14 de abr de 2012

El baile de los locos

Texto: Otavio Linhares
Ilustração: Daniel Gonçalves




- Nenhum lugar pra ir. Ninguém pra matá.
- Dia chato, né, man.
- E se a gente saísse por aí atrás de um pózinho mágico e de um pouco de diversão?
- Faz tempo que a gente não se diverte, hein?!
- Vâmo dá uma voltinha, então.
Afirmativo como um macho no cio catei um punhado de balas de prata que estavam na primeira gaveta da mesa do escritório e meti no bolso do casaco. O Florestano sempre me disse pra nunca sair de casa sem elas, ainda mais em tempos de fim do mundo. Criaturas estranhas costumam sair às ruas nesses dias de apocalipse. Carreguei a Jéssica com as pontas ocas que tinham ali por cima. Meti a cobertura na cabeça. Fui dar uma mijada rápida e por acaso dei uma olhada no espelho do banheiro. Parecia que a velha cara não tinha mudado nada. Um pouco mais soturno e sábio, diria alguém que já morreu. Os olhos mais fundos e enfiados pra dentro do crânio, os lábios mais secos e duros, lembrando de longe o Clint Eastwood, mas com uma leve e destoante diferença: o sorriso tinha voltado aos dentes. Os velhos erros tinham ficado pra trás.
Lufus
Por um momento a imagem daquele velho safado passou pela mente. Alguns meses sem vê-lo e eu nunca tinha pensado na sua ausência. Talvez ele devesse voltar, talvez não deixe ele lá, man. Cocei o nariz. Chupei os dentes fazendo aquele barulhinho agudo e estridente. O ar passou fácil pelos buracos. Passei o pentinho vermelho na barba.
- Vâmo, man. Cê parece que vai visitá a vovozinha.
Por que a Jéssy está sempre certa?
- Olha aqui, beibes. Um pouquinho de vaidade não vai matá ninguém, ok? Tô velho e isso parece bom.
- Humpf... Pra mim você continua o mesmo idiota engraçadinho de sempre!
- Hehe. Gosto quando você fala assim.
Ela sabe como me agradar. Sempre na medida certa. Um pouco mais de cinismo e ironia e ela seria um daqueles canas da ditadura que gostavam de bolinar criancinhas e correr atrás de meninos jovenzinhos vestidos com camisetas do partidão e fazer perguntas imbecis.
HAHAHAHA
Esse pensamento me fez soltar uma gargalhada animalesca. Gosto de imaginar aqueles cretinos torturando as pessoas, sendo machões em porões de prédios abandonados, no escurinho, longe das esposas e das crianças, e da família que vai perguntar no almoço de domingo como anda o trabalho, e o imbecil vai ter a cara de pau de dizer que anda tudo bem hahahahaha, que estão capturando inimigos da nação pelas ruas papai é um herói! Eu, o Flores e o Lopes poderíamos assá-los num sete de setembro enrolados em papel alumínio hahahahaha feito peixes com os olhos esbugalhados e a língua de fora pedindo perdão que do caralho, com a bandeira nacional sobre a mesa onde pingaríamos nossas babas e chuparíamos os ossinhos dos cretinos, e lógico, aos uivos, brindaríamos com sangue.
HAHAHAHA
- Seria bem divertido, né amores?!
- Claro, man. Claro que seria.
Ela diz isso rindo com o canto da boca como faz o Florestano. Mas com ela não me irrito. Nem com o Flores. É que com ele é diferente. A risada dele é sempre sinistra. Parece que esconde o real motivo de estar rindo você é sinistro, sabia disso, Boaventura? Pergunto pro espelho que me olha sem entender nada.
- Será que dá preu tomá uma cerveja que tá na geladeira antes de sairmos?
- Por que não?
- Sei lá... bateu uma vontade de dá uma olhada pela janela e fumá um cigarro... fica olhando a Boca Maldita.
Acendo um cigarro e vou em direção à janela. Abro. Venta muito. Olho pra baixo e dá vontade de sair voando.
- Você ainda tem esperança.
- Não.
Não há nada pra se contemplar dali de cima. Só o barulho da noite. Aperto com força o gargalo da garrafa e viro de um só gole a long neck. Descemos as escadarias do Edifício Asa e muitos barulhos preenchem o silêncio. Estupros. Violências veladas. Pequenos furtos de sensações que vazam por debaixo das portas. Dez andares de sinistros sentidos. No oito paro pra ouvir um velho gemendo de dor. Como se rastejasse do quarto ao banheiro em busca do remédio que vai fazer seu coração voltar a bater. Quinze segundos e o velho uiva baixinho como se lhe tivessem tirado algo. Encosto a mão na porta. Eu poderia entrar e acabar com isso de uma vez. O sofrimento do homem não me interessa, apenas o quadro que foi pintado quando ele quase chegava ao banheiro. A mão estática sobre a tampa da privada. Os olhos de desterro. No fundo alguém uiva. Desço. Gritos nos corredores. Muitas pessoas matam sem que saibamos. Tenho certeza que nos tapetes das portas de entrada o pó poderia nos contar o que houve. Mas já sabemos, não é mesmo? Não há o que contar. No 202 uma mulher grita com uma criança. Sabe aqueles gritos? Aqueles gritos que nos forçam a desabar e com força descomunal resistimos até os joelhos estilhaçarem em pedaços? A Jéssica se contorce. Por que ela sabe. Não há lugar pra ir. Algo explode dentro daquele apartamento. Consigo sentir. Corro em direção à porta e com um chute a arrombo. O apartamento pega fogo. Pela porta uma enxurrada de gatos foge para as escadas de emergência. A criança acuada por labaredas se esconde atrás do sofá, perto de uma mesa alta com um telefone. Estico o braço e a encosto. Ela me arranha. Os ferimentos vazam pus. Sorrimos um para o outro. Saio do apartamento e continuo descendo as escadas até chegar na portaria do prédio onde o piá da portaria abre as correspondências dos condôminos. Ele se masturba lendo uma carta escrita à mão. Não me nota. Não está nem aí. Vejo a rua por detrás da porta de vidro que nos separa da praça onde meninos jogam bola e saio correndo pra ver se ainda dá tempo de fugir. Seguro a porta que desaba sobre mim. Jogo-a de lado e piso o petit-pavé. Estou a salvo. Mais uma vez. De volta à selva.

