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10 de out. de 2012

Gozo Besta

Conto: Milene Lopes Dias
Ilustração 1 (cima): Hafaell Pereira    
Ilustração 2 (baixo): Elis Marina B 


                      

     Você chega em casa e seu marido obeso está esparramado no sofá da sala, bebendo cerveja e assistindo bundas na tv. Você olha pra ele e sente náuseas. Nem dá pra acreditar que aquele cavalheiro por quem você se apaixonou tenha se transformado nesse homem nojento que arrota sem cerimônia enquanto te olha com esse maldito ar indiferente.
    Nem na cama ele não presta mais. Faz-se uma copulação onde você só sente prazer porque é muito sensível e sempre se entrega de corpo e alma. Você faz amor! Amor, amor! Você entra em comunhão com o Universo a cada gozo! Ele transa. Fantasia outras mulheres, se excita, enfia em você e goza. Um gozo besta, sem nenhuma intensidade. A seguir, se é noite, ronca. Se é dia, te beija a boca já sem entusiasmo, murmura um "eu te amo" fingindo sentimento - porque, ah!, só você sabe o quanto ele finge sentimentos! - e vai pro chuveiro já conversando sobre os problemas dos negócios. Você deita nua no tapete de seu quarto, ainda delirante por seus merecidos orgasmos. Enquanto o vê sair do banho para barbear-se, observa com crescente desprezo o modo como ele admira e se orgulha das próprias banhas. Você entra no banheiro, ele bate em sua bunda te chamando de alguma mulher da mídia e sorri daquele modo malicioso. "Tu é mesmo boa, mulher!".
     Você quer vomitar. Já é demais! Você é uma heroína, se desdobra entre filhos, trabalho, casa. Ah!, a casa! No início vocês eram jovens e ele gostava de ser admirado por aceitar e pôr em prática a ideia da divisão das tarefas domésticas. Tudo estava por escrito e vocês revezavam tarefas para não ficar cansativo demais para ambos. Mas depois, com a promoção no emprego dele você compreendeu que era muito esgotante que ele pusesse a roupa na máquina de lavar ou passasse aspirador de pó no tapete ao chegar do trabalho. Além disso vocês teriam uma empregada, já que ele ganharia mais.
    Mas na verdade nunca houve empregada, pois o seu dinheiro não deu e seu marido sempre inventando desculpas para não arranjarem uma.
    Então todo o serviço doméstico sobrou pra você. Seus filhos até poderiam ajudá-la um pouco, pois tem 10 e 13, mas seu marido argumenta que ele ainda é muito novo para certos serviços, quando na verdade você sabe que ele não quer ver o "homenzinho" da casa limpando privada. Em compensação dá-lhe revistas de bundas e peitos.
    Olhando pro espelho, pros próprios olhos. Ele se gaba tanto de seus olhos verdes: "Ah, que vontade de matá-lo. Como o desprezo."
Seu marido dorme. Você se deita ao seu lado e o abraça, como todas as noites. Desta vez não diz que o ama. Com cuidado para que ele não acorde, amarra suas mãos na cabeceira da cama. Prende seus pés nos pés da cama. Ele resmunga, diz algo ininteligível. Mas seu sono é profundo.Você senta em cima do homem. Sabe que seus filhos estão tranquilos a essa hora, em São Paulo, de férias.O alicate está em sua mão direita. Você está pronta!
     Por onde começar? Decepar seu pênis ou furar seus lindos olhos verdes? De que modo ele sofrerá? Você se delicia com a idéia de imagina-lo gritando de dor... Você imagina o sangue escorrendo, molhando toda a cama, ensopando lençóis, colchão, travesseiro...
    Nesse momento percebe seu pau ereto. E percebe o próprio clitóris molhado de tesão. Pensa que talvez um gozo final antes da prisão - 
pois você sabe que será presa após decepar seu pênis e furar seus olhos- seria uma vingança gostosa.
    Rasga rápido a calcinha, abaixa-lhe a cueca e senta fundo no desejado pau. Seu marido acorda e curte a situação, embora não entenda nada, pois você nunca foi sadomasoquista, pelo menos não com ele. Então o brocha goza. Você pira: "É agora! É esse o momento!" E quer executar seu plano.

-Ei, amor, não estamos em “Instinto Selvagem”, eu já gozei, acabou a brincadeira. Vamos, me desamarre! E abaixe esse alicatinho!

