20 de dez de 2011

Lucky Strike

Texto: Diego Fortes
Ilustração: Frede Tizzot





-   Strike! Lucky Strike! - e ela me olhou com uma expressão confusa sem saber se aquilo era uma brincadeira ou se eu estava falando sério. Ela riu, foi com a alternativa da brincadeira. Eu mantive o mesmo olhar apenas modulando levemente a sobrancelha esquerda para cima.

-   Analu! Na verdade é Ana Luíza, mas a galera toda me chama de Analu. Ana por causa da minha vó Ana, que já morreu e Luíza por causa da música, sabe? Não sei se você conhece, é tipo bem velha... Analu é tipo um apelido. Achei engraçado o seu: Luqui Istraique... Esse não é o seu nome mesmo, né? Quer dizer... é tipo assim um apelido, né?

-   Garçom! - alcancei dois uísques da bandeja, num misto de sedução e desafio. Ela bebeu igualmente desafiadora. - Lindo nome: Analu. Dizê-lo faz você ficar com um biquinho. Ela riu um pouco mais. Fiquei olhando para aquele pescoço lindo. Seu penteado fazia alguns poucos fios penderem pela sua nuca. Se quando ela parar de rir, ela ajeitar o cabelo para trás da orelha, este é o sinal definitivo para o meu avanço. Ela olhou para baixo, parou de rir e passou dois dedos na orelha para ajeitar o cabel...

-   Taxi! “Isso é tão inusitado”, ela repetiu umas dezessete vezes, entre beijos molhados e suspiros quentes no banco de trás do veículo. Paramos num apart hotel perto do centro. A conta do táxi ficou com ela, graças a deus! O recepcionista nos olhou com certa reprovação. Ele segurava uma mini bíblia numa mão e assistia a uma programa humorístico numa telinha de 14 polegadas. Quem era ele para nos julgar? Subimos no elevador comportados e em silêncio, como se estivéssemos economizando fôlego para dali a alguns segundos.

-   Abre! - ao descer o zíper lateral do seu vestido, fui logo dedilhando seu seio pela base. Enterrei meu nariz em seu pescoço. Que pescoço macio! Com habilidade, soltei as alças do seu vestido. Calcinha branca e de renda. Tentei não fazer nenhum julgamento sobre as expectativas dela em relação a esta noite quando escolheu aquela calcinha. Meu comportamento não condiz com meus sentimentos. Estava adorando aquele encontro casual e inusitado, mas no fundo eu sou um romântico. No espelho da parede do vestir, seus mamilos rosáceos me diziam para parar de pensar.

-   Alô? “Alô?” Alô? - tive que repetir para organizar as ideias e limpar a garganta. “Acordei o senhor?” Não, não, é apenas um final de resfriado, nada grave. - achei que não seria muito profissional atender o telefone dormindo. Queria marcar uma pequena reunião. Não queria antecipar o assunto. O fio do telefone fez cair o aparelho quando busquei um papel para anotar o endereço. Ok, sei onde fica. Ele contava com minha discrição. Discrição é meu sobrenome.

-   Malrboro! “Light ou vermelho?” Pensei rapidamente sobre como estes dois adjetivos se tornaram antônimos para uma marca de cigarros... “Posso fazer uma pergunta?”, o moço da banquinha perguntou. Isso já não é uma pergunta? - pensei, mas meu horror ao óbvio me refreou. Claro, disse eu. “Por que chamam o senhor de Lucky Strike se o senhor fuma Marlboro? E Light, ainda por cima...” Essa é uma história longa, fica para outro dia que o meu ônibus está chegando, desconversei. O primeiro ônibus, o alimentador, só passa a cada quarenta minutos, ai ai...

-   Com licença! - tenho que tomar muito cuidado para não pisarem nos sapatos. É uma verdadeira tourada com os outros passageiros, tão imersos em pensamentos assim como eu. Depois de quinze minutos de trajeto, ainda tenho que fazer conexão no terminal e daí andar mais um pouco até o café onde a reunião estava marcada. Esses longos itinerários acabavam com meus sapatos. Quem me vê nos ônibus e terminais nunca sabe ao certo o que pensar. Já me perguntaram se eu era político em campanha, oficial de justiça, fiscal da receita, entre outros. Só saio de casa devidamente paramentado: terno, gravata e sapatos lustrosos. De vez em quando, um lenço na lapela. Me faz ganhar a distinção de “doutor” no bairro onde eu resido e pelos coletivos que me transportam. 

