13 de fev de 2012

Carnaval que não é meu

Ilustração: Danilo Oliveira
Texto: Alexandre França



E é por isto que estou com os dedos indicadores em riste, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, num movimento autista, jogando a cabeça pra lá e pra cá, por dormir e acordar e perceber as cores e a poluição sonora que me esvazia de glitter a cada segundo, por lembrar da casa, das suas traquitanas, das mulheres rebolando feito gado, das meninas injetadas de hormônio, das mais velhas entregues à volúpia, por andar sem rumo pelos labirintos do meu tédio, por ficar sem comer há pelo menos quatro horas, por aguentar o sol e os que gostam imensamente do sol, entre confetes e serpentinas que não fazem parte do nosso tempo, por suportar a falsa nostalgia de um tempo que para estes jovens nunca existiu, pela bebida que me cospe pra fora do folião e me alivia atrás de moitas e cercadinhos, por saber me intoxicar aos poucos e ralentar o compasso sujo deste dia, por fumar cigarros e baseados e cheirar carreiras de tantas e tantas substâncias ilícitas, por quase morrer e sorrir do abismo da última canção de ninar bambas, por chorar as mágoas da tristeza que não é minha, por prestar atenção nas letras das marchinhas do tempo que não é nosso, por receber boquetes de pessoas desconhecidas, por passar a mão em bundas e passar a mão em copos e passar a mão em orgãos genitais e vomitar na pele do desconhecido e voltar a beber e voltar novamente a beber e secar a sujeira na roupa que não é minha e transar na fogueira alheia e lembrar que se queima que se morre dentro de uma fogueira que se agoniza dentro de uma fogueira, ele me quer ao seu lado, pois sabe do medo e do horror de se encontrar sozinho em meio a esta multidão, colocarei ele pra dentro do meu útero, de onde posso acariciar com mais calma as suas dobras e as suas angústias, mas o que acontece depois da meia-noite, depois de um dia de intoxicação e falsa nostalgia, o que acontece quando a sujeira fica em primeiro plano e as grávidas dão a luz no meio da avenida, e a purpurina varrida para debaixo do tapete de esgoto toma forma e nos asfixia, por onde sambar depois dos fogos disparados em nossos corpos, quem inventou esta coreografia de zumbis de pântanos de insetos, e se a bateria parar e acabar com a festa arquitetada pelo tempo que não é nosso, pode meu coração bater descompassado e me embrulhar o estômago e me afogar em álcool e me escovar a pele e me mostrar a carne e os músculos e me apresentar a forma daquilo que não se pode tocar nem ritmar ou acariciar, nossos filhos dormem enquanto sonhamos com um outro casulo de caos e solidão, as luzes do trio elétrico que passa morno cantando a escuridão da nossa melancolia na parte histórica de lugar algum, as bicas de chopp jorrando, ejaculando a nossa frigidez calculada, as ruas entortam e nos abraçam forçadamente, as luas que nos orbitam agora brilham a plasticidade da mulata globeleza e as valsas dos casamentos são nada mais do que um movimento contínuo de corpos copulando em meio a ciranda das crianças de rua, por onde sugar o espírito do próximo, a roupa que deixei em casa, a louça e as dúvidas que esqueci na pia, a água do filtro que não para de escorrer e o meu coração bombeando sangue, e velando a felicidade dos desvalidos, o sorriso banguela do final de tudo, a pistola que me faz seguro e viril, quantos tiros atingiram o meu seio esquerdo, o sangue no azulejo da cozinha forma um desenho tão bonito, deita aqui comigo, vou te manter seguro de toda esta sujeira, e as fantasias rotas dos pobres coitados que esperam por este dia por esta alegria pré-fabricada, onde choram suas mulheres, no colo de quem elas rebolam, no pau de quem elas cavalgam, estas pobres coitadas que choram em fila indiana bem aqui na minha frente, te perdôo, amor, por me atirar e deformar o meu rosto que um dia te acalentou à noite, a noite que me esfola tanto entre as mulheres que não são minhas, a noite que me quer úmido em meio ao caos de risos cortando a madrugada, dos gritos e gemidos dos adolescentes, a noite que me contagia de raiva, a noite que me paralisa agora

a noite que me faz atirar na cabeça

daqueles que me chamam exaustivamente para dançar.


Danilo Oliveira
28 anos, trabalha como artista visual e editor. Co-fundador do coletivo Base-V. 
Seus trabalhos podem ser visualizados no site www.flickr.com/danilobasev e participa também do coletivo http://multiplogaleria.com/



Alexandre França
Nasceu em Curitiba em agosto de 1982. Escritor, diretor teatral e músico, o paranaense já gravou dois cd’s de canções próprias, A solidão não mata, dá a idéia (2006) e Música de Apartamento (2009) - este último contemplado pelo Prêmio Produção – Projeto Pixinguinha, da FUNARTE – , além de viajar o Brasil com sua música. Encenou, com a sua companhia de teatro, a Dezoito Zero Um, cinco das peças que escreveu, entre elas Mínimo Contato (2011) e Habitué (2010). No ano de 2010, ganhou o Troféu Gralha Azul na categoria revelação/direção pelo espetáculo Habitué (que foi indicado a quatro categorias, melhor texto, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e revelação). Lançou dois livros de poemas, Mata-Borrão, Batom (2003) e De Doze em Doze Horas (2010), e possui também poemas publicados em revistas literárias, como a Oroboro e a eletrônica Máquina do Mundo. Atualmente, integra o Núcleo de Dramaturgia –SESI/ PR, sob supervisão do dramaturgo e diretor Roberto Alvim. O blog da companhia é o http://www.dezoitozeroum.blogspot.com/

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