Você se sente ridícula. Não tem mais vinte anos, não é loira e odeia o tal filme. Droga, seu plano já era! Você deixa o alicate cair, sai de cima, veste sua camisola. Apática. Nenhuma lágrima, nenhuma expressão. O vagabundo sem entender bulhufas pede que o desamarre.Você sai do quarto. O marido chama para desamarrá-lo. Você sai. Você dá partida no carro. Ele fica berrando seu nome com ódio. Seus pés pesam sobre o acelerador. É madrugada. Há um carro de polícia na sua cola. Você pára o carro, tira a camisola. O guarda te olha espantadíssimo. Ameaça te prender por atentado ao pudor. "Isso ainda existe?", você pergunta sorrindo. "Existe". Mas você sabe o que ele quer. Você abre a porta. “Hum... como você é linda...” Você abre as pernas. Abre seu espírito para um coito desajeitado num carro de motor econômico.
      Depois o policial vai embora, dizendo pra dirigir com cuidado. Sem orgasmo e sem roupa, você volta pra casa. A essa altura o diabo gordo daria um jeito de chamar alguém para soltá-lo. Um vizinho, talvez. Não é tempo de perguntas. O fato é que o marido te olha sem saber o que pensar ou sentir, de pé, braços cruzados e boca aberta. Pela primeira vez em tanto tempo a sala estaria num silêncio oco: sem TV nem som, nem brigas por controle remoto. Você observa a cena, nua, cabelos embaraçados, cara de quem “transou e não gozou". Queria chorar. Mas você não pode. Sabe o quanto chorará depois, sozinha, trancada no banheiro.
- Eu quero o divórcio. Você disse. Você quem disse. O marido esboça uma articulação de palavra, mas a voz não sai.
Está muito espantado. Só te olha. As mãos se descruzam e caem ao lado do corpo, encurvando seus ombros. Mas não se move. Permanece lá em pé num silêncio estarrecedor. Divórcio. Separação de bens, de filhos, de almas. Foi você quem quis. Agora fica querendo chorar, me olhando fixo no fundo dos olhos, dos meus olhos.
-Ainda te quebro em mil pedaços, espelho maldito!






Milene Lopes Dias 
Palhaça Sombrinha do grupo curitibano Cia dos Palhaços. Também é atriz e contadora de histórias e atua em espetáculos infantis com outros grupos. Ama escrever e deseja ser escritora desde criança. Site: www.ciadospalhacos.com.br

Hafaell Pereira
Conheça mais de seu trabalho em: flickr.com/photos/hafaell

30 de jul. de 2012

C'est la vie

Ilustração: Elis Marina B
Conto: Diego Gianni

Um ruído horrendo.
Um gemido, coisa assim. Não era humano.
O homem gordo, calvo e de meia idade acendeu o abajur, entre o sono e o susto. O relógio mostrou em cor vermelha feita os seus olhos: três da manhã. Um horário maldito para quem sofre de insônia, dorme a base de tarja preta e precisa estar no terminal de ônibus as seis e meia da matina para ir rumo a um trabalho qualquer. Que merda de pesadelo escroto.
Mas então...o som novamente,
feito choro de criança febril e convulsiva.
Não era um pesadelo, não era a porra de um pesadelo!
Levantou da cama então, ele, o recém viúvo obeso, calçou os chinelos, saiu do quarto e desceu a escadaria, guiado pelo barulho estridente. O som vinha da cozinha, iluminada pela luz da geladeira que alguém deixou aberta.

Mas quem? Na casa ampla e fria, agora só moravam ele e a filha, um anjo de menina.

Foi se arrastando receoso até a porta da cozinha, preparado para sei lá o quê.
Besteira.
Nada poderia tê-lo preparado para aquela imagem.

Esqueci de mencionar que o gordo tinha um gato. Ele e a falecida esposa deram o gato de presente para Doralice quando ela tinha o que...dois aninhos?
Agora era um gato meio idoso e mole, de doze primaveras.
Era. Não é mais.

No chão da cozinha, o corpo do pobre gato coberto de sangue. O bicho ainda chegou a gemer mais uma vez, uma última vez, quando o dono entrou na cozinha e ficou ali, boquiaberto, a olhar para o animal agonizando.
Passado o choque da primeira impressão, se aproximou do gato para ver o que tinha acontecido. E então pisou em algo viscoso e escorregadio: o pênis do gato. Era dali que vinha a hemorragia, a poça de sangue, a agonia do infeliz.

