, batendo a neve do cabelo, louro, até os ombros. Entrega o casaco ao garçom. Olha para nossa mesa, acena.
Senta-se. Eu, de frente agora para as três mulheres mais importantes da minha vida.
“De que falavam, meninos? Por favor, um café puro, querida.”
“Falávamos da beleza!”
“Ora, se por acaso é um homem de falar de belezas...”
“Perguntávamos pra Jean-Luc qual de nós é a mais bonita.”
“Jeannie, você sempre provocando...”
“Não é mesmo, Anna, a gente perguntou pra ele, mas não soube responder.”
“Sim. Mas já me cansei dessa brincadeira.”
“Anna, mon amour, é só um jogo, sabe que sou só teu.”
“A monogamia é coisa de americanos!”
“Ah, Brigitte, Brigitte, desde que leu Sartre passou a ter ideias deliciosas.”
“E então, querido diretor, quem de nós é a mais bonita?”
“Já disse que cansei disso. Não seja chata, Jeannie.”
O clima pesa. Anna me olha fixamente. Sim, vamos embora querida, mas deixa eu terminar meu drink, meu cigarro, é Paris e a noite... Mas não digo nada. Brigitte e Jeannie rindo escondidas, sorriam molecas para os cavalheiros da mesa do lado. Cavalheiros, a quem engano. Dois ou três senhores casados que sonharão com minhas garotas durante o banho, sem qualquer elegância. O gordo da esquerda derruba molho na camisa, que patético. Sim, querida, nós já vamos.
“Não sei porque está aborrecida, chérie. Jean-Luc escolheu você, é com você que dorme todas as noites, não achei que ficaria tão ofendida.”
“Não insista, Brigitte, Anna não está satisfeita em lustrar os sapatos do Godard!”
“O que disse? Repete, sua putaine.
 Anna se joga sobre Jeannie. Ah, as mulheres. Brigitte afasta-se da confusão, mas tropeça nas garotas e entra na briga também. Ninguém reage à luta? Estaria delirando? Não, o garçom se desvia e olha para o chão, evita o empecilho e sem derrubar sequer uma gota de café entrega o pedido à mesa 22. Eu não reajo. Penso nos rótulos das garrafas de conhaque, na neve lá de fora, o natal. Acendo outro cigarro. O lustre desse café sempre foi este? Que horas são? Nove horas? Meia-noite? Por mim passam três garotas de minissaia. Sou um canalha, devem ter 14 anos. Pedem milk-shakes, clichês. O gordo da mesa da direita pede outro prato. Vulgar. Os rótulos das garrafas. O espelho nas prateleiras. Mais um cigarro.
E as garotas? Ainda brigam? Brigitte está ferida. Escorre um filete vermelho no canto da boca. Chegam mais dois casais. Passam sobre Brigitte mas não reagem.
Encosto no balcão e peço um conhaque. Jeannie agoniza, ao que parece. Pelo menos não gritam mais. As garotas de minissaia acenam. Pedem cigarros.
Vou em direção a mesa das garotas. Passo pela Jeannie, está mesmo bastante ferida. Parece grave.
E Anna, onde estará?
Acendo os cigarros para as garotas. Uma. Duas.
“Anna, querida, onde estava?”
Anna está com o vestido manchado. Vinho e sangue, acho.
Três cigarros acesos. Acendo o meu.
Anna me esfaqueia no pescoço. O sangue jorra forte na mesa das garotas. Elas não percebem e acenam.
O filme de fato passa, mas não há tempo de anotar. Teria sido uma boa vida. Acho.


Vanessa Rodrigues
O blog dela é o vanrodrigues.wordpress.com

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://franciscogussoarts.blogspot.com 

16 de fev. de 2012

Que monstro o quê

Arte: Francisco Gusso
Texto: Fabiano Vianna




Notícia de carnaval:
Matou a guria e foi pro Passeio Público.
Camuflou-se entre os arbustos, dias virando musgo, comendo ração de pelicano e pedaços de fotografias lambe-lambe.
Não era monstro nada, disse o frade.
Tadinha da garota Nike que treinava corrida distraída com fone no ouvido.
O da Bicicletada também se assustou.
Carlos Machado, Jaques Brand...
“Achei até que fosse um bicho”.
O delegado Tavares com gravata de café.
Ventilador desligado, em Curitiba não tem muito uso.
“Não fui eu que matei não senhor. Minha mão que foi guiada”
O capuchinho das Mercês com o terço e o livro em mãos.
Saiu no jornal que o monstro do pântano vagava pelo parque à noite.
Walking Mud: está até no Youtube.
Pensei que o lodo tinha finalmente vindo à tona.
E o sujeitinho se entregou, arrependido.
“Que desgraceira, minha vida até que era boa”.
Foi lá e desenterrou a faquinha com sangue no pé do plátano.
“O corpo joguei no Rio Belém”.

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://franciscogussoarts.blogspot.com 

Fabiano Vianna *
Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2.
 Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também o site de fotonovelas www.crepusculo.com.br e o blog  www.contosdapolpa.blogspot.com.

* No meu blog pessoal há uma outra versão deste conto, chamada" O monstro que o frade capuchinho foi chamado para lidar". Esta maior foi , na verdade, a 1ª versão, com mais detalhes. Depois, resolvi resumir ao máximo as informações chegando nesta, enxuta, que publiquei na Lama. Para ler a 1ª, clique aqui: http://www.contosdapolpa.blogspot.com. (Fabiano Vianna)

19 de dez. de 2011

O Simbionte

Texto: Daniel Gonçalves
Arte: Francisco Gusso


Quando criança, eu costumava atravessar paredes. Acontecia à noite, após minha família recolher-se para o sono.  Recordo-me das sensações que precediam a experiência  a casa escura, o tic-tac do relógio, o murmúrio distante do refrigerador. Então, eu fixava meus olhos no teto e, com alguma concentração, meu corpo formigava, minha audição cessava e, por fim, havia o desdobramento de meu corpo.