Percorro a rua XV em direção á Monsenhor Celso. São duas da matina. Só zumbis saem a essa hora. Identifico uns quatro, cinco. Velhos conhecidos. Vendedores de almas. Me oferecem algumas, mas digo que não.
- Hoje, não, amigo.
- Hoje vamos nos divertir.
- Mas eu tenho o que vocês querem, senhores.
- Então me dê três de uma vez.
Pego o que ele me dá. Vem num saco de pão escrito PRODUTO META-INDUSTRIALIZADO.
- Meta a putaquepariu!
Ela não se agüenta e faz um comentário ardido.
- Isso é sacanagem. Ninguém fica na XV até duas da matina pra vendê esse tipo de porcaria.
- Relaxa, amorzão.
- Relaxa o caralho! Quero vê a hora que você abrí esse pacotinho e vê que se fudeu.
Coloco a mão dentro do pacote e um escorpião pica a ponta do meu dedo. Meu dedo apodrece e cai no chão. Me abaixo e o guardo dentro do saco. Enrolo o pacote e continuo subindo a rua. Pessoas sintomáticas caminham de mãos dadas. Procuram pedras pelo vão das pedras. Lá na frente um brilho. A Catedral de Curitiba. Centenas de pessoas à sua frente rezando alto. Gritam. Berram. Esperneiam.
- Que que tá rolando?
E um mendigo ri.
Pego o homem pelo pescoço e suas veias saltam pra fora feito tentáculos. Seus olhos enchem de piche e ele começa a vomitar sanglava. Deixo-o ali caído e afundo o pé na terra para entender.
Nada.
Então, vejo um velho conhecido descendo a rua com as mãos no bolso. Ele me reconhece e conversamos um pouco sobre o de sempre. Ele me conta que ainda há esperança e que posso ficar tranqüilo com relação aos acontecimentos presentes que, segundo o rádio, nada de mal vai nos acontecer se permanecemos unidos.
- Amém.
- Oxalá.
Nessa hora tenho vontade de aspirar todo o ar a minha volta e o faço. Os que rezam tombam. O brilho cessa. É a dor de ter contraído uma doença incurável.
- Largue isso!
É uma velha mania que eu tenho, a de obedecê-la.

Por cinco minutos ficamos em silêncio profundo. Então abrimos os olhos e nos beijamos. O gosto metálico e frio da sua boca me congela e me penetra. Não vejo mais o futuro. Só a música que paira sobre nós. Uma música feita por artesãos hábeis que se movem na velocidade da luz e nos invadem pelas unhas, por isso perdemos os controles das mãos e agimos feito bestas indomáveis por anos a fio.
- Man! Atrás de nós! Corre! Rápido!
Dobramos sete esquinas seguidas feito nós cegos, sem parar de correr, até que uma moça nos pede informação. Isso nos acorda por um instante. Estamos na esquina da Cruz Machado com a Ermelino de Leão. Sentimos a Encruzilhada como parte do nosso projeto genético. A música nos percorre e nos deixa mudos. Um desejo insaciável aflora. Saco a Jéssica. Movimento de luz. Indescritível prazer. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes aperto o gatilho e deixo transpirar a vontade. O suor inunda o asfalto. Oito faces partidas com os machados das pontas ocas dos projéteis de prata.
HAHAHAHAHA
- Quer saber que música toca entre um pensamento e outro?
HAHAHAHAHA
Deixemos o riso tomar conta desses últimos milésimos antes que partamos.

Otavio Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site:  otaviolinhares.wordpress.com

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  


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