28 de abr de 2012

Títere (VI)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares




2012
            Um pássaro desce pelo céu. Sua imagem some e aparece, por causa do sol. Lá embaixo, na XV, velhos conversam sentados em bancos. Alguns comerciantes anunciam seus produtos. Executivos tomam café em pé, em frente aos estabelecimentos da Boca Maldita. Pessoas caminham.
            O pássaro sobrevoa o Edifício Tijucas. Passa rente a uma janela de um dos últimos andares.
            O garoto vê o súbito movimento. Logo se desinteressa.
            A mãe sai do corredor para a sala, arrumando o avental. No centro da sala, encostada na parede, uma TV. O garoto está de joelhos, sobre o sofá, encostado ao vidro da janela.
            - Ei, filho, olha, tá passando aquele programa, o dos bonecos, não vai assistir?
            O menino vira o rosto para a TV. Não há tensão nos músculos da face. Talvez leve contração no zigomático menor.    
            - Não.
            O rosto vira-se para a janela.
            A mãe abre a porta de uma arca longa e pega duas travessas.
            - Ué, como assim “não”, por quê?
            Sua cabeça reta à janela. De costas para a mãe. Os cabelos, na parte traseira, com pontas suavemente levantadas. Para além da janela, prédios e reflexo.
            - Eu não gosto mais.

1964
        A lâmpada, pendurada pelos fios, pende de um lado a outro. Sua luz é fraca. A cada lado que vai, projeta sombras diferentes na parede de placas de madeira.
            Ele está com a cabeça baixa, ombros caídos e mãos repousadas ao lado do corpo. As mãos formam duas conchas voltadas para trás.
            O pai deposita o galão de cinco litros no chão. Usa um casaco puído.
            - Por que você fez isto?
            Os olhos do menino abaixam. As sobrancelhas erguem.
            - Eu queria pegar os fios de agulha da mãe.
            - Pra quê?
            - Pra amarrar e fazer uns bonecos. Pra brincar.
            O pai olha para a mãe. Ela não pisca.
            - Você tem que aprender, garoto, a não fazer merda.
            O pai infla as bochechas, cerrando os dentes. Suas mãos dirigem-se ao cinto. Tira-o de uma presilha. Olha para a mãe. Ela franze os olhos.
            - Muito bem, garoto, ouça-me bem. – solta a mão do cinto, tira a camisa para fora. Ajeita a calça. Curva-se para o menino.
            - Você não pode mais fazer estas coisas. Tá vendo aquele alçapão ali?
            Aponta para além do garoto, no teto do corredor.
            Ele olha. Demora para erguer a cabeça. Volta ela para o pai.
            - O velho do saco está ali, dormindo. Ele se alimenta de arteirice de guris que nem você. Toda vez que você faz algo errado, o sono dele fica mais e mais fraco. Até que um dia, de tanto você aprontar, ele vai acordar. E você não ia querer ver ele. O velho do saco tem toda a pele apodrecida. E o rosto, oh, Senhor, eu nem sei do rosto dele.
            - O que ele faz com as crianças?
            O pai olha novamente para a mãe. A mãe olha para o garoto.
            - Ele te coloca em um saco e te leva embora para sempre.
           
            Á noite, deitado em sua cama, ele puxa a coberta até os queixos. Um fraco fio de luz da lua corta a porta, em direção ao armário do quarto. Ele ouve ruídos no teto. Estremece. Seus olhos fixam-se na porta. Lá fora, o vento assobia. Silêncio. Ele ajeita a cabeça no travesseiro, ainda de olhos abertos.
            E esperou pelo dia que, fatalmente, a besta desceria do sótão e lhe tomaria em seus braços, para todo o sempre.     


Agradecimentos a Adriano Boriani, Anderson Nery, Guilherme Giublin, Kaiser, Jackson Souza Reis, Jorge Barbosa Filho, Fabiano Vianna, Luiz Felipe Leprevost, Maria Luísa Carneiro Fumaneri (principalmente), Leonardo Burigo, Fábio Young Lopes, pelos momentos em que tiveram de aguentar eu falando sobre este conto e o quanto ele estava me deixando perturbado e blá blá blá, até o limite da xaropice. Thank you all, motherfuckers!

FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
Seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com

Um comentário:

  1. Gostei desta participação do velho do saco no final. Não imaginaria um desfecho com essa citação. Me surpreendeu, muito bom!!

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