24 de set de 2012

Quase Cyrano

Conto: Eduardo Capistrano
Ilustração: Pedro Giongo




Enfim, os braços envolvem seu corpo delicado. Mas não os meus; não sou eu que sinto sua pele macia ou seus cabelos sedosos. Eu estava tão perto que os meus lábios poderiam tocá-la, em um beijo suave. Queria sentir minha face tocando seu corpo naquele momento. Mas não senti. Nada senti. Devo contentar-me, em meu esconderijo, apenas com seu perfume. Mas queria mais. Queria sentir seu gosto. E sentiria. Logo.
Enfim, o beijo. Ah, aquela boca rósea, aqueles lábios carnudos, tocam lábios que não são os meus. Tocam os lábios dele. Lábios que disseram palavras que não eram dele. Palavras de amor que ele não sentia, porque o que ele sentia era paixão, era fogo, era gula. As palavras eram minhas. Eram minhas a angústia e a fome! A necessidade de sentí-la, de envolvê-la, de possuí-la. Eu as sentia plenamente, sempre que a via, e cobiçava sua proximidade, e imaginava prazeres insanos enroscando-me em seu corpo, tomando conta dele.
Para meu irmão era impossível tecer as palavras, articular sentimentos que fariam ela se abrir. Para mim era como descrever minha própria casa ou a mim próprio, algo tão familiar como o furor de querer vê-la, igual ao de vê-la, igual ao de não querer deixá-la ir. E foram as minhas palavras que pavimentaram o caminho para aquele abraço, para aquele beijo, para ela e meu irmão seguirem de braços dados, apaixonados, acalentados pela emoção, embriagados pela antecipação da entrega de um corpo ao outro, para a carne que se satisfaz só com ela mesma.
Mas eu estava lá, desde que eu eu meu irmão a víamos, e eu suspirava, arrebatado por sua beleza e graça, e meu irmão se afobava em impulsos viscerais que em seu arremedo de espírito eram o que mais se aproximavam de admiração. Eu estava lá para tentar dissuadí-lo, em meu ciúme platônico, e falhar, para minha desgraça. Para então sugerir as primeiras pequenas palavras, e depois outras tantas palavras e frases e canções e poemas e gestos e presentes. Eu sempre estive perto, a ponto dela quase ouvir meus galanteios sussurrados, antes de ouvir os mesmos pela voz de meu irmão. Eu tinha que estar, para moldar aquela paródia do que eu próprio sentia em algo realmente meu.
E lá eu estava. Caminhando com eles para a consumação do que apelidaram de amor. Subindo as escadas para a realização, a libertação um no outro. A porta se fechou atrás deles. Os corpos se envolveram, as bocas se encontraram. Ele fez menção de apagar as luzes. Ela o impediu. Queria presentear-lhe sua nudez e o fez, removendo as roupas lenta e sensualmente. Ela terminou deitando seu lindo corpo na cama. Ele fez nova menção de apagar as luzes. Ela, de novo, o impediu. Queria que lhe devolvesse o presente.
Sob esse pretexto, meu irmão colocou-se diante da porta. Sutilmente a trancou, e em seguida removeu os sapatos, o cinto, a calça, dirigindo-se à cama. Ela pediu para ver tudo. Ele abriu os primeiros botões. Eu, enfim, a veria sem obstrução, não através da fresta dos botões ou do pano da camisa. Assim como ela me veria. O rosto demoníaco no peito de meu irmão.
Ela gritou. Não compreendia que eu a queria, que eu a desejava, que eu precisava dela mais do que tudo? Estivera até então disposta a satisfazer com sua carne quem a seduzira. Era o que faria. Como as outras.


Eduardo Capistrano

Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. 
Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com

Pedro Giongo  
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: http://estudiotijucas.com

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