15 de dez de 2011

Rato de Praia

Texto: Otavio Linhares
Ilustração: Foca*
*Inspirada na capa do disco "In the court of Crimson King", do King Crimson, 1969. Para ler o conto ouvindo a trilha sonora, clique aqui.


                 Eu tenho de  chegar lá!
     Aonde, man?
     PAM!
     PAM!
     PAM!
     Três tiros vieram na minha direção e acertaram as paredes do beco.
     CRASH!
     Pedacinhos de tijolo voaram por cima do meu chapéu. A Jéssica estava vazia e eu começando a sentir saudades do Fúlvio. Parei atrás de um Transresíduos no canto da rua. Sentei no chão e tentei bolar uma estratégia com ela.
     É o seguinte. Esses miseráveis não têm a manha de como acertar um cara, pelo jeito são meio ceguetas, então a gente vai sair correndo até aquela porta, entrar com o pezão nela, e fugir por cima desse prédio. Lá em cima eu sei que tem uma saída conectada com o prédio do lado.
     Ótima ideia, Linhaça! Mas você já combinou com os safados pra eles não acertarem nenhum tiro na gente?
     Hahaha! Você é demais, amorzão. Se liga, vai ser no três. 1, 2,... foi!
     A porta estava aberta e não precisamos quebrá-la, mas a saraivada de tiros foi infernal. Os caras devem ter dado pelo menos uns quinze tiros em direção à porta e por sorte nenhum deles nos acertou. Caí com a Jéssica enrolada no casacão. Rolei feito um cão que perde a rinha e continuei correndo pelo corredor escuro. Naquele momento eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo, nem aonde ia dar aquele final de noite, mas uma coisa era certa: aquele era o prédio da Ana Escovinha e ela ia me receber nem que fosse “por amor”.
     Fomos eu e Jéssica pelo subterrâneo do prédio da Ana e ouvindo o barulho dos safados diminuindo atrás de nós até que pararam, ou pelo menos eu acho que pararam, o que dá na mesma. É que sem munição e com a patinha esquerda fodida eu não estava dando nem pro gasto, e a visão ainda estava embaçada por causa do socão que eu levei na saída do baile.
     Porra, Linhares, você tá só a capa da gaita!
     Relaxa, amorzão. Amanhã vai tá tudo bem. A gente acha a saída e cai fora. Vai ser fácil.
     É sempre fácil...
     Os infidáveis corredores davam numa porta de ferro. Abri sem muito melindre. Dava pra garagem do prédio. “Maravilha”, pensei.
     Maravilha!
     Ei, man, podíamos simplesmente pegar um desses carros e...
     Nem fudendo! Sem o Inércia eu não volto pro escritório!
     Ok. Mas o Inércia tá lá na Cruz Machado com o pneu furado, o vidro da frente quebrado, e os caras ainda ficaram com a Derruba Delinqüente.
     Ficaram nada. Eu escondi a fitinha aqui ó, um pouquinho antes de começar a putaria toda.
     Menos mal.
     E também, tem outra, o Inércia é a única viatura que ainda roda com toca-fitas, portanto, quem vai querer aquilo?
     Nesse ponto você tem razão. Ninguém ia querer arrancar o som do carro, a não ser que fosse por vingancinha. Hehe
     Mas daí eu vou até o inferno pra achar o cretino que fez isso.
     Se já não fizeram, né?
     Ô, amorzão, cê tá do meu lado ou do deles?! Pô!
     Foi mal. Tava pensando nas possibilidades.
     Relaxa, depois a gente pega o Inércia. Duvido que alguém vai querer fazer alguma coisa com ele.
     Paramos na frente do elevador.
     Qual andar?
     Sei lá, beibes. Acho que o 15.
     Da última vez era o 14.
     Entramos no elevador.
     Vamos parar no doze e subir de escada, tô achando que vai dar merda.
