17 de mai de 2012

Espalha Esperma – Parte 1

Texto: Detetive Linhares
Ilustração: Daniel Gonçalves







Cheguei perto da porta. Cheiro de sangue. Do outro lado gemidos de uma voz jovem. Tentei escutar mais algum barulho. Nada. Saquei a Jéssica. 1, 2, 3. Arrombei a porta. A cena não era das mais agradáveis, mas ainda tinha solução. Uma menina de aproximadamente doze anos estava jogada em um sofá, semi-nua. Uma janela do seu lado direito estava aberta e a cortina esvoaçava.
- O cretino fugiu.
Antes de dar atenção à moça dei uma rápida revistada na casa. Ninguém.
- Você está bem?
Eu sei que é uma pergunta cretina para o momento, mas me ajuda a saber como estão os sinais vitais da menina.
- humm...minha...
- Não fale nada, menina. Eu sou detetive e vou te levar prum hospital.
Ela tinha alguns cortes pelo corpo. Coisa de profissional. O cara não a esfaqueou. Fez o sangue escorrer o suficiente pra ela ficar lesada. Havia um corte no braço, um na barriga, na altura do rim, um no pescoço e um na panturrilha. Ela estava pálida. Liguei para o Siate. Estanquei os cortes com algumas camisetas que encontrei por ali. Por sorte ele ainda não havia penetrado a moça. Havia algumas escoriações na região da vagina, mas, de fato, nada havia acontecido. Cobri-a com um cobertor. O Siate chegou em cinco minutos.
- Detetive Linhares.
- Tenente Carlos.
- Alguma coisa?
- O cara deve ter fugido pela janela quando me ouviu chegar. Ela está com cortes e o cretino tentou estuprá-la.
- Mas vai ficar bem. Já tem pistas do cara?
- Pelos cortes é o Espalha Esperma. Ele deixa a vítima lesada, sem força para reagir, e depois a estupra.
- Coisa de profissional.
- Ele tem algum problema com bucetas. No final o cretino costura e cauteriza os grandes lábios da moça pra que ela não trepe com mais ninguém.
- Caralho!
- Crime de ódio.
Deixei os médicos cuidarem da menina e fui até o Distrito falar com o Chefe Tavares.
- Ela está bem.
- E o estuprador?
- É o Espalha Esperma. Vou achá-lo. Conheço uma menina que foi atacada por ele.
- Ele não tem ficha. Como você sabe?
- A sala estava com o cheiro do safado. Me dá três dias.
- Feito. Três dias. Depois disso vou ter que acionar o Delegado Mendes.
Nem respondi. Esses acontecimentos quando caem nas mãos da mídia se transformam em catástrofes. E não temos nenhuma catástrofe por aqui, apenas um estupradorzinho de merda que vai pedir pra nascer de novo quando me encontrar.
Saí do Distrito e fui encontrar uma menina que foi estuprada pelo Espalha Esperma. Passei numa padoca e peguei um café duplo. Era final de tarde. Ela devia estar indo pro trabalho.
Passei no ponto dela, ali na Praça Ouvidor Pardinho, e nada. Mas o patrão já estava na rua.
- Cadê a Taty?
- Detetive Linhares, quanto tempo? Querendo diversão?
- Deixa esse sotaque ridículo de carioca de lado e me diz onde tá a moça.
- Não chegou ainda, detetive. Não sei se ela vai te atendê. Ela tem um clientinho aí, agendado pras sete horas... sabe como é...
- Não perguntei o que ela vai fazer. Cadê a Taty?
Disse e fui descendo do carro. Comecei a ficar puto com a falta de colaboração do cretino.
- Calminha aê, detetive. Ela já deve tá chegando. Güenta aí. Dez minutinho.
Eu não sei donde esse bosta tirou esse sotaque ridículo. Encostei no capô do Inércia e esperei. Odeio esperar. Fico irritado. Saquei o vidrinho e mandei uma pra acalmar.
- Tá afim?
- Aêê, detetive. Mandô bem, hein! Uma cafungadinha pra começá os trabalhos não é nada mal.
O cara abaixou a cabeça pra cheirar e eu preguei sua cara contra o carro.
