16 de ago de 2012

Anan

Ilustração: Júlio Vieira
Conto: Yusef Al Ayub Hudhayfah


O capitão Zaide Muwaffaq e sua tripulação conheciam muito bem os riscos e as lendas a respeito das águas malignas do mar Makhluk antes de aceitar a perigosa incumbência alvitrada pelo imperador Dal Ima Adin, de Amtullah. Entretanto, isso não foi suficiente para intimidar os maiores marujos mercenários de Zaide ≈ bando composto pelo seu irmão Zaim, Radi Habib, Benevides Nasih, Butrus Moamede, Anadil e Sharif Mahmud, Jibril Fahd, Boulos Latif, Dharr Dhul Fiqar, Shadi Ra’id, Ayub Dib, Rarin Katar, Sab Mu’ayyad e Zaib Mansur.  
O rei desafiou Zaide e seus comparsas a encontrar o Nazar Bancugu, um talismã milenar que protege quem o usa, da inveja dos inimigos. Ele é conhecido também como O Olho Místico ou Olho Turco. Os turcos acreditam que com o amuleto do olho você estará protegido e toda a energia ruim estará dirigida ao amuleto e não atingirá você. 
A recompensa foi generosa e o soberano Dal Ima Adin sabia muito bem como agradá-los: pagou antecipadamente a metade do valor em moedas e artefatos de Zildar.
O navio de Zaide partiu no dia seguinte à negociação. Levaram suprimentos suficientes para mais de cinco meses de viagem. E um pequeno baú de madeira, especial, chamado Kahon, abençoado pelos magos, onde deveria ser guardado o Nazar.
Depois de vinte noites no mar, algumas aterrorizadas por pujantes tempestades, aportaram em Anan ≈ cidade de brumas. Muitas histórias de bruxarias e rituais de Anan circulam pelas barbas dos frequentadores das tavernas de Amtullah. Anan é uma cidade encoberta pela névoa, encrustada nas montanhas de Azmar. O que favorece a obscuridade de rituais macabros. Dizem que muitos bruxos amaldiçoados se escondem nesta cidade, inclusive tramam e agem contra os grandes reis. O Silêncio fático das janelas e ruelas de pedra tortuosas não passa de um ardil para enganar visitantes. Corujas bicéfalas e morcegos alvos furavam a cerração, dando rasantes, assustando os marujos.
O grupo passou a noite numa pousada com degraus de musgo, chamada Estalagem Almas, a menos de cem passos da praia. Durante a madrugada, vozes gritavam na escuridão. Anadil ainda tentou enxergar algo pela fresta da veneziana no quarto, mas só viu neblina. E depois, mais berreiros desesperados.
No outro dia, os marujos levantaram cedo e antes de embarcar, se depararam com algo se movendo na praia ≈ um restolho de corpo, pedaço de ser humano retalhado. No lugar da cabeça, havia uma mão, seios no tronco com tatuagens de caveira e as extremidades cortadas em pequenos tocos. A escória movimentava-se na areia, feito uma serpente, arrastando-se lentamente. O corpo parecia ter sido também queimado ou entregue a algum tipo de ritual. A pele, vermelha como lava. Dharr Dhul transpassou a carne da cria com sua lança, fazendo o sangue jorrar.
Então finalmente, Anan se revelou para eles. Aquele pedaço de carne humana modificada era uma amostra do que acontecia por trás do véu de nuvens, do outro lado da cortina que protegia os bruxos. Alguns acreditam, inclusive, que a bruma é criação dos magos e que além dos rituais, a cidade abriga também alguns dos mais cruéis assassinos do Oriente. Dizem, inclusive, que no meio das brumas das ruas tortuosas de Anan, é capaz de se encontrar com parentes mortos, almas perdidas. Quem sabe até se deparar com algum deles, no salão de café de uma pousada.
Contudo, ironicamente, foi em Anan que o grupo de Zaide dormiu o sono dos justos. Descansaram as vinte noites mal dormidas. E Zaide sonhou pela primeira vez com sua amada, Kamilah, depois de vinte e um dias longe. O sonho foi tão real que ele acordou com a sensação exata do seu perfume de jasmim, pode tocar suas mãos macias e lembrou da maciez dos seus lábios.

Júlio Vieira
Publica suas criações no blog: juliovieira.blogspot.com

Yusef Al Ayub Hudhayfah 
Nasceu em Teerã, em 1977 e hoje vive em São Paulo, Brasil. Começou a escrever aos 18 anos e publicou em 2008 seu primeiro livro de contos, “Almas” pela editora “Mizmar”.

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