7 de ago de 2012

Canho

Ilustração: Zansky
Conto: Detetive Linhares



            Encontrado o braço esquerdo de uma das vítimas. Uma estátua de um pássaro negro colocada rente às pontas dos dedos é um enigma para a Polícia Militar. O braço estava intacto, sem marcas de luta ou de briga. O que mais impressionou os detetives foi a precisão cirúrgica do corte.
            Isso é coisa de profissional, entende. Não estamos lidando com um simples batedor de carteiras. Mas quem o senhor acha que pode estar por detrás desse assassinato? A senhora acha que se eu soubesse eu estaria aqui sentado falando com os jornalistas?
            Veja a cara do Fronza. Parece nem aí pro negócio
            Como é que você sabe?
            Conheço o figura. Já me deixou na mão duas vezes.
            Você acha que
            Acho que o Tavares já deve ter deixado um recado no escritório pedindo pra gente resolver isso
            Será que a MC sabe de alguma coisa?
            Sempre sabe
            Os três corpos foram encontrados todos na mesma noite com a mesma marca: estavam todos sem os braços esquerdos, retirados do corpo cirurgicamente. Ao que tudo indica foi o mesmo assassino do braço que a polícia encontrou no final da tarde de ontem. Os detetives ainda parecem perdidos.
            Estacionamos o Inércia na Saldanha Marinho, na frente do Bar Kapelle. Subimos até a esquina para averiguar o local, e tudo parece normal, como de costume. Entre olás e como vais, achamos a MC sentada embaixo da fonte da Gabriela e do Belarmino bebendo um pouco de água.
            meus questionamentos deverão estar aquém das cirurgias tenho de guiar a percepção da polícia até mim o espetáculo só estará completo ao último pôr do sol do fim de junho o vento que soprará sobre o último corpo deverá ser o meu sopro
            Humm... olá, dititititive. Saudadis di mim?
            Não começa. Preciso saber se você ouviu algo sobre o cara que anda cortando braços por aí.
            O tom nasalado da voz dela sempre me deixa irritado. E eu sei que ela faz pra me provocar.
            Olha, dititive, cê sabe que eu sempre sei de alguma coisa, né gato.
            Então entra na viatura e vamos pro IML dar uma olhada nos corpos.
            Catei-a pelo braço e a fui levando pro Inércia, mas o braço dela é bem mais forte que o meu. Ela se chacoalhou e se desvencilhou de mim.
            Olha, aqui, bonitão! Cê sabe que meu negócio não é com caras armados.
            Os lábios grossos de silicone babando essas palavras e respingando sobre mim. As narinas secas sem pêlos. Os olhos fundos e negros. A cabeleira loira e longa. Tem alguma coisa nela que me atrai, mas minha repugnância é maior do que meu desejo.
            Cê podia tá sendo mais gentil, né gostosão? Faz tempo que a gente não si vê.
            Porra, man, vamos logo. Ela tá muito louca.
            Os corpos foram encontrados boiando no Rio Iguaçu. Estavam nus e não aparentavam nenhuma marca de combate. Especula-se que seja o mesmo matador que infernizou a polícia em 1982 no caso dos Meninos do Aeroporto.
            mantenho a minha fé intacta sirvo ao propósito maior nunca baixar a guarda lutar até a queda do último soldado
            Parece que o assassino deixou a estátua apenas para nos distrair. Porque a PM não pede ajuda pra outras forças policiais? Estamos com todos nossos homens na rua, minha cara.  Me parece que isso demanda o apoio de forças de outros estados. Gostaria que os senhores deixassem as especulações para os investigadores.
            Detetive Linhares
            É o Tavares, man. Preciso que você
            Já tô no IML
            Não temos nada. Alguma coisa?
            A MC está sobre os cadáveres. Faz quinze minutos que ela tá tocando os corpos, cheirando, se aprofundando na alma de cada um. Mas ela está com medo.
            sombra erga-me revela a sua face sou seu servo sangue suor sal degenera refaz constrói abriga no decrépito o novo segredo sombra erga revela a face sou seu servo sangue suor sal degenera refaz constrói no decrépito o segredo sombra erga revela face sou seu servo sangue suor sal abriga sombra revela face sou sangue sal constrói abriga o novo sombra face sangue sal abriga sombra sangue sal novo abriga sombra sangue sal abriga sombra sangue sal sombra sangue sal sombra sangue sal sombra sangue novo sombra sangue sal sombra sangue sal sombra sangue sangue sangue sangue sangue sangue
            Parque Barigüí
            Ei, man, olha lá
            O arrancador de braços
            Espere. Não vá lá. Não estamos aqui
            Ele está arrastando o corpo do IML
            Vamos segui-lo
            Passamos duas horas caminhando pelos bosques do parque até chegarmos na beira de um rio. Um pássaro desceu de uma das árvores tomando a forma de uma mulher. O mesmo da estátua. O homem largou o corpo e ficou ali parado. Corcunda feito um servo. Olhos vidrados. Uma espessa camada de pedra brita lhe cobre o corpo. A mulher corta o braço esquerdo tocando-o. Aponta para o coração. Coloca a mão do braço cortado sobre o peito da vítima e a vida é sugada do corpo. A cor de suas penas mudam do roxo pro amarelo. O servo atira o corpo ao rio. O braço é deixado no chão. Ao lado, a estátua do pássaro.

            Saímos do IML em direção ao escritório. Analisamos nossas ideias. Fumamos um cigarro de haxixe. Jogamos uma partida de xadrez bebendo rum. Voltamos para a rua fazendo anotações. Por baixo do céu, nuvens escuras e espessas. Desabamento de pessoas na Rua XV. Dentro da Biblioteca Pública a resposta. O delegado Tavares nos esperava há alguma horas na frente do Bar do Tony. Entregamos a ele um envelope com a receita do crime.
            Está tudo aí
            Sim está tudo aí
            Não temos mais com o que se preocupar
            Sempre temos
            Uma coisa a menos
            Sim uma coisa a menos
            Me esperam para a coletiva
            Todos esperam uma coletiva
            Então me vou
            Vá
           
            Escute os ecos, Jéssi
            Agora eles fazem parte de nós
            Vamos voltar
            Quero olhar o céu mais um pouco

            O primeiro pingo de chuva espatifou no meu olho e não consegui ver mais nada.
           


Detetive Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site: detetivelinhares.blogspot.com.br
            
 Zansky
Outros trabalhos: www.zansky.com.br
         

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