8 de fev de 2012

A Festa dos loucos

Texto: Rafael Pesce
Ilustração: Lord Velprost



As longas paredes de pedra protegem o reino dos perigos que rondam o castelo. As torres, altas e guarnecidas com arqueiros e uma extensa linha de lanceiros, intimidam um possível ataque inimigo. Mas nem sempre os maiores riscos encontram-se fora das muralhas...

Em tempo de carnaval, a chamada festa dos loucos, o povo camuflava-se em meio a cores, vestindo espalhafatosas fantasias e abandonando qualquer devoção religiosa. Mas não eram apenas os súditos que se divertiam. A corte real era igualmente virada de cabeça para baixo, entregando-se aos prazeres propostos pela folia. E ninguém estava mais a vontade do que o Rei Cedric III, o Ogro Louco, como era conhecido pelos populares. Um Rei obeso, cujo peso em excesso era proporcional a sua ganância e sadismo. No carnaval essas características eram acentuadas. Centenas de litros de hidromel ajudavam no descontrole generalizado. Bufões e bobos da corte perdiam literalmente a cabeça mediante qualquer piada infeliz ou sem graça. Sangue jorrava ao som dos risos do Ogro Louco. Munido de seu cetro de ouro, o Rei espetava os convidados, atiçava as prostitutas e provocava os empregados do castelo: “tragam logo minha bebida! Ou me deixam mais bêbado ou cabeças vão rolar”. Gargalhadas escandalosas ecoavam pelos corredores da fortaleza de pedra. A Rainha, assustada desde o casamento forçado, nunca dizia nada, apenas ficava sentada, passiva em seu canto. A palavra piedade não constava no dicionário real. Na muralha norte uma extensa fileira de cabeças apodrecia em cima de estacas afiadas, servindo como um aviso do que acontecia àqueles que se opunham a vontade do Rei.

Roselyn, agora com 14 anos, conheceu bem os hábitos de seu suserano. A garota viveu no castelo até os cinco anos, já que seus pais eram empregados do Ogro Louco. Em meio a um carnaval, a criança presenciou o sadismo do Rei, que estuprou e assassinou sua mãe, obrigando o pai a assistir tudo, pouco antes de matá-lo. Abandonada do lado de fora do castelo, a criança foi encontrada pela Senhora Madelaine, dona de um dos bordéis mais frequentados da cidade. A mulher compadeceu-se da dor de Rose e a criou como se fossa uma filha.

Nove anos se passaram após o incidente. Tudo que a menina conseguia pensar era em vingança. Estava cansada da passividade com que o povo via as crueldades do Rei. Ela sabia que não existia nenhum exército numeroso suficiente para vencer as muralhas do reino. Seria uma pobre adolescente capaz de fazer o que 10 mil homens não conseguem? Queria tentar, nem que isso significasse perder a vida. Madelaine sabia dessas intenções e tinha consciência que jamais conseguiria tirar esse sentimento de Rose. Resolveu ajudá-la. Unidas, confabularam um audacioso plano de assassinato para o próximo carnaval real.

Durante a festa dos loucos, Cedric exigia que os bordéis abastecessem o castelo com um número abundante de prostitutas. Mas nesse ano a Senhora Madelaine daria um presente especial. A dona da casa de prazeres iria oferecer um tributo que o Rei jamais negaria, uma virgem, Rose, que apesar da pouca idade já exibia um belo corpo de mulher. Essa era a porta de entrada para a vingança. A morte do Ogro Louco deveria ser dolorosa. A dupla de futuras regicidas não queria um fim rápido. A opção escolhida foi o uso de extrato de Jatropha Curcas, proveniente de uma planta conhecida como Pinhão-de-Purga. Depois de ingerido, o líquido calmamente bloqueava a circulação do sangue, resultando em uma morte agonizante e insuportável.

O dia decisivo havia chegado. Madelaine levou Rose ao castelo, em posição de destaque no meio da comitiva de prostitutas que serviriam à corte real. O extrato de Jatropha, armazenado dentro de um pequeno vidro, ficou escondido entre os peitos da virgem. Quando chegaram ao salão real constataram que a festa já havia começado há um bom tempo. Príncipes, lordes e meretrizes embriagavam-se em todos os cantos. A cerveja, vinho e hidromel pareciam não terminar, saciando e impulsionando a libertinagem de todos. Não demorou muito para o Rei perceber a chegada da virgem prometida. Encantou-se com a beleza da jovem, e em um estalar de dedos pediu para os empregados arrumarem os seus aposentos e providenciarem mais alguns barris de hidromel.

Quando Rose entrou no quarto, o Rei cambaleava de um lado para o outro, balbuciando palavras sem nexo, em meio a soluços e arrotos. Ardilosamente a garota, em meio a beijos e carinhos, conseguiu colocar Cedric na cama, com a promessa de um tratamento especial. O Ogro Louco estatelou-se em seu leito, que incrivelmente suportava aquele peso todo. Rose aproveitou um momento de distração e pegou o frasco com o veneno. Começou a tirar a roupa e calmamente andou em direção ao Rei, que parecia enfeitiçado com a graciosidade da garota. Doce engano. Quando ela se aproximou, fingindo um beijo, sentiu um duro golpe nos dedos, fazendo-a largar o vidro no chão. Cedric era uma raposa velha, havia percebido as intenções da suposta rameira. Furioso, Ogro Louco apanhou uma adaga que repousava embaixo de seu travesseiro e partiu para cima da indefesa moça. Um, dois, três golpes foram desferidos, mas Rose conseguiu desviar de todos. O Rei tentou chutá-la algumas vezes, mas obeso e embriagado daquele jeito, viu os pontapés saírem sem velocidade alguma. Perto da entrada do cômodo estava o manto real, e com ele o cetro de ouro. Rose vislumbrou naquilo uma oportunidade. Rapidamente correu até lá e agarrou o objeto. Quando Cedric virou-se, tentando colocar ordem nas palavras para chamar os guardas, foi tarde demais. A jovem de 14 anos espetou o cetro no coração do Rei, girando o artefato enquanto a vítima, aflita, tombava no chão. O corpo recebeu uma dezena de talhos, à medida que a fúria e vendeta de Rose saciavam-se.

Quando os empregados encontraram o Rei, ensanguentado em meio a um mar vermelho, Rose já não estava mais lá. A garota fugiu por uma janela não muito alta, onde Madelaine a esperava com um cavalo e uma rota de fuga. Já do lado de fora do castelo, Rose cavalgava livre, agora sem peso nenhum no corpo, já que toda raiva que carregara durante nove anos havia se transformado em sangue. 

Rafael Pesce
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