26 de ago de 2014

Regras do empresário do circo

Conto: Assionara Souza
Arte: André Coelho



Se encontrar um homem nu vadiando entre as tumbas do velho cemitério, leve-o para o campo de experiências e faça com ele todos os procedimentos necessários à conversão

Em primeiro lugar, adormeça o homem nu até que nele se desenvolvam sonhos. Enquanto ele dorme e sonha, implante as hastes de penas por todo o corpo e comece a descrição para que ele reconheça a si mesmo como a um artista

descreva a pele os olhos descreva dentes descreva a língua em movimento quando se formam as palavras descreva a textura da voz que ousou sair de dentro do corpo quando era somente incômodo do sentir e forçou-se por vontade sair expressar-se descreva as unhas coladas aos dedos descreva as marcas digitais

o homem nu acorda sozinho dentro da sala com paredes de espelhos, dispara do teto um jorro de luz e mil imagens se projetam multiplicadas dentro da consciência do homem nu, ele pode mirar apenas uma delas

no centro do quarto com paredes de espelho, o homem nu aproxima-se de uma das imagens (angustia-se por ter abandonado todas as outras – algumas o ferem no centro oco de quando se deu a primeira compreensão do que era dor) os olhos miram os olhos perscrutam deslizam pelo rosto comandando a boca a abrir-se pronuncia-se uma palavra:
a g o n i a

agora, observe se ele já se acostumou à falsa liberdade de ser um artista, interrogue-o


-há uma simplicidade do lado de fora, não prefere ir lá? do lado de fora não há paredes de espelhos porque o corpo de um será o espelho do corpo do outro, o que assusta?, o julgamento o assusta?, o julgamento como um mapa que foi entregue ao outro para que domine os territórios extraordinários da percepção, salas escadarias quartos sofás puídos cartas escritas para ninguém, venha, antes que acabe, antes que fique frio e o corpo paralise, antes que fique escuro e os olhos não enxerguem, antes que a vigilância dos pensamentos diga que tudo é mal e que dever ser evitado

o homem nu diante do espelho o corpo coberto de penas vê pelo reflexo aproximar-se uma criança, não somente por ser uma criança – o que já seria suficiente para causar espanto – mas trata-se de uma criança doente que sorri, a doença está dentro da criança desde que nasceu. Faltou oxigênio, o parto foi muito demorado e faltou oxigênio. Isso mexeu com as funções motoras, hahaha, dela, e por isso ela, hahahaha, adoeceu assim

o homem nu teme que a criança caia e se machuque, observar fraqueza ou força espanta em igual proporção, o riso da criança ecoa dentro do quarto de espelhos, ela está brincando com a ideia de ainda existir precariamente, o corpo pende ao trocar dos passos, as imagens do homem nu voltam-se para a apreciação da criança

o homem nu vê a criança afastar-se e pensa que não compreender faz todo o sentido, esse será o primeiro aprendizado, depois disso as lembranças do sonho se encarregarão de erguer paredes altas para o labirinto ficar mais acolhedor a quem desejar manter-se lá dentro e criar estruturas incríveis aos olhos dos seres comuns


Se for necessário, extirpe os olhos. São os olhos que o afastam da compreensão:

1. Espere que ele adormeça novamente e que sonhe novamente
2. Arranque delicadamente os olhos
3. Retorne novamente ao cemitério para que ele, ainda que cego veja-se como um verdadeiro artista, e aprenda a sobreviver entre cadáveres.

o homem nu dentro do quarto de espelhos adormece, o corpo mergulha em sonhos extravagantes, sonha universos simbólicos intraduzíveis, aos poucos a claridade é substituída por uma escuridão fria




Assionara Souza
Escritora radicada em Curitiba. Publicou em 2005 o livro de contos Cecília não é um cachimbo, 7letras/RJ e é também autora do recente “Amanhã. Com sorvete!” (7Letras/RJ, 2010).   Assionara é doutoranda em estudos literários na UFPR, com estudos na obra de Osman Lins. 
cecinest.blogspot.com

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