18 de abr de 2012

O Lobisomem de Jacarezinho

Texto: Florestano Boaventura
Arte: Bruno Oliveira


Minha primeira passagem por Jacarezinho foi em sessenta e três quando filmaram “Sugar Loaf” na cidade. Sempre fui fã da atriz “Rhonda Fleming” e era a oportunidade única de vê-la de perto. Tive a sorte de conhecê-la na Feira das Nações, quando o elenco aproveitou para passear. Guardo o autógrafo até hoje, rabiscado no guardanapo de um pastel.
Esta semana publicaram uma matéria sobre o tal lobisomem. Mas será que ninguém avisou aos jornalistas que onde há um, há vários?
Só eu conheço quatro. O compadre Nito – irmão do Francelino do Monjolinho, que sempre assa uma costela de padre franciscano quando apareço por lá na Festa do Parapente – precisa ver que bonito fica o céu, coalhado de atletas. De longe parecem gaivotas.
Nito é vizinho, inclusive acho que também responsável, pela transformação do Tonico “Dente”, num dos lobisomens mais vorazes e famintos que eu conheço. Dois metros de pura banha e pelos. Tonico é capaz de devorar um banquete de três reis momos em menos de dez minutos.
Ele e Nito trabalham durante o dia nos canaviais e me falaram que existem muitos outros camuflados na cidade. Contaram-me até de um lobisomem crossdresser que participa de desfiles de criaturas transformistas em eventos internacionais de Santo Antônio da Platina.
Outro que conheço é o João Picanha, do açougue. Ele vende, discretamente, carne de humanos – moída, ninguém percebe a diferença. Fornece, inclusive, a comida para o encontro anual dos lobisomens lutadores de Vale Tudo que acontece todo mês de Agosto em Cambará, cidade vizinha. Sempre que viajo a Jacarezinho, volto com um bom estoque de carne humana. O “Jão” prepara bandejinhas só com dedos e orelhas. Prontos para encaixar no espeto e enfiar na churrasqueira. 
Me parece que esta fera vista pelos moradores, usando boné, trata-se do compadre Aparício, da Rua Paraná. Sempre com o bonézão do SENAC enfiado na cabeça. Dá aula para alunos dos cursos de enfermagem e durante a noite faz plantão na Santa Casa. Não sei o que pode acontecido – de repente bebeu demais na festa da padroeira ou contraiu gripe aviária. Os sujeitos acham que porque são lobisomens, estão imunes a todo tipo de doença.
Tô falando, mas nem sei se é isso. Preciso ligar para Nito, Jão... Eles devem saber melhor. Coitado do compadre Aparício. Daqui a pouco a mídia esquece isso. O duro é que apareceu até no Fantástico. Garanto que neguinho já vai vender camisetas e broxes do lobisomem, na feira, esta semana, por lá. Se bobear, já está até na internet.

Florestano Boaventura
Editor de uma revista de cordel, com temática horror, chamada LODO. A publicação circula  pelos becos de Curitiba desde 1948, e foi relançada junto com a LAMA nº 2 em 2011.
Alguns contos podem lidos em: www.revistalodo.blogspot.com.br.

Bruno Oliveira
Seus trabalhos podem ser visualizados no site: www.flickr.com/oitoart.

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