Não havia sido um acidente.

Subiu correndo para o quarto ao lado do seu, o quarto do seu anjinho, da meio órfã Doralice. Ela dormia. Estava bem. Parecia bem.
Decidiu não acordar a filha e tornou a fechar a porta do quarto, lentamente, como quem quer proteger alguém que ama da crueldade do mundo. Sabia que a filha gostava do gato como se fosse um filho. Como daria esta notícia para ela no dia seguinte? Não fazia nem seis meses que enxugou os olhos de Doralice enquanto baixavam para baixo de sete palmos o caixão preto e ordinário da mãe, que era um amor de pessoa, muito carinhosa com a filha, mas fumou demais, bebeu demais.     

C'est la vie. É a vida.

Voltou para a cozinha e tratou de limpar o caos, esfregar do ladrilho as manchas secas e rubras do massacre. Depois trataria de resolver o mistério, supondo que tudo aquilo fosse real.
Uma pena.
Se tivesse, por algum motivo, por qualquer resquício de desconfiança ou intuição, olhado debaixo da cama da filha, veria uma faca de cozinha suja de sangue.
Doralice dormia mesmo. Serenamente.

Mentira seja mal dita, Doralice recebeu bem a notícia. Relativamente. Chorou nos braços do pai, mas não fez escarcéu. Já era uma moça de treze anos, não era mais “o anjinho do papai”. E ademais, pra quem já perdera a mãe, com o perdão da palavra, o gato é que se foda.
Já fazia meses, amigos notaram, que Doralice parecia anestesiada. Passada a tristeza pela morte da mãe, sua fonte de lágrimas apodreceu. Andava feito zumbi, respondia as coisas automaticamente, qualquer notícia ruim ou imprevista ela respondia sempre com o mesmo gesto, o mesmo dar de ombros: tanto faz, é a vida.

Na madrugada de 28 de julho de 2012, Doralice, a sonâmbula, desceu a escadaria vagarosamente, andou até a pia da cozinha, pegou uma faca e foi indo, indo, indo...indo em direção ao quarto do pai.

Ficou de pé, parada ao lado da cama, “olhando” o corpo do pai em repouso. O velho havia dado pra beber, era seu jeito de lidar com a dor.
E que dor.
Doralice cravou a faca mal afiada nos testículos do pai, que abriu os olhos e urrou de aflição. Olhou ofegante e apavorado para o anjo na sua frente, o seu anjo, a sua menina.

“Mamãe abusava de mim”, sussurrou antes de decepar a cabeça do pênis do progenitor. Feito morta-viva, largou a faca no chão, voltou para sua cama e deitou. Segundos depois, entrou em sono ainda mais profundo. Dormia, serena.

Doralice, hoje detida em um manicômio, reagiu bem a sua prisão.
Relativamente.
Ela, que estava sonâmbula, que não havia feito nada de forma consciente, mal pode acreditar quando o advogado da família contou para ela os detalhes. Por dentro, ela pensou: não posso acreditar que castrei meu pai. E depois, mais surpresa ainda, conjeturou: não posso acreditar que eu castrei meu gato!  
Mas se entristecer, não entristeceu. O advogado pago pelos avós da menina prometeu que ia fazer de tudo para reverter à situação, e que logo ela estaria livre, que nada justificava o clausulo de uma garota tão jovem, com tanta vida pela frente e coisa e tal.
Mas Doralice respondia sempre com o mesmo gesto, o mesmo dar de ombros: tanto faz, é a vida.

C'est la vie.

Diego Gianni
Nasceu em 1.982, na capital de São Paulo. Mudou com a família para Curitiba ainda na infância e começou a escrever peças de teatro em 2.004. No período de seis anos, escreveu mais de cinquenta peças teatrais que foram apresentadas por diversas companhias de teatro em vários estados. Ganhou prêmios de melhor texto conferidos pela Cena Hum (Academia de Artes Cênicas) e também pela Fundação Cultural de Curitiba. 
Tem contos publicados em jornais e revistas e posta textos semanalmente em blog´s e sites, tais como tracasemcedilha.blogspot.com ; acontececuritiba.com.br. 
Recentemente, ganhou o concurso literário promovido pelo evento Risadaria (1º bienal do humor realizada no país), tendo seu conto exposto no mural da Bienal de São Paulo. Está lançando seu 1° livro "Dores crônicas que nem te conto". Atualmente cursa jornalismo.

