26 de dez de 2011

Sushi

Texto: Rafael Pesce
Fotografia: João Castelo Branco*
*Estrelando: Digão Duarte
produção: Fabiano Vianna / Raquel Deliberali / Nina Giusti Galiano

A caçada começava a noite. A roleta das oportunidades girava constantemente para Marcelo, jovem de 22 anos que nutria dois prazeres na vida: a culinária e principalmente as mulheres. Não era incomum usar uma das paixões para encontrar a outra. Como um autêntico desbravador, vagava pela selva de restaurantes em busca de boa comida e uma desejável companhia. O Watanabi, um dos mais famosos restaurantes japoneses da cidade, era um dos locais favoritos do rapaz. Incontáveis vezes o estabelecimento serviu de covil para o conquistador, mas nunca uma presa havia causado tanto impacto como a nova garçonete, Akemi, uma linda oriental de traços fortes e olhar penetrante.
Tudo aconteceu em uma noite gelada, com uma fina garoa que insistia em cair. Akemi – brilhante beleza, em japonês – trabalhava a apenas uma semana no Watanabi. Marcelo estava sentado em uma mesa no fundo, em um lugar onde pudesse observar a todos, ao mesmo em que passava despercebido. Devido ao clima nada convidativo, poucas pessoas se arriscaram a sair de casa. Talvez seja por isso, que ao invés de observar vulneráveis clientes, tenha notado Akemi. Após degustar uma rodada de Temakis e Chisahis, chamou-a discretamente:
- Mais alguma coisa senhor? – Falou a sorridente garçonete, exalando simpatia.
- Não. Só gostaria de dizer que você é linda! – Respondeu o confiante galanteador.
Após pedir a conta, para a alegria de Marcelo, um número de telefone constava no verso.
Não demorou muito para um encontro ser marcado. Para não parecer tão precipitado, três dias se passaram até a ligação. Na noite seguinte os dois se encontraram em um local reservado, a saída lateral do restaurante. Ao ver Akemi usando um vestido extremamente provocante, toda cautela usada no telefonema se foi, deixando os instintos mais primitivos do homem tomarem conta. Agarrou-a ali mesmo. Os beijos, carinhos e apertões já duravam alguns minutos, quando foram interrompidos por uma pequena picada. E foi então que...
Marcelo acordou assustado. Ainda um pouco grogue, viu que estava amarrado em uma cadeira, preso em uma espécie de calabouço. As paredes eram pintadas com diversas inscrições japonesas, indecifráveis para um simples ocidental. Marcelo tentou se recuperar do susto e pensou em tudo que tinha acontecido. Apenas se lembrava dos beijos e depois um grande blecaute. Para sorte do rapaz as cordas que o prendiam não estavam muito apertadas. Não demorou muito para ele se livrar daquele imbróglio. A porta da suposta cela estava destrancada, do outro lado um corredor seguia por aproximadamente 150 metros. Atravessou correndo aquele trecho, sentindo as imperfeições do chão de pedra castigarem seus pés descalços. No fim se deparou com outra porta. O silêncio, que até aquele momento se fazia presente, foi quebrado por uma série de grunhidos que vinham do cômodo seguinte. Voltar para o calabouço ou encarar o desconhecido? Essa era a dúvida de Marcelo. Resolveu seguir em frente e abriu a porta...
Não era um simples aposento. O que o jovem vislumbrava a sua frente era um verdadeiro salão, colossal, com uma ornamentação oriental que fazia Marcelo se sentir em outro século. Clic! Marcelo olhou para trás e viu que a porta por qual entrara estava trancada. Agora só podia continuar em frente. Os barulhos persistiam, porém o salão aparentava estar deserto. Infeliz engano. Abruptamente, as sombras que escondiam a origem dos grunhidos desapareceram, e delas eles saíram: mortos-vivos, seres em decomposição, arrastando-se lentamente em direção a ele. Porém, não eram simples zumbis. Aquela dúzia de devoradores de carne estava trajada com roupas samurais, um pequeno exército de Samurais-Zumbis! Não queria acreditar naquilo, sempre gostou de filmes de terror, mas jamais imaginou vivenciar um. A partir dali um verdadeiro jogo de caça começou, mas dessa vez a presa era ele.
Zumbis são seres lentos, quando sozinhos não são assustadores, sendo facilmente abatidos. Mas no momento em que uma horda se junta, a situação é bem diferente. Marcelo olhou para os lados, procurando algo que pudesse ajudá-lo. Para sorte dele, parte da decoração era composta por antigas espadas samurais, a arma ideal para um combate homem x morto-vivo, afinal, lâminas não precisam ser recarregadas. Munido de sua espada, esperou pelo embate. O primeiro zumbi perdeu a cabeça, decepada com um golpe perfeito e limpo. Os próximos dois tiveram braços e pernas arrancadas, o que permitiu que Marcelo procurasse por alguma saída. Depois de observar por alguns segundos, viu uma outra porta, localizada em um ponto crítico, onde a maioria dos zumbis se encontrava. Seria impossível matar o grupo restante, a situação requeria o uso de estratégia. Marcelo deslocou-se para o lado oposto, promovendo um berreiro para chamar a atenção dos errantes. Enquanto a horda se aproximava vagarosamente, um flanco vazio se apresentava, a rota de fuga perfeita. Marcelo correu, correu como nunca tinha feito na vida, evitando qualquer tentativa de mordida. Ainda ofegante abriu o que pensava ser a saída para a liberdade.
O que se viu foi uma forte luz branca. Seriam os raios de sol? Não deu tempo para pensar nisso. Ao abrir a porta sentiu uma lâmina perfurar o coração. Caiu ajoelhado no chão, com o sangue esvaindo-se do peito. Antes dos olhos se fecharem viu Akemi, segurando uma espada na mão e às gargalhadas enunciando: sushi para zumbis não é feito de peixe!
João Castelo Branco
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Rafael Pesce
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