17 de jul de 2014

Destino

Conto: Marco Antônio Santos
Ilustração: Gustavo Ramos



Depois de virar mais uma noite limpando estações de ônibus biarticulados na avenida República Argentina, um homem de corpo e alma muito antigos começou a se dirigir à própria casa, no Centro. Os anos gritam, trabalhar é chato, e nenhuma grande emoção tinha lhe ocorrido naquele turno. O frio não fora intenso o bastante para merecer nota, os pixadores não tinham aparecido, e sequer os bêbados de sempre vieram enunciar suas histórias usuais de desgraças e danação, de onde quer que tenham vindo. Ele havia apenas ouvido música e caminhado de um lado para o outro para fazer correr o tempo - como se este fosse mesmo qualquer coisa mais que mera convenção imbecil.
Despertou na esquina entre a Avenida Água Verde e a Guilherme Pugsley. Julgou ter visto o tio Michel no banco de trás de um carro que passou muito rápido, a despeito do fato de que o tio Michel estava morto havia décadas. “Sono da porra”, pensou.
Tentou se recuperar do choque estalando os dedos das mãos enquanto atravessava a rua. Não funcionou. Levantou os olhos e viu uma senhora vestida de preto olhando para ele, na esquina do Cemitério. Ela sorria de forma sincera, e esperou ele se aproximar para emitir um pensamento, que nunca foi pronunciado com palavras, mas apenas com a sensação que ela provocou. Ela, monotonamente, para ele: “Já pensou numa mensagem final beeeem bonita? Eu sei que cê num perguntou o que eu acho, mas eu acho que você devia pensar nisso”.
E sumiu.
Deus se manifesta em tudo, por ser o Todo, claro, mas Ele aparece especialmente nas palavras e nas energias emanadas pelos atos daqueles que nos cercam. No entanto, Ele também se prova verdadeiro através da Própria Ausência, quando aqueles que não estão alinhados com Seus propósitos tomam o controle e passam a rondar os espíritos errantes que somos com suas vibrações estranhas. E aquela mulher, ou fantasma, não parecia alinhada com nenhum bom plano, do tipo dos que convidam os justos para o engajamento.
O velho sentiu o coração disparar e não se conteve. Recostou-se numa parede enquanto esfregava os olhos e tentava controlar a respiração. “Caralho”, disse pra si mesmo. Recuperou uma parte do próprio senso de realidade fitando as luzes dos farois de carros e ônibus na já movimentada Via Rápida, e também na lateral do cemitério, sempre tão caótico quanto o comportamento de uma nuvem interessante. Quando compreendeu, estava sentado nos bancos da praça mais próxima, ainda na mesma quadra, e dormiu.
Sentiu-se rodeado por vultos escuros, debaixo de um céu cinza e macabro. Não chovia nem ventava, mas ele sentiu o desconforto que estes fatos costumam trazer enquanto uma espécie de mantra era entoado por estes anjos maus que o circundavam, todos com as mãos direcionadas ao seu corpo. “Quem era aquela velha?”, pensava, e ela aparecia, de forma que buscou parar de trazer a imagem ao pensamento. Foi inútil. Há forças maiores que nós. Agora ele sabia. Viu o próprio corpo flutuando em cima da estrutura de cimento de um túmulo pobre e não sabia como havia parado ali. Tentou, de longe, ler as palavras do epitáfio, mas elas estavam escritas em alguma língua que ele não dominava.
Buscou recuperar as próprias funções corporais e as faculdades mentais, mas quando deu por si só conseguiu voar devagar em direção à velha e ao tio Michel, que estavam alguns metros a sua frente, dois metros acima do chão. Sentiu a mulher emanar as palavras “Vamo embora, que tamo cheio de notícia ruim pra dar ainda”. O tio Michel murmurou algo como “Eu sei”.
Não deixa de ser curioso que o senhor precisou morrer para encontrar algum tipo de conforto.


Gustavo Ramos

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