11 de abr. de 2012

Carta

Texto: Daniel Russell Ribas
Ilustração: Elis Marina B



 Lu,

 Faz tempos que não nos falamos, seja por mensagem ou ao vivo. Escrevo agora por sugestão de meu analista. E de meus amigos. E de eventuais desconhecidos, que provavelmente mencionaram algo assim ao escutarem passivamente minhas elaboradas dissertações alcoolizadas a respeito de nosso relacionamento e o efeito que teve em minha vida. Até hoje. Na verdade, é uma sugestão antiga, mas que levo a cabo devido aos acontecimentos recentes. Sempre tive muita coisa para lhe dizer, mas nunca tive a coragem. Acho que agora chegou a hora. Não planejei isso, foi uma situação em que a vida me colocou. Você e o dr. House diriam que a culpa por nossas ações está em nós. Gostaria de lhe perguntar ao vivo se ainda acredita nisso. Mas este será mais uma dentre as várias coisas que não farei. Eu lhe vi recentemente. Fiquei impressionado em notar como não tinha mudado nada. Era como se o tempo não tivesse passado para você. Sua beleza permanecia a mesma, assim como o efeito de sua presença em mim persiste. Em meio à tristeza, me espantei ao constatar um sincero alívio de que você não podia me ver. Sei que nunca gostou de homens fracos ou sinais de vulnerabilidade em geral, e também sei que seria incapaz de esconder minha submissão perante você. Quando disse que lhe amava há anos, naquele restaurante, chorei. Você me olhou com misto de constrangimento e medo. Talvez até nojo. Naquele instante, toda emoção se transformou em um ato consciente de conter uma gafe social. Você reagiu a minha declaração como se eu tivesse peidado num elevador cheio de gente e ter me feito de desentendido logo em seguida. Acho que você tivesse me visto ontem teria tido a mesma reação, ou não. Se tem algo que aprendi é que as pessoas mudam no decorrer dos anos. Não me refiro a uma transformação radical, como se fosse um Gremlin, mas a um fenômeno que chamo de “adaptação”. As pessoas se adaptam a novas circunstâncias, sabe? A partir daí, para sobreviver, alguns aspectos de sua personalidade, que se estavam dormentes, surgem com força e outros, que dominavam suas ações, perdem fôlego e recuam. Quando estávamos juntos, me guiava pelo instinto e pelo risco. Acreditava nas possibilidades que apareciam à minha frente como meras consequências de quem eu era, e não de minhas ações. Era como se as coisas acontecessem porque eu as merecia, porque eu havia nascido com um dom, porque eu tinha sido tocado por Deus. Tinha você ao meu lado e toda vida pela frente. Estava errado. Não vou me lamentar, porque sei que nunca gostou disso. Apenas digo que minha “adaptação” me tornou alguém mais racional e inibido. Amargurado, para ser específico. Percebi que não tenho um dom, nem fui tocado por Deus. Era apenas um cara que teve seu momento e, sem perceber, o perdeu. Alguns de nós seguiram adiante, e eu fiquei para trás. Claro que isto não me espanta; só não esperava que fosse acontecer comigo. Mas ninguém espera o inesperado. Daí, o fato de ser inesperado. Você sabia que ia acontecer? Duvido. Para o horror mútuo, passei anos lamentando o fim de nosso relacionamento. Você se afastou, por quaisquer que fossem seus motivos. Soube de um amigo que você achava que a distância “ia me fazer bem”... Você realmente acreditava nesta merda? Sinceramente, você falava tanta merda às vezes que me questionava se realmente acreditava no que dizia ou se estava rindo por dentro. Só digo que fico feliz por nunca ter jogado pôquer com você. Ou melhor: escrevo, porque dizer não adianta mais. Acompanhei sua evolução por anos, nas sombras. Enquanto escutava por conhecidos em comum ou descobria por acidentes sociais, a raiva se tornou sangue fluindo quente em minhas veias me alimentando dando forças motivando. Sua indiferença quanto à minha dor era herética. Estabelecia que meus sentimentos não eram apenas inválidos, mas irreais. Como as pessoas não podiam compartilhar daquela dor, da humilhação? E você, capitaneando a caravana da minha anulação. O que para os outros era melancolia, para mim era luto. Era verdade. Era real. Era sangue quente vermelho. E todos me encarando como se eu estivesse falando de discos voadores e do coelhinho da páscoa. Agora, o tempo passou e, finalmente, estou certo. Não é melancolia mais. É luto. Finalmente, você morreu em minha vida. Também na sua. Você está morta e eu estou livre. Com esta carta, eu lhe mato de vez. Participei de seu funeral para me certificar de sua morte física. Garanti que esta acontecesse quando lhe surpreendi em sua casa e enfiei aquela faca em sua barriga. Admito que temi que tivesse sobrevivido, apesar de observar seus olhos perderem a vida à medida que colocava minha arma dentro de você. Eu sei que, naquele momento, também morri e, mais uma vez, entramos em sintonia. Você abandonando a vida, e eu aquilo que me restava de espírito. Àquele que encontrar esta carta, espero que entenda que tudo o que fiz foi por amor.

