26 de jul de 2012

Uma Última Espairecida

Arte: Bruno Oliveira
Conto: Eduardo Capistrano



Ataulfo aguardava. “O filho do meu pai não esmorece”. Com seu chapéu preferido na cabeça, resmungava sozinho enquanto cofiava o frondoso bigode, sentado na rede, na varanda de casa. Os pés não tocavam o chão, apenas as solas dos chinelos, arrastadas pra frente, pra trás, pra frente, pra trás.
Não era papudo. Não era “ligeiro”. Não era, enfim, qualquer uma das coisas que o Zé Pitoco estava falando dele. “Desgranhado filho de cachorro com bode”.
A Diocleciana falou que ele é quem devia ter começado. “Como sempre”, ela gralhou, quando ainda achava que era só uma briga de boteco. Passa um tempo na vida de um homem sem briga, sem sangue, e o povo pensa que ele murchou. Até a mulher de um homem pensa que ele não é de nada e acha de zombar dele. Mas o que se pode fazer? Um homem não caça mais. Não volta com sangue e carne nas mãos. Um homem não precisa mais matar pra conseguir uma terra ou uma casa. O homem de bem trabalha e consegue tudo o que precisa. Aí vem outro e pensa que ele é um fracote. “Meu pai não teve filho fracote”.
A mulher não gralhava mais quando tocou ela de casa. Chorava e gritava, enquanto Ataulfo enfiava ela e os filhos na picape do cunhado. Agora não precisava provar nada, não é? “Entra no carro. Fica quieta”. E pro primogênito: “você é o homem da família agora”. Sapecou um beijo na testa dele. Era o primeiro beijo que dava no filho. O guri tinha acabado de fazer dez anos.
Pela terceira vez pôs na boca a garrafa vazia de pinga. A bolota de líquido acumulado no fundo virou, de novo, uma gota que escorreu pelas paredes da garrafa até seus lábios. Largou a garrafa dentro da rede, com as outras duas também vazias. A visão estava agradavelmente turva. O corpo, confortavelmente amortecido.
Divisou o Zé Pitoco quando o chapéu despontou na subida da estrada que chegava nas suas terras. Aí apareceu a cabeçorra sobre o corpo magro, com as orelhas de abano e aquela cara de rato com os olhos apertados, o bigodinho ralo e os dentes tortos pra fora naquele sorriso estúpido e zombeteiro que não saía do rosto. Vinha andando do seu jeito desengonçado. Parecia que mal aguentava com o peso do corpo, quanto mais da carga que trazia.
Parou na porteira. Lá na estrada, à distância, estavam os outros. O cunhado de Ataulfo e mais alguns. Não estavam ali pra interferir. Só pra ver e contar depois.
O Zé Pitoco abriu a porteira já cuspindo xingamentos. Ataulfo se ergueu da rede, a espingarda nas mãos, devolvendo impropérios. Não precisavam ouvir as ofensas que estavam trocando. Nem conseguiriam, se quisessem. Ambos tinham plena certeza da opinião que tinham um do outro. O Zé Pitoco mostrou o peito com a mão, gritou, apontou as testemunhas, chamou Ataulfo de covarde. Na outra trazia um facão. “Meu pai não criou covarde”.
Ataulfo deixou a espingarda e foi pra cima do Zé com a própria faca. Menor, mais rápida. O rato era traiçoeiro. O tiro da garrucha dele pegou na coxa de Ataulfo. Estava tão bêbado quanto ele. Ataulfo deixou a faca nos buchos do Zé, mas o magro pareceu não sentir. Seu facão entrou no braço de Ataulfo como se fosse a cana que costumava cortar. Ataulfo colheu com a mão ilesa o pescoço do Zé e procurou com a mão ferida uma arma. Achou as garrafas vazias na rede, quebrou uma na cabeça do Zé sem largá-lo, empurrou-o sobre a rede. Enfiou a garrafa quebrada uma, duas, três vezes na cara dele, enquanto enrolava as cordas da rede ao redor do pescoço do Pitoco.
A cara de rato, ensanguentada, mudou de cor. Ataulfo somou o peso do próprio corpo ao do Zé. Ele se debateu, se contorceu, mas logo parou de se mexer. O olho que não foi vazado pela garrafa quebrada parecia querer pular pra fora da órbita, como a língua pra fora da boca. Só então Ataulfo desvencilhou-se dele, direto pro chão. Agarrou o cabo do facão do Zé. Estava enterrado no meio do próprio peito. O cunhado e os outros chegaram bem nesse momento. Ouviram as suas últimas palavras, cuspidas com sangue, depois dele tirar o facão das tripas.
“O pai do meu filho não é covarde.”

Eduardo Capistrano

Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com

Bruno Oliveira
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/oitoart.

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