25 de dez de 2011

Massacre na Cinelândia

Texto: Florestano Boaventura
Arte: Lord Velprost

            Primeiramente gostaria de agradecer ao caríssimo editor Fabiano Vianna a oportunidade de escrever meus causos sórdidos neste sítio. Não entendo nada de internet nem destes formatos modernos de divulgação, confesso que sou um sujeito totalmente pré-histórico, que cresci publicando em jornalecos feitos na prensa. Vocês podem imaginar o que era lançar revistas naquela época.
            Mas enfim resolvi aceitar, principalmente pela massiva insistência desta molecada.
Orgulha-me ver que os jovens estão mandando ver e principalmente escrevendo histórias de terror com muita potência e inventividade. Todavia se existe algo que entendo é literatura de horror. Observei e vivi muitas coisas macabras nos últimos anos. E é o que pretendo relatar aqui.
Sou grato também ao Vianna pela paciência e empenho em digitar estes rabiscos para o sítio Lama. (ainda não me adaptei aos teclados assépticos e silenciosos dos computadores). 
Nunca imaginei que a nova geração se interessaria tanto pelas narrativas de terror quanto eu me identifiquei um dia, lá nos anos quarenta, quando cunhei a minha estimada revista Lodo no ateliê empoeirado de minha amiga e tutora, Matryona Yaba. Naquela época, parecia algo tão íntimo e particular... E que versão bonita, esta Lodo 127 reeditada por Daniel Gonçalves, Vianna, LF. Leprevost, Tizzot, Linhares e demais compartes.
Obrigado pela paciência. Tentarei escreverei mensalmente. Enquanto a fera deixar e se o Vianna não desistir de digitá-los. É o que eu sempre digo – a literatura ajuda a curar as cicatrizes das lembranças atrozes.