 Sinceramente, M.  

Daniel Russell Ribas
Foi criado no Rio de Janeiro. É formado em Jornalismo pela PUC - Rio. Fez roteiros, matérias e contos. Ele participa do grupo "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro (www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura), é editor da Editora Oito e meio (www.oitoemeio.com.br) e escreve um blog desatualizado (dribas2.blogspot.com). Também participou da antologias "Clube da Leitura, modo de usar, vol. 1" e "Caneta Lente Pincel" (ed. Flanêur) e escreveu para o catálogo da mostra "David Lynch - o lado obscuro da alma". Recentemente, organizou com Flávia Iriarte a coletânea "A Polêmica Vida do Amor" (ed. Oito e meio). 

22 de fev. de 2012

Entre Família

Ilustrações: Elis Marina B
Texto: Paco Steinberg

Nota: Caro leitor, o conto abaixo é um pouco extenso em relação aos demais que produzo. Fato é que se trata de um conto de família, e histórias de família sempre têm muito a contar. É bem aqui onde você continua ou desiste.




Para para essa porra caralho é aqui Meu tem certeza É sim porra tá me tirano Uma casa desse tamanho sem alarme Fica de boa a mina é firmeza trabalha aqui faz uma cara e outra ela sabe que se atrasar a função tá fudida Quanto cê combinou com ela Ela só quer um colar da velha que tá no quarto Já é Os quatro bandidos respiram no vidro quente do Monza 87 Verão é de foder calor do caralho Coé maluco se liga na situação Cadê a família Foram num baile de Carnaval lá no Curitibano Bando de prebói do carai O muro da casa escolhida com tanta pertinácia rasgava o coração do Jardim Los Angeles com pedras cinzas imensas e sujas Sobre o muro antigo não havia cerca elétrica nem placa de aviso nem mato com espinho nada nada nada Partiu pra correria É nóis Representa Os quatro saltam do carro mas uma das portas emperra Peraí a minha correntinha da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro ficou ali cara abre a porta pra mim tirar Vacilão do caralho se liga na responsa É vamo tá atrasando a porra toda deixa essa merda aí Não posso Ói mano o processo é ligeiro e o baguio é loco tá ligado fica aqui fora então e se aparecer um cana cê dá um toque na gente valeu Não vai dormir caralho Se liga véi parceria Então partiu Os três homens dão a volta na quadra em busca de câmeras de segurança todavia não encontraram nada que parecesse perigoso A casa ocupava metade de uma quadra inteira e mergulhava na penumbra do bairro pois todos os postes ao redor da mansão estavam sem luz Porra véi cê é ligeiro hein deixou da hora pra gente entrar Como assim Os postes véi tu quebrou a porra toda Não fui eu cara Carai só os da casa que sinistro Ô seus merda vão ficar brincando de prefeitura aí que se foda o poste melhor pra nóis Olha ali daquele lado as pedra tão moleza de subir Já foi Os bandidos admirados pela facilidade em transpor a muralha estranharam a ergonomia com que seus chinelos encaixavam-se nos buracos como se cada cavidade tivesse sido construída com o intuito de uma escalada incólume ou de uma fuga rápida ou sabe-se lá o quê Já do outro lado os três homens encontram um jardim repleto de árvores floridas e frutíferas onde alguns morcegos alimentavam-se de frutas doces Ao fundo do jardim a mansão estava de portas e janelas abertas com algumas luzes acesas De dentro da casa soava uma marchinha de carnaval em volume alto “Se você fosse sincera ôôô Aurora...” Dois cachorros completamente negros de grande porte dormiam tranquilos em frente à porta de entrada Carai véi fudeu ói o naipe dos dog mano vai dar treta Vai amarelar cuzão ói lá os dog tão véi pra carai dá pra ver os pelo branco daqui Puta cara sei não hein Vai ficar nesse caô seu otário coé Vamo de uma vez porra Os três bandidos aproximam-se da porta vagarosamente Nossa véi nem meu vô deixa a casa com luz acesa e som ligado só otário acha que truta ainda cai nessa Ei a empregada não tá aqui Não ela disse que ia vazar antes da gente chegar Tá faz assim ó dois lá em cima e tu aqui embaixo valeu é papo reto deu treta rala peito e some cada um por si e que se foda O bandido que permaneceu na sala iniciou o roubo com obviedades tais como pratarias cristais e objetos de ouro Como não era sabido e nem ladrão há muito tempo um Stradivarius pendurado acima da lareira passou-lhe despercebido entre outras obras de arte que o rapaz julgou serem velhas ou feias demais O bandido virou-se para a porta com o intuito de levar o tapete Neste momento os dois cachorros em posição de guarda na porta observavam seus movimentos com semblantes serenos porém preocupantes