     O elevador parou no andar térreo e entraram quatro caras não muito felizes. Não deram o tal “oi” de elevador, que é muito comum por essas bandas, e ficaram de costas. Foi fácil perceber que estavam armados, e que os trabucos não eram pouca bosta, e o cheiro de cachorro que saía dos meninos não era brincadeira, parecia que eles tavam brincando no esgoto. A Jéssica também sacou na hora o que estava acontecendo.
     “Aê, mores, acho que são os caras do Fala-Fina”
     “Comé que cê sabe?”
     “Olha a marca no pescoço, é igual a dos caras de Guaíra”
     “Merda! São eles!”
     “Devem tá indo no mesmo lugar que a gente”
     “Isso é bom, assim a Ana não tem como não atender a gente”
     “Hehe, é vero”
     Descemos no 12, enquanto os caras desceram no 15. Eu estava certo quanto ao andar, mas isso pouco importava naquela hora. Subimos correndo de escadas porque a confusão ia começar de novo. Já estávamos quase chegando no na porta de acesso ao corredor quando escutei um dos caras com voz de cachorro...
     É o siguinte, dona Excova! Tâmo sabenu que a sinhora tá abriganu uns elemento extranho aí no seu domicílio!
     ... o jeito de falar me lembra aqueles policiais marrentos com sotaque carioca, tipo rato de praia, mas que não nasceram no Rio, mas de alguma forma acham que sim.
     Me desculpe, Seu Policial, mas aqui não tem ninguém.
     Então a sinhora num vai simportá de que a gente teja danu uma olhadinha pelo seu dumicíliu, num é verdade?
     Os outros dois riram.
     Dois, amorzão? Mas cadê o terceiro elemento?
     Puta merda! Não olhe pra trás, mas acho que ele está... respira... relaxa.
     Devagar
     Bem devagar fui virando
     Virando
     Olhando com o canto do olho
     Devagar
     Então fui virando a cabeça mais um pouco
     Olhei pra trás.
     PAM!
     Não tinha ninguém.
     Ufa!
     Mas ele deve tá dando a volta pelas esca...
     Não! Melhor! Ele já entrou no apartamento por outro lugar e a gente não viu! Caralho! Vamos ter de dar um jeito nesses caras nem que seja na cara de pau. Eles não reconheceram a gente no elevador, mesmo.
     Devem ser recrutas novos.
     Provavelmente.
     Saímos bem na boa de dentro da porta de ferro que dava pras escadas do prédio. Não sabia muito o que dizer, mas na hora sempre acaba vindo umas merdas. Os caras continuavam lá na porta, parados feito dois de paus. Parecia que estavam me esperando pra continuar com a estória. Chegamos meio falando e já meio entrando ao mesmo tempo.
     Ana, minha querida Ana, desculpe-me o atraso, mas por motivos insuspeitados que eu não poderia lhes narrar neste instante, eu e Jéssica, que está vazia e magrinha a tadinha, tu me entendes não é, acabamos nos atrasando. Na verdade, ela nem pode vir porque não fica de pé a coitada, está toda esmilingüida, caidinha, e como diriam nossos pais, ‘tá dodói a mocinha’, tu sabes né?
     “Porra! Manéra no exagero, né beibes”
     e por isso não pôde me acompanhar nesta ilustre visita que vos faço de coração, mas também, vejo que estás acompanhada. Quem são vossos amigos?
     Aê, dona, quem é o cabeça de alfinete, aê, hein?
     Desculpem-me, mas esse é o meu...
     Irmão, de Lisboa, Portugal. Muito prazer, eu me chamo Carlos. Carlos Aphonso Silllva. E os senhores?
     Fiquei com a mão estendida e a cara de trouxa olhando pra ele, que não moveu um cílios sequer. Apenas se voltou pra Ana com ar de reprovação. Eles deviam estar num esquema que eu estava atrapalhando. Como eu já estava pra dentro do apartamento e eram eles que deveriam entrar, fui rápido passar um café.