Mil novecentos e cinqüenta e dois foi um ano agitado. Durante uma expedição pelas Sete Quedas, em Guaíra, fui tocado pela maldição. Só sobrevivi mesmo graças aos cuidados da querida amiga Marlene, dona da Cantina Flor da Serra, lugar onde eu passei noites horripilantes atormentado por pesadelos e delírios, ardendo em febre. Marlene aprendeu, não sei em que circunstâncias, a fazer o chá e pasta de Acônito, o que aliviou bastante as dores de meu machucado. Sou eternamente grato à ela e sua família que cuidaram de mim naqueles entardeceres gélidos.
A volta para Curitiba foi difícil. Ainda me atormentavam as imagens das cachoeiras violentas, os índios-lobos, lobisomens, basiliscos e rituais selvagens. O perfume do chá de Acônito impregnado nas narinas.
A cidade estava agitada em virtude ao início da construção de um novo teatro pelo Bento Munhoz da Rocha e pela inauguração dos novos cinemas, o Cine Ritz e o Cine Vitória. Lembro que ouvi diversas pessoas falando neste assunto quando desci do ônibus. Eu conseguia ouvir os papos num raio de mais ou menos dois quilômetros. Vozes sobrepostas em eco, isso quase me enlouqueceu. Do Guadalupe vim andando feito um mendigo, com as pernas amortecidas e mente dilacerada. O meu olhar havia mudado, era como se eu tivesse morrido, sem ter sido enterrado. O lado obscuro aguçou minha percepção pro invisível. As estátuas da Rui Barbosa me acompanhavam, virando os olhos. Sombras me espreitavam a surdina. A alma de uma enorme besta me seguia pelas ruas do centro. Eu sentia a vibração de seus passos pesados.
Na época eu vivia num casebre miserável na chamada “Rua da Bola”, nossa conhecida Dr. Muricy de hoje. Tinha este apelido porque durante o dia a piazada gostava de jogar na ladeira. O casebre tinha sido herança de meu avô, Ernesto. Eu tive que gradear as janelas, porque era rente à rua, e as noites de lua cheia vieram sanguinolentas. A sombra da besta não me deixou em paz uma noite sequer. Era uma presença ameaçadora, angustiante. Nem os calmantes resolveram.
 A primeira transformação se deu ali. Sob a inclinação do teto de barro da casa de meu pai. A lua entrou pela janelinha basculante do banheiro e dilacerou minha carne. Nasceu dentro de meus brancos oculares refletidos no espelho fosco e rasgou minha pele com unhas sanguinárias. Flores de sangue brotaram no azulejo. O lobo atravessou o espelho. Senti fome de carne crua. De nada adiantaram as grades nas janelas, porque a casa era de madeira. Atravessei a parede da sala como se fosse feita de papel. Atirei-me na noite e me alimentei da carne dos primeiros passeantes noturnos que encontrei. Havia bem menos postes de luz na Tiradentes e mais árvores nas ruas, o que contribuía para uma atmosfera ideal. Eu sentia o cheiro dos humanos vindo de todos os lados. Desejo por carnificina.
Depois de saciar a fome, dormia em qualquer lugar e acordava maltrapilho, jogado num pedaço de terra qualquer. De vez em quando encharcado pela chuva, noutras queimado pelo sol.
Toda a noite eu tentava surpreender o monstro com alguma armadilha. Cordas grossas, algemas, correntes. Coloquei mais trancas nas portas. Eu achava ingenuamente que conseguiria controlá-lo quando o momento chegasse. Mas aí a coisa saía do controle e é como se minha consciência acompanhasse em paralelo e eu não tinha como interferir.
Passei meses acordando em lugares inusitados, virado em trapos rasgados manchados de sangue. Para lá do Prado Velho, no Guabirotuba, na Rua da Liberdade. Certa vez, até na linha do trem quase em Roça Nova. Despertei com o apito nervoso e por pouco que não virei pasta de presunto.
No começo acharam que as mortes eram obras de um assassino em série, tipo aquele Jack de Londres. Eu tenho todas as capas de jornal da época. Inclusive o exemplar de “O Jornal das Moças”, que publicou uma matéria alertando a população e principalmente as donzelas, do maníaco que estava fazendo vítimas nas noites escuras citadinas. É engraçado ver hoje em dia a matéria, ao lado de uma propaganda do sabonete, água de colônia e talco “Regina”.
Foi numa destas noites brancas que o lobo desgovernado atacou um bonde elétrico na Cinelândia, local hoje conhecido como Boca Maldita. As cenas dantescas ainda ecoam em mim. Pulei no bonde em movimento, em frente ao Cine Avenida, coração da Cinelândia. Várias pessoas lotavam o cinema, mas o filme estava sendo rodado lá fora. Lembro dos crânios decapitados sendo lançados na rua – no capô dos carros, as mulheres desesperadas saltando em frente aos veículos com o bonde ainda em movimento, os rostos dos senhores assombrados, a carne atirada nos bancos de madeira escura. Um ainda tentou em vão se defender com uma bengala, coitado. Foi um banquete brutal. Minhas garras rompendo tecidos, penetrando a pele. Até que o elétrico descarrilou. Não desperdicei nem o maquinista. Quem pode fugiu para dentro das lojas ainda abertas na avenida. Daí apareceram um ou dois policiais e atiraram em mim. Nem cócegas. Saltei por cima do Palácio, escalando as paredes das construções como se fosse um inseto. Destruindo balaustradas. Um dos tiros disparado pelos policiais acertou uma senhora de camisola que observava a cena na sacada de um sobrado perto da Zacarias. Fugi em direção à ferroviária saltando pelos telhados, como faço até hoje pelas casas do bairro.
No outro dia acordei todo retalhado e nu, deitado na relva de uma floresta para lá do Uberaba. Foi a primeira vez que roubei roupas no varal de uma cabana. Depois voltei andando feito um pedinte, seguindo uma trilha de terra que dava no centro. Peguei carona com um pessoal que vinha de São José, e me deixaram perto da vila Rebouças.
Daí a função do dia seguinte: pregar as tábuas, limpar o sangue, incinerar as roupas. Tomei um banho e caminhei até à Luiz Xavier. Mais de trinta pessoas mortas – divulgou o Correio Paranaense. Poucos conseguiram escapar, alguns foram arranhados. A notícia se dava por relatos, ninguém conseguiu fotografar o massacre. As máquinas fotográficas ainda eram novidade naquela época.


Florestano Boaventura
É editor da revista pulp Lodo: http://www.revistalodo.blogspot.com

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