10 de fev de 2012

carne uales

Fotografia: João Castelo Branco*
*Estrelando: Fabiano Vianna
Texto: FMAN

inspirado na obra de Grimhildr Janovčik Sedlácĕk (1306-68)
           


Por uma fração de segundo, o menino pensou que o que mais lhe chamou à realidade da situação não foi o tiro lançado entre os olhos do garoto que histericamente recusou fazer parte da encenação, tampouco o segundo estampido no companheiro que, à cause do primeiro alvejado, ficou em estado de choque, e, sim, a percepção - depois de perder os sentidos e não saber mais o que estava acontecendo - de que um de seus conhecidos estava sendo sodomizado, com a saia de bailarina arriada sobre o abdômen e vestido com uma máscara de Capitano, por debaixo da qual o menino podia enxergar lágrimas escorrendo e escutar urros contidos. 
Foi nesse instante, igualmente, que o menino teve flashes lúcidos e inexplicáveis de tudo que deu início a esse exato momento e tudo que se passou depois - enquanto ainda consciente - uma excursão de Carnaval para Florianópolis com van alugada, quatro amigos e mais seis desconhecidos que haviam optado pelo mesmo pacote, a aparição dele na primeira parada que fizeram, a carona, o vinho batizado, a visão da cabeça do motorista pendendo sobre o assento, com a boca aberta e a língua puxada para fora (e os intestinos, mas essa lembrança rapidamente evaporou-se), a porta traseira – aberta - quase encostada num portão de prédio cuja abóbada possuía em letras garrafais a palavra TIJUCAS, as mãos dele carregando-o rapidamente no colo – teria ele entregado uma nota para o porteiro dentro da galeria? –, barulho de portas, escuro, em cima de um tablado todos vestidos como bailarinas, ele apontando a arma, “o negócio é o seguinte, NENHUM PIO, PORRA, CE ME ENTENDEU?, eu só quero que cêis faça uma encenação pra mim, ok?, é só isso e ninguém morre, todos têm porcaria de idade pra entendê isso, não?”, uma daquelas músicas clássicas tocando e todos os outros absurdos.
Foi nesse momento, curiosamente, que o menino lembrou o trabalho de sociologia a ser entregue depois do feriado, talvez porque, também aqui, ele sentiu a presença das máscaras, muito oportunamente, nesse caso. Deu-lhe energia de ação e seus sentidos se aguçaram. “Adrenalina...n-não permite que meus reflexos fiquem mais aguçados?” O CARNAVAL SURGIU NA GRÉCIA. Isso deu ao menino aguda percepção do que estava PRECISAMENTE acontecendo. Ele, o homem com costeletas enormes e pelos abundantes. MÁSCARAS VENEZIANAS. “Ocê aí, é, ocê lorinho memo, cê não tá fazendo certo. Cê não tá pulando na hora que ela pulava!” O menino viu o “lorinho memo” no canto do tablado. Tinha se mijado. “Quem é ‘ela?’”, pensou o menino. A máscara de Carnaval que decidira usar, poucos segundos atrás, tomou-lhe conta completamente. Não sentiu nada como piedade, compaixão ou terror – talvez medo, mas daquele tipo que impulsiona para frente. Só teve a capacidade de se perguntar quem era “ela” e planejar seu plano de fuga, na verdade, desesperada fuga, porque a ação foi correr a todo vapor para a porta enquanto ele se dirigia ao “lorinho memo” e lhe amputava o braço com precisos três golpes da peixeira que carregava consigo. Ele tinha esquecido a arma no banco em frente da porta, junto com o molho de chaves. OS FOLIÕES DESFILAM EM MULTIDÕES, O RIO DE JANEIRO É O MAIOR CARNAVAL DO MUNDO. O menino, surpreso com sua lucidez, pensou “Ele é louco. Ele é completamente louco. É isso. Essa é a RAZÃO. Ele nem percebeu que eu estou aqui, pegando as chaves.” Porém, quando experimentou a quarta, a que deu certo – enquanto ele ainda desvencilhava a peixeira e praguejava “Em um dia como este, ela também, ela também...” -, o menino constatou que todos seus companheiros de viagem, inclusive seus amigos, estavam mortos. “Sou o último sobrevivente.” Abriu a porta e correu à direita por um corredor mal iluminado e que parecia não ter fim. No calor da explosão de força e sobrevivência, não conseguiu enxergar uma saliência à sua esquerda, esbarrou o braço e perdeu o equilíbrio, escorregando no piso lustrado. “É possível que tenha deslocado qualquer coisa.” E aí a máscara caiu. ARLECCHINO, BRIGHELLA, DOTTORE, IL CAPITANO. Ele surgiu, iluminado pela fresta de luz branca e opaca vindo do apartamento, quase etéreo, recortado contra o fundo espectral daqueles corredores que davam a sensação de se estar em um quadro de Bosch, o Tijogas1, um lugar que o menino, em seus 16 anos de idade, sequer imaginava que existia ou se chamava assim, não possuindo, portanto, a noção de seu passado histórico e maldito. Psycho Carnival, como chamam. PANTALONE, SCARAMUCCIA.
O menino não soube dizer porque a EMOÇÃO que o possuiu conseguiu paralisar suas cordas vocais, impedindo-lhe de gritar ou emitir nada além do som de sua respiração pesada. “Não é a palavra certa”, pensou, com angústia, e isso lhe pareceu um pensamento completamente incoerente com a situação. Não podia mais acreditar na máscara. O CARNAVAL TAMBÉM POSSUI BLOCOS DE RUA. Não podia ser choque também, porque seus sentidos funcionavam bem, ainda. Mas o fato é que suas cordas vocais não emitiram nada a não ser chiados porque, atrás dele, o menino viu uma moça com um vestido vermelho, de olhar distante e vidrado, uma mulher que não pertencia nem ao presente nem ao passado, mas à algo enterrado para além do tempo, em sua forma plástica e tremelicante. “Fique quieta!”, ele gritou. COLUMBINA. A mulher despiu-se e gargalhou longamente. ISABELLA E MATEO. O menino não reagiu ao ser molhado com querosene. Nem ao ser carregado de volta para a câmara forrada com dispositivos antissom. “Carnaval... por que diabos... Eu vou morrer. Eu vou morrer.” Ela estava lá, rindo, e ele disse O CARNAVAL É O PRAZER DAS CARNES.
Foi nesse momento que o menino, sob o fogo dos malditos e o calor de todas as coisas que nunca haveria de compreender ou para as quais jamais acharia um rosto adequado, neste momento, o menino viu ele colocar sua definitiva máscara. 

1 Citação (e homenagem) a Jacques Brand, criador da palavra, brincadeira com a lenda/fama de várias pessoas terem se matado no Edifício Tijucas, prédio clássico de Curitiba. 

João Castelo Branco
Blog: 
http://casadojoao.blogspot.com

FMAN
Filippo Mandarino nasceu em Brasília em 1983, mas desde os três anos de idade mora em Curitiba. Já teve publicado um poema na revista Ideias e outros em jornais acadêmicos. Cursa Letras na UFPR e hoje tenta sobreviver como revisor, apesar de dizer a si próprio todas as noites antes de dormir que sua profissão é "Escritor". Blog: http://filippomandarino.blogspot.com

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