24 de jul de 2012

Sabor Alagoano

Ilustração: Zansky
Conto: Jean Michel Silva



            Era um dia normal na pacata cidade de Doutor Irineu. Um dia típico de verão alagoano, com temperatura muito alta beirando a 40 graus. A economia do vilarejo girava em torno do pequeno comércio que ali existia. A terra era seca, o gado morria, faltava água e às vezes até mesmo comida. As pessoas se viravam da maneira como dava: procuravam por bicos nas cidades vizinhas, plantavam alguma coisa em seus quintais e trocavam entre si os alimentos que nasciam, sofridos, da terra árida e desprovida de nutrientes.

            Apesar de toda essa situação, os habitantes do local procuravam juntar economias para gastarem na famosa, e única, sorveteria da cidade: a Sorveteria da Ivete. Lá, era o ponto de encontro de famílias inteiras durante as tardes quentes de domingo. Ninguém nunca havia conhecido a moça que dava nome ao estabelecimento. Os moradores mais antigos da cidade diziam que Ivete foi uma personalidade muito importante da região e que, inclusive, foi uma espécie de líder política. Fundou escolas, abriu poços e negociava com o governo local para garantir melhores condições de vida aos moradores. Conta a lenda que ela desapareceu da cidade assim que algumas luzes foram avistadas sobrevoando a região. Desde então, o caos e a miséria se abateram sobre a cidade.

            A ignorância de um povo mal instruído e o medo em relação as famosas luzes fez com que o misterioso desaparecimento de Ivete virasse assunto proibido. Contam os idosos da cidade que no dia em que a luminosidade tomou conta do lugar, uma voz autoritária invadiu as casas e chegou ao ouvidos de moradores dizendo: “Esqueçam o que aqui aconteceu. Enterrem esta história”. Desde então, nada foi dito ou falado. Ou melhor, nada foi dito ou falado até a chegada do jovem Klauss a cidade misteriosa.

   Klauss estudava química e chegou até a cidade devido ao sucesso dos Sorvetes de Ivete. O mais estranho é que todos os alagoanos sabiam a respeito do sabor incomparável da sobremesa gelada, mas nem desconfiavam da lenda por trás da sua história.

&bsp; Não por acaso, chegou a cidade no mesmo domingo ensolarado. Alugou um quarto de hotel e deixou seus equipamentos sobre a escrivaninha. Queria encontrar o segredo da fórmula tão saborosa para, em seguida, revendê-la na capital.

            Klaus dirigiu-se à sorveteria. Estava disposto a descobrir o que Ivete escondeu tão bem escondido que somente seu filho, atual dono do negócio, sabia. Ao chegar lá ficou surpreso. O filho de Ivete já o aguardava.

-         Como assim?
-         Quer conhecer a fómula dos meus sorvetes, não é isso?
-         Não, imagine, só vim experimentar e...
-         Não se preocupe. Posso te mostrar.
-         Simples assim?
-         Simples assim. Me acompanhe.

            Os dois desceram até o estoque do lugar, uma espécie de depósito. Klauss, a cada passo, ficava mais nervoso. Estava achando tudo fácil demais. Sentiu certo pavor. O filho de Ivete percebeu.

-         Acalme-se Klauss. Não veio até aqui por isso? Vou lhe mostrar.

            A cada passo, mais horrorizado ia ficando. Desceram escadas infinitas em forma de caracol até que deram de frente com uma porta grande de ferro. Uma luz azul escapava pelas frestas. Klauss ficava cada vez mais tenso. Suava frio.

-         Não tenha medo.
            Hesitou, num primeiro momento, em dar o passo a frente, mas uma força estranha o fez caminhar. O filho de Ivete movimentou a mão esquerda rapidamente, fazendo com que a porta fosse aberta.

            A princípio, nada muito chocante. Klauss achava que o nervosismo o fez sentir e imaginar coisas estranhas. Viu uma grande, ou melhor, enorme panela sobre uma espécie de fogo azul que cozinhava algo fazendo exalar um cheiro terrível. Ao se aproximar mais, pode ver uma mulher que esticava a mão implorando por socorro. Era uma senhora, metade pessoa, metade esqueleto. Alguns ossos estavam a mostra. Seus músculos levavam uma coloração roxa. Era possível ver pedaços de seu corpo boiando sob água que, apesar de um azul exuberante, oscilava entre temperaturas muito altas e muito baixas. A mulher se desintegrava aos poucos, mas ainda tinha forças pra falar.

-         Me ajude seu moço. Sou Ivete. Esses bichos....

            Enquanto tentava complear a frase, seu maxilar caiu em meio a água.

Klauss estava apavorado. Pensou em sair correndo, mas sabia que seria tarde de mais.

-         Essa é Ivete? O que fizeram com ela? Quem..o que você... é?

            Antes que pudesse tomar qualquer atitude, o filho de Ivete riscou uma cruz no ar com seu dedo, desfazendo Klauss em quatro partes.  Enquanto o corpo dividido caía lentamente, Klauss ainda conseguiu ouvir:

-         Sou filho de Ivete. E você, curioso demais.

 Zansky
Outros trabalhos: www.zansky.com.br

Jean Michel Silva
Site pessoal: about.me/jeeanmichel

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