25 de abr de 2012

Títere (III)

Texto: FMAN
Ilustração: Isabele Linhares



1994
            Existem, no Condomínio Saint Pierre, diversos meninos. Púberes. A complacência e submissão emocional/intelectual de que precisam é notória. Alguns mais velhos, mais “experientes”, outros mais novos. Mas não faz diferença. O que conta é a distinção entre cada um. A diferença de criação, de mentalidade, de sensibilidade. E, principalmente, de maturidade. Mas todos ávidos.
            Ali está o garoto que perdeu o pai cedo: sua sede por uma figura heroica, de autoridade, para que deposite suas inseguranças. Acolá este moleque que apanha em casa do irmão mais velho, homem da casa depois da mãe viúva: ele está babando para descobrir do homem de mais envergadura a polpa de sua vingança. O maior deles sedutoramente desespera-se pelo reconhecimento, apenas para não perder o respeito perante os menores. E outros, ainda, uma encenação bastante previsível. Os corpos têm a textura macia da androginia característica da puberdade, ao mesmo tempo que a promessa de uma virilidade contida - bundas salientes e fortes, falos tímidos sob pentelhos ralos. Quando explode, ainda é culpada, frágil e desorientada. A tensão entre a fragilidade e a fúria do desejo é a Beleza.
            Eles estão aí, nesta sala miúda. Duas caixas de som estão tocando as primeiras notas de “Time”, do Pink Floyd. Eles querem vê-lo tocar bateria. Querem ver junto com a música. “Beleza é aquilo que desespera”1. A reação se uma revista pornográfica fosse jogada no meio deles seria a mesma. A possibilidade de “venerar” algo lhes reforça a identidade, independente do motivo. Excitam-se com a crença de que estão no controle. Regozijam-se com mãos hábeis. Mas ainda são ingênuos. Não sabem que mãos hábeis não sabem ser hábeis consigo. Estão aliciando uma ilusão. Sempre a tensão. “Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio.”2
            Foi uma boa época a do Condomínio Saint Pierre.

2012
            Um fino feixe de luz, vindo pela curta brecha da cortina, atravessa a sala. Ilumina os dois corpos. Ele está com os braços lânguidos, ortodoxamente ao lado do corpo. Os ombros permanecem curvados. Boca entreaberta. Os olhos não piscam. O garoto está à sua frente. Encarando-o, ainda com a cabeça levantada e uma mecha de cabelo caída sobre as sobrancelhas. Eles permanecem assim por alguns segundos.
            O menino pisca algumas vezes. Arregala bem os olhos e arruma a mecha.
            - Não está muito escuro aqui?
            O homem acompanha com o rosto o arrastar dos pequenos pés explorando o novo ambiente. A boca ainda entreaberta.
            - Lá em casa a mãe nunca deixa nenhuma cortina fechada. Pode dar mofo.
            - É por causa do sol. – ele diz, voltando o olhar para a janela. O corpo permanece languente, de frente para a porta.
            - Eu sei que é por causa do sol. – o garoto eleva mais ainda o queixo, contraindo o orbicular da boca. - Apartamento que não pega sol não é bom. Tem que pegar sol de todos os lados.
            O homem esboça um sorriso. Move o corpo, finalmente, os braços voltam a ganhar vida e os ombros ficam eretos. Ele caminha pela sala.
            - Você parece ser um garoto bem esperto.
            - Eu sei.
            O homem gargalha. Em uma distância frágil de tempo, o garoto observa-lhe a reação, prócero tenso, mas logo sorri também. Seus olhos voltam-se para as mãos do homem.
            - Por que suas mãos são assim?
            Ao toque, o homem tem um pequeno ataque de languidez, logo recuperado. Afasta-se. Vira-se de costas para o garoto e recomeça a andar pela sala, em torno do sofá, até a janela e de volta para o centro do recinto.
            - Você sabia, garoto, que o nome deste edifício que não pega sol direito é Tijucas?
            O garoto faz um bico e gira a cabeça molemente, de um lado a outro. A mecha de cabelo volta a cair sobre a testa.
            - O Tijucas foi construído sobre um pântano...um pântano assombrado. – O homem curva-se e suas mãos abrem-se, como garras. Os olhos estão abertos no limite muscular permitido. – Este prédio, garoto, é cheio de fantasmas. Fantasmas das pessoas que morreram no pântano.
            O garoto infla as bochechas e olha para a fresta de luz vinda através da cortina. O homem posiciona-se à sua frente, interrompendo o fluxo de claridade. Sua fisionomia assume uma careta de escárnio, um meio-sorriso esticando-se de um zigoma a outro.
            - Dizem até que às vezes você pode ver o espírito de uma mulher vestida de vermelho andando.., – seu rosto aproxima-se do garoto. Pode sentir seu hálito. Lembra-
-lhe talco. Por um momento, hesita, admirando a forma de seu crânio. - ...pelos corredores deste andar mesmo. – Vira o rosto e arregala um dos olhos, enquanto o outro permanece semicerrado. Abre a boca, em espera.
            - Eu não tenho medo destas coisas.
            O homem fecha a boca. Bruscamente ergue o corpo e a cabeça cai pra trás. Os braços retornam à languidez e os ombros caem. O sorriso some de sua expressão.
            - Você gosta de bonecos, garoto?

1  Paul Valèry, modificado.
Isaías 40:11.


FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

Isabele Linhares
Seu portfolio online: isabelelinhares.daportfolio.com


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