23 de abr de 2012

Títere (I)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares
"Não há culpados. O que há são desgraçados."
- Shakespeare
                                                                                            "O demônio pode citar as Escrituras para justificar seus fins."
- Idem









1964
        Ele é um menino franzino e pálido. Corpo marcado por feridas decorrentes de trabalho rústico ao ar livre. Shorts vermelhos com listras brancas nas laterais, imitação da Adidas. Pés sujos. Está sentado sobre um degrau de cimento que há um dia secou. Ele mesmo fizera. O sol se pôe. Grilos. Língua na boca, ele pega uma pedra do cascalho que faz o caminho até os fundos da casa, tenta acertar um sapo que surgiu junto com a noite. Os olhos.
            - Pula, sapo. Pula.
            Nenhuma pedra acerta.

 23:45 – 1997
            Este homem mora no Tijucas. Apartamento espaçoso e confortável. Pouca luz. Raramente sai de casa, à exceção das necessidades mais básicas. Não humanoide de estatura exatamente gorda, mas sim “robusta”, mede quase dois metros de altura. Tem os ombros pendentes, um tanto mais para a direita. Possui uma grande papada e seus cabelos são muito ralos no topo, enquanto que abundantes (e desalinhados) nas têmporas. Olhar vago, porém firme e estático, quando em contato visual.
            Sai pelo lado norte do edifício. Na Trav. Nestor de Castro, levanta a gola do casaco de lã marrom. Olha para os dois lados da rua. Perto da continuação da José Bonifácio, é abordado por dois rapazes com moletons de capuz. No trajeto de volta, ele erra o caminho.
           
03:25 – 2001
            É uma sala ampla. Tacos de madeira. Ele está pelado sobre o sofá de dois-lugares. Região entre o meio de seu abdômen e os pelos pubianos proeminente. Mas não nos lados. Ele vê o DVD de Como se faz o amanhã, estrelado por Richard Burton e Ava Gardner.
            Os cristãos e os bons samaritanos sempre elevaram a questão “quanto você pode perdoar” a um patamar de irrepreensível moralidade, Rose...
            Sua respiração acelera levemente. Sobre um espelho, ele pega um canudo e percorre o nariz.
            Eles não podem compreender, meu amor...
            O quê, Rose?
            Ele serra os dentes e o rosto treme. Calafrio. Percebe seu pênis por um momento, mas logo sua respiração eleva o abdômen. A sensação de enxergar apenas um pouco do que representa o perturba. 
            ...que a verdadeira virtude heroica é o homem conseguir perdoar a si mesmo.
            Suas mãos passeiam sobre o corpo, lentamente. Seus lábios estão entreabertos e úmidos por saliva discreta. 
            Sim, Rose. Um homem de verdadeira ética seria aquele consegue perdoar a si mesmo.
            - Oh, não, não, deus...
            Ele sente sua semente cair sobre toda a área compreendida entre o abdômen e o tórax. Com as mãos, espalha sobre o peito. E é glorioso, senhor Onan, oh, se é, senhor!

FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
Seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com

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