Véi os dog acordaro Cala a boca truta os vizinho vão escutar seu burro Tá com medim dos dog que mané Ah num enche o saco cês dois são foda O bandido continua seu trabalho mas por intuição ou cautela vira-se novamente para a porta e os cachorros vagarosamente entreolham-se como se combinassem algo ou trocassem informações e voltam a olhar o bandido Véi vou dar pipoco nesses dog sinistro do caralho Já falei pra calar a boca truta porra O bandido prepara-se para puxar a arma mas enche seus olhos com a luz de um porta-retratos dourado imenso onde uma foto comportada de família adornava a tampa de um piano negro alemão O bandido vai até o objeto mas percebendo sua intenção o cachorro macho emitiu um som maligno e gutural Grrrrrrrrrrrrrr O bandido vira-se e solta o objeto paralisado de medo do cachorro negro de raça indefinida e tamanho admirável O bandido encarando o cachorro resolve pegar um vaso que julga pelo seu medíocre conhecimento ser chinês porque rico sempre tem vaso chinês porém aquele era egípcio Ao encostar no vaso a cadela emitiu o mesmo som de seu companheiro Grrrrrrrrrrrr O bandido enfurecido virou-se gritando Seus féladaputa do carai O homem saca a arma e descarrega todas as balas nos dois cachorros que sem o menor sinal de ferimento permanecem na mesma posição de guarda Véi Véi desce aqui carai esses dog são filho do capeta to vazano sério Já falei pra calar a boca seu bebum filho de uma puta nunca mais te trago pra correria Os dois bandidos que ocupavam o andar superior descem as escadas com duas sacolas cheias ao encontro do terceiro amigo que apavorado escondia-se sob o sofá antigo no centro da sala Sai daí porra puta que o pariu você tá foda hoje Véi te juro desci bala nos dog e nada Ele chorava Um dois três tapas na cara Para meu para caralho você tem mira ruim tá bêbado e tá enchendo o saco nunca mais te trago simbora daqui porra E você se ligou na função Aham peguei um monte de baguio massa Tá Os três bandidos saem pela porta Os dois cachorros viram-se apenas para observá-los     
Quando os três bandidos alcançaram o fim do jardim um deles olhou para trás com escárnio e zombou do colega Viu otário ói lá os dog de boa deitado na porta Os três viram-se para olhar os cachorros e riem todos juntos inclusive o terceiro porém sua risada era nervosa e aflita Quando viraram para escalar o muro os dois cachorros fantasmagoricamente apareceram na frente deles Com apenas uma patada o cachorro macho arrancou o coração do primeiro bandido ainda pulsante com veias descontroladas espirrando sangue em seu outro colega que também com apenas uma patada da cadela teve toda sua coluna arrancada desde o pescoço até o cóccix O terceiro bandido já galgava a metade do muro quando os dois cachorros entreolharam-se com cumplicidade tal como se decidissem com quem ficaria a prenda de carnaval Pularam os dois e agarraram-no cada um em uma perna Chegando ao chão rasgaram-no ao meio pelas pernas e arrancaram-lhe os olhos com as unhas enquanto ele ainda admiravelmente emitia seus últimos gemidos O quarto bandido que estava no carro escutou os gritos medonhos e fugiu dado o tamanho do berro do terceiro larápio enquanto era esquartejado talvez da pior maneira possível Os cachorros esperaram que o bandido agonizasse lentamente até a morte e arrastaram os três corpos até um buraco no fundo do jardim onde já se encontrava o corpo de uma mulher moça vestindo um uniforme Enterraram os quatro com rapidez e facilidade lavaram as patas e os pelos no chafariz do jardim e voltaram à frente da casa onde dormiram até a chegada da família

