29 de dez de 2011

armazém

texto luiz felipe leprevost 
arte isabele linhares


olho para a senhora. ela foi a rigidez das fibras de quando ziguezagueava sua bicicleta. a juventude derreteu feito um cubo de gelo na frigideira. viveu a quimera, hoje piada sem graça. só conversa comigo porque me igualo às moscas, suas únicas ouvintes. busca-me outra cerveja na geladeira que range pedindo socorro. não devo duvidar, se faz o que faz é porque está viva. foi loira, somente nas tardes de sol. na época em que a maior parte dos dias acordavam sob o acinzentado céu do pós-apocalipse, sua grossa cabeleira ostentava grisalha antiguidade, como a das mulheres que somassem eternidades. mas é em sua loirice que me agarro agora. faceira, orelhas surdas no vento, bochechas coradas, da blusa os peitos a saltar, pernocas bem definidas, saídas com petulância da bermuda, descia pedalando a ladeira deste mesmo mercadinho. nossa ajuda fundou a cidade. ela não pode fazer a curva, derrapa, de nada servem os freios. os aros, entortados, dobrado em z o guidão. a coxa esquerda em frangalhos, em carne viva joelhos e cotovelos. finca-me seus olhos amarelazuis inchados de visões. foi exatamente aqui.

lf leprevost 
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isabele linhares
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