     Eles entraram. Ficaram todos de pé no meio da sala. Os três, o que era pior, porque ainda faltava um safado. A Ana veio até mim, não falou nada, apenas me entregou uma caixinha de remédios e voltou pra sala. Passei o café. Na sala eles discutiam algo sobre hoje à noite, armas, drogas, aquele papinho de sempre, mas falaram também no nome do Fala-Fina, e isso me interessava e muito. Depois da Chacina em Guaíra, o único sobrevivente foi ele, e andei sabendo que ele estava montando um negócio de carros pelo interior do Paraná. Umas concessionárias de carros montados no fundo de quintal com peças que vinham do mundo inteiro. Parecia um negócio bacana. Me chamou a atenção porque o Inércia ia mesmo precisar de uma recauchutagem completa quando voltássemos pra casa...
     O que cê tá fazenu aí?
     Um dos Capangas veio espionar o meu café.
     Café. Sabes, café? Uma frutinha vermelha que cresce num pé e que usamos a semente, e que depois de torrá-la faz-se uma infusão com água quente para se obter um liquido maravilhoso, e que se chama café?
     Chama o que? Que cê tá falanu, cara?
     Num movimento rápido meti uma gase embebida numa substância (que nem o Florestano deve sabe o que é) no nariz do cara. Tava na caixa de remédios. Achei que poderia ser útil. O cara deu uma baforada no paninho e caiu. Tive de segurá-lo pra ele não derrubar a cozinha inteira. Levei-o até a lavanderia. A Jéssica urrava de alegria no coldre do casaco. Com um pouco de esforço fiz uma alavanca na janela, subindo num banquinho que tinha na frente do tanque e taquei o corpo lá pra baixo. Ainda deu tempo de ver o pacote estatelar no chão. Tenho certeza que em quinze minutos a policia vai aparecer por lá causando uma confusão animal.
     Continuei servindo os cafés. O ratão gritou lá da sala.
     O Zé, cadê você? Qui ceis tão fazenu aí, caralhu?
     Peguei a garrafa térmica e umas xícaras e fui até a sala.
     Olha o cafezinho! Posso servir vossos convidados, Ana?
     Claro, Linha... Afonso... Claro, Afonso!
     “É com PH sua semi-analfabeta”
     “Quieta, amorzão. Esses caras não vão nem se ligar”
     Às vezes, a Jéssi encuca com cada coisa...
     Toma aqui o vosso, o vosso... Onde está vosso amigo?
     Um dos caras foi até a cozinha chamando pelo amigo. O chefe já estava puto. Estávamos adiando a merda, mas felizmente eu já tinha carregado a Jéssica com o que a Ana tinha me dado. Então mandei todo mundo pro chão.
     Todo mundo pro chão!
     A Jéssi veio pra mão tão feliz que eu até me emocionei.
     Desculpa te deixar lá dentro tanto tempo, beibes.
     Não dá nada! Agora manda chumbo nesses idiotas!
     Calma, mores. Precisamos saber onde está o quarto cara.
     É lógico que nenhum deles se atirou no chão, senão eles não seriam capangas ou coisa que o valha. Cada um sacou seu próprio revólvinho e começou um tiroteio monumental no meio da sala da Ana. Eu me joguei pra trás de um sofá. O chefe dos ratos de praia deu um mortal de costas.
     Coisa de ninja, hein, Jéssi!?
     Pois é, pelo jeito as coisas estão melhorando pro Fala-Fina com esse negócio de venda de carros.
     El Ratón caiu perto do corredor e ficou por ali atirando. A Ana se arrastou pra baixo da mesinha do telefone. O cara que restou levou um tiro logo de cara e ficou todo cagado no meio da sala.
     Por um instante pairou silêncio, como se as ondas estivessem ido se refugiar no mar. Olhei pela janela e o mar estava indo embora, levando todas as pessoas da cidade com ele. E elas caem pelas janelas de braços erguidos, com os olhos fechados, gritando alguma coisa que não dá pra entender. Então olho pro outro lado da rua e um menino de uns quinze anos com uma placa pendurada no pescoço escrito Marcelo me chama e pede que espere por sua mãe que está no banheiro, pois ela parece querer conversar comigo. Enquanto espero entro através da porta ao lado e mijo no próprio pé.
