27 de jul de 2012

Limoeiro

Arte: Francisco Gusso
Conto: Dragomir Kephas



O sujeito taciturno, habitante solitário daquela paisagem desolada, seguia por uma trilha rumo à civilização para adquirir mantimentos. Em certa altura do trajeto deparou-se com uma carroça que havia deslizado e estava encalhada em um barranco. Uma mula jazia suspensa pelo dorso e, caído sobre o assoalho da carroça, estava um padre abraçado a uma grande cruz de madeira. O andarilho verificou que o clérigo estava morto, embora não apresentasse ferimentos. Com dificuldade, desvencilhou a cruz dos dedos do defunto, foi quando percebeu que o objeto era oco; algo sacolejava em seu interior. Na base do artefato havia um orifício, uma fechadura, que foi aberta com a chave que o eremita encontrou pendurada no pescoço do padre. A base da cruz desprendeu-se e de dentro do objeto o homem retirou um limão; seco, duro como pedra. Enquanto protegia o padre dos urubus, ajeitando-o sob o assento da carroça, negligenciou a fruta que caiu em uma fissura do solo erodido. Continuou seu caminho, pretendia retornar com ajuda para levar o padre ao cemitério da vila.
Dois dias depois, o eremita retornou acompanhado pelo pároco local e dois policiais emprestados pelo delegado. Para espanto do homem solitário, um frondoso limoeiro havia crescido junto à carroça. A planta devia ter uns três metros de altura, pela sua avaliação. A pequena fissura, em que o fruto havia caído, era agora uma fenda tão grande, que serviria para ocultar o cadáver da mula e ainda sobraria muito espaço. Perplexo, tentou relatar os fatos sem parecer insensato, mas foi ignorado. O padre morto certamente priorizava a atenção daqueles que o acompanhavam.
Primeiro desprenderam a mula e arrastaram-na para a fenda no solo, conforme previsto pelo eremita. Então, nivelaram a carroça, de modo a conduzir o padre para a vila em seu interior. Para isso haviam trazido o cavalo da paróquia. O esforço exaustivo sob o calor do pleno sol levou um dos policiais a experimentar um daqueles limões. Espantou-se com a suculência e doçura da fruta. Todos, exceto o ermitão, entregaram-se ao deleite oferecido pelo limoeiro. O homem simples tentou alertar novamente, sobre o mistério daquela árvore, mas foi ignorado mais uma vez.
Em poucos minutos, aqueles que haviam provado as frutas começaram a queixar-se de uma sede aguda. Esvaziaram seus cantis e começaram a disputar uns pela água dos outros, primeiro com argumentos, depois com violência. O eremita jogou seu cantil para eles e, enquanto engalfinhavam-se pela água, fugiu e escondeu-se a uma distância segura. Ele ouviu tiros, gritos; tiros novamente. Mesmo com o silêncio total, aguardou quase até o anoitecer para verificar os fatos. Deparou-se com um horror sem precedentes. O pároco, um policial e o cavalo estavam mortos. O segundo policial rastejava-se alvejado por tiros nas pernas, ele revirava as entranhas do cavalo, sugando-lhe o sangue freneticamente. As vísceras dos outros cadáveres estavam espalhadas pela trilha, quase sem sangue, praticamente secas. O eremita aproximou-se com cautela para não ser ouvido e matou o policial com uma coronhada de fuzil na cabeça.
Todos os cadáveres couberam na fenda junto ao limoeiro. O eremita terminou de sepultá-los cobrindo-os com terra. A cruz de madeira, que pertencia ao padre forasteiro, ele usou para demarcar aquele túmulo coletivo. Ateou fogo ao limoeiro, fez uma prece para que o mesmo morresse e partiu para nunca mais voltar.

Dragomir Kephas 
Colaborador da revista Lodo, desde 1958.

Francisco Gusso
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: franciscogussoarts.blogspot.com 

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