4 de ago de 2012

Fenda Lunar

Ilustração: Foca Cruz
Conto: Diego Fortes 



- Controle de solo para Major Tom: seu circuito pifou, tem algo errado.
- Pode me ouvir, Major Tom?
- Pode me ouvir, Major Tom?
- Pode me ouvir, Major Tom?
- Pode me ouv...

A comunicação foi cortada.
Todos ficaram extremamente apreensivos.
Sua esposa, a Tenente-Coronel Jane Stevens, chegou a desmaiar.

O que teria acontecido?
Major Tom estaria vivo?
Teria ele conseguido pousar no superfície escura da Lua?
Essas e outras perguntas serão respondidas na sequência desta história sideral!!!
Após inúmeras tentativas de comunicação durante semanas, a NASA declarou o Major Tom Stevens como morto. Fizeram-lhe todas as homenagens: enterro (simbólico) militar, salva de tiros, deram uma medalha para a família. A única a não se conformar era a Tenente-Coronel Jane Stevens que logo começou uma campanha para enviar um robô de reconhecimento nas proximidades de onde eles estimavam que havia caído a espaçonave. Seria inútil, diziam - mesmo que o major tivesse sobrevivido a queda, suas pílulas de proteína e o suprimento de oxigênio durariam no máximo uns dois meses - já havia se passado um ano!

O mistério dominava a cabeça da pobre tenente-coronel. Muitos ciclos lunares se passaram e Jane contemplava o céu todas as noites. Ela insistia na missão robótica. Mexeu alguns pauzinhos,cobrou alguns favores, adulterou alguns dados para levantar a suspeita de que havia água em determinado ponto no lado escuro da Lua. Finalmente, conseguiu o que queria! Após quase dez anos do acidente de seu marido, a sonda Curiosity foi mandada ao suposto local da colisão.

Ao pousar, o robozinho começou a transmitir para a Terra imagens de pedras, buracos, poeira lunar. Explorou quilômetros até achar uma fenda gigantesca de onde era emitida uma luz. Quanto mais se aproximava da fenda, mais ficava nítido o som de alguma coisa. O robô avançou até focar no que parecia ser um pé. Mas um pé de criança. O pescoço mecânico que sustenta a câmera se esticou e captou a imagem de um menino. Uma forma de vida humanóide, porém muito pálida e de cabelo azul. O menino corre para alguém e fala em inglês:

-   Daddy! Daddy!

De repente, entra no quadro, ninguém mais, ninguém menos, que o Major Tom - e pega a criança no colo! Olha para o robô da NASA assustado. Uma mulher linda, também muito pálida e de cabelo azul, se aproxima dele e o abraça. Seios fartos, pernas atléticas, ela olha curiosa para aquela máquina. Major Tom está desconcertado. Ele diz para a mulher entrar em casa com a criança. A casa tem forma arredondada, fica ao lado de outra e de outra e de outra. É uma cidade dentro da fenda lunar! Formas arredondadas e brancas. O lugar todo parece ter sido projetado pelo Niemeyer. Assim que fica sozinho, o major olha ao redor e fala com a câmera:

-   Hello? Hello, Jane, é você que está aí?

A Tenente-Coronel mal consegue falar.

-   Tom?
-   Hi, Jane, quanto tempo...
-   Tom, o que que está acontecendo? Quem é essa mulher?
-   Então... Acho que a gente precisa ter uma conversa...
-   Conversa? Que conversa? Eu passo dez anos te procurando e quando eu acho, eu descubro que você tem outra família?
-   Look, Jane, você sabia que o nosso casamento não seria fácil... Que eu viajava bastante profissionalmente...
-   Pra Lua, Tom! Viajava até a Lua e voltava! Era uma missão de reconhecimento, não de colonização!

Major Tom desvia o olhar.

-   Você está muito nervosa, desse jeito não vai dar pra conversar. Tô tentando explicar e você não me deixa falar...
-   Are you fucking kidding me?!?
-   Eu consegui sobreviver à colisão, mas pensei que iria morrer, até que eu achei essa fenda. O pessoal daqui me ajudou, me integraram ao convívio social e foi aí que eu conheci a Lucy.
-   Lucy?
-   É o nome da minha esposa.
-   Eu sou sua esposa, Tom!
-   Jane, você tem que aceitar que a nossa relação acabou. A muito tempo que a gente tava em crise...
-   Crise?!?
-   My God, Jane, eu tive que sair do planeta pra conseguir que você me desse algum espaço...
-   Motherfucker, como é que você pôde fazer isso comigo?!? Tava tudo tão bem...
-   Não tava, não, Jane. Foi esse o nosso problema. Você sempre com a cabeça no espaço sideral e não dá atenção pra quem tá do seu lado.
-   Eu não posso acreditar que você me trocou por essa... criatura!
-   Eu e Lucy temos muita coisa em comum.
-   O que você pode ter em comum com um E.T.?!?
-   Muito mais que eu e você: você é católica, eu sou presbiteriano; você gosta de campo, eu prefiro a praia; eu sou mais de sair, você sempre queria ficar em casa...
-   Ela é um alien!!!
-   Eu sinto muito que você tenha descoberto as coisas desse jeito, mas eu não vou voltar. Adeus, Jane.

“Climão” seria pouco para descrever o que se passava na sala de comando. Um general não disse na hora, mas pensou que toda aquela missão era bullshit, uma perda de tempo desde o começo: a NASA havia patrocinado a “D.R” mais cara da história.

Major Tom e a mulher acabaram adotando o robozinho Curiosity - fazia tempo que o menino pedia um bichinho de estimação.


 Foca Cruz
Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

Diego Fortes
É ator, escritor, tradutor e diretor. Nasceu em 1982. Bacharel em Comunicação Social, tem passagens pela Escola Técnica de Formação de Atores da Universidade Federal do Paraná, pelo Ateliê de Criação Teatral e entre diversos outros. Fundou A Armadilha - cia. de teatro em 2001, companhia pela qual montou os espetáculos Marias (2004), Café Andaluz (2005), Os Leões (2006), Bolacha Maria - um punhado de neve que restou da tempestade (2008) e Jornal da Guerra Contra os Taedos (2009). Em 2010, escreveu e dirigiu - com a colaboração da artista mineira Grace Passô - a peça Os Invisíveis, pela qual recebeu a segunda indicação à Melhor Direção do Troféu Gralha Azul. Mantém contato colaborativo com autores de outros países latinos.

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