PAM!
PAM!
PAM!
     Acorda, Linhaça! Onde você tava?
     Lugar nenhum. Tava calculando o tiro.
     Olha só, o ratão acertou um tiro na boca da Ana.
     Putz... que merda! Vamos ter de pegar o cara, então, nem que seja pra pagar a porra do café.
PAM!
     RATÃO, CÊ TÁ FURANDO A PAREDE TODA MAS NUNCA VAI ME ACERTAR! VOCÊ É MUITO RUIM! Hahaha ele vai ficar puto, né amorzão?
     Eu sei como é, você também odeia quando eles falam assim com você.
     De repente, o cara não tava mais lá atrás da parede do corredor. Não vinha mais barulho algum de lá. Ficou silenciosa a sala. Corri de trás do sofá pra onde o safado estava e de fato ele não estava mais lá.
     “Amores, escuta isso... a respiração ofegante”
     Tinha alguma coisa respirando rápido, muito rápido e muito perto de nós, mas eu não conseguia ver.
VLÓSH!
     Isso sempre acontece quando me descuido. O monstrengo estava agarrado ao teto com suas patinhas de ratazana. Ele esperou eu me descuidar, trepou na parede e ficou esperando até eu parar ali embaixo pra me dar um golpe certeiro na nuca. Ainda bem que ele é sozinho e eu tenho a Jéssica, porque bem no momento que a bocarra do cretino estava engolindo a minha cabeça,
PAM!
     porque sim, ele cresceu dois metros depois da transformação. A Jéssi acertou seu OneShot bem no meio da fuça do safadão, um projétil .44 de prata bem no meio daqueles olhinhos pequeninos e entupidos de ramela. O que havia dentro da cabeça acabou redecorando a sala com um vermelho tão intenso e cheio de pingos e fios, que nem mesmo o Pollock sacaria qual é a da nova pintura da sala. A bocona do rato ficou arreganhada com a linguona pendurada pra fora, com uns pedaços de dentes semi-pontiguados e podres espalhados pela sala.
     Aspecto interessante o desse sujeito. Vou pegar uma amostra pra levar pro Florestano. O Fala-Fina anda fazendo modificações na estrutura e é bom a gente se dar conta do que está acontecendo por aí.
     E o quarto cara, Linhaça?
     Sei lá, deve ter fugido de medo. E ainda tem os caras que tão caçando a gente também. Acho que o melhor agora é tomar esse cafezote e esperar a polícia. A gente sai disfarçado de PM e depois pedimos pra rebocar o Inércia até o DP.


            Detetive Linhares



Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site  otaviolinhares.wordpress.com

Foca Cruz
Luiz Alberto Cruz, Foca, parnanguara, primeira lembrança na vida foi ver Neil Armstrong numa tv preto e branco andando feito um bobo na lua. Nessa época já existiam dinossauros e os carros de corrida na oficina do lado. O primeiro livro lido foi "Viagem à Lua" de Julio Verne. Ganhou do irmão pintor uma "Rotring" 0.3 aos 10 anos, daí em diante fodeu, pois logo ficou claro de fato que desenhar é como tocar violino em público: ou é muito bom ou da ânsia de vômito. Adam West. Também o do próprio: www.focacruz.wordpress.com

4 comentários:

  1. do caralho, man!
    valeu, foca.
    valeu, galera.
    sem palavras...

    Linhares

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  2. Muito bom !!! Parabéns Linhares e Foca!

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  3. Narrativa fluida e entusiasmante - literatura pé na porta!!! Fantástico, Linhares!

    Foca, interpretação maestral, referência inusitada - genial!!!

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