Quando a família atravessou o portão com o carro o pai que estava de janela aberta parou O homem saiu de dentro do carro farejou o ar e arqueou as sobrancelhas Tem sangue aqui fiquem no jardim tem algo errado O homem anda até à porta da casa põe a mão sobre o dorso do cachorro macho e pergunta ao animal Pai está tudo bem por aqui É filho a gente teve uns contratempos A cadela resmunga Filho foram uns garotos sabe ladrãozinho só mas querido olha acabei engolindo um pedacinho de um deles você tem um antiácido lá dentro estou com uma azia Querida venha cá cuidar da mamãe entrem em casa e vão dormir Vocês dois se machucaram está tudo bem Sim sim tudo tranquilo Tranquilo papai é Lua Nova o que deu em vocês Ah esses remédios pra pressão são fortes né me deixa todo embananado quando vi já tava virado lobisomem Mas cadê o Luís Henrique



Papai papai O filho menor surge correndo de quatro pelo jardim com um fêmur na boca Olha o que eu achei Tira isso da boca moleque bandido tem doença mas que merda a gente sai pra uma festinha no Curitibano e dá nisso deixa isso aí na grama e sobe lavar essa boca menino Calma filho eu e sua mãe já resolvemos tudo Ah papai sério olha quanto sangue no jardim no muro caramba o que a gente vai falar pra Donizete quando ela aparecer de manhã pra limpar a casa É na verdade filho acho que a gente vai ter que contratar outra empregada Ah não acredito mas não é possível não dá pra confiar em mais ninguém

O avô e o pai permanecem silenciosos observando o jardim e os vestígios do recente e insuspeitável crime Papai será que os vizinhos ouviram alguma coisa Filho a gente está no Jardim Los Angeles aqui ninguém tá interessado a não ser no próprio umbigo É tem razão Filho deixa eu te falar O que pai Você acredita que um deles teve a audácia de me encher de bala no peito sem eu ter feito nada Sério papai Pois é pra você ver  Sabe pai...odeio gente que maltrata animal.

Agradecimentos: para Daniel Sérgio e Elis Buquera pela pesquisa e ideias mirabolantes respectivamente.  


Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com


9 de jan. de 2012

2ª Rodada


A 2ª rodada começará dia 8 de Fevereiro de 2012, o tema é "Carnaval do Horror" e será uma rodada invertida, ou seja, nesta, os ilustradores e fotográfos é que serão incubidos da missão de criar as imagens apavorantes que inspirarão os escritores.
E além desta novidade, noticiamos que novos colaboradores se juntaram ao grupo neste mês! Os enlameados escritores: Paulo Biscaia Filho, Alexandre França, FMAN, Mel Ferreira e Luiz Andrioli. Os pantanosos ilustradores: Hafaell Pereira, Yan Copelli, Carol Winter, Arthur d´Araujo, Dolores Garcia, Zansky e Elis Marina B. Também o exímio fotógrafo, Eli Firmeza.
A idéia é que os ilustradores e fotógrafos criem cenas aterrorizantes que tenham a ver com o universo do carnaval brasileiro. Estes vislumbres servirão de base para os contos dos escritores.
O blog Lama, ao contrário da revista impressa, enfoca narrativas curtas, velozes. São pequenos delírios pulp recheados de agonias e pesadelos, ao som, desta vez, de uma infausta marchinha fúnebre.