15 de ago de 2014

Meu epitáfio (parte 1 de 3)

Conto: Cilene Tanaka
Arte: Isabele Linhares

Aqui jaz Nelson Ascher consumido
pelo amor-próprio não correspondido.
(Nelson Ascher)



(Parte 1)

Eu tava pensando, esses dias, numa alegoria para o meu epitáfio. Algo pra ficar escrito na minha lápide. Sabe “alegoria”, né? Sabe “epitáfio”, né? E lápide, sabe, né? Eu tava pensando muito profundamente. É, tudo é profundo. Até você, que diz “ih. Lá vem papo cabeça”, é profunda. Claro que é ironia. Sou a rainha da ironia. Tá, tá, mentira minha, cê é muito profunda mesmo. Teu: “ih. Lá vem papo cabeça” é uma ironia e você é bem profunda mesmo. Agora cala a boca, que eu quero te contar uma história. Sei lá, pára de perguntar se eu tenho certeza. Eu tô só inventando. E não é isso que pensador faz? Tô tentando ser pensadora. Haha. Sabe “pensadora”, né? Eu não sei. Haha. Não achou engraçado? Só porque eu não disse que você é profunda? Mas eu disse. Eu disse que você é profunda. Tá bom, desculpa pela ironia. Não! Não vai embora. Eu não sou chata, sou pensadora, é diferente. Ouve, ouve aqui, só deixa eu terminar o que eu ia dizer. É rapidinho. O problema é que, na hora da morte ainda tô muito jovem – eu, meu físico - e não devo morrer, a não ser espiritualmente. E morte espiritual implica o que? Ah! Morte espiritual implica uma coisa pra cada um. Mas, pra resumir, pra chegar logo no meu ponto. Tá, tô resumindo, ó. É rapidinho. Pra mim, morte espiritual também implica um monte de coisa. É, tô resumindo. Nâo, nem é tanta coisa que eu tenho pra falar, só que você fica me interrompendo. Olha, escuta só isso, é rapidinho, eu juro. O que eu quero que morte implique nesta alegoria, nisso que eu tô falando, é a morte intelectual a morte da alma. Filosófico, né? E dá pra ser complicado também. Não, pára de ser chata. Não é nada complicado se você prestar atenção. Eu sei, é chato. Dá pra ser chato também. Dá pra ser complicado também, ó, presta atenção que você entende. Dá pra ser ainda mais complicado que antes, que o filosófico. Dá pra ser mais complicado que arranjar um homem bom por aí. Não, brincadeira, não é tão complicado. Você é esperta, é só prestar atenção que não é complicado. Vou complicar só um pouquinho, mas, daí, como você vai prestar atenção, vai ficar fácil, ó. Por favor, presta atenção. Juro que o chato fica legal as vezes. Juro que eu termino rapidinho, ó: o tempo acelerado – o tempo atual, o tempo que a gente vive, hoje em dia, atualmente - é como se a gente amadurecesse antes do tempo. É algo tipo como se a morte chegasse ainda em vida. Entendeu? Continuo, vou continuar, calma. Ô olha. Não terminei ainda, olha. Tô terminando. Esse “algo tipo” já é algo. Parece abstrato, parece que “algo tipo” não existe, mas já existe. É um algo, assim, sem muitas características, mas já é algo, sabe? Entendeu? Ai, é que você não tá prestando atenção. Presta atenção que você entende. Por isso que você tá solteira ainda. Não presta atenção em nada. Você é profunda, juro. Todo mundo é profundo. Só um tolo se entedia em meio a uma multidão. Todo mundo é profundo. Você é profunda, só não presta atenção. Olha, presta atenção e você entende, tá? Não faz diferença você não querer ser profunda. Não é tua escolha, não adianta achar que não é porque você é profunda e ponto. Que nem todo mundo. Quero dizer, o “é como se” já “é”. Então não é só “como se” a morte chegasse ainda em vida. A morte chega ainda em vida. E isto é, de novo, uma alegoria. Sabe “alegoria”? E não é por ser alegoria que não é real. Não,
não é surreal, é real. Não, não, é aí que ce tá enganada: não é estranho, só é real. Não é por ser alegoria que não é verdade. Não, não, você tá falando besteira. Nâo é bizarro, é real. Nem foi tão complicado assim. Ce viu? Eu e você, a gente é e não é profunda. Tá, tá, eu quase terminei, falta só mais uma coisinha que eu queria te falar antes de você ir lá. Eu sei, papo muito cabeça e tals, mas você gosta. Você só acha que não gosta, mas você gosta. Não, não é porque eu sou diferente. É que eu tento ser mais profunda que você. Você tenta ser mais...mais...sei lá o que você tenta ser mais. O que você mais tenta ser na maior parte do tempo. O que você mais tenta ser na maior parte do tempo? Ah, deixa, depois ce me fala, que eu quero terminar de te contar essa história antes que você vá lá. Ó, rapidinho, terminando, só pra terminar. Daí, aconteceu que, sem pensar nisto tudo, fiz um monte de coisa, esquecida que eu tava da morte. Tô tentando ser profunda. Percebeu? É, isso mesmo, bem profundona. Duma textura daquelas profundas, sabe? Ah! Eu gosto de ser profunda. É bonito ser profunda. Todo mundo gosta de gente profunda. É, ce te razão, não em festa, né? Haha mas, ah! festa é o melhor lugar pra gente mostrar que é profunda. Em festa, ser profunda é legal, é atraente, é ssssexy. Porque daí você é alternativa. Você é diferente. Você é única. Esquecida que eu tava do “hoje em dia” e do amadurecimento. Conversei, conversei e achei que faltava leitura. Li, li, li, pisquei e tava mais que madura. Passei a escrever, já que tinha muito a falar. Agora, passada do ponto, depois de madura, pra onde? Calma, já tô acabando, olha só isso: a morte chega ainda em vida. Parece que a gente apodrece, tipo fruta que põe verde na geladeira. Nâo, não, não tô declamando nenhum poema. Tô te contando uma história. Tá acabando, só mais esses dois versinhos, ó: parece que a gente apodrece antes de amadurecer mesmo. Antes de ficar realmente saborosa. Antes de ficar no ápice do nosso sabor, a gente já tá com a casca cheia de fungo. É divertido ser chata. Ser profunda, eu sempre digo, é ter coragem de ser chata. É charmoso, é legal, é atraente, é ssssexy. E sabe o que é mais sexy do que ser chata E profunda? Não sabe, né? Claro que não sabe. Ce não sabe nada. Não, não fica chateada. Tô brincando com você. Só deixa eu terminar a história. Ce não vai embora antes de eu terminar de te contar minha história, né? É só brincadera minha com você. Você sabe tudo, eu sei que você sabe. Você me entende. Tô vendo no teu olho. Tô vendo neste teu olhinho aí, que você é profunda, ce sabe. Ce sabe tudo. Então, o que é mais sssexy que ser profunda é...tchan tchan tchan tchan: saber ouvir! Hahahaah Eu te juro. Não tem nada mais profundo que homem que sabe ouvir. Nada mais atraente. É sssexy. Mais sexy que dançarino de axé. Mais sexy que vocalista de banda indie. Que homem rico. Que homem engraçado ou inteligente. Que aquela indiferença charmosa. Aquele olhar de quem tá com o sol bem no olho. Mais sexy que falar, é ouvir. Afinal de contas, a gente tem só uma boca, mas tem duas orelhas, né? Hahahaha é...duro. Mas, olha só isto. Deixa ela. Deixa ela ir. Eu não quero mais conversar com ela, ela é chata. Ela não gosta de papo cabeça, quero conversar com você. Olha pra mim. Olha pra mim. Agora é só eu e você. Agora não tem mais ninguém em volta. Neste boteco, estamos só eu e você, meu dançarino de axé, meu vocalista de banda indie com composições próprias. Meu alternativo neo punk. Meu cantor de pop rock. Você. Você, meu ser humano lindo que tenta parecer feio porque é mais ssexy. Você, ideal de homem que usa óculos retrô. Que usa calça justa que nem no axé mas que não gosta de axé. Você, que vai na woods pra pegar mulher mas tá procurando o amor. Você que é charmoso, você que gosta de ouvir. Você é bom ouvinte, né? É, claro que tua mãe te ensinou a sempre ouvir uma mulher. E ensinou muito bem, viu? Você é menino de família então? Além de charmoso e profundo, você é bem educado. Nossa! A mulherada deve cair em cima de você, hein? Deve fazer a mulherada
lamber o chão. É, eu sei que é machista. Mas o mundo é machista e as feministas são chatas. Eu sou só uma mulher. Uma mulher conversando com um homem. Um homem como você, nossa! Olha como você olha com indiferença pra mim, que charme! É...eu até que lamberia o teu chão também. Que nem essa mulherada. Não tem nada mais interessante que homem charmoso, profundo e bom ouvinte. Ainda meio indiferente, ainda, meu deus! É charmoso. É atraente. É sssexy. Sou atraída, confesso, por homem assim. Homem que não mostra que ama. Homem que finge que eu não sou importante pra ele. Sou atraída, confesso, por homem assim. É como eu sempre digo. Mas sabe o que é ainda mais interessante que homem charmoso, profundo, indiferente, bom ouvinte e educado? Homem que tem memória! Sabia? A memória é a única coisa que faz a gente organizar as coisas na cabeça. Falando nisso, lembra do que eu tava falando? Não lembra, né? Tudo bem. Só fica assim, me olhando com essa indiferença charmosa. Com esse olhar cerrado de quem tá com sol na cara. É. Essa tua sobrancelha meio arqueada como se tivesse satirizando o Johnny Bravo, só que não sabe o que é sátira. Essa segurança indiferente que quando sorri parece que quebra. Essa pose constante pra foto que ninguém tá tirando. Não! Não sorri! Fica assim, sério. Sorriso estraga você porque parece que você é vulnerável, daí. Você, charmoso assim, não precisa ter memória. Você pode. Você pode tudo. Bom, eu não lembro também. Mas é claro que é importante o que eu tava falando! Que pergunta! Quer saber? Melhor ainda: sabe o que é melhor? Melhor é quando o homem além de ter memória, sabe o que importa. Lê a mente da gente, sabe? Adivinha até o que a gente nem sabe que queria. Aí sim. Aí é a magia. E é magia porque isso não aparece no espelho. Quer dizer, não aparece no teu espelho. Aparece só no meu, né. Bom, foi mal, eu até limpava teu chão. Mas você não limpou o meu direito. Nem tá me ouvindo. Do que eu tava falando mesmo? Se bem que você não precisa me ouvir. Não precisa ter memória, não precisa nada. Fica assim, só me olhando como se não tivesse prestando atenção. Me olhando como se eu fosse completamente desimportante pra você. Olhando sempre pra porta, porque pode chegar um conhecido mais interessante. Ai! Que charme! Nossa, como você é charmoso. Adoro ser desvalorizada. Não faz assim que eu me apaixono, hein?hahaha Ah! Tava falando do meu epitáfio, porra! Sabe “epitáfio”, né? Da morte que acontece com a gente vivo. Do que tá acontecendo agora, porra. Se a gente fizesse epitáfio pra cada uma dessas mortes em vida, ia sair caro, né? Haha ah! Olha só pra você! Você, assim, lindo, perfeito, homem, sssexy. Eu, aqui, uma mulher. Este bar, só nós dois. Ssexy. Finge que só tá a gente aqui. Isso. Pode até olhar pra porta, mas espera só eu terminar de falar pra sair. Olhou pra porta? Tá olhando? Isso. Agora fica quietinho e ouve, tá? Esta morte, a morte alegórica (sabe “alegoria”, né?) é pulsão. Tem pulsão de morte e pulsão de vida, sabe “pulsão”, né? Claro que sabe! Um menino bonito desses não sabe o que é pulsão! Se não soubesse o que é, pelo menos saberia fazer a cara de quem sabe, né? Daí já é suficiente. Sorri pausado tipo capa de revista, vai. Ai que lindo, você é. Você inunda o salão com a tua beleza e quem vai lembrar de perguntar se sabe o que é pulsão, né? Não é verdade? Shh shh, fica quietinho. Ouve quem sabe das coisas, isso, assim, bonito. Silencioso. Sério. Ssexy. Então. Tem pulsão de morte e pulsão de vida. A pulsão de morte é a que busca o fim, já que o fim é a morte, né? E a pulsão de vida tem a ver com a busca do início, começar as coisas, entende? Então. Daí tem a pulsão. Olha, é bem poético, tá? Tô tentando ser poética. Faz cara de quem tá fruindo o poético, faz. Faz! Ah! Faz, meu, que que custa? Viu? sabe tudo esse garoto! Continua com essa cara, tá? Essa boca vermelha que nem precisa de batom. Isso é a corporificação do poético! Quem aqui precisa de poesia quando a gente vê uma boca dessas, né? Hahaha Vamo tentá ser poético? Pulsão. Pulsão de morte. Morro toda.
Só parar de respirar. Não fosse essa dorzinha na lombar sabe a lombar, né? Faz carinha de dorzinha na lombar, vai. Isso! Que carinha mais linda. Fica bonito até imitando dor inexistente na lombar que não sabe onde é. Sabe onde é a lombar, né? A parte final da coluna, aquela que dói de tanto ficar sentado errado? Shh shh não responde. Fica assim, com essa carinha que finge que tem dor na lombar que não conhece. Me olha sério. Assim. Shh shh quietinho. Bonito. Lindo. Não fosse essa dorzinha na lombar...morte certa. Nem precisava fazer nada, só ficar sentada e era morte certa. A pulsão de vida, a vontade de começar a fazer nada geraria a pulsão de morte, a vontade de fim. Tá chato? Tô chata? Sô chata? Achei que eu era legal. Achei que eu era inteligente, charmosa, atraente. Achei que eu era ssexy. Pode olhar pra porta, então, só enquanto eu termino de falar. Falastrona? Eu? Porque falastrona? Hehe que que eu fiz? Ce só diz isso porque você não viu esse cara que acabou de sair. Esse, sim. Um arrogante. Não tem nada mais chato que gente arrogante. É sexy, é atraente, mas que adianta se é superficial? Acha que é perfeito, tadinho. Daí, quando viu que eu não me desvalorizo, que eu tenho mais que um corpinho bonito pra mostrar, ficou entediado. Quando viu que eu não sou menos que ele, acho que ficou inseguro. Porque eu tenho algo que ele nunca tem. Eu sou inteligente. E inteligência, meu filho, só cresce. Ele, todo lindo agora, vai virá um bagaço daqui a alguns anos. Daí não sobra nada pra ele. Ele vai tá lá, sofrendo porque ficou feio e eu só vou estar mais inteligente. É, é, recalque também não envelhece, ce tem toda razão, mas como eu tava falando, enquanto ele só tem beleza e charme e educação, eu tenho inteligência. A beleza o charme e a educação dele vão sumir. A minha inteligência, não. É como eu sempre digo: inteligência só cresce. E depois, eu até que sou bonita, não sou? Quando eu me arrumo, fico bonita até. Então. Eu tenho mais beleza do que ele tem inteligência. Daí eu tenho mais pra oferecer, sabe. Não sou superficial. Só sô mais mulher que ele. Sou o pacote completo. Daí ele foi embora. Acho que ficou inseguro, tadinho. A inteligência, especialmente de mulheres bonitas como eu, ameaça os homens, né? Sou o pacote completo. Mas ainda bem que você tá aqui, né? A gente pode trocar uma idéia verdadeira. A gente, gente assim como nós duas, a gente é diferente dessa gente aí. Como assim “como eu sei que você é diferente?”. Eu sei, ah, eu sei porque tô te vendo, ué. Dá pra ver, da pra sentir quando a pessoa é diferente. A gente sabe, né? Por empatia. Dá pra ver no olhar. Vou dar um exemplo, ó. Do que eu tava falando antes. Eu tava tentando ser profunda, sabe? A gente não pode ser só um corpinho bonito. A gente tem que ser profunda. A gente tem que ser atraente. A gente tem que ser ssexy. Acho que todo mundo sempre conversa as mesmas coisas. Ninguém é profundo. Mas a gente, pessoas como nós, não se contentam com essa mesmice, sabe. Vê só o que eu tava falando e o babaca nem entendeu: eu tava falando que se não fosse essa ardênciazinha no olho, a vista cansada, que mostra que eu ainda tô viva...morte certa. Nem precisava fazer nada. Não fosse, enfim, o corpo, reclamando existência. É como eu sempre digo: todo mundo só fala a mesma coisa. E, só um detalhe, rapidinho: o corpo sou eu, ele me constitui, certo? Nada muito complicado aí. Ah! Nem sei porque eu tô me preocupando, você entende como ninguém. Vou resumir, porque você já sabe isso tudo. E pra ir mais rápido também, vou resumir. Você também é linda e inteligente, sabe como é. Não fosse, enfim, o corpo, reclamando existência...morte certa. E morte alegórica (lembra “alegoria”?) não quer dizer que não é real, né? Lembra?Alegoria? Meu epitáfio? A morte em vida? Minha lápide que é o meu corpo? Não lembra? Ah! não foi pra você que eu falei isso.


***


(Continua...)

Cilene Tanaka
Nasceu em Curitiba, cidade onde reside e tece sua colcha de contos, crônicas e críticas. Aluna do Núcleo de Dramaturgia do SESC e habitante da Casa Selvática. Gosta de mistérios, barbáries, laços, óculos de armação branca e versos heptassílabos. Flâneur citadina que perambula nas fronteiras da ficção e realidade. Costuma emprestar seus olhos, corações e mentes para circunspecções sobre o teatro em www.gazetadopovo.com.br/blog/teatrofagia.


Isabele Linhares

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