-   Um macchiato! - adoro este nome! Não sei se gosto mais do nome ou do próprio café:  “manchado”, uma dose de expresso com uma pequena dose de leite com espuma. Algo forte e intenso debaixo de uma camada suave e doce. Acho que me identifico com ele.  Cheguei mais cedo do que o marcado pois o ônibus alimentador é quem pontua meus horários. Não sei se o cliente ficou mais surpreso com a minha presença tão antecipada ou com a minha aparência tão formal. A aparência formal sempre intimida - o que é muito bom no meu ramo de serviços. Me faz parecer organizado, discreto, prevenido. E de mais a mais, os clientes dificilmente tentam pechinchar.

-   Água com gás! Não posso beber café. Por conta da gastrite. É foda!, se queixava, levando a mão ao estômago. Ah, e um quindim! O quindim daqui é uma delícia! Não quer experimentar?, me ofereceu. Um homem de quase sessenta anos, bigode mal aparado, barba ainda não feita naquele dia, bastante calvo, agasalho de ginástica e tênis de corrida. Não fazia o tipo esportivo. “Barriga de casado”, como dizem. Quem nos visse, do outro lado da rua, pensaria que eu era o empregador e ele o empregado. Ou talvez, não. Talvez pudessem pensar que eu era o segurança dele. Não estariam muito longe da verdade.

-   É foda! Não consigo mais dormir, rapaz. Não consigo comer direito mais - disse ele com a boca cheia de quindim. Não consigo pensar em mais nada. Esses lazarentos querem meu fígado, rapaz. Tô entre a cruz e a espada! Para eles não contarem pra minha esposa o que  eles sabem, querem que eu pague. Mas pra pagar essa porra, eu vou ter que vender o apartamento de Camboriú - e como é que eu vou fazer isso sem ela perceber, hein?

-   Fique tranquilo! Assegurei minha eficácia ao cliente infiel e perguntei se poderia ficar com o jornal que ele trazia debaixo do braço. Permaneci lendo na minha mesa e como o horário do almoço fosse chegando, as garçonetes estavam ficando cada vez mais solícitas: “o senhor quer mais alguma coisa?” Por enquanto, não, obrigado. “Algo mais?” Agora, não, obrigado. “O senhor quer fazer o favor de se retirar e ceder a mesa pra um freguês pagante, seu quebrado?” - era o que estava no subtexto, elas não se impressionaram com meu terno. Andei pelas ruas do Centro repassando o relato do homem do agasalho.

-   Que nome! Naomi Sueli, a garota para quem o sujeito me liga no fim-de-semana que a mulher vai participar do campeonato de tranca da Associação Comercial de Camboriú!Prédio vazio... solidão do sábado à noite... um conhaque na cabeça... não vacilou e ligou para o número da morena boxeadora do site de acompanhantes. Entrei numa lan house e dei uma conferida na dita cuja. Havia fotos de Naomi Sueli num ginásio de boxe (só de luvas), tomando banho de cachoeira (só de óculos escuros) e chupando um pirulito (só de meias coloridas). 1,64m, 53kg, 23 aninhos, a moçoila! Não sei exatamente por que, mas nunca procurei uma prostituta. Acho que me sentiria trapaceando, meu ego não permite... Até então, os chantagistas só haviam feito contato por telefone e não haviam apresentado nenhuma prova concreta da escapada furtiva. No entanto, tinham informações precisas sobre horários e valores. Diziam também ter uma evidência com DNA -  um eufemismo para uma nojenta camisinha usada.

-   É hoje! Estava com aquele evento há semanas na agenda mental. Li na nota da Coluna Social que seria hoje o lançamento de uma nova importadora de bebidas. O evento iria se dar no Castelinho do Batel, muito chique! Importadora de bebidas... Drinques, coquetéis, canapés - meu tipo de programa. Algumas pessoas estranham ver alguém tão exemplarmente arrumado como eu logo cedo. Mas como minha casa fica um pouco afastada, eu já começo o dia preparado para a noite.

-   “Não acenda!” - ela me impediu de riscar o fósforo para meu cigarro. E por que não? Eu estou do lado de fora, ao ar livre. Até onde eu sei, aqui ainda não é proibido. Respondi sem rispidez, que vestido lindo! Coral, de alcinhas, sua pele clara e estatura delgada o vestiam à perfeição. “Não fica bem um homem tão bonito fumando...”, disse com a mistura certa de autoridade e vacilação. Está bem, não fumo. Só por que você pediu. “Como é o seu nome?”, queria saber. Strike!

