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23 de jul. de 2014

Tacale pau, Pancada! (parte 1)

Conto: Lielson Zeni
Ilustração: Sueli Mendes



(Parte 1)

Parece importante que a história comece assim: é noite, chove fino e o frio arrepia o pelo.

Uma hora atrás, em uma sala embaixo das arquibancadas do Estádio Anilado, Badanha e Cachoeira davam plantão na Agência de Detetives Beltrão. Cachoeira revirava as gavetas em busca de fósforos pra acender o cigarro quando o telefone tocou.

– Opa! Atende lá, Badanha.
– ADETBEL, boa noite./ sim.../ meeee, que louco!/ tá certo, então, pode deixar.
– Que que deu?
– O Nelsinho Coveiro do Jacutinga achou uns papel esquisito. É pra ir lá, Cachoeira!
– Péra, piá. Eu não saio daqui sem dá uma pitada.
– Sossega o facho que passemo ali no Gringo comprar um avio.

A chuva aumentou quando eles correram até o carro parado em frente a ADETBEL. Badanha guiou até a bodega do Gringo, onde pararam pra comprar fósforo e bolacha. Em seguida, tomaram o rumo, abaixo de muita água.

Badanha dirige e come bolacha, enquanto Cachoeira risca fósforos molhados que não acendem o seu cigarro. Depois de muito barro na estrada, chegam a uma igrejinha no Jacutinga, ao lado do cemitério da paróquia São Lázaro. 

Eles descem do carro e Badanha bate palmas na frente de uma casinha entre a igreja e o cemitério, enquanto Cachoeira cobre os olhos e o cigarro com a mão. Um homem de boné com cuia de chimarrão aparece na área da casa.

– Opa, não é que vieram? Vamo chegando!
– Estamos meio na correria aí, seu Nelsinho.
– Mas não querem chegar mesmo? Vão pegar gripe aí na chuva!
– Acho que entrar rapidinho não tem problema, ô Cachoeira.
– E como tá teu pai com os negócio dele lá, Badanhinha?

Cucas com chimia e rodadas de mate depois, Nelsinho causeia:

– Eu tava ali ó, naquelas quiçaça pra lá do potreiro, uns mil metro pra frente da igreja, cortando aquelas capoeira tudo, daí dei uma foiçada assim e TOC! parei pra ver que que era e vi umas latinha. Abri e tinha uns papel, esses daí ó. Queria que vocês dessem uma olhada pra ver como-que-é-como-que-não-é, como diz o outro.
– Me pinche esses papel aí, seu Nelsinho. Badanha, pega pra nós aquela lanterna lá no carro?
– Opa!
– Posso pitá aqui, seu Nelsinho?
– Decerto que sim!
– Pórco-di, molhou meu cigarro...
– Pére-lá!, e puxou uma palha do bolso, um pedaço de fumo e preparou um paeiro pro detetive.

Enquanto Nelsinho trabalha no seu próprio paeiro, Cachoeira acende o cigarro de palha no fogão à lenha e espalha a papelada em cima da mesa da cozinha. Analisa tudo e descobre que:

1) são diários, cartas, recortes de jornal e um atestado de óbito;
2) o atestado de óbito era de uma pessoa enterrada no cemitério;
3) os recortes de jornal falam de um tal PANCADA, que defendia os colonos de assaltos;
4) os diários são do PANCADA (ou tentam parecer que são).

Cachoeira conduz o papo com Seu Nelsinho, enquanto Badanha dá aquela olhada nos papéis pra se interar também do rolo.

– Seu Nelsinho, já ouviu falar desse um aqui, o PANCADA?
– Ouvi? Pfff, quem que não? Arrodiava tudo por aí uns ano atrás. Só que naquele tempo era Espírito o nome dele. Mas daí teve uns enrosco de direito autoral e mudou de nome pra PANCADA.
– E onde que fica esse túmulo, o 14-12?
– Hmm, é logo ali, na grutinha com grade de fronte.

A dupla caminha pelo pequeno cemitério até achar a gruta. Quando miram a lanterna no túmulo, veem que está aberto, e não enxergam mais nada.

Um homem grande desacordou os detetives com golpes na nuca, pegou o atestado de óbito e a chave do carro, anotou um bilhete, catou a papelada dentro do carro e entrou na igreja. O bilhete é este:

obrigado pelo meu arquivo
aquele abraço,
PANCADA

Ao acordar deram busca tudo em volta, na casa, na igreja e não encontraram nem sinal de nada, nem mesmo pegadas no barro — apagadas pela chuva. Ou seja, Cachoeira e Badanha tomaram na nuca, sujaram a roupa de lama e tudo que conseguiram foram algumas fatias de cuca e perguntas não respondidas: quem é o PANCADA? O que ele quer?

É, não dá pra se queixar de uma noite dessas na ADETBEL.


(Continua...)

Lielson Zeni  Afirma ter nascido em Francisco Beltrão, morado 11 anos em Curitiba e que estava em São Paulo quando tudo aconteceu. Diz trabalhar como editor e já ter escrito roteiros. Suas digitais não estão cadastradas no sistema. lielson.wordpress.com
Sueli Mendes

bigandlittledreams.blogspot.com