24 de fev de 2012

Gringos no Carnaval

Ilustração: Hafaell Pereira
Texto: Eduardo Capistrano


— E aí, tão gostando?
— Bom, bom! — mas o “b” soava mais como “p”.
Gringos. Insistiam que não, mas era impossível acreditar. Os três grandalhões, roliços e branquíssimos se não fossem as caras vermelhas de tanto álcool, tinham passado pelas portas do boteco lá pelas 2 da manhã de plena segunda-feira de Carnaval e não saíram mais. Estavam tão cheios de gadgets e quinquilharias que os malandros do lugar ficaram maravilhados de ainda terem os braços e as pernas. Pois se havia algum lugar seguro para gringos, era a quilômetros dali.
Os gringos chegaram tirando fotos. Um deles ouvia marchinhas com fones de ouvido no último volume. Logo os cordiais convivas “pediram pra segurar” a parafernália, trocando-as por garrafas de alegria e braços de morenas. Se notaram, nem se importaram. Se entregaram à bebida, ao samba e à sacanagem de tal maneira que conquistaram o povo do boteco. Um deles se enroscou com uma mulata de tal maneira que só foram o encontrar no dia seguinte. O que ficou sem os fones dançava sem parar, desengonçado mas como um possesso, resistindo na pista através das marchinhas, do samba, do pagode, do funk, de qualquer coisa que agitasse as paredes do boteco.
O último parecia querer beber o bar inteiro. Já tinham chegado torcendo os pés, mas esse estava enxugando as garrafas sem parecer ficar pior. Travou uma conversa profunda com o dono do boteco e outros no balcão do bar, daquelas sobre os mistérios mais obscuros da existência que só bêbados conseguem travar. Contou que estavam presos, que agora só queriam saber de se divertir, que não queriam voltar pra casa. O dono do boteco quis saber de onde vinham. O gringo disse algo e o povo sacana festejou.
“Eu disse Xoth e eles entenderam xota”, disse o gringo telepaticamente aos amigos, seguido de uma gargalhada.
“Acha prudente?”, respondeu mentalmente o que dançava, sem prejudicar as requebradas.
“Foda-se a prudência. Estamos livres! Sejamos livres!” O último ofegava até em pensamentos, enquanto trepava com a mulata num beco atrás do boteco.



Eduardo Capistrano
Nasceu em Curitiba, Paraná, no ano de 1980. Contista desde 2002, é autor de "Histórias Estranhas" (2007) e "A Quarta Dimensão" (2011).
Saiba mais em http://edcapistrano.blogspot.com


Hafaell Pereira
Conheça mais de seu trabalho em: flickr.com/photos/hafaell

Um comentário:

  1. Muito bom, Capistrano!!! Que final surpreendente! Adorei a bizarrice

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