- Desculpa aê, Inércia, mas eu preciso trocá uma idéia com esse idiota. Escuta aqui seu cretino! Larga mão desse jeitinho idiota de falar comigo ou eu vou quebrá teu crânio em mil pedaços! Tá me entendendo?
- Porra, detetive. Qualé? Tô querendo ajudá! Faz isso, não!
Larguei o cara no chão.
- Não mete o nariz onde não é chamado, seu bosta!
- Ei, ei! Que tá acontecendo aqui? Pára com isso, detetive!
A Taty chegou correndo e foi logo tratando de socorrer o seu comparsa (marido, gigolô, traficante, e etc...).
- O nariz dele tá sangrando!
- Entra no carro.
- O que você qué? Uma chupadinha pra baixá o facho? Hein?
- Taty, cala a boca e entra duma vez no carro!
- Vai com ele, Taty. Ele tá doidão.
O cara sentado com aquela cara de coitado e o nariz sangrando me trouxeram algumas imagens à mente. Velhas fotografias.
-        Teu nariz tá uma merda. Vai no postinho resolvê isso aí!
Entramos no carro e fomos dar uma volta.
- Tô procurando o Espalha Esperma. Cê sabe alguma coisa?
- Você sabe que eu não gosto de falar sobre isso.
- Ele atacou uma menina de doze anos hoje de tarde e eu vou arrancá a pele dele. Então é bom você começá a abrir a boca.
- Olha aqui, detet...
- Olha aqui o caralho!
Comecei a gritar baixinho, como se a voz estivesse entalada no fundo do pulmão.
- Esse cara não vai mais arrebentar ninguém! Cê tá me ouvindo? Fala duma vez, porra! Não fica me enrolando que eu não tenho a vida inteira!
Ela respirou fundo e se acalmou. Acendeu um cigarro. Dei uma carreirinha pra ela. Ela se animou.
- Eu vi ele no Blues Velvet... quarta-feira... tava pegando uma guria lá.
- Como era essa guria?
- Baixinha, morena, cabelo meio vermelho, meio alaranjado. Devia ter a minha idade. Bem bonitinha ela. Rostinho angelical, hehe. Sabe como é né, detetive, aquela carinha de quem não conhece o Blues...
Engraçado como a voz das pessoas muda de uma hora pra outra. Muita coisa deve passar na cabeça de um indivíduo em um milésimo de segundo.
- Hahahahaha!!! Idiota, não consigo imaginar o que uma ninfeta daquela faz num bar como esse.
- Foda-se o que ela tava fazendo lá. Quero saber pra onde eles foram, quem é essa menina, qual é a porra da ligação dos dois!
- Calma, detetive. Comé que eu vô sabê disso?
- Sei lá, caralho! Não é esse o seu trabalho?
- Você não tá nem aí, né?
- Nessas horas eu esqueço um pouco o que é certo e o que é errado...
- Ela deve ser a próxima vítima dele. Quando eu vi o safado lá fui embora do bar. Ainda tenho medo dele. Mas a Frida diz que viu ele saindo com essa guria e entrando num carro branco.
- Pegô a placa?
- Claro que não, detetive! Cê tá loco?! Porque alguém ia ficar anotando placa de carro?
- Porque o cara é um assassino sangue-frio e vai matá mais gente enquanto eu não fudê com a vida dele! Que caralho! Vocês vivem em que mundo, hein?
Parei o carro próximo a Praça Osório.
- Desce.
- Eu não trabalho aqui hoje.
- Desce, porra!
- Seu veado!
Ela desceu a contragosto. Ficou me xingando. Eu saí e fui até o tal bar dar uma averiguada.

Detetive Linhares
Seus textos e contos podem ser visualizados no site: detetivelinhares.blogspot.com.br

Daniel Gonçalves
Radicado em Curitiba, casado com Amarilis e pai de Leon, Layla e Alice. Teve toda sua vida permeada pela paixão à literatura, artes visuais e música.  Atual editor da revista LODO e co-editor da revista LAMA.
Paralelamente aos trabalhos artísticos, desenvolve projetos de arquitetura e design. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.danielgoncalves.art.br.  


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