Em minha manifestação etérea eu transitava livremente de construção em construção, rua após rua. Cada dia um pouco mais distante, mas nunca além de onde me fosse familiar. Eu tinha pouco menos de 10 anos e, apesar de fascinado, temia pelo que me pudesse acontecer. Nesses passeios, o mundo parecia outro.  Era noite, mas uma tênue luz crepuscular pairava no horizonte, para qualquer lado que eu olhasse; e no centro da abóboda celeste, as estrelas brilhavam como luzes de Natal. As construções eram vultos translúcidos, das quais era possível distinguir a argamassa, os tijolos, encanamentos, vigas, telhas  tudo. E ainda, outras edificações e vegetação desconhecidas se sobrepunham, como camadas holográficas, desconexas e evanescentes. As pessoas, eu percebia como figuras sem definição, mas com uma luminescência característica. Um som grave e perene parecia chegar das estrelas, emanado das engrenagens do universo.

Em um desses passeios, que acabou por ser o último, vi uma pessoa caminhando em minha direção. Fiquei imóvel, esperando que passasse ao largo  mas não. Aquela pessoa, ou entidade desconhecida, não brilhava como as demais. Ela parou ao meu lado e voltou-se para mim. Pude distinguir seus olhos em meio à matéria enevoada.  Apavorado, eu corri e, no meio do trajeto, perdi os sentidos. Quando recobrei minha consciência, já estava em minha cama, olhando para o teto. Havia um peso sobre minhas pernas  um fardo terrível. Um homem disforme que me observava. Possuía um bigode negro que lhe cobria a boca; seu nariz, que começava no topo da testa, era tão largo quanto o rosto; seus olhos eram pequenas esferas negras; o cabelo parecia uma pelagem animal, grosso e ouriçado. Sem que eu pudesse enxergar seus lábios, ele me disse:
 Menino, se dormir eu mato você!  Eu queria gritar, mas temia as consequencias. Lutei contra o sono o quanto pude e consegui alcançar o sol da manhã. O homem partiu.

Passei aquele dia exaurido, acuado e febril. Tentei descansar durante a tarde, mas apenas consegui cochilar entrecortadamente. Angustiado, subtraí os minutos até o momento de ir para a cama. Adiei aquilo o quanto pude; lembro de ter rezado muito antes de fechar os olhos. Não demorou, para que o peso sobre minhas pernas me fizesse despertar. Novamente aquele homem sinistro:
 Menino, se dormir eu mato você!  me olhava num misto de gana e escárnio.
Resisti o quanto pude, mas não suportei o peso das pálpebras; fui surpreendido com duas mãos monstruosas esganando meu pescoço, me afundando no travesseiro. O sorriso maléfico. Tudo ficou escuro e me senti em queda livre, até atingir o chão de terra macia. Ofegante, tentei enxergar alguma coisa em meio aquele breu    as lágrimas corriam mudas. De repente, ouvi um gargarejar grotesco e uma chama se acendeu a meia altura do solo. Era uma espécie de cetro, com um globo no ápice, de onde o fogo crepitava. A luminosidade deu forma ao cômodo rigorosamente cúbico, aparentemente esculpido dentro da terra. Olhei para cima e não havia abertura por onde eu pudesse ter caído. O chão, as paredes e o teto exibiam camadas sedimentares e veios de pedra, milimetricamente aplainados. Gritei aterrorizado, quando na minha frente surgiu uma criatura verde imensa. Suas antenas relavam o teto. Assemelhava-se a um gafanhoto, ereto sobre as quatro patas traseiras. As patas dianteiras ele usava como mãos. Da boca enorme, pendia uma massa viscosa e clara, uma espécie de saliva cristalizada, fendida por seus dentes amarelos e pontiagudos. Abaixo dessa baba, o ventre protuberante e segmentado exibia tons de rosa e azul. Os olhos, enormes, tinham íris cor de sangue.

Aproximou-se  a gosma borbulhando pela boca. Fixou seus olhos nos meus e perguntou com uma voz improvável:
 Quer voltar lá para cima?
Assenti com a cabeça.
 Só existe uma maneira de conquistar isso, e não é gratuita. Eu devo acompanhá-lo e coabitar seu corpo físico. Muito embora, eu pudesse ocultar isso de você, pois dificilmente perceberá minha presença. Apenas utilizarei seus sentidos como objeto de estudo. Você tem o direito de não aceitar essa proposta, mas saiba que você amanhecerá um cadáver e, então, deverá trilhar um novo caminho.
— Aceitei a oferta sem hesitações.
O gafanhoto gigante raspou a pata na parede e uma passagem se abriu. Havia uma escadaria ascendente, aparentemente infinita. Após subir algumas dezenas de degraus, despertei em minha cama.

Sigo com uma vida normal. Porém, muitas vezes sou acometido por pensamentos bizarros e posso sentir meus dentes serrilhados com a ponta da língua. Outras vezes, enraivecido, sinto minha boca preencher-se de uma saliva espessa e venenosa, que me impede de articular qualquer palavra. Fico atento a esses sinais e não fraquejo. A criatura me subestimou – tenho disciplina suficiente para não deixá-la eclodir. 

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado e pai de três filhos. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA, seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br .  Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site http://franciscogussoarts.blogspot.com