7 de abr de 2012

Já matei uns oito ou nove

Texto: Fabiano Vianna
Ilustração: Yan Copelli










O primeiro eu matei com estricnina, injetando o veneno num pedaço de presunto. A estricnina é legal porque causa espasmos, que depois se estendem para os músculos, com convulsões sucessivas. O bicho se estrebucha no chão, gira prum lado e pro outro, até que morre por asfixia ou por causa das convulsões.
O segundo deu mais trabalho. Tive que esperar a família viajar pra Guaratuba, para invadir a casa e afogá-lo na piscina Regan da filha mais nova. Me molhei inteiro, e o pior foi o cheiro de cloro nas mãos. Tive que mentir para minha mulher que fui numa aula-teste de natação. Ela achou estranho, claro, porque sabe o quanto sou sedentário. O máximo que faço de exercício físico é jogar Wii nos finais de semana.
Testei também uma Zarabatana, que comprei de um índio no Paraguai, com dardos embebidos em secreção de sapo. O problema é que errei o alvo e acertei a bunda do jardineiro, que desmaiou e acabou perdendo os dedos na máquina de cortar grama.
Depois disso, matei mais uns seis ou sete. A maioria usando veneno mesmo, que faz menos sujeira.
Os poodles são os que me dão mais prazer, porque são neuróticos e latem muito. Como eu odeio esta raça! Mas já dei fim também de Yorkshire, Lhasa, Fox Paulistinha... Se o diabo tiver cachorro de estimação, só pode ser Fox Paulistinha. Ô animal desgraçado.
Você deve estar pensando que eu sou um crápula, um sujeito sem coração. Mas não é isso. É que você não mora no meu bairro. Não sabe o que é passar um final de semana inteiro dividindo latidos com a programação na TV. Dia desses tive até pesadelo em que a Patrícia Poeta e o Zeca Camargo eram poodles humanizados.
Eu sei que não resolverei o problema matando e que são muitos cães. Mas se eu conseguir eliminar os da minha rua e das quadras ao lado, já fará uma baita diferença!


Fabiano Vianna 

Brasileiro. Nasceu em Curitiba, Julho de 1975. Formado em Arquitetura e Urbanismo. Trabalha como diretor de arte, designer, ilustrador e escritor. Como escritor expressa sua literatura na forma de fotonovelas. Lançou em Outubro de 2009 a revista de literatura pulp, Lama. Em Junho de 2011, lançou a Lama nº 2. Gosta de Moleskines, fotonovelas, charutos, lambretas, gravatas, noir e literatura fantástica. Não fica nem um dia sem o café tradicional das padarias do centro da cidade. Mantém também o site de fotonovelas
 www.crepusculo.com.br e o blog  www.contosdapolpa.blogspot.com. 

Yan copelli

Seus trabalhos podem ser visualizados no site: yancopelli.com


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