5 de abr de 2012

O prédio fantasma do Juvevê, o psicopata com síndrome de Darwin e o demônio canibal de oito patas que não gostava de gente babaca

Texto: Paco Steinberg
Arte: Arthur d'Araujo


 Abro os olhos, minhas mãos e meus pés estão amarrados. Crânios e carne podre dormem ao meu lado no andar em construção. Um homem aparece na porta. Tento gritar, ele cortou minha língua. Ele me olha encostado na porta de tijolos, mastigando o último pedaço da minha língua.
 -Oi. Eu achei que você era tenra, mas depois abri sua bolsa e vi que você toma remédio. Ruim, muito ruim.
 Me debato no chão. 
-Não, não vou te estuprar, eu gosto de meninos. Daquele colégio aqui perto. Não do colégio público, aquele bilíngue, sabe? Mas não mude de assunto! Então, você toma remédio controlado?
 Choro desesperada ao ver a faca embainhada pingando sangue na cintura do maldito.
 -Responde! Quer dizer, pisca! Uma vez sim, duas vezes não.
 Pisquei uma vez. 
-Antidepressivo?
 Mais uma vez.
 -Puta merda! Tudo aquilo de remédio na bolsa era seu? Até o antipsicótico?
 Mais uma vez.
 -Porra!!! Eu não tenho como fazer um bom jantar com um cérebro doente. Você não serve pra mim. Ai que nojo, a sua língua deve estar cheia de Rivotril. Vou vomitar.
 Ele vomita minha própria língua em cima de mim.
 -E agora? O que que eu faço? Eu não vou te matar aqui, vai sujar o chão! Você não serve! Não serve! Darwin se chacoalha no caixão por causa de gente que nem você! Aposto que faz terapia! Você devia estar morta! Morta! Você não é apta! Sua imprestável! Ai tô cansado....Tudo por causa daquele capeta... Posso te contar minha história?
 Pisco duas vezes.
 -Que se dane, preciso desabafar. Você estragou meu dia.
 Ele senta em cima de um corpo de mulher grávida metade aberto com o crânio esmagado, o feto ainda se debatendo. Ele come os dedinhos da criança enquanto conversa comigo.
 -Cortei sua língua por causa dela. É sempre assim né, um se fode porque outro foi idiota antes. Falava demais. Chata. Mas então. Eu era dono de uma construtora, tava fazendo esse prédio. Prédio de luxo, no coração do Juvevê, na Campos Sales, do ladinho do mercado, porra, ia dar muito dinheiro. Eu não contratei segurança pro prédio porque não queria gastar mais, aí de vez em vez eu vinha dar uma olhada na obra de noite pra ver se os pedreiros não estavam fazendo cagada. Um dia, no 6º andar, eu encontrei um mendigo. Mandei ele pra fora, disse pra sair dali. Ele pediu um prato de comida, mandei ele tomar no cu e chutei ele até a gente chegar no primeiro andar. Quando a gente chegou lá embaixo, ele se transformou num demônio. Daqui a pouco ele chega, você vai conhecê-lo pessoalmente. Eu tentei sair correndo, mas ele me prendeu pra sempre aqui dentro desse prédio abandonado. Ele disse bem assim:

-Homem desgraçado, a sua cegueira pela luxúria vitimou seu destino. A partir de hoje, estarás preso dentro de sua própria obra, sua família inteira morrerá e sua empresa irá à falência, fazendo com que tu fiques aqui, servindo-me. Já que teu coração podre recusou-me comida, tu me alimentarás todos os dias com carne humana limpa e saudável. E tu, ó miserável, sobreviverás somente do sangue e do cérebro de tuas vítimas.
 -Por que caralho vocês seres do universo falam tudo em vocabulário arcaico? Fala que nem homem porra!
 -Insolente! Toda noite serás atormentado pelas almas do Juvevê que me servirão de alimento, para que não te esqueças de tua ignorância e soberba!
 - E aí é assim. Daqui a pouco ele chega. Nossa, ele vai ficar puto quando ficar sabendo de você.
 Três horas se passaram, o sol se pôs e uma turba de fantasmas começa a gemer pelos corredores. O psicopata anda em círculos, as almas o atormentam com gritos, puxões de cabelo, olhos esbugalhados, eu ri. De repente uma alma grita mais alto no andar de baixo e todas fogem apavoradas. O psicopata corre e para em pé ao lado da porta, em posição militar de sentido.
 Um demônio negro, com chifres brilhantes, quelíceras vermelhas e oito patas peludas imensas surge no vão de uma parede derrubada. Com o tamanho de um cavalo de raça, ele passa por cima de mim sorrindo, vai até à grávida no chão e começa a comer o bebê.
 -E essa aí? Sobremesa?
-Na verdade, senhor, não sei o que faremos com ela.
-Como assim?
-Ela é doente, senhor.
-Doença no sangue?
-Não, senhor, pior, na cabeça.
-A carne deve estar toda dura. Joga fora.
-Mas, onde? Na rua?
-Olha, eu vou quebrar teu galho só porque você me arranjou a barriguda. Sai daqui.
 O demônio aproxima sua bocarra imunda de sangue e tripas e cochicha no meu ouvido em uma língua desconhecida.
 Acordo na cama com um pulo, passo a mão no rosto e me levanto para ir trabalhar.
Ponho a mão na boca, sinto algo estranho, corro até o espelho.
 Uma cicatriz de corte cruza todo o fundo da minha boca e sinto uma vontade desmedida de comer carne crua.

Paco Steinberg 
Nasceu em 1979. Bacharel em Letras pela UFPR, tradutora, crítica de arte, bicho urbano. Gosta de fumaça, solidão, polêmica, observar humanos e piadas infames. Sua cor preferida é o sangue. Tem medo de aranha, de escuro e de gente muito feliz. Autora dos livros Persona (2003), Vem Cá que Eu te Conto (2009) e Jack & Bob (2010). Inspiração: rodas de conversa no café com muitas risadas e sustos. Método de escrita: atrás da porta.
Seu quarto: omundopolemicodapaco.blogspot.com
Seu escritório pulp dump anticult: estacaoliteratura.blogspot.com
Troca figurinhas com escritores tupis todo dia 19 em: www.manufatura.blogspot.com

Arthur d'Araujo
Outros trabalhos em arthurdaraujo.com/

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