-   Deita! - a calcinha branca me ordenou. Abri o cinto, tirei o paletó, chutei meus sapatos e deitei. Ela ficou de pé no canto da cama. Sua imagem branca iluminava o quarto. Braços para trás, peito empinado, ela ameaça um mergulho em cima de mim. Movimento contínuo, seus joelhos flexionam e esticam, em suas mãos uma fac...

-   O que é isso?!? ,pergunto eu, estupidamente e logo salto para o chão. Ela segue de pé na cama, sua expressão assassina contrasta com sua constituição angelical. Não bato em mulher em hipótese alguma... Ela prepara outro bote. Puxo o lençol da cama, ela se desequilibra e bate a cabeça na natureza morta. A réstia do abajur contorna seu frágil corpo desacordado. Vasculho sua bolsa. Um celular barato. Últimas chamadas: G.L.A.C. Quem ou o que seria G.L.A.C.?

-   Hummm... umm... - ela gemia, despertando do leve desmaio. Eu nunca bato em mulheres, seria a hora de abrir uma excessão? Não, num estado frágil, ela seria útil. Peguei um copo d’água mineral do frigobar. R$ 3,50 por um mísero copinho?!? Por que eu estava preocupado? Não seria eu quem iria pagar a conta. Malditos hábitos de baixa renda. Rompi o alumínio e joguei em sua cara: o que é G.L.A.C.? “Eu não sei.” Sabe! - mais um arremesso de água. Passei a abrir as bebidas isotônicas. É uma sigla, obviamente. O que significa? Gatorade de  frutas cítricas na sua fuça. A esta altura, ela já havia perdido todo o encanto. Quem mandou você? “Ninguém.” Já ameaçava apanhar os espumantes. “Você não sabe com quem está se metendo!” Não, mas você vai me dizer. Apontei a rolha para a sua testa. “É uma gangue...” Uma gangue? “O “G” significa gangue.” Que tipo de gangue? “Uma organização poderosa, muito além das suas habilidades. É a Gangue dos Lixeiros Anônimos de Curitiba!”

-   É claro! Assim tinham descoberto horários e valores. Tudo estava nas segundas vias emitidas pela maquininha de crédito portátil da Naomi Sueli. Não servem para nada estas segundas vias, mas sempre te dão, mesmo quando você não pede. A gangue acompanhava o movimento das prostitutas e depois recolhiam provas incriminatórias nos sacos de lixo do prédio. Quanta coisa se pode descobrir através do lixo de alguém! Quantos eles seriam? A quanto tempo estavam promovendo esta operação sórdida? Calcei meu sapatos, apanhei meu paletó e fechei meu cinto já descendo o elevador. Minha busca começaria procurando a Naomi Sueli.


Frede Marés Tizzot
Formado em História e Direito, abandonou o mundo acadêmico para fundar a Editora e Livraria
Arte e Letra, onde trabalha como ilustrador, capista, diagramador, editor, revisor, tradutor...

Diego Fortes
É ator, escritor, tradutor e diretor. Nasceu em 1982. Bacharel em Comunicação Social, tem
passagens pela Escola Técnica de Formação de Atores da Universidade Federal do Paraná, pelo
Ateliê de Criação Teatral e entre diversos outros. Fundou A Armadilha - cia. de teatro em 2001,
companhia pela qual montou os espetáculos Marias (2004), Café Andaluz (2005), Os Leões (2006),
Bolacha Maria - um punhado de neve que restou da tempestade (2008) e Jornal da Guerra Contra os
Taedos (2009). Em 2010, escreveu e dirigiu - com a colaboração da artista mineira Grace Passô - a
peça Os Invisíveis, pela qual recebeu a segunda indicação à Melhor Direção do Troféu Gralha Azul.
Mantém contato colaborativo com autores de outros países latinos.

2 comentários:

  1. O que é esse conto? Que coisa mais incrível! A narrativa, a antilinearidade, o final cômico depois de arrepios e tensão, caralho, parabéns.

    Quanto ao desenho, noir total, perturbador, curioso, clássico. Perfeito.

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  2. Caro Fabz e caro Frede, fiquei muito feliz com a publicação desta história e cara! que ilustração genial! Me senti valorizado! Parabéns aos amigos. Que grande ideia este blog! Abraços!

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