9 de jul de 2014

Jogo

Conto: Luiz Bras
Ilustrações: Henrique Martins



Tenho medo.
Jurupari-mãozudo gosta de carne podre. Suas garras cavam o solo do cemitério. Cavam de baixo pra cima. Do fundo pra superfície. A terra treme, as lápides tombam.
Minha sombra tem meia dúzia de contas secretas em bancos da Suíça. Minha sombra me traiu & fugiu do país.
Tenho muito medo.
Anhangá-bocarra gosta de dentes velhos. De ossos porosos semeados no solo morto. Suas presas rasgam o fundo dos túmulos. Trituram a madeira dos caixões.
Minha sombra desviou seis milhões de reais do ministério da saúde. Minha sombra me traiu & fugiu do país.
Tenho muito, muito medo.
Abro os olhos & volto a respirar. O cheiro de decomposição é meu pior pesadelo. O cheiro da minha decomposição. Não consigo mexer os ombros nem os joelhos, parece que meus ossos porosos foram separados da carne podre. Não consigo enxergar nada, só a verdade: sou uma coleção de peças soltas & estou preso.
Enterrado morto, continuo vivo.
O pavor aguça meu radar, Jurupari-mãozudo está chegando. Mentalizo, modelo na imaginação um espaço a céu aberto. Uma praça pública. Não dá certo, o escuro não brilha, não me teletransporto.
Anhangá-bocarra está cada vez mais perto. Mentalizo, modelo na imaginação uma praia deserta. O saguão de um shopping. Meu quarto. Não dá certo, o escuro não brilha.
Enterrado vivo, continuo morto.
Virado do avesso: órgãos do lado de fora, pele dobrada feito um casaco velho.
Jurupari-mãozudo me alcança, devora minha carne podre. Anhangá-bocarra fica com os dentes velhos. Com os ossos porosos.
Game over.
Minha sombra me traiu? Minha sombra me prendeu em meu próprio delírio?
Tenho muito, muito, muito medo.
Mentalizo, modelo na imaginação uma saída desta armadilha. Uma passagem secreta através do espelho.
Pra mim chega, desliguem tudo. Eu quero parar.
Quero & não quero.
Medo.
Tenho muito, muito, muito, muito medo de acordar & descobrir.
Que jamais acordei, jamais acordarei.
Que neste jogo de um jogador só.
Minha sombra & eu.
Jurupari & Anhangá.
Somos o mesmo morto-vivo.
O mesmo vivo-morto.





Luiz Bras
Nasceu em 1968, em Cobra Norato, MS. Sempre morou no terceiro planeta do sistema solar. É de leão e, no horóscopo chinês, cavalo. Na infância ouvia vozes misteriosas que lhe contavam histórias secretas. Adora filmes de animação, histórias em quadrinhos e gatos. Acredita em telepatia e universos paralelos.

Henrique Martins

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