24 de abr de 2012

Títere (II)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares



2012
            O olho de íris azul está ligeiramente úmido. Refletidos na pupila, flashes de luz indistinguíveis. A esclera, em intervalos irregulares, ora para a direita, ora para a esquerda, sutilmente. A expressão de seus olhos, quando vista em conjunto, revela uma pequena tensão dos supercílios em sentido inferior. Porém, há uma sutil elevação do sulco palpebral superior. É um garoto.
Sentado em uma cadeira giratória, em frente ao computador, o tronco virado para a direita. Seus ombros estão relaxados, prostrados para frente. Sua respiração é regular.
Ele assiste à Turma do Jan-Jan, um programa que passa diversos desenhos ao longo da tarde, intercalados por gags provocadas pela convivência entre bonecos (e apresentadores) de naturezas, formas e tamanhos variados. 
A sala é predominada pelo tom marrom. Carpete, cortinas e dois sofás de couro de mesma cor. Uma mulher loira, vestida com jeans, jaqueta marrom e bandana vermelha com motivos indecifráveis, entra pela porta ao lado da mesa do computador. As paredes são brancas. Um telefone toca.
Alô...
            O menino vira-se lentamente para o computador. Sua boca está entreaberta. Quando faz isso, uma de suas mãos está sobre o teclado. Na tela, um jogo chamado Cavaleiros de Grumma, cujo objetivo é digitar rapidamente as palavras que surgem no menu direito inferior. O conteúdo, em si, é que uma horda de “pilhadores” Yin-Ramat tenta “invadir” a fortaleza dos cavaleiros Grumma. Cada palavra digitada no tempo certo vale uma “derrota” de um dos vilões. Uma palavra digitada em tempo mais do que “certo” vale um combo especial de “derrota”.
Mas não tem como, amiga... hm. O Marcos sai lá pelas seis...ah, tá! Ahahahha...sei...mas com que eu vou deixar o piá? Ãh? Ahahahah...
Ele olha novamente para a TV. Logo depois, para a mãe.
Tá. Tá, eu sei. Eu vou tentar uma coisa aqui, tá bom? Já te ligo. Vou ver com o Marcos também...tá bom. Hm. Beijo. Ah! Ahahahah...tchau!
É rapidamente vestido pela mãe. Os olhos dela são bonitos e lembram um catavento marrom. Na porta do vizinho, ela se remexe inquieta. É pega de surpresa em um momento em que olhava para o corredor do andar.
- Oi...oi! Tudo bem? Olha, bem rapidinho, o senhor já fez algumas calças pro meu marido, ce lembra de mim, né?
Ele abre um sorriso. Tem um declive no orbicular da boca.
- Olha, eu tenho de dar uma saída urgente, surgiu do nada, sabe? – ela sorri. – Eu...eu gostaria de saber se poderia deixar o garoto com você. Até umas oito e meia, por aí, sabe?
Ele olha para o garoto. Este, de mãos dadas à mãe, retribui o olhar, não sem um esforço para levantar o máximo que pode o queixo. Com esse movimento, os cabelos lhe caem sobre os olhos.
- Não terá problema, Senhora. Eu estou sem nenhuma encomenda. Digo, urgente. Apenas a finalização do corte de uma calça, mas é pra segunda só.
- Por que ele corta calças, mãe?
Ambos sorriem. Sua mão cai sobre o batente da porta e lá permanece. A outra sustenta o peso do quadril. Por um momento, olha novamente para o garoto. O supraorbital inclina-se para baixo. Volta um sorriso para ela.
- Ai, meu filho, ele é alfaiate. Ele faz roupas para as pessoas.
- Eu sei fazer roupas. – ele levanta mais o queixo e infla as bochechas, fazendo um bico com os lábios e balançando a cabeça e as pernas.
- Certamente que sabe